CARTAS…

Quando a Internet não passava de um sonho maluco em algum roteiro de ficção científica… Eu aprendi a escrever cartas.

Me lembro do prazer imenso ao escrevê-las, para os de perto ou  de longe. A escrita sempre foi um jeito genuíno de expressar aquilo que sinto. E em que outro tipo de texto podemos derramar mais emoção do que em uma carta? Nenhum outro é mais pessoal do que esse.

Na minha caixa de guardados, elas estão lá. Muitas, muitas cartas, vindas de todas as partes do país, e algumas de outros lugares do mundo. Cartinhas simpáticas de amizade, bilhetes, cartas de amor, cartões, postais, cartas solenes, declarações. O cabeçalho geográfico no começo, o meu nome escrito logo depois de algum adjetivo, e linhas bem traçadas, assinadas quase que invariavelmente “com amor”. Algumas com meia página, outras verdadeiros tratados em folhas e mais folhas – frente e verso. Letras caprichadas, outras quase ilegíveis ( e dizem que se pode conhecer muito de alguém por sua letra ). Papéis de todos os tipos, canetas de todas as cores e jeitos. Cada carta me lembra alguém querido, que se foi, ou ainda está, mas que um dia me emocionou com seu carinho e dedicação de cansar as mãos me escrevendo sobre o que estava vivendo, pensando ou sentindo. Pessoas que fizeram minha caixa de correio ser nuito mais do que um depósito de contas a pagar e propagandas de coisas que não quero comprar.

Escrevíamos cartas com correntes para receber outras tantas milhares de cartas… Cartas com perfume e com presentinho escondido dentro do papel… Colecionávamos papéis de carta que não tínhamos coragem de usar… Passávamos horas na papelaria escolhendo o melhor, da caneta ao envelope… E ali, por trás das voltas de cada letra, estavam nossos sentimentos, notícias, impressões, bobagens… Lágrimas e sorrisos.

Lembro de uma amiga em especial, a melhor amiga, que foi morar no Japão. Ela me escrevia uma vez por semana, me contando da angústica de estar só em um país estranho, enquanto eu escrevia daqui, tentando compensá-la, dando notícias de todos e falando da nossa saudade. Escrever aquelas cartas, segundo ela me disse, ajudou-a a manter a sanidade.

Lembro também de outra amiga, tão doce, que me mandava cartas e sempre anotava no envelope uma mensagem simpática para o carteiro, transbordando carinho para o envelope.

Lembro também do carinhoso namorado, a quem eu escrevia intermináveis cartas declarando meu amor, ou discutindo a raiva, o ciúme, a tristeza e o medo que a voz embargada me impedia de confessar olho no olho.

Com o tempo, escrever cartas passou a fazer parte do passado, um hábito enterrado por essa correria maluca que nos faz achar um absurdo parar para escrever a mão quando é tão mais rápido digitar no teclado; não temos tempo para comprar o papel, a caneta, o envelope, para passar no correio, e nem paciência para esperar o carteiro chegar. Demorar e esperar passaram a ser verbos ingratos em tempos de 140 caracteres e mensagens via celular.

Mas a carta… A carta é diferente. Ela é um ato de carinho muito especial. Ela é contato. Dá uma emoção diferente, saber que o papel foi tocado pela pessoa que escreveu… É bonito ver a letra mais firme ou mais tremida, a marca da lágrima no papel manchando a tinta de caneta, o amarelado do guardado, a dedicação do escritor e do leitor.

Dia desses, estimulada por esta menina maravilhosa e pelo meu amigo Emanuel, que me escreve belas palavras manuscritas, resolvi acariciar alguns amigos via correio. Escolhi dez queridos – entre eles, alguns leitores assíduos deste blog – e escrevi cartas. Foi uma experiência deliciosa, que tocou o meu coração e me aproximou das pessoas, pelo que foi escrito e pelo jeito que foi escrito. Tendinite e atrapalhações de tempo à parte, a experiência valeu muito a pena… E já recebi, contente, respostas na minha caixa de correio que muito, muito me alegraram, e me animaram a escrever mais e mais cartinhas.

E hoje peço aos amigos queridos e amores que escrevam e-mails, mandem recados via SMS, marquem encontros, telefonem, apareçam no Twitter e nas redes sociais. Mas também escrevam cartas, cartões e bilhetes que possam se somar às lembranças de amor e amizade que todos nós adoraríamos ter. E eu tenho… Que bom.

8 comentários sobre “CARTAS…

  1. Menina, concordo que uma carta seja algo mais pessoal, pois leva a tua letra, bem como os sentimentos, mas quando realmente queremos mandar carinho, até as palavras de comentário de um blog as transmite estes sentimentos…

    E se cuida menina, pois São Paulo te chovido muito.

    Fiquem com Deus, menina Karina Cabral.
    Um abraço.

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  2. Ai, que saudade me deu do tempo das cartas…
    Vc acredita que eu era tão ligada nelas que fui madrinha de casamento do carteiro da minha rua?
    Lendo seu texto lembrei de umas tantas escritas em papel fininho azul, que cruzavam o Atlântico, durante os 4 anos em que minha melhor amiga fez doutorado na Inglaterra. E os nossos filhos – que havíamos destinado a serem namorados – cresceram distantes… e “se falavam” pelas cartas – pois além de nós duas, escrevíamos pelos filhos também! é mole???

    Beijo, flor!

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  3. Esse texto me fez lembrar uma fase de minha vida, onde eu tinha uma namorada que morava em outro estado. Eu escrevia para ela todo domingo, colocava a carta no correio na segunda, e na quarta-ferira ela recebia a carta. E ela fazia a mesma coisa, o que tornava a quarta-feira um dia especial para nós.
    Lembro também de uma outra amiga que me pedia para que eu escrevesse mensagens bíblicas para ela toda semana.
    Mas com a chegada da internet realmente tudo mudou. Não saberia dizer qual foi a última vez que escrevi uma carta, e duvido que volte a escrever novamente.
    O local de escrita também faz parte do desenvolvimento da humanidade, que antes escrevia nas rochas, nos papiros, nos papéis e agora se escreve em uma tela.
    Lembro também de uma vez que você me disse que não tinha nada escrito por mim. Sei que sou negligente nisso, mas foi essa sua frase que me despertou para fazer um curso que você me indicou. Não sei escrever bem, e tenho vergonha, pois não tenho a capacidade de colocar em palavras tanto sentimento quanto você tem. Por isso nunca escrevi coisas para você.

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  4. Também continuo amando escrever cartas! Continuo corajosamente escrevendo! E continuo amando e desejando recebê-las, ainda que isso seja um pouco raro.
    Também tenho saudade da época dos papéis de carta cuidadosamente escolhidos e trocados, mas que sempre dava pena de usar. Ainda tenho alguns da coleção guardados…

    Sou daquelas que sempre acaba escrevendo looongas cartas, frente e verso, verdadeiros tratados de amor e amizade. Ainda me perco no paraíso das papelarias escolhendo cartões e envelopes. Eu acabo sendo guardando uma cópia das cartas que escrevo, pq eu mesma me apaixono por elas. Digo que eu gostaria de receber minhas cartas! (carencia isso???)

    Mesmo na era da tecnologia, do email, dos 140 caracteres do twitter, das msg de texto, nada substitui a emoção de receber do correio (correio mesmo, com carteiro e tudo!) uma carta endereçada a nós! Cartas carregam sentimento na letra… cartas tem cheiro… cartas significam tirar tempo pra escrever de verdade. Sem letras contadas!

    As pessoas deviam voltar a escrever…

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  5. Ai, que saudade que deu do tempo que eu também escrevia e recebia muitas cartas…
    Ainda há pouco tempo conversava com uma querida amiga sobre o tempo que estudávamos na mesma sala de aula, o dia todo, e ainda trocávamos cartas, longas… De amizade, de confidências, de carinho…
    Cartas para avô, tios e tias, amigos e amigas, primas, etc…
    Foram tantos remetentes… Tantos destinatários… Realmente o mundo mudou… Hoje reencontro essas pessoas no Orkut… E não é a mesma coisa…
    Lembro das cartas do passado, e às vezes lamento o que o tempo roubou de nós…
    Achei linda sua iniciativa de escrever cartas… Também gostaria de retomar isso, quem sabe me animo com seu exemplo, e escrevo pras pessoas que ainda tenho o endereço pra correspondências e não só o eletrônico…

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