INÍCIOS

Ah, a beleza dos inícios…

Qualquer início tem algo de uma página em branco, um “era uma vez…”, uma roupa nova, um primeiro dia, uma sensação gostosa de “tudo pode acontecer”. O início é belo porque tem um quê de esperança, de inocência, de recuperação de finais passados, de redenção. Toda tela de início é pintada com as melhores tintas, os melhores traços, as melhores nuances. Quem inicia ajeita os olhos pra ver só o que é bonito, e isso é tão gostoso.

Ah, a alegria dos inícios…

Se o início é algo sonhado e desejado há muito tempo, não dá pra parar de rir. Existe uma empolgação constante, uma euforia que se tenta a todo custo conter e represar, mas que vaza em sorrisos bobos, pulinhos, abraços, olhares perdidos. O iniciante manda beijos pelo ar, fala sozinho, grita, canta alto, toca bateria imaginária. É tomado por uma energia fantástica que vem não se sabe de onde, uma fonte inesgotável de alegria e prazer.

Ah, o encanto dos inícios…

Quem inicia fica arrepiado ao ouvir um barulho de telefone, sente-se maravilhado com as coisas mais simples, quer saber detalhes de uma vida toda em um mês, quer engolir tudo e fazer seu. Jantares, conversas intermináveis pelas madrugadas, uma sensação de não querer ir embora, pensamento fixo, desconcentração em qualquer outra coisa que não seja o que motiva, o que cutuca, o que encanta. O iniciante não só se prepara para ver o melhor, mas também separa o melhor de si para mostrar. Capricha nas palavras, na maquiagem, nas escolhas, retoma velhos projetos abandonados, vasculha na própria alma o brilho mais intenso que emitia antes das dores da vida. Toma cuidado com o que diz, zela pelo que tem, finge não ver o que magoa. Nada – nada – se compara à luz que vem de quem está iniciando algo.

Ah, a disposição dos inícios…

É longe? Eu vou. É difícil? Eu faço. É triste? Eu ignoro. É complicado? Eu resolvo. É cansativo? Eu aguento. É problemático? Eu aceito. É feio? Eu enfeito. No início, “há motivo pra tudo, e tudo é motivo pra mais“. Noites mal dormidas, torcida contra, argumentações racionais, cansaço e fome, tudo isso é nada. O início é alimento, é descanso, é prazer, é o que satisfaz, é o que precisa, é o que basta. E ai de quem disser o contrário.

Todo início é feito de esperança, de boa vontade, de ilusão… De sonho. Quem inicia é animado, cauteloso, cuidadoso, zeloso, dedicado.

Claro, com o tempo, reiniciar vai carregando as marcas do que já foi, das experiências passadas, de tudo que um dia se acreditou e não deu certo. E passa-se a vida inteira tentando encontrar a sensação do início… O frio na barriga do primeiro beijo, do primeiro amor, do primeiro emprego, do primeiro carro, do primeiro salário, da primeira noite, da primeira viagem…

E claro, também, não se pode manter iniciando sempre algo que continua. E isso nem é de todo ruim. A passagem do tempo e o acúmulo de experiências tem suas vantagens. Mas uma coisa é certa.

Evita o fim quem é capaz de sempre manter algo de início em tudo que dura.

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EXPEDIENTE:

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A você que já votou, obrigada, e se o interesse for grande, pode votar de novo!

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ELEIÇÕES 2010

Uma das coisas que mais escuto dos leitores assíduos deste blog é que ele deveria virar livro.

Pois bem, caro eleitor, cara eleitora… Em tempos de pessoas como Simony, Tiririca e Mulher Melão pedindo voto, eu serei mais uma cara-de-pau a pedir o seu!

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E se quiserem fazer uma boca de urna básica divulgando o blog por aí e recomendando a votação, eu agradeço.  🙂

TENHO MEDO DE GENTE…

Quem me conhece sabe que, se tem uma coisa que eu não sou… É medrosa. Sou daquelas que escolhe ignorar o perigo na maioria das situações e arriscar, muito. Mas ultimamente, quando o mundo tem ficado cada vez mais maluco e estranho, eu estou reparando que ando ficando com medo de gente.

Tenho medo de gente que olha torto, que desconfia de todo mundo, que coloca palavras na sua boca sem você nem perceber. Gente maldosa e leviana, que sequer percebe quando faz mal a alguém, e se percebe, não sente culpa. Tenho medo de gente que não fica preocupado ou não perde um segundo de sono ao magoar um coração, gente que sempre está por perto pra fazer um comentário sutil que coloque em dúvida a integridade e a boa vontade dos outros. Gente assim me deixa muito amarga.

Tenho medo de gente que não sabe no que acredita, não escolhe nenhum lado, não tem nenhum ideal. Gente que não lembra direito quais são seus princípios, que não tem fé em nada, gente que parece vazia e sem objetivos, gente que passa pela vida sem fazer nem ser absolutamente nada de relevante nem por si mesmo nem por ninguém. Gente que nunca, nunca diz nada que se aproveite, e que parece que está pelo mundo a passeio. Gente assim me deixa desanimada.

Tenho medo de gente que fala com você olhando pro outro lado, que mente pra se safar, que não assume o que pensa e o que diz, que faz fofoca, lança boato, e cochicha no ouvido coisas más sobre alguém que, cinco minutos antes, você viu ela abraçar, sorrir e beijar. Gente que engana, que finge que não vê, que passa o pano – não por fraqueza ou por amor, mas por preguiça e por interesse mesmo. Gente que faz elogio vazio, comentário pomposo, gente mais falsa que nota de três reais. Gente assim me deixa assustada.

Tenho medo de gente que fala do seu cabelo, do seu carro, do seu namorado, da sua família, da sua roupa, dos seus talentos, dos seus sonhos, das pessoas que amam você com olhos roxos de inveja. Gente que não consegue nada na vida, de nenhum jeito, e te culpa por ter conseguido, querendo que você perca. Gente que ri de canto quando acontece algo ruim com você, que te abraça, acarinha e consola sentindo prazer em te ver no chão. Gente assim me deixa seca.

Tenho medo de gente que grita com todo mundo, xinga, faz barraco, que acha que suas razões são sempre melhores que as dos outros. Gente que não pensa duas vezes antes de agredir, humilhar alguém. Gente grossa, que atrás do rótulo de sinceridade e respeito a si mesma, desrespeita e atropela quem estiver pela frente. Gente que joga o carro em cima do seu no trânsito, que empurra você na rua, que grita com o funcionário do supermercado, que não agradece uma gentileza ou favor, gente nervosinha e cheia de motivos. Gente assim me deixa raivosa.

Tenho medo de gente que sabe de tudo, que tem tudo, que conhece tudo, que tudo já passou, que tudo já leu, que tudo já viu e ouviu, que tudo sente, que tudo que tem pra conquistar já conquistou, que tem o melhor conselho, que sempre faz a  melhor escolha, que sempre sabe o que é certo e o que é errado, que tudo seu é melhor. Gente que nunca erra. Gente assim me deixa enjoada.

Tenho medo de gente que levanta o dedo pra acusar os outros. Que diminui os outros por causa de sua aparência, sua origem, sua classe social, seu jeito de ser ou pensar – e acha isso perfeitamente normal. Tenho medo de quem não aceita os erros dos outros, que é o primeiro a acusar e exigir punição em nome de uma falsa moral e ética – moral que apenas esconde uma enorme intolerância. Tenho muito, muito medo de quem gosta de vingança, de quem levanta a voz pra expor alguém que errou, não pelo medo da omissão, mas pelo prazer do ataque. Gente assim me deixa com nojo.

Tenho medo de gente que não pensa. E tenho medo de gente que não sente. Gente assim me deixa mais fria.

Tenho medo de gente que não enxerga o pedido de ajuda de outro ser humano, seja ele quem for. Gente que não sente um pingo de culpa quando vê um mendigo, uma criança abandonada, uma pessoa dormindo na rua. Gente que não se incomoda quando vê outro sofrendo. Gente que se apóia em milhares de explicações racionais para justificar a sua preguiça, o seu egoísmo, o seu partidarismo, a sua discriminação. Gente covarde, que não dá a cara a tapa pra defnder ninguém além de si mesmo, gente que primeiro pensa no que vai levar  de bom antes de se envolver em uma causa. Gente assim me deixa incrédula.

Sei que todo mundo tem suas fraquezas, e admiro quem luta pra ser diferente do que é. E sei que tem muita, mas muita gente mesmo diferente disso tudo, gente que, na essência, é gente boa. E essa gente não me provoca medo, e sim carinho, amor, esperança, tranquilidade… Alegria.

Mas escrevendo isso tudo, eu percebi por que tenho medo de certas gentes. Elas revelam um lado obscuro, podre e triste do ser humano. E, principalmente, elas provocam coisas ruins em mim também. Coisas que eu luto pra afastar. Coisas que eu não quero ser.

Embora a gente não escolha as coisas pelas quais vai passar na vida, a gente sempre pode escolher o que quer ser.