HÁ TANTAS PESSOAS ESPECIAIS…

Fui correndo pegar minha caixinha de cartas e cartões. É o que faço quando me bate essa angústia de ser só mais uma no mundo. É o que faço quando preciso ser perdoada por ser medíocre ou por estar errada nas coisas que sinto ou penso. É o que faço quando me vem a consciência de que não sou necessária aqui… Sou apenas participante. Como todos os outros.

Faço isso porque o carinho das pessoas, expresso em tinta de caneta borrada e papéis enfeitados, me faz sentir especial. Algumas pessoas me diziam isso nos cartões – ei, você é especial… Minha vida é diferente por sua causa. O namorado que escrevia cinco ou seis páginas por dia declarando o seu amor e me contando sobre seu cotidiano… A amiga que agradeceu a força em um momento difícil… O irmão que desejou felicidades no natal… O aluno que me garantiu que eu nunca seria esquecida… O professor que elogiou o escrito bem feito… A prima que louvou a minha vida no meu aniversário… O moço que alegou sentir minha falta todos os minutos do dia quando nos separamos… A desconhecida que garantiu que algo que eu disse mudou seu jeito de ver a vida. Pessoas tentando me convencer de que sou, sim, especial. De que tenho qualidades que ninguém mais tem. De que fui planejada e pensada de maneira única. Pessoas tentando me convencer de que precisam de mim e me amam por eu ser quem eu sou… Por ser marcante de alguma forma.

Onde estão todos os remetentes? Alguns não se foram… De outros nunca mais soube ou ouvi falar. Algumas palavras o tempo revelou serem verdadeiras. Outras viraram poeira ao serem sistematicamente amassadas no pilão do tempo. Peguei também coisas que escrevi para outros. Não quero nunca que nos afastemos. Não consigo imaginar minha vida sem você. Você é minha melhor amiga. Te amo como nunca vou amar ninguém. Você deixa um buraco quando se vai. Eu, entregando meu coração, derramada em declarações de amor, amizade e carinho. E no entanto, a vida seguiu sem eles, apesar deles, distante deles. E eu continuo aqui. Só como sempre fui e sempre serei. Como somos todos.

É porque a vida é assim mesmo. Ela segue. Ela vai. Ela leva. Ela empurra. E tudo que parece tão importante fica pequeno, porque, no fundo, a pequenez está em nós. Mesmo os grandes homens e mulheres, mesmo os poetas mais sensíveis, os gênios mais inteligentes, os aventureiros mais corajosos, as pessoas mais importantes… Mesmo esses com o tempo viram só uma lembrança distante. Como um quadro que você põe na parede e se acostuma a olhar. O impacto da primeira vista se apaga com o tempo, tudo fica gasto e amarelo, desbotado e sem graça.

De vez em quando a gente tenta se convencer do contrário. Tenta achar que a lua está no céu só pra enfeitar a sua noite. Que alguém sorriu só porque lembrou de você. Que alguém te ama tanto que seria capaz de abrir mão de qualquer coisa para te fazer feliz. Tenta se convencer de que o mundo estende um tapete colorido só pra você passar. De que seu amor é tão forte e mágico que pode salvar alguém de si mesmo. Tenta acreditar que naquele quesito, naquela partezinha, naquele particular, naquele pedacinho bem específico… A gente é realmente diferente e especial. De vez em quando, a gente tenta se convencer de que, pelos próprios méritos, merece o amor das pessoas. E então se dá conta de que, se amor fosse por merecimento, ninguém seria amado. E fica com aquela falta de jeito enroscada dentro, apertando o coração.

Sempre vai ter alguém melhor do que eu, mais especial do que eu. Sempre vai ter alguém com mais recursos, mais experiências, mais sabedoria, mais beleza, que faça melhor aquilo que eu acho que sei fazer tão bem. Sempre vai ter alguém que mereça mais, que faça mais, que seja mais legal e mais capacitado. Talvez em nenhum lugar eu possa ser especial. Talvez não haja lugar especial pra mim. Nem mesmo no coração daqueles a quem eu amo… E que eu não duvido, me amam também. Mas porque precisam me amar. Não porque sou eu.

O amor dos outros nos dá essa ilusão… A de que somos importantes. Ao ler os cartões e cartinhas, é assim que eu me sinto. Especial e importante. Mas se eu não existisse, eles amariam outros e outras. Porque no fundo, é só uma troca. Amamos o outro porque queremos e precisamos ser amados. E fazemos isso frequentemente porque não somos capazes de amar a nós mesmos por quem somos. Fazemos assim porque não nos bastamos.

Tem dias que me sinto assim, alguém a mais. Lágrimas a mais. Sorrisos a mais. Palavras a mais. Sentimentos a mais. Tudo aquilo que me é tão caro parece tão insignificante diante da grandeza e da indiferença do mundo e da vida, que segue apesar das minhas dores. E nesses dias, nenhum cartão ou carta parece suficientemente bem escrito para que eu possa me sentir digna de merecê-lo.

Um olhar amoroso de alguém pode nos fazer sentir especiais por alguns momentos. Mas é só. Se alguém fosse especial em si mesmo, poderia abdicar da necessidade ridícula e infantil de ser querido, reconhecido e valorizado pelos outros. O mundo não existe por minha causa. E caminharia perfeitamente sem mim.

Dizer que todo mundo é especial é um outro jeito de dizer que ninguém é.

PS:. Patricia explicou melhor o que eu quis dizer.

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PEQUENOS FILÓSOFOS

“K” sou eu, Karina, a professora de crianças de primeiro estágio ( 3, 4 anos ) de uma escola pública na periferia de São Paulo. São 35 pequenos de manhã, mais 35 pequenos à tarde. “A” são outros adultos envolvidos na conversa.
“C” são eles. Crianças lindas, fofas e danadas que convivem comigo todos os dias e do alto de seus pouco mais de 50 centímetros de altura me derretem e me ensinam coisas sobre a vida.

“C – Ei, Karina, me diz uma coisa, esses livros, esses papéis, esses brinquedos, essas coisas todas que tem no mundo, pra que serve tudo isso?
K – Ah, sei lá, cada coisa serve pra uma coisa em uma hora, entende? Por exemplo, os livros servem pra ler quando a gente quer aprender ou se divertir, os brinquedos servem pra brincar, as cortinas servem pra bloquear o sol, e assim por diante, cada coisa serve pra uma coisa.
C – Tem coisas demais no mundo…
K – Sim, também acho, concordo com você.
C – E as coisas que não servem pra nada?
K – Essas, a gente joga fora ou guarda.
C – Que coisa triste, uma coisa ser feita pra servir pra alguma coisa e depois não servir mais pra nada…”

“C – Você foi na casa da sua vó?
K – Minha vó já morreu, ela não mora mais aqui no mundo.
C – Por que ela morreu?
K – A vida é assim mesmo, a gente nasce, vai ficando grande, vive um monte de dias, depois vai ficando bem velhinho e morre. MInha vó morreu bem velhinha… Ela ficou doente e morreu.
C – E se eu ficar velha?
K – Você vai ficar, todo mundo fica.
C – Eu não vou querer ficar velha.
K – Não tem querer, todo mundo fica. Eu já estou ficando. Mas você vai demorar ainda um mooooooooonte de tempo pra ficar velha.
C – Muito tempo?
K – Muito tempo… Mais de muitos mil dias.
C – ( Depois de um silêncio pensativo… ) Acho que eu sei porque as pessoas velhas morrem, só de pensar em tantos mil dias eu já fiquei tão cansada…”

“C – ( Com uma cara amarrada, me estendendo um pacote de presente ) Toma, Karina, minha mãe mandou esse presente pra você.
K – Ai, que legal! ( Depois de abrir, tentando demonstrar empolgação ) Um pano de prato, que lindo!
C – ( Bravo ) Lindo nada. Não era isso que eu queria dar.
K – Eu fiquei contente, mas me diz, o que você queria me dar?
C – Eu disse pra minha mãe, mãe, a Karina gosta mesmo é de música e de livro.
K – Eu adoro ganhar livros, mas também preciso de pano de prato. Afinal, eu cozinho na minha casa.
C – ( Admirado ) Cozinha??? Ué, mas então que hora você lê?!?!?!
K – Dá pra ler e cozinhar, oras.
C – E eu que achei que quem cozinha só cozinha, e quem lê só lê…”

“K – Sofia, esse nome é perfeito pra você.
C – Por quê?
K – Porque Sofia significa conhecimento, é nome de gente inteligente, e você é inteligentíssima!
C – ( Com cara de decepção ) É… É bom chamar Sofia, mas já que é assim, eu queria mesmo me chamar Bela.”

” ( Dois pitocos apavorados na frente da minha mesa ).
C1 – Karina, ele quer namorar comigo!
C2 – Eu quero, ué, você é bonita!
K – Bem, vocês sabem, vocês são crianças, só podem namorar de mentirinha, e o senhor, mocinho, só vai namorar de mentirinha com ela se ela quiser, que ninguém pode namorar com outro sem o outro querer.
C2 – Como assim, de mentirinha?
K – Namorar de mentirinha, ué, pegar na mão, brincar junto, fazer carinho, mas não pode namorar igual gente grande.
C1 – E como é namoro de gente grande?
K – Ah… Vocês sabem, é diferente. Tem beijo na boca, as pessoas grandes saem de casa juntas sozinhas, e passeiam…
C2 – Você já beijou na boca de verdade?
K – Já.
C1 para C2 – Claro que já, né, e você sabe, gente grande também namora pelado.
C2 – Eca! Mas Karina, como que é quando beija na boca?
K – ( Já constrangida com o rumo da prosa ) Ah, é legal, um encosta a boca na boca do outro e fica ali, beijando, e dá friozinho na barriga.
C1 para C2 – Que coisa nojenta, né?
C2 – Eca! Deixa pra lá esse negócio de namorar, vamos brincar de pega-pega.”

” ( Observando uma prancha com a pintura da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci )
C – Karina, não gostei dessa pintura não!
K – Eu gosto. Ela se chama Mona Lisa, é a pintura mais famosa do mundo, muita gente gosta dela.
C – ( Olhando fixamente pra imagem ) Eu, hein!
K – Por que você não gostou?
C – Olha bem o jeito dela, ela é daquele tipo de gente.
K – Que tipo de gente?
C – Gente que sabe tudo de você, mas você não sabe nada dela.
K – Hum, sei… Algumas pessoas dizem que quando a pessoa é assim, é porque ela é misteriosa…
C – Ela não é misteriosa, não! Ela dá medo mesmo!
K – Por isso ela é uma grande obra de arte, porque dá essa sensação que mexe com as pessoas.
C – ( Com desprezo ) Por mim, pode jogar fora, aff, que mulher esquisita!”

“K – Vem cá, Laís, vamos escrever seu nome.
C – Pra quê?
K – Ué, vou te ensinar porque é legal você escrever seu nome.
C – Pra quê?
K – Pra colocar nas suas coisas, escrever nos seus desenhos. O que tem o seu nome é só seu, não é legal isso? Todo mundo sabe que é da Laís, e de ninguém mais.
C – Não acho legal, eles podem pegar minhas coisas, eu pego as coisas deles, não tem problema.
K – Mas é legal você saber escrever.
C – Você não sabe escrever Laís?
K – Sei, mas é legal VOCÊ saber.
C – Se você sabe escrever meu nome e escreve num instante, pra que eu preciso escrever? Escreve você, é mais rápido.
K – Mas é importante VOCÊ saber escrever seu nome, carambola.
C – Eu sou muito pequena pra isso.
K – É nada, um monte dos seus amigos são pequenos e escrevem também, e não precisam mais de mim pra escrever.
C – Então eles escrevem, e depois o que estiver sem nome é meu.
K – Escuta aqui, chega de conversa, senta aqui e vamos escrever seu nome porque sim. Pronto.
C – ( Sentando brava. Pega no lápis e olha pra mim, dando uma risada irônica. ) Eu escrevo, mas eu peguei você.
K – Pegou nada.
C – Peguei sim, porque quando você diz porque sim, é porque não tem mais resposta. E eu ganhei.”

” ( Meia hora depois da saída, criança continua na escola, ninguém veio buscar. Nenhum telefone dos pais atende, tentamos achar um vizinho da mesma rua, mas o endereço é antigo. )
K – Andi, onde você mora?
C – Eu moro naquela rua ali. ( Aponta na direção de um cruzamento. )
K – Na rua de cima ou na rua de baixo?
C – ( Aponta de novo ) Naquela rua ali.
A – Mas é na rua que é reta ou na rua que sobe e desce?
C – Caramba, é aquela rua lá!
K – Andi, presta atenção, a minha rua, sobe e desce.
A – A minha rua também sobe e desce, não é reta.
K – E a sua rua, sobe e desce, Andi?
C – ( Com ar de quem precisa escapar de duas loucas ) A minha rua não sobe e desce não! A minha rua fica parada! AFF!”

“C – Não gosto de ver você triste.
K – Quem disse que eu tô triste?
C – Tô vendo, oras. Tá triste e cansada.
K – Ah, deixa eu, a gente não pode estar todo dia alegre. Vai brincar você, vai ser feliz, deixa eu aqui quieta que daqui a pouco a gente sai do parque e você nem aproveitou.
C – ( Senta no meu colo ) Por que você tá triste?
K – Tô com saudade de uma pessoa.
C – Ah, chama ele pra comer pizza na sua casa.
K – Não dá pra fazer isso, tem vez que a gente sabe que nunca mais vai matar a saudade, porque a pessoa não vai voltar, e é por isso que a gente fica triste.
C – Tive uma idéia.
K – Qual?
C – Pega a sua caneta e escreve uma carta, minha mãe faz isso quando tá com saudade da minha vó que mora na Bahia.
K – Não sei se escrever uma carta vai me deixar mais feliz, mas obrigada pela idéia.
C – Vai sim, eu já reparei. Toda vez que você escreve, você ri.”

Sou feliz por eles fazerem parte da minha vida… Meus pequenos filósofos fazem valer a pena viver em um mundo com adultos de tanta filosofia pequena.