ENFIM, SÓ…

Gosto das arrumações de janeiro… Espero por elas. Hora de colocar tudo no lugar, mudar alguns detalhes, repor e trocar coisas, desfazer os pequenos montes de papel acumulado, separar o que não serve. Fazia muito, muito tempo que não me sentia tão feliz em fazer isso como foi ultimamente.

Talvez porque fazia muito, muito tempo que eu não conseguia ficar realmente sozinha. Eu e eu, de casa vazia, de silêncio consolidado, de dona do meu tempo, sem compromissos para ter que ir a algum lugar ou agradar alguém. Eu e eu, tentando um entendimento perfeito.

Um entendimento perfeitamente possível… E saudoso. Correndo o dia inteiro, trabalhando demais, o tempo todo tanta gente querendo, exigindo, precisando de mim… E eu fui me deixando, aos poucos, pra trás. Gosto, e muito de estar perto de outras pessoas, elas me alimentam por dentro, de muitas formas. Mas também preciso de um tempo de digestão, e isso só posso fazer sozinha.

E é nesse tempo de solidão que eu me encontro com meu espaço. E nele, todas as coisas que são minhas de verdade. Me divirto observando o que toma mais lugar agora. Me surpreendo descobrindo coisas que eu nem sabia que tinha. Me alivio jogando coisas velhas fora. Me empolgo tendo novas ideias para enfeitar as paredes, os porta-retratos, as cantoneiras. Sinto de novo o cheiro dos perfumes, experimento os tons de todas as maquiagens, aponto os lápis, testo as canetas, prego botões que faltam nas roupas, reintegro as fivelas dos sapatos, coloco coisas no sol para evitar o mofo. E em tudo isso, vou fazendo um movimento interior de pensar sobre os cheiros, tons e passos do cotidiano.

No meio das antigas faturas de cartão de crédito, das apostilas que pouco ou nada me ensinaram, das garantias e manuais de instruções de aparelhos que nem existem mais, achei tanta coisa do meu passado… Tanta coisa que me contou sobre quem eu era.

Nos cadernos, anotações antigas e desconexas que já não fazem o menor sentido pra mim. Entre os cartões e cartas de amigos e amores, tantas palavras de gente que nem sei mais onde anda. Fotos de pessoas que não reconheço, ou lembro vagamente. Observações doloridas anotadas, sobre coisas que hoje já não me fazem sofrer mais. Contatos escritos e imagéticos com um passado remoto onde eu fazia de tudo – absolutamente tudo – para ser incondicionalmente amada, sem saber a origem dessa carência toda. As palavras SEMPRE e NUNCA usadas em declarações tão inconsequentes… E até mentirosas. Certezas que viraram dúvidas, dúvidas que viraram certezas. Quanta coisa que ficou pra trás. Quanta coisa que não preciso mais guardar.

Mas também tem tudo aquilo que me fazia e me faz forte até hoje. Amizades que o tempo afastou, mas não desintegrou. Pessoas que só de olhar em uma foto me trazem alegria e calma. Objetos que podem ser trazidos à tona e voltar a fazer parte do meu dia. Livros que me ensinaram filosofias importantíssimas, que apóiam minhas ações. Aquilo que fica dentro dos armários é tão importante quanto aquilo que eu descarto nas caixas de lixo. O que fica é alicerce e me sustenta. O que vai é peso, e me liberta.

E nos livros? Quantas dedicatórias… Quanta coisa que eu precisava reler. Quantas capas que eu sequer abri. Quantos grifos que eu não faria mais. Quantos buracos. Quantos preenchimentos.

E é assim, arrumando cada coisa, revendo cada espaço, que eu vou consertando a mim mesma. Que vou me perdoando pelas minhas próprias limitações. Que vou deixando o passado em seu lugar. Que vou me enchendo de esperança no futuro. Que vejo quanta coisa já fiz. E quantas ainda sonho em fazer. Que visualizo perfeitamente quem estará comigo. E quem eu tive que deixar ir embora, para bem longe.

No cd player, antigas canções que há muito não ouvia. E dentro de mim a certeza de que sou, e sempre serei a minha melhor companhia. O mundo tem muitas coisas e pessoas, e com muitas posso me admirar. Mas as melhores são aquelas que mereceram um lugar dentro de mim.

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5 comentários sobre “ENFIM, SÓ…

  1. Karina: acompanho você há muito tempo. Bem silenciosa, mas sempre presente e encantada com sua escrita tão profunda e cativante!!! Como você escreve bem!!! Você me comove sempre… Continue mantendo esse blog com suas palavras mágicas e tão verdadeiras!!! Meu coração agradece… A!…e minha filha também…

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  2. Frequentemente a solidão é vista como algo ruim, mas você aí mostrou que entende um outro lado dela… Esse de reorganizar não só os armários mas os espaços de dentro…

    Saudade de você que sumiu… Mas algo me diz que você está bem.

    Beijos, minha querida mais que querida…

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  3. Minha vida anda uma reviravolta! Ando sedenta de poder parar no meu canto e para rearrumar minhas coisas e me reencontrar e reencontrar muitas coisas… Te ler, como sempre, me traz a sensação de ser compreendida, de empatia, de saudade.

    “Gosto, e muito de estar perto de outras pessoas, elas me alimentam por dentro, de muitas formas. Mas também preciso de um tempo de digestão, e isso só posso fazer sozinha.”

    Beijo, Kari.

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