QUEBRANDO A CABEÇA

Outro dia, ao voltar da aula de dança do ventre, dei de cara com meu irmão mais novo – daqui de casa, o mais dado a afetos e mimos – com um sorriso enorme pra mim. Ele chegou em casa com um presente de natal antecipado: uma caixa grande embrulhada em um papel de loja de brinquedos. Antes de abrir, eu já sabia o que era. Um quebra-cabeça imenso. Do jeito que eu gosto.

Oito mil peças minúsculas que, juntas, formam uma única imagem. Oito mil… Um desafio. O maior que já montei. Gosto de quebra-cabeças. Já montei vários, e todos eles muito rapidamente. Há algo de encantador para mim em pedacinhos misturados, aparentemente desconexos, que com algum esforço e noção de imagem e lógica viram uma coisa só. Uma coisa só, integrada, bonita… Completa. Justo eu, aversa a jogos matemáticos, viro uma louca obstinada, que enquanto não vê o fim da história, não para de montar.

Se tratamos de 20 peças, ou até mesmo 100, com uma imagem simples, com muitas cores, de um desenho padronizado… É possível virar todas as peças em cima de uma mesa e ir encaixando usando apenas golpes de vista. É mais ou menos o jeito que as crianças fazem para montar. Intuitiva e insistentemente, vão montando na base da tentativa e erro, até que esteja pronto. São crianças… Têm a vida toda pela frente.

Mas, se tratando de 8000 peças, e de uma imagem escura e com poucas nuances… Não dá. É preciso pensar. Olhar, e pensar. Descobrir padrões. Analisar. Agrupar por semelhanças e diferenças. Separar peças. Montar pedaços pequenos. Descobrir minúsculos detalhes, tons de uma mesma cor, formatos e fileiras. Entender que às vezes o olho engana, e o que se vê no geral, na tampa da caixa, é muito mais complexo ao se olhar uma pecinha de perto. Montar a borda, deixar um imenso espaço no meio e aos poucos ir preenchendo. Verificar peças que pareciam tão bem encaixadas, mas estavam no lugar errado, indo e voltando. Um trabalho de extrema concentração, de ação e de persistência.

Uma montanha de peças juntas formam uma única imagem, coerente e bonita. Só é preciso se organizar um pouco… E começar a montar. Sem agonia nem pressa. Há dias em que se encaixa apenas uma peça, depois de ficar horas olhando para elas. Há dias em que se pode encaixar mais de 100 em poucos minutos, como se o cérebro de repente fizesse conexões claras e perfeitas, e percebesse o que sempre esteve ali. Não importa. O importante é prosseguir montando. E, quando menos se espera, fica pronto.

Eu tinha uma imagem inteira da minha vida. A tampa da caixa. Estava lá, coerente, completa, bonita. Um quadro pra se colocar na parede, pra todo mundo olhar  e admirar. Um quebra-cabeça que montei há muitos anos, e que achei que valeria para sempre. Parecia tudo calmo e acomodado. Tudo lógica e artisticamente perfeito.

Mas, aos poucos, fui cuidadosamente desmontada. Pedaço por pedaço, cor por cor, bordas e centro, partes fáceis e difíceis, tudo foi quebrado em pequenos pedacinhos. Até áreas que achei que nunca seriam mexidas, foram. E de repente, eu virei uma montanha de peças desconexas. Doeu. E por muito, muito tempo, estive olhando para as peças, me negando a acreditar em tudo que houve, tentando buscar a imagem antiga que já não existia mais. Rodando em círculos, sem ação.

Chegou a hora de montar de novo. Não em um passe de mágica, mas devagar, com método, cuidado e observação. Olhando os pedacinhos de perto, tentando encaixá-los, descobrindo novos tons e nuances, buscando imagens que façam sentido. Ficando feliz com cada fileirinha montada, e tendo paciência pra encontrar caminhos quando um ponto cego não deixar que eu avance. E, claro, contando com a juda de um e outro que passar por perto e que consiga encaixar uma pecinha que eu não estou conseguindo.

Oito mil peças é um desafio e tanto. Um presentão do meu irmão, que sempre me ajuda a encaixar as peças soltas da vida. Mas, devo admitir, não é pra qualquer um. Quem sabe o que eu vou descobrir ao final do processo… Que imagem eu vou ver. Olhando parte a parte, ao olhar o todo, se vê muito mais coisas. Só preciso começar. E estou começando.  E quer saber? É difícil. Mas não é ruim, não.

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11 comentários sobre “QUEBRANDO A CABEÇA

  1. Que delícia de texto! Também já me senti assim, e hoje a “tampa da minha caixa” está com a imagem já visível, embora eu ache que ela não estará “completamente completa” nunca. Vai com fé que as peças vão se encaixando, e como vc disse, sem pressa, com cuidado… e o melhor: vc tem ajuda. Tô aqui pra isso mesmo, viu?

    Beijo, querida!!!

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  2. Ela voltou, depois de longo silêncio… Toda cor de rosa, vendo tanto sentido pra vida em uma simples caixa de brinquedo, e comovendo, como sempre…
    Sinto mto sua falta pra me ajudar a encaixar as peças da minha vida. Vc sempre foi tão habilidosa nisso…
    Amo mto vc, e junto com meu desejo de que vc descubra todos os encaixes que precisa, digo que vc tinha razão em tudo que disse, inclusive que amizades verdadeiras não morrem nunca.
    Bjos… Eu apareço.

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  3. Que bom que você voltou!!Estava sentindo sua falta e passando por aqui todos os dias para reler posts antigos…Como sempre você arrasou no texto…É isso aí, não tenha pressa, vai se reconstruindo no seu tempo, do seu jeito, desmonte o quebra-cabeças quantas vezes forem necessárias, porque que tenho certeza que no final a imagem vai mostrar a pessoa linda que você é…Um grande beijo e boa sorte !!!

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  4. Que saudade de te ler… De falar, sorrir junto, tomar sorvete junto, e saber de você… Muita saudade mesmo. Mas valeu a pena esperar pelo texto… Ficou tão bonito.
    Sobre o texto, só posso dizer que você tem razão: não é pra qualquer um montar tantas peças, e um imagem tão complexa e difícil. Mas posso garantir que a sua imagem, montada com tanto cuidado, inteligência e sensibilidade, é das coisas mais lindas que haverá pra se admirar.
    Beijos… E me liga quando puder, moça difícil.

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  5. Fiquei feliz com post novo! E também amo quebra-cabeças! Tenho ótimas lembranças da minha infancia ligadas a tardes e noites montando em família. Até hoje sonho em montar um assim, enorme, de mil, 5 mil ou mais peças! E penso como vc quando a esse desafio de enchegar os detalhes das pequenas partes para montar uma grande imagem.
    Apeas de saber que vc é ótima em crônicas do cotidiano… eu já espera que viria alguma metáfora desse texto. E como ela fez sentido, Kari! Ás vezes me pego assim, ‘tentando buscar a imagem antiga que já não existe mais’… e dói, ainda dói. Mas é tão bom te ver escrevendo disposta a remontar esse quebra-cabeça que revela uma imagem tão linda! Renova a motivação da gente e a certeza de que é possível (e preciso) continuar, sempre!
    Eu escrevi uma vez um texto fazendo uma comparação parecida entre o quebra-cabeças e a teoria da Gestalt – onde as partes sempre representam menos que o todo ou o todo é sempre mais que a soma das partes. Somos assim, formados de vários pedacinhos de um monte de coisa, um monte de gente, um monte de sentimento… Mas cada um é sempre muito mais que a soma de todas essas partes! Somos muitos, somos únicos, somos especiais. Você é especial, Kari. Te desejo tudo de melhor!

    (voltamos ao layout antigo? o que houve? =****)

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  6. Que texto maravilhoso… Tão reflexivo… E você nos deixando tanto tempo sem te ler… Faz mais isso não, morena.
    Ah, você ficou linda nas fotos novas do Facebook… Linda, linda, linda.
    Beijo….

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  7. Tinha um tempo que estava esperando teu próximo texto….esse é o sentido da vida!!! Encontrar o lugar certo de cada peça….e em alguma situações olhar meio torto…por que parece que não combina muito…mas tudo se acerta …tenha certeza!!! Aproveite cada momento…pois tudo é muito imediato e não tem volta!!!

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  8. Oii..
    estava procurando coisas para a justificativa do meu projeto de esstágio do Curso Normal e achei uma citação “somo assim, formados por pedacinhos de um monte de coisa” e fazia referência a este blog, mas não consegui achar o artigo completo em que esta citação se encontra. Você poderia me ajudar, mandando para meu e-mail o artigo!agradeço muito

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