O QUE MOVE O MUNDO

Já faz tempo que eu penso sobre o mundo e a humanidade. Achei que isso era inevitável, mas não é. Tem gente que não pensa, não. E vive feliz assim. Mas eu… Eu sou sempre tomada por uma inconformidade, uma angústia geral sobre as coisas incríveis e horríveis que o ser humano é capaz de fazer…  E desfazer.

De repente, vi pipocarem no minha página do Facebook, pouco mais de um mês atrás, mensagens sobre uma ação de reintegração de posse de um terreno, enorme, em São José do Campos, aqui pertinho de São Paulo. Pessoas indignadas diziam que a polícia, obedecendo ordens do governo do estado ( dando nome aos bois – sob o comando de Geraldo Alckmin, do PSDB ), apoiada em uma decisão da justiça ( dando nome aos bois – a juíza Márcia Loureiro ),  e sob o pedido do prefeito da cidade ( dando nome aos bois – Eduardo Cury, também do PSDB ), estava expulsando desse terreno mais de 2000 – duas mil, por extenso – famílias. E não era só isso. A decisão da justiça estadual contrariava uma outra decisão da justiça federal, que havia dado um tempo para que as pessoas pudessem se organizar para sair de lá, só depois de tentar recorrer às últimas instâncias judiciárias. A ação do governador, que gosta de mostrar por aí uma cara limpinha de bom moço, também contrariava um acordo verbal que havia sido feito um dia antes com líderes comunitários, deputados, representantes da sociedade civil e senador. O terreno de massa falida e inativo há tanto tempo, e que vinha sendo ocupado durante 8 anos por aquelas famílias, seria restituído, de surpresa, à força, e com muita violência, aos seus donos – um deles o Sr. Naji Nahas, famoso por suas acusações de corrupção e bandidagem.

Até aí… O que fazer, não é mesmo? A tal “posse”, tão característica do sistema capitalista em que vivemos – e que aprendemos a normalizar – deveria ser garantida. Embora existam muitos juristas consagrados que consideram a decisão da Juíza Loureiro bastante equivocada ( leia AQUI e AQUI ) por privilegiar o direito à posse em detrimento ao direito à dignidade e até mesmo o direito à vida, tão alardeados em nossa Constituição… Ela fez o seu trabalho, aquilo que considerou justo – independente de quais tenham sido suas razões. Parte da mídia faz questão de chamar aquele lugar de favela, quando na verdade era um bairro ( e mesmo que fosse favela, continuaria sendo o lar de muitas pessoas ); faz questão de dar a entender e até mesmo chamar seus moradores de vagabundos, quando na verdade lá moravam faxineiras, cabeleireiros, pedreiros, garçons, terapeutas, professores, motoristas, diaristas, vigias; faz questão de dizer que as famílias foram atendidas na desocupação e que estão recebendo auxílio do governo, quando foram entulhadas em abrigos dos quais hoje, um mês depois, já foram quase todas expulsas. Muita gente simplesmente se omitiu. Outros mentiram.

Mas o que impressionou foi a crueldade da ação, a maneira como as coisas foram feitas. São inúmeros relatos, de fontes absolutamente confiáveis, que descrevem como crianças, idosos e mulheres grávidas foram arrancados de suas casas, sem ter sequer o direito de pegar seus pertences. Um dia depois, as casas, cheias de móveis, eletrodomésticos, roupas, álbuns de casamento, carteiras, documentos, fotografias, enxovais de bebê – começaram a ser destruídas por tratores que transformaram o terreno do Pinheirinho em uma zona de guerra. O vídeo a seguir mostra bem como ficou o lugar.


Durante as semanas seguintes, o tamanho do estrago foi aparecendo. Pessoas foram feridas, estupradas e abusadas na desocupação. Várias delas não tiveram tempo nem de tirar seus pertences pessoais, como uma calcinha, um RG, uma mamadeira de suas casas. Vários animais de estimação foram mortos a tiros, atropelados ou detonados no meio dos escombros. Instrumentos de trabalho foram inutilizados e destruídos, não só por tratores mas também pelos policiais que estavam “desocupando” o terreno. Pegue uma pessoa, tire dela seu lar, sua história, suas possibilidades de futuro, até mesmo sua identificação, separe-a de quem a apóia, e veja como consegue se virar sem nenhuma dignidade. Nos abrigos, a situação era caótica. Muito calor, nenhuma privacidade, comida ruim, pressão para sair. O governo anunciou um auxílio-aluguel para quem conseguisse comprovadamente alugar uma casa – 400 reais, por 6 meses. Mas muita gente perdeu o emprego, e se tornou persona non grata por um dia ter morado no Pinheirinho. As crianças não tem material nem condições de ir para a escola. Entre os escombros, ocorreram misteriosos incêndios criminosos, que ainda queimaram animais machucados e destruiram o resto do que dava pra salvar. O discurso reticente do governo e da justiça era ofensivo diante de tanta dor e perplexidade. E os voluntários lá, segurando toda essa onda de revolta, miséria e violência.

Desde que começou toda essa desgraça, tudo que faço é me chocar cada vez mais e tentar, de modo bem tímido e limitado, ajudar aquelas pessoas à distância… Porque o que aconteceu ali realmente é uma das coisas mais horríveis que já ouvi falar assim, em tempo real. Pela crueldade deliberada da situação. E desde então passei a conhecer um pouco melhor também as pessoas que me rodeiam. Algumas, se mostrando tão caridosas e solidárias, tão emotivas e guerreiras em função da causa de outros seres humanos e animais em sofrimento. Outras, me revoltando e enojando com seu discurso higienista de apoio a essa ação, e por trás desse discurso, mil preconceitos de quem não aceita o diferente, o que é mais pobre, o que nasceu em outro lugar, o que levou uma outra vida, gente que apoia a violência, a mentira e a maldade enquanto fica aí, papagaiando versículos da Bíblia e esquentando os bancos de igreja, enquanto fica aí, posando de cidadão indignado. Gente que é “contra” o povo do Pinheirinho sem nunca ter feito um esforço mental de se imaginar no lugar de um pai ou uma mãe de família que não tem pra onde ir com seus filhos, não tem pra quem apelar, nem pra onde correr. Vi também bastante gente muito boa de discurso, mas que nada faz; e outras que até fazem, desde que não mexam um milímetro na sua risca diária de afazeres… Sem maiores sacrifícios. A cada uma dessas pessoas, inclusive a mim, sei que a vida  vai dar o que merece, porque o mundo é bem redondinho e dá muitas e muitas voltas. Mas o mais legal é que pude conhecer melhor também a mim mesma… Quem sou eu nesse mundo louco e qual o meu papel na hora de conscientizar e ajudar as pessoas. Em um tempo onde todo mundo tem opinião sobre tudo e carradas de razão, me vi na obrigação moral de me posicionar de verdade.

E uma das coisas que mais me enterneceu entre o povo que se moveu pra ajudar foi saber que um grupo de pessoas estava se organizando pra fazer bonecas de pano, para aquelas crianças que perderam todas as suas bonecas, perderam seus animais, seus cadernos de desenho, sua cama, seu lar… E estão lá, com seus pais, jogadas em abrigos, galpões e barracas no meio da rua – muitas sem conseguir ir à escola ou se alimentar direito. Achei lindo alguém pensar nisso, que delicadeza, que carinho, que amor! As Bonequeiras do Pinheirinho mostraram que é possível nascer flores no meio do lixo.  Paralelamente, eu estava aqui, recolhendo e carregando doações para que pessoas pudessem levar até lá e ajudar quem precisava. Muita gente tem dedicado tempo, esforço e dinheiro para ajudar essas pessoas, incansavelmente. E, graças a Deus, fui me envolvendo cada vez mais com esse povo.

Foi então que ontem, por uma oportunidade oferecida poir minha amiga de infância ( e como ela gosta de dizer, de adultância ) Marília Toledo, pude levar a Andréa Cordeiro, a puxadora desse cordão de bonequeiras, que veio de Curitiba só para chegar com os sacos de bonecas ao Pinheirinho. Seguimos, meu namorado, eu e ela, para São José dos Campos. As bonecas ( e bonecos, e bichinhos, e monstros, e heróis, e robôs ), tão lindas, junto conosco, e mais um monte de outras doações socadas em meu carro pequeno. Quem diria que justamente eu, que achei tão linda e fiquei tão tocada por essa ação, seria a privilegiada escolhida para carregar essas bonecas pra lá!

Olhar o terreno do Pinheirinho pós-expulsão é assustador. Uma coisa é ver as imagens pela TV ou internet. Outra coisa é ver a imensidão daquilo ali, diante dos olhos. O cheiro forte de morte. As árvores pintadas de vermelho, outras queimadas. Os escombros amontoados, centenas de pilhas de escombros. Um cenário de guerra, de tragédia, de devastamento, de destruição total. Nos abrigos, uma situação caótica de miséria, de abandono, de inconformidade, de dor. Gente se sentindo humilhada, agredida, roubada, perdida. Gente que não sabe por onde recomeçar. E entre eles todos… Crianças.

E ao receber das mãos da Andréa as bonecas, as crianças começaram a aparecer de verdade. Sorrindo, pulando, conversando umas com as outras, pedindo uma mão, um carinho na cabeça, um suporte, um olhar de compreensão.

Cheguei em casa toda dolorida de ontem. Não pela distância da viagem… Já dirigi até mais longe. Nem também pelo esforço de carregar coisas. Mas pelo impacto de sentir minhas mãos e pés amarrados vendo tanto a fazer. Ao mesmo tempo, meu espírito estava mais livre.

E foi então que eu descobri que o que move o mundo não é a ganância, o preconceito, a raiva, a cara de pau desses políticos nojentos. Nem os tratores, nem a força bruta, nem nada assim, tão truculento e insensível, que atropela e se movimenta sem parar. O que move o mundo é frágil, delicado, fraco, até. Mas impossível de ser destruído.

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ENFIM, SÓ…

Gosto das arrumações de janeiro… Espero por elas. Hora de colocar tudo no lugar, mudar alguns detalhes, repor e trocar coisas, desfazer os pequenos montes de papel acumulado, separar o que não serve. Fazia muito, muito tempo que não me sentia tão feliz em fazer isso como foi ultimamente.

Talvez porque fazia muito, muito tempo que eu não conseguia ficar realmente sozinha. Eu e eu, de casa vazia, de silêncio consolidado, de dona do meu tempo, sem compromissos para ter que ir a algum lugar ou agradar alguém. Eu e eu, tentando um entendimento perfeito.

Um entendimento perfeitamente possível… E saudoso. Correndo o dia inteiro, trabalhando demais, o tempo todo tanta gente querendo, exigindo, precisando de mim… E eu fui me deixando, aos poucos, pra trás. Gosto, e muito de estar perto de outras pessoas, elas me alimentam por dentro, de muitas formas. Mas também preciso de um tempo de digestão, e isso só posso fazer sozinha.

E é nesse tempo de solidão que eu me encontro com meu espaço. E nele, todas as coisas que são minhas de verdade. Me divirto observando o que toma mais lugar agora. Me surpreendo descobrindo coisas que eu nem sabia que tinha. Me alivio jogando coisas velhas fora. Me empolgo tendo novas ideias para enfeitar as paredes, os porta-retratos, as cantoneiras. Sinto de novo o cheiro dos perfumes, experimento os tons de todas as maquiagens, aponto os lápis, testo as canetas, prego botões que faltam nas roupas, reintegro as fivelas dos sapatos, coloco coisas no sol para evitar o mofo. E em tudo isso, vou fazendo um movimento interior de pensar sobre os cheiros, tons e passos do cotidiano.

No meio das antigas faturas de cartão de crédito, das apostilas que pouco ou nada me ensinaram, das garantias e manuais de instruções de aparelhos que nem existem mais, achei tanta coisa do meu passado… Tanta coisa que me contou sobre quem eu era.

Nos cadernos, anotações antigas e desconexas que já não fazem o menor sentido pra mim. Entre os cartões e cartas de amigos e amores, tantas palavras de gente que nem sei mais onde anda. Fotos de pessoas que não reconheço, ou lembro vagamente. Observações doloridas anotadas, sobre coisas que hoje já não me fazem sofrer mais. Contatos escritos e imagéticos com um passado remoto onde eu fazia de tudo – absolutamente tudo – para ser incondicionalmente amada, sem saber a origem dessa carência toda. As palavras SEMPRE e NUNCA usadas em declarações tão inconsequentes… E até mentirosas. Certezas que viraram dúvidas, dúvidas que viraram certezas. Quanta coisa que ficou pra trás. Quanta coisa que não preciso mais guardar.

Mas também tem tudo aquilo que me fazia e me faz forte até hoje. Amizades que o tempo afastou, mas não desintegrou. Pessoas que só de olhar em uma foto me trazem alegria e calma. Objetos que podem ser trazidos à tona e voltar a fazer parte do meu dia. Livros que me ensinaram filosofias importantíssimas, que apóiam minhas ações. Aquilo que fica dentro dos armários é tão importante quanto aquilo que eu descarto nas caixas de lixo. O que fica é alicerce e me sustenta. O que vai é peso, e me liberta.

E nos livros? Quantas dedicatórias… Quanta coisa que eu precisava reler. Quantas capas que eu sequer abri. Quantos grifos que eu não faria mais. Quantos buracos. Quantos preenchimentos.

E é assim, arrumando cada coisa, revendo cada espaço, que eu vou consertando a mim mesma. Que vou me perdoando pelas minhas próprias limitações. Que vou deixando o passado em seu lugar. Que vou me enchendo de esperança no futuro. Que vejo quanta coisa já fiz. E quantas ainda sonho em fazer. Que visualizo perfeitamente quem estará comigo. E quem eu tive que deixar ir embora, para bem longe.

No cd player, antigas canções que há muito não ouvia. E dentro de mim a certeza de que sou, e sempre serei a minha melhor companhia. O mundo tem muitas coisas e pessoas, e com muitas posso me admirar. Mas as melhores são aquelas que mereceram um lugar dentro de mim.