DEIXAR A DOR

Muito, muito tempo sem ver um dia tão bonito assim. O céu tão limpo, o tempo tão ameno, as pessoas tão calmas, a vida tão silenciosa. Nem uma única nuvem no céu azul. E um azul de uma cor tão diferente… Um tom que nunca tinha visto. E o sol… O sol lá, brilhando, sem agressividade, sem chamar atenção. Sol que apenas oferece seu calor mais carinhoso e sua claridade mais viva.

Esse dia tão bonito pediu para que eu saísse da cama de um jeito diferente hoje. Pediu para que eu pensasse em mim, em meu caminho. Aceitei o convite. Caneta, caderno, Johnny Nash no MP4, óculos escuros… E cá estou eu na beira do lago. Embora as pessoas a minha volta estejam lá, brincando, caminhando, correndo, rindo, conversando… Experimento daquela solidão profunda que sempre me acompanhou. Todos os problemas do mundo continuam lá – vírus catastróficos, violência, crises, corrupção, fome, miséria. Mas tudo parece muito, muito distante daqui.

É hora de escrever aquilo que há meses precisa ser escrito… Mas não tinha sido ainda, por falta de coragem. Talvez porque algumas coisas precisem ter um tempo para serem escritas na alma. No papel ou na tela, pessoas como eu só deixam cair aquilo que já foi definitivamente gravado no coração.

Penso que minha vida mudou, muito. Eu mudei. E tudo começou na dolorida noite em que fui obrigada a me despedir daquele que me amava, e a quem amei, e que seguirei amando. Como era bom quando preenchíamos os espaços um do outro… No tempo, na carne, no cotidiano, no sentimento, nas idéias, no beijo, no olhar, no espírito… Éramos companheiros, tranquilos e amorosos. Claro, minha vida era vida antes dele, e acima dele, e apesar dele, e só por isso consegui continuar. Mas não nego que compartilhá-la com alguém como ele era algo realmente especial. Algo que me deixava acomodada e feliz. Algo que me dava a impressão que as coisas estavam sendo exatamente como deviam ser. Algo que me dava paz.

Assim que ele se foi, todos os espaços que eram dele em mim pareceram tão vazios… Tão tristes. No vazio, a vida perde o sentido e tudo fica embotado, sem cor, sem luz. Mas o pior de vazios como esses é que eles acabam sendo ocupados… Pela dor.

E foi assim que a dor tomou o lugar da alegria em minha vida. Dor insistente e companheira, soprando seu hálito gelado em minha nuca. Aos poucos, ela foi gelando todo o resto em mim, transformando o meu interior em um lugar nevado, onde ninguém parecia poder pisar. Me acostumei a ela. E comecei a chamá-la. E ela veio. Dor comia comigo na hora do jantar. Sentava no banco do carona. Ligava antes de dormir pra saber como tinha sido o meu dia. Compartilhava leituras, audições, sessões de cinema. Ia comigo quando saía com meus amigos. Me abraçava e beijava na hora de dormir. A dor aparecia no espelho, refletida em meus olhos, todos os santos dias. As pessoas olhavam para mim e viam a dor ao meu lado, embora fingissem que não estavam vendo. A dor era a minha amante. Eu sonhava com a dor, conversava com ela, desejava a dor ao meu lado, ela era a única coisa que eu via antes de dormir e a primeira que eu via quando acordava. E não só a dor daquela perda, mas todas as outras dores de todas as outras perdas, todas elas se somando e virando uma única e imensa dor lá, me acompanhando, rindo de mim. E em um instantinho, a dor era maior que eu, me consumindo, me deixando apática e sombria. Ela parecia a única coisa capaz de ocupar o vazio deixado pelo meu amor.

Me disseram que seria assim. Me disseram que seria sofrido, sofrido como nunca. Me disseram também que o tempo ajudaria… E que tudo melhoraria, bastava que eu esperasse, que tivesse força e paciência.

Mas ninguém, nem uma única pessoa me disse que, para que a vida voltasse ao seu lugar, para que eu pudesse ser eu de novo… Ninguém me disse que eu precisaria tomar a decisão de mandar a dor ir embora. Que eu precisava deixá-la… Que nosso namoro precisaria acabar, e que seria eu a terminá-lo. Ninguém me disse que eu precisaria tirar a dor de minha vida com minhas próprias mãos. Pedacinho por pedacinho dela.

Foi uma decisão difícil. De um lado, a vida me chamando, me convidando. No abraço e nas palavras dos amigos, nos dias que vieram sem interrupção, nos desafios profissionais e práticos que a vida me impôs, nas perspectivas de futuro, na mudança do meu olhar sobre as coisas, no carinho das crianças, nas palavras sábias dos livros, nas minhas conversas com Deus, nos meus sonhos… Na mudança do meu próprio corpo que, sem a minha permissão, foi ficando mais saudável, diferente… Nas provocações e nos olhares convidativos dos moços que me lembraram, generosamente, que ainda sou uma mulher desejável, que me notaram, que me olharam nos olhos e me chamaram de volta… Em tudo isso a vida se manifestou plena, me inquerindo, me perguntando… Karina, quando você vai voltar? Já é hora… Volte.

Do outro lado, a dor… A dor da culpa, a dor do medo, a dor de outro abandono, a dor companheira que me sugava e me dizia que os dias intermináveis de luto seriam eternos. A dor, minha parceira vampira, tão sedutora e cômoda, dizendo… Karina, fique aí, quieta… Sair pode ser ainda pior.

Não sei quando foi. Mas sei que foi. Em algum momento eu devo ter resolvido voltar a viver. E como a vida antiga não podia ser recuperada… Foi necessário construir uma vida nova. Uma vida nova, como brotinhos de uma velha planta, como nova inspiração em velhos instrumentos, como novos móveis em uma velha casa. Vida se renovando, deixando tudo mais moderno, mais bonito, mais sábio e sereno.

Me sinto diferente. Não sei explicar como, mas me sinto. MInha vida mudou. E eu mudei também.

E foi então que eu vi… A dor se foi. De vez em quando ainda liga, ainda manda um recado, ainda se faz presente. Mas só toma um copo de água comigo, e vai embora. Já não dormimos juntas. Ela já não tem lugar na mesa. Ela já não acaricia o meu rosto. Ela já não está mais aqui. É visita. E como toda visita, vem, mas vai.

Então eu percebi que eu demorei a expulsar a dor não só porque tinha saudade palpável do meu amor que se foi. Mas porque tinha medo de que, se ela fosse, o vazio voltasse. Ele voltou. Mas agora, é um vazio diferente. Um vazio que pede para ser preenchido. Um vazio que pede alegria, esperança, sonho, paixão… Amor. Não sei o que irá preenchê-lo. Mas sei que não será mais dor.

Durante meses eu esperei para cantar essa canção com o coração. E hoje, vendo o céu tão azul, a vida tão convidativa, e a esperança tão acesa ao meu lado… Eu não resisti. Meus olhos molharam de novo. Mas dessa vez, de alegria. Meu namoro com a dor terminou. Eu sou uma nova pessoa. E foi então que me dei conta… A primavera nem começou ainda.

I can see clearly now, the rain is gone.
I can see all obstacles in my way…
Gone are the dark clouds that had me blind
It’s gonna be a bright, bright Sun-Shiny day.

I think I can make it now, the pain is gone.
All of the bad feelings have disappeared…
Here is the rainbow I’ve been prayin’ for:
It’s gonna be a bright, bright Sun-Shiny day.

Look all around – there’s nothin’ but blue skies
Look straight ahead – nothin’ but blue skies…

I can see clearly now, the rain is gone.
I can see all obstacles in my way…
Gone are the dark clouds that had me blind
It’s gonna be a bright, bright Sun-Shiny day.

EXPEDIENTE
Nova fase pra mim, nova fase para o Mafalda Crescida também. O layout novo agradeço ao Marcelo e a Thais. Os posts foram reagrupados em categorias renomeadas, o blogroll foi atualizado, o blog ficou mais clean e fácil de consultar no menu aí debaixo, e o cabeçalho é exclusivo. Alguns acertos ainda precisam ser feitos, mas espero que vocês tenham gostado. Enquanto não resolvo isso, se quiser comentar o post, clique sobre o título para acessar a página de comentários.
Agradeço a tudo de bom que vocês sempre desejam, comentam e me dão como leitores e amigos queridos que são. 🙂

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