AMARAMARO


Ah, laranjinha doce e geniosa é o amor. Se desfrutamos, se chupamos com voracidade, se espremos seus gomos entre mãos nervosas, se deixamos simplesmente passar o tempo ao ar e ao sol, com medo que acabe… Não tem jeito, é fatal. Amor, quando é descascado e aberto, está fadado a virar bagaço – sem doce, sem cor, sem caldo… Seco e sem serventia.

Ah, máquina complexa e difícil é o amor. Cheia de botões, de fios invertidos, de comandos traiçoeiros, de circuitos mal feitos, de energia que vai e que vem sem destino e sem direção. Nunca se sabe onde apertar, em que voltagem se deve ligar, qual é a sua potência ou função, nunca funciona como deveria. Amor, quando ligado, ainda que ande a todo vapor, está fadado a explodir de repente, deixando órfãos de pai, mãe e filhos qualquer um que tenha ousado aquecê-lo e dominá-lo.

Ah, barco independente e imprevisível é o amor. Parte, não sabe pra onde; navega, não sabe até quando; chega, não avisa quando retorna; sacoleja, vira, revira, navega manso em calmaria, e de repente pára, sem ir pra canto nenhum. Amor, quando em alto mar, está fadado a ficar eternamente à deriva, sem achar jeito de aportar e sossegar… Gosta do mar. Sempre quer partir.

Ah, criancinha geniosa e encantadora é o amor. Cheia de lacinhos, vestido de babados, de cachinhos perfeitos em birotes geometricamente desenhados, tão corada e de olhos brilhantes, não há como não se deslumbrar. De repente, lá está o amor fazendo birra, batendo o pé no chão, exigindo o que você não tem pra dar, carente de atenção total e irrestrita… Quer, quer e quer, pedindo colo, comida, carinho, papo, atenção, invertendo todas as suas intenções. Amor, quando concebido, é responsabilidade e delírio de quem o concebeu, e haja tempo, recurso e afeto pra niná-lo e sustentá-lo. De repente cresceu… E foi embora.

Passo tanto tempo dos meus dias tentando viver o amor, abrindo espaço pra ele na minha cabeça, na minha agenda, na minha cama. Deixo ele entrar e pronto, ele entra e é tão folgado, toma todos os espaços. E depois, passo mais tempo ainda tentando entender que diacho é o amor, por que ele faz o que faz comigo, por que me seduz e depois me nega, por que não, por que sim, se sou eu, se é ele, se estamos condenados a nunca nos entender em harmonia tão sonhada… Se o timing vai sempre estar errado, se é culpa minha ou do destino, que parece ter raiva de me ver entendida de vez com o amor.

A verdade é que algumas coisas são impossíveis de serem compreendidas, esgotadas, encerradas. Nos resta conviver com elas, sucumbindo à eterna tarefa de alimentar o moto-contínuo das dúvidas e certezas… Das perguntas sem resposta.

Sou incapaz de compreender o amor. Mas também incapaz de rejeitá-lo. Serei sua eterna vítima inconformada, arrasada… E pronta pra outra.

Sou incapaz de compreender o amor… Mas o Drummond sempre me ajuda nessa eterna tentativa.

NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

AMAR-AMARO

Porque amou por que almou
se sabia
p r o i b i d o   p a s s e a r   s e n t i m e n t o s
ternos ou desesperados
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula evidente?

ah porque amou
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos ecos
lúgubres de você mesm(o,a)
irm(ã,o) retrato espetáculo por que amou?

se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indignação do achado e aguda espotejação
da carne do conhecimento, ora veja

permita cavalheir(o,a)
amig(o,a) me releve
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de nuncarás.

E a Florbela Espanca também…

FANATISMO

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

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