POETANDO… IV – BOCA

Trabalhando com metáforas em um poema não discursivo… Ô dificuldade! Mas vamos lá… rs

BOCA

Sente fome,
Anseia vida.
Prefere doce,
Deseja saliva.
Fala emoção,
Canta desejo.
Grita dor,
Sussurra beijo.
Deleita carne,
Geme gente.
Chupa língua,
Roça dente.
Prova pele,
Degusta água.
Toma leite,
Come mágoa.
Cobiça corpo,
Saboreia mordida.
Petisca raiva,
Desfruta ferida.
Vomita fofoca,
Regurgita alegria.
Arrota discurso,
Cospe melodia.
Mastiga almoço,
Morde brigadeiro.
Sopra sonho,
Mói canteiro.
Bebe suor,
Beija vinho.
Lambe grito,
Experimenta carinho.
Entra mosca,
Sai palavra.
É buraco,
Termina fechada.


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SE UM DIA SEU AMOR APARECER…

Estávamos aqui, eu e Deby, juntas, mas separadas. Ela curtindo brincar, pintar e dançar, e eu de olho colado na TV, curtindo as sessões de filme romântico do domingo. E foram muitas.

Ao ver o final triste de um dos filmes, ela me pergunta, do alto de seus seis aninhos de sabedoria, “escuta, Karina, esse negócio de amor nunca dá certo?” “Claro que dá, menina, olha só… É só um filme, outros filmes de amor têm final feliz.” “Mas eu não tô falando de filmes, tô falando de gentes, porque todo mundo que eu conheço que namora acaba ficando separado, olha fulano, olha beltrano, olha minha mãe, olha você… Vocês ficam tristes porque esse negócio de amor não dá certo mesmo, né? Só nas histórias das princesas.”

Pensei que, como sempre, a menina tem razão. Conheço tantas e tantas tentativas, e tão poucas histórias de amor realmente felizes. Então eu disse a ela que sim, o amor dava certo. Mas creio que ela não acreditou muito na minha resposta sem convicção.

Gostaria de dar a ela um bom conselho, e o meu silêncio só fez confirmar o que ela vê todo dia. Legiões de pessoas carregando dores profundas no peito, tristes e amarguradas, vagando em procura do tal AMOR, assim, todo maiúsculo. Algumas arriscam-se a viver sós, outras ficam a vida inteira tentando encontrar alguém especial que nunca vêm, outras conformam-se com um arrozinho com feijão básico e deixam pra lá essa coisa complicada de viver grandes sentimentos. A verdade, querida Débora, é que a gente, como dizia o Carlos Drummond, não deve facilitar com a palavra amor. Muito menos com o sentimento. Porque, como dizia a Adélia Prado, “É descuidar, o amor te pega, te come, te molha todo. Mas água, o amor não é.”. E depois que o amor te pega assim, você constata, de novo com o Drummond, que de fato: amor é bicho instruído. E contra ele, não há o que fazer.

Débora, eu gostaria de dizer a você que é melhor viver sem amar. Racionalmente, é mesmo. Amor é uma reação química que despeja descargas no seu cérebro, um mecanismo da natureza pra fazer a gente procriar e não deixar extinguir a raça humana; é o que dizem os cientistas. Os religiosos dizem que, amor mesmo, só em Deus. Os poetas falam sobre o amor dia sim e outro também. Mas ninguém consegue saber direito o que é o amor e como ele tira a gente do rumo desse jeito que você vê nos filmes.Por isso, seria melhor você ficar segura no seu cantinho, sem amar. Amar é uma confusão danada. E quase nunca as pessoas ficam com o grande amor da vida, aquele amor que esperaram. Vai entender por quê. As pessoas são estranhas, Débora. Eu sou. E você também será… Espero que menos que eu.

Mas Débora, é tão ruim viver sem amor. É tão triste, é tão seco, é tão frio, é tão solitário e melancólico. Por isso, o conselho que eu vou te dar, e que eu gostaria de ter ouvido, querida, é que, se um dia você tiver a sorte de encontrar um amor, não deixe ele ir embora.

Se um dia seu amor aparecer, anjo, não demore a reconhecê-lo, e normalmente nunca demora, mas não resista muito a isso. E se você estiver envolvida com outra coisa que você achava que é amor, mas não é, não tenha dúvidas: mande embora e siga um novo caminho ( assim essa outra pessoa que você pensava que era amor, e não é, também vai poder encontrar o amor dela ). Porque a pior coisa da vida é um amor frustrado por conveniências e covardias. Isso é muito pequeno pra você, anjo.

Se um dia seu amor aparecer, não fique medindo a conta bancária dele, a beleza, o passado, o grau de instrução ou outros critérios idiotas que as pessoas dizem que são bons. Faça os seus critérios. E seja fiel a eles. Porque assim você vai provar que é uma moça inteligente e antenada pra dentro, e não pros valores fúteis deste mundo.

Se um dia seu amor aparecer, querida, não perca tempo. Não demore. Aproveite cada segundo, porque você vai precisar deles depois, pra continuar sendo feliz, ou pra lembrar nos momentos de tristeza. Não fique com preguiça. Não deixe pra depois. Vá, vá e vá.

Se um dia seu amor aparecer, você vai sentir medo, mas dê um jeito de sufocá-lo.

Se um dia seu amor aparecer, trate-o bem. Não o magoe. Não o ignore. Não o deixe esperando. Não o torture não dizendo o que pensa ou sente. Não o faça de bobo. Não seja exigente demais com ele. Não tenha metas que ele nunca vai poder alcançar. Não perca seu tempo ofendendo ou discutindo. Seja boazinha pro seu amor. Porque todas essas coisas, querida, com o tempo, vão matando o amor por dentro. E se esse enterro for feito… O Adeus é definitivo… E triste.

Se um dia seu amor aparecer, não deixe de gostar de você.

Se um dia seu amor aparecer, apareça para ele também, linda Débora. Mostre-se como é, não fique com medo de dizer ou fazer nada. Não adianta colocar uma máscara, vestir uma roupa apertada, dublar um papel que não é seu. Seja você. E ofereça-se. Aceita ou não, você será melhor por causa disso.

E se um dia seu amor aparecer… Permita-se ser feliz, como as princesas. Mesmo que o seu sempre não seja eterno. Você será nobre se honrar o presente que é o amor… E, acredite, receberá seu prêmio no final.

Enfim, queridíssima Débora, se um dia seu amor aparecer, não desista dele. Mas mantenha suas mãos abertas. Não se segura um passarinho quebrando as asas dele, e sim encantando-o e alimentando-o com carinho e profundidade.

Deby fofa, e linda, e querida. Se um dia seu amor aparecer, não faça como eu, sua mãe e todas essas pessoas esquisitas que você conhece. Seja diferente, querida. E ame tudo que puder. Se você não ficar com seu amor, pelo menos terá uma história boa pra contar. E quem sabe essa história vire um filme pra ensinar alguém que o amor dá, sim, certo. Eu espero sinceramente que sim… Pra você… E pra mim.