E ELES SE FORAM…

Um dia, não sei quando, eu comecei a ter paixão por livros. Paixão mesmo. Como todo amor de longa data, temos fases mais apaixonadas, eles e eu, e fases mais distantes. A Internet roubou um pouco da minha atenção. Mas não há um dia na vida em que eu não esteja perto de livros, mexendo com livros, querendo livros… Lendo.

Cada livro que tenho na estante me lembra um momento, uma pessoa, alguém, uma fantasia que vivi ( ou que gostaria de viver ). Cada um deles tem uma história, um valor ( que nada tem a ver com preço ), um lugar marcado no móvel. Amores mais que amados, companheiros inseparáveis… Muitos dos quais eu nunca me separaria.

Mas nunca é muito tempo. E para que serve um livro, se não for pra ser lido? Por isso achei tão bacana a ideia de abandonar um livro em lugares estratégicos para que sejam apanhados por outros. A ideia de libertar livros, doando-os para bibliotecas, escolas, lugares onde as pessoas gostam de ler; a ideia de fazer os livros viajarem em intercâmbios com os amigos ( dar alguns e receber outros, e lê-los, e dá-los de novo ); a ideia de ofertar a amigos e parentes livros usados em dias especiais, como quem dá o que tem de melhor a quem mais ama; a ideia generosa e genial de desprender-se, desfazer-se de um livro para que outros possam usufruir de seus benefícios… De seus milagres.

Já fiz isso algumas vezes. E desta vez entrei no Book Crossing Blogueiro, a convite da minha amiga mais que querida Anabel Mascarenhas. A intenção era libertar e libertar-se de um livro, ou dois, ou três, ou dez, deixando-os em lugares especiais e depois contando a experiência.

Acompanhei posts de várias pessoas interessantes sobre o assunto, mas demorei a me organizar. Passei da data. Para mim, não é tão fácil desprender-me. Não das coisas, mas do que significam. Mas no feriado de 1º de maio, consegui finalmente participar.

Escolhi dois livros. O primeiro, “Feliz por Nada”, de Martha Medeiros. Gosto da escrita emotiva, clara e simples da Martha, cronista de primeira linha, sempre puxando o fio das coisas simples do cotidiano que levam aos sentimentos mais profundos. É muito parecido com o que eu faço aqui, no Mafalda Crescida, desde junho de 2003, quando ele começou. “Feliz por Nada” é um apanhado de crônicas publicadas. Comprei na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, um sonho de livraria, justamente quando estava recepcionando, com muita alegria, Anabel, seus pais e seu filho aqui em São Paulo. Ela comprou, fiquei com vontade de comprar também, e assim o fiz. Li cada uma das crônicas devagar, praticamente uma por dia, me apossando das reflexões poderosas da Martha. Foi uma leitura deliciosa. É um livro que eu gostaria muito de guardar. E por isso mesmo, deixei que fosse, antes que criasse poeira aqui em casa.

O segundo livro, “Você Pensa o que Você Acha que Pensa? – um Check Up Filosófico” tem uma história interessante. Comprei um exemplar por acaso, e comecei a ler. Achei interessantíssimo. O livro tenta revelar as incoerências do pensamento a partir de testes lógicos e reflexões bem casadas umas com as outras. Um livro desafiador, agressivo, mas excelente para abrir os olhos. O emprestei para dois amigos, que o devolveram intrigados depois de lerem. E comprei um outro exemplar para dar de preente de aniversário a alguém que, na época, sei que se interessaria bastante pelo conteúdo. Mas meu presente foi sumariamente rejeitado, sem sequer ser aberto, devido a razões absolutamente ocultas pra mim. Acho que a pessoa queria, mesmo sem saber, me magoar definitivamente. E por essas e outras, conseguiu. E fiquei com o livro, lembrança dessa dor, por um bom tempo, sem saber o que fazer com ele. Hoje, liberta do péssimo hábito de guardar marcas concretas de episódios como esse,  fiquei com vontade de me desfazer do livro e da rejeição que ele significou.

Preparei a despedida. Deixei um bilhetinho, escrito à mão, em papel bonito, dentro do livro, explicando que não era um liv ro perdido, e sim um livro abandonado, deixado propositalmente para que fosse encontrado novamente.

Escolhi o lugar. Um lugar onde adoro ler. Um lugar onde já passei muitas horas lendo. Um lugar onde o por do sol é lindo, onde eu gosto de estar e onde as pessoas estão calmas, tranquilas, reflexivas, de portas e janelas abertas.

O Parque Cidade de Toronto é delicioso aos finais de tarde. Fomos, meu amor e eu, dar uma voltinha sob o sol e cumprir minha missão. O livro da Martha deixei em um banco perto do parquinho das crianças. Lugar onde as pessoas se sentam observando a risadaiada e correria dos pequenos, e onde podem pensar como é bom sentir-se feliz por nada… Como pode ser simples a felicidade.

O livro de Filosofia aplicada deixei em frente ao banco onde as pessoas sentam-se diante do sol, para admirar o vai e vem da vida, onde eu mesma gosto de fazer as mais profundas reflexões.

Não nego, não foi fácil virar as costas e ir embora. E se ninguém os quisesse? Não estariam melhor acomodados comigo? E se quisesse voltar a lê-los? E se chovesse de repente? E se quem achasse não entendesse o gesto? E se os pegassem e jogassem em uma caixa de achados e perdidos, sem ler o meu recado?

Mas liberdade tem a ver com isso mesmo… Com o inesperado, com o imprevisível, com um leque enorme de possibilidades que podem acontecer. Liberdade tem a ver com deixar ir… E com ir. E tomara que meus livros possam ir, e ir, e ir, espalhando as sementes que deixaram em mim por aí, fazendo o seu literal papel valer a pena. Eles se foram… Mas estão em mim.

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