AS MELHORES DO CHICO

Não faz muito tempo, amigo Inagaki propôs um top five de músicas do Rei Roberto Carlos. Escolhi com o coração na mão as minhas cinco prediletas.

E hoje, aniversário do Chico Buarque, 66 anos do amor da minha vida toda, eu achei de tentar fazer o mesmo. Só que, como o amor é em dobro, ao invés de cinco, serão dez. Desde ontem ouço e reouço todas as músicas e quanto mais ouço, mais penso que todas são maravilhosas e geniais. Mas segue a minha humilde tentativa de homenagear aquele que, pra mim, é o mais genial compositor popular brasileiro de todos os tempos. Uma lista mutável, intuitiva e absurdamente amorosa. 🙂

1. “EU TE AMO”

Parcerias entre o Chico e o Tom Jobim são assim, românticas, viscerais, de coração na mão e cheias de complexidade melódica. Exemplos como “Anos Dourados“, “Retrato em Branco e Preto” e “Sabiá” estão aí pra provar o que uma parceria entre gênios é capaz de fazer pela história da música de um país.

Mas “Eu te Amo”, pra mim, é a melhor delas. É uma canção maravilhosa, com notas lentas e tristes, que fala da inconformidade da despedida de um casal que, ao que tudo indica, tinha uma relação de entrega total – e dói ouvir. Cantada em dupla com Telma Costa, numa linda completude da voz feminina e masculina, a canção é cheia de metáforas belíssimas que enchem os olhos de água; versos como esses abaixo que derretem o coração de qualquer um. Eu não iria embora se ouvisse na hora do adeus um “Eu te Amo” como esse. Acho que ninguém iria.

“Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir?

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir…”


2. “TATUAGEM”

“Tatuagem” , originalmente composta para o musical “Calabar” por Chico e Ruy Guerra, é sensual e apaixonada. A melodia sibilante, toda sinuosa, acompanha a voz do Chico em um belo exercício de interpretação ( coisa que, muita gente diz, ele não sabe fazer… tsc ).

Sutil e ao mesmo tempo explícita, “Tatuagem” fala sobre o amor expresso em corpo, usando uma genial metáfora das imagens que são comumente tatuadas na pele, o desejo de todo amor – ficar marcado pra sempre no ser amado, impossível de ser apagado sem cicatrizes profundas. Linda, linda, linda.

“Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava…”


3. “TEM MAIS SAMBA”

Os quatro primeiros LPs do Chico são maravilhosos, genais do começo ao fim. Mostram definidamente a enorme influência do samba clássico na obra do autor, que o acompanharia até hoje, além de uma capacidade incomum de manejar as palavras sonora e poeticamente nas letras, pra falar sobre qualquer assunto.

Escolhi “Tem mais Samba” por ser curta, profunda e animada ao mesmo tempo, mas poderia ter escolhido as não menos incríveis “Olê, Olá“, “Quem te viu, quem te vê“, “Bom Tempo“, “Ela Desatinou“, “Carolina“, “Januária“, “A Rita“, “Pedro Pedreiro“, “Você não Ouviu“… Enfim. São todas maravilhosas.

“Tem mais samba no encontro que na espera,
Tem mais samba a maldade que a ferida,
Tem mais samba no porto que na vela,
Tem mais samba o perdão que a despedida…”

4. “CHORO BANDIDO”

Parceria erudita, sensível e lírica é a de Edu Lobo com Chico Buarque… Produziram juntos canções memoráveis, como “Valsa Brasileira“, “Beatriz“, “Ciranda da Bailarina” e a minha tão querida “Choro Bandido”.

Melodia fina, ritmo constante e letra que mistura a verdade e a falsidade dos poemas e do amor… Eles têm razão – são bonitas as canções.

“Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido,
Minha musa, vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim…”

5. “MEU CARO AMIGO”

Chico ficou muito conhecido por sua habilidade em driblar a repressão política dos anos 70 e protestar, com classe e inventividade. Com muita sensibilidade e inteligência, ele compôs canções revolucionárias cheias de mensagens sutis ou protestos declarados, como “A Banda“, “Roda-Viva“, “Cálice“, “Cordão“, “Acorda Amor“, “Fado Tropical“, “Assentamento“, “Apesar de Você“, e “Homenagem ao Malandro“.

“Meu Caro Amigo” é uma canção histórica, muito bem feita, bem humorada, bem construída com instrumentos bem colocados. A letra é uma carta a um amigo exilado, e foi composta com Francis Hime, outro parceiro daqueles. O mais incrível é que, mesmo sendo tão específica, ela continua atual. Eu vivo cantando seus versos quando me sinto reprimida pela vida… “Meu caro amigo” me ajuda a segurar os rojões do cotidiano.

“Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão”

6. “SAMBA E AMOR”

“Samba e Amor”, pra mim, é uma pérola. Uma das canções mais gostosas de ouvir que conheço, que mistura com muito equilíbrio o lirismo da música e do amor. Linda, linda, linda.

Outras canções seriam tão boas declarações de amor  quanto ela, como “Moto-Contínuo“, “Ela é Dançarina“, “Cecília“, “Futuros Amantes“, “Todo o Sentimento“, “João e Maria“. Mas essa, de tão simples, é imbatível. Adoraria fazer samba e amor até mais tarde todos os dias.

“No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão

Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação”

7. “TERESINHA”

Por que o Chico agrada tanto as mulheres? Oras, como poucos, ele consegue entender as questões que mais as afligem… Consegue ir a fundo na poética feminina e nos leva a intensas lágrimas e sorrisos quando usa o eu-lírico femininno com tanta propriedade. Impressionante. Ouço “Mulheres de Atenas“, “Atrás da Porta“, “Olhos nos Olhos“, “Maninha“, “O Meu Amor“, “Soneto“, “Suburbano Coração“, “Umas e Outras“, e só falto derreter de tanto que me sinto invadida e compreendida por dentro.

“Teresinha” fala muito comigo. Composta para a incrível e toda boa “Ópera do Malandro”, lembra a canção infantil e me lembra a minha própria história da busca pelo parceiro que realmente entenda a mulher que eu sou… A mulher que todas somos. Maravilhosa.

“O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração”


8. “ATÉ PENSEI”

Reflexiva, poética, bonita, triste. Não me conformo que ele tenha composto uma canção como essa, tão madura, com menos de 20 anos. Fala de desejo, fala de dor, fala de luta. Bonita de tão triste.

“Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha…”

9. “FLOR DA IDADE”

Chico é cronista em poesia. “Flor da Idade” traz um truque no refrão ( a cada verso, aumenta um r na palavra principal e causa um efeito lindo na música ). Além de tudo, cita o poema “Quadrilha”, de Drummond. Como várias, ela é extremamente sonora nas palavras cuidadosamente escolhidas.

Colocaria lado a lado com ela outras canções como “Trocando em Miúdos“, “Biscate“, “Vida“, “Bye Bye Brasil“, “Não Sonho Mais“, “Almanaque“, “Feijoada Completa“, “Noite dos Mascarados“, “Amor Barato“, “Pelas Tabelas”, As Vitrines“. Todas contam histórias surpreendentes de pessoas comuns. Como nós.

“Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor…”

10. “PASSAREDO”

A marca de um bom poeta é sempre a capacidade que ele tem de descobrir as possibilidades da língua, e colocar as palavras de um jeito surpreendente.

“Passaredo” é um bom exemplo de como uma lista completa com nomes de passarinhos pode virar música. Outros jogos linguísticos e estilísticos, como “Corrente“, “Carioca“, “Construção“, “Deus lhe Pague“, “Paratodos“, “Pivete“, mostram que, além da sensibilidade dos temas, é preciso pensar na complexidade e possibilidade das palavras pra fazer uma obra de arte em forma de música. Fantástico!


Salve o Compositor Popular!

Ajuda do livro de Wagner Homem, “Chico Buarque – Histórias de Canções“.

E você, lembrou de alguma que não está aí? 😉

NAMORÁVEL

Ah, o amor…

Tantos coraçõezinhos pipocando nas vitrines das lojas, nos comerciais de televisão e na testa dos casais que cruzaram comigo o dia todo por aí não me deixaram ignorar o famigerado dia dos namorados.

Não conheço quem não goste de namorar ( embora conheça um monte de gente que diz que não gosta, especialmente aquelas que não conseguem namorad@ ). É bom namorar, não só pra andar de mãos dadas por aí, pra exibir alguém nos encontros sociais ou pra não ficar sozinho morcegando em casa aos finais de semana. Deve ter muito mais coisas aí… E tem.

Se é tão bom namorar, por que tanta gente, grupo no qual me incluo, opta por ficar sozinho, seja no dia 12 de junho, ou em qualquer outro dia do ano? Talvez esse monte de gente venha justificar sua escolha pela solidão dizendo por aí que não achou ninguém namorável. Ou, como eu, declarando-se não namorável no momento por n razões obscuras. Uma bobagem. Hoje eu daria um pedaço da minha unha pra estar agorinha nos braços de um namorado maravilhoso. E me dói saber que não estou porque não quis estar. Boba.

Fiquei pensando no que faz alguém ser namorável. Dia desses conversava com um moço sobre isso. Conhecemos dezenas de pessoas disponíveis todos os dias por aí. Algumas temos muita vontade de namorar, outras nenhuma vontade, outras pode ser que sim, pode ser que não. Mas… O que faz alguém ser namorável? Qual é a escala que se usa pra dizer se essa ou aquela pessoa é aquela com quem você quer tentar ser feliz, não importa se por um mês ou uma vida inteira?

Psicólogos e estudiosos do cérebro e dos fenômenos fisiológicos nos dão algumas receitas. Namorável é a pessoa com quem você tem grande afinidade de idéias e grande atração sexual. Alguém cujo cheiro faz você tremer por dentro. Alguém que tenha mais ou menos os mesmos objetivos. Alguém com quem você consiga conversar. Os códigos sociais dão outras dicas. Não namore alguém que já namore outra pessoa. Não namore alguém muito diferente de você, nem na aparência, nem na condição financeira, nem nas escolhas de círculo social. Faça uma escolha racional bem espertinha, garanta o sucesso do seu namoro e seja feliz.

As dicas são claras, mas nem sempre facilmente aplicáveis. Se fossem, agora mesmo eu estaria ocupada demais pra estar sentada aqui escrevendo.

Às vezes, namorável é o moço feioso, sem grana e meio desajeitado com quem você é capaz de passar horas e horas falando bobagens ao telefone antes de dormir. Namorável pode ser o moço complicado, fujão e problemático que você adora colocar no colinho e consolar, sentindo-se necessária e importante. Namorável é o moço descolado e flutuante que senta ao seu lado no carro e te olha de um jeito tão especial que faz você se sentir a mulher mais linda e precisosa do mundo. Namorável pode ser o moço grosseirão e esquisito que sabe pegar você de jeito pra dar um beijo daqueles, até você ficar tonta e perder o rumo de casa. Namorável é o moço meio burrinho, mas extremamente carinhoso com você e com quem você gosta. Namorável é aquele moço enrolado e bestalhão que sabe te levar pro céu e pro inferno com a mesma velocidade em menos de dois dias. Namorável talvez seja aquele outro moço que parece perfeito, mas na prática, não abre o coração pra você. As possibilidades são muitas, e as escalas mudam constantemente, porque nós mudamos. E isso não é ruim.

Mas namorável, namorável de verdade mesmo, é aquela pessoa que se deixa namorar. É aquela pessoa que se abre toda pra você, como uma flor abre para o sol, esperando ser alimentada, aquecida e admirada.  Não adianta ser inteligente, rico, bonito ou disponível, se não houver, dentro do coração, essa vontade de ser namorado. E isso é algo que não muda, não importa quais sejam os valores colocados na escala.

Já ganhei alguns presentes na vida, essas coisas todas que as pessoas dão – jóias, flores, livros e CDs, roupas, perfumes, adereços, coisinhas mimosas. Mas o presente mais lindo e especial ganhei de um namorado antigo, em um dia 12 de junho friozinho como este. Era uma carta de amor. Nela, ele gastava palavras sem dó pra dizer tudo que via em mim de bom. Todas as qualidades que me tornaram namorável para ele… Tudo que ele sentia e transformava a partir do nosso contato. Poucas vezes me senti tão namorável quanto me senti aquele dia.

Na verdade, é o olhar generoso e carinhoso do outro que nos torna namoráveis. É o encontro, e não a condição solitária; é a troca, e não o ganho; é a doação, e não a capacidade. Namorar é legal porque é uma sensação impagável ser olhado de modo único por alguém que declara ser só seu, e você só dele ou dela. Namorar é bom porque é boa a sensação de pertencimento. E não falo de posse. Falo de entrega.

Namora quem topa o desafio de se mostrar ao outro e acolher o que o outro mostra. E é por isso que eu vou me esforçar bastante para que, no próximo dia 12 de junho, eu não seja apenas uma moça namorável… Mas a namorada de alguém. E vai ser ótimo… Sempre é.