33

Tive ótimos professores na vida. Tanto que quis me tornar uma professora também.

Com a professora de História Geral aprendi que Alexandre, O Grande, aos 33 anos governava um império conquistado quarenta vezes maior do que aquele que herdou de seu pai – morreu de uma febre besta, com os mesmos 33. Aos 33 anos, Jesus Cristo mudou a história da humanidade quando foi morto covardemente enquanto revolucionava o jeito de ser e pensar de um povo, foi o que disse a professora da escola dominical. Tive um excelente professor de anatomia na faculdade. Excelente mesmo. E foi ele quem me ensinou que a coluna de um ser humano é composta de 33 vértebras.

Ontem, meu último dia na casa dos 32 anos, estava pensando que precisei de 33 anos da minha vida para compor a minha coluna emocional. Passo a passo eu a fui montando. A cada desafio de cada idade, a gente aprende uma coisa diferente. E até aqui eu me sentia uma menina em crescimento. Hoje, me sinto pessoa. Só isso, pessoa. Não pessoa perfeita ( e talvez por isso eu tenha que viver muitos e muitos anos mais ), mas pessoa inteira, uma pessoa que consegue ficar de pé e olhar para a frente. E fiquei pensando na relatividade de todas as idéias que tive nos meus 32 aniversários até aqui. Na hora de apagar as velinhas, simbólicas ou reais, a cada ano eu desejei coisas diferentes. Cada época da vida coisas nos são dadas, coisas nos são tiradas e tantas outras coisas queremos. “Cada idade tem seu prazer e sua dor, e é preciso deixar que eles escorram entre nós” – é o que dizia aquele poema do Victor Hugo.

Provavelmente, no meu primeiro aniversário, tudo que eu queria era um pouco de leite e colo dos meus pais. Lá pelo quinto, eu queria todos os brinquedos do mundo. Lá pelo décimo, eu queria ser popular e querida pelos amigos. Pelo décimo quinto, eu queria conhecer um príncipe encantado. No meu décimo oitavo aniversário, na hora das velas, eu devo ter feito um pedido para que eu pudesse mudar o mundo todo com minhas boas intenções e minhas idéias revolucionárias. No vigésimo primeiro, eu queria ser a melhor professora e psicóloga do mundo. No vigésimo terceiro, eu estava sonhando em casar com o meu príncipe encantado. No vigésimo quinto, eu achei meu primeiro cabelo branco e queria continuar gostando de mim mais do que de qualquer outra pessoa. No vigésimo sétimo, eu queria mais é ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar. No vigésimo nono eu só queria trabalhar um pouco menos e continuar tendo sonhos. No trigésimo segundo, eu queria uma vida simples e tranquila, casadinha com meu noivo, cheia de filhinhos.

Hoje, com 33, a vida parece diferente para mim. Há coisas que naturalmente e tranquilamente ficaram muito, muito claras. Não vou mudar o mundo, mas posso fazer pequenas coisas que afetam pessoas ao meu redor. Meus pais não são heróis, mas posso amá-los como pessoas dedicadas que me ajudaram a me tornar quem sou. Os amigos que cruzaram comigo ao longo da vida são as compensações que ganhei para todas as grandes dores que tive que passar, e a eles sou grata por não ter me perdido em mim mesma e por não ter enlouquecido. Se vive um dia de cada vez. Se trabalha para conseguir dinheiro, mas também satisfação. Não devo abrir minha boca, a não ser que seja para melhorar o silêncio. Deus não é meu servo, mas pode ser meu amigo. O amor por um homem pode ser vivido de múltiplas ( e válidas ) formas. Ninguém deve se apoiar e nem se importar com nada que o tempo possa mudar, porque a mudança é a natureza da vida. E principalmente, a mais dura e deliciosa de todas as coisas – a gente é quem é e quem pode ser; vamos agradar alguns, desagradar outros, mas é assim que será… Seremos sempre únicos, especiais, imperfeitos e sós nessa caminhada.

Aos 33 anos, eu sei que posso fazer muitas coisas, se quiser; que não posso fazer tantas outras, mesmo se insistir; que as pessoas se encontram e se afastam; que os sonhos se renovam e se gastam. E depois de tanto amor, tanta raiva, tanta dor, tanta saudade, tantos prêmios e tantas rasteiras, a vida é assim mesmo – luta e sonho.

Hoje, na hora das velinhas, só peço isso – para ser capaz de continuar de pé, com minha coluna de 33 vértebras, olhando para a frente. Eu continuarei sendo assim, aprendiz eterna do tempo e do mundo. O que passou, passou. E o que há de vir, virá.