PÃE

Pode ser que seu companheiro tenha morrido, ou então que esteja muito doente, em estado vegetativo. Pode ser que o pai de seu filho tenha sumido sem deixar rastro no mundo. Pode ser que o casal tenha se separado, e o filho só tenha pai a cada 15 dias, e olhe lá. Pode ser que ela nem saiba quem é o pai de sua filha. Pode ser que ele tenha sido um homem tão escroto e violento que ela tenha fugido dele. Pode ser que ela tenha mandado ele embora, e ele foi mesmo. Pode ser também que seu marido ainda esteja em casa, mas não se importe. Pode ser que seu marido ainda esteja em casa, mas não tenha crescido o suficiente para ser mais que um outro filho. Pode ser que seu marido ainda esteja em casa, mas sequer se manifeste. Pode ser que ela tenha decidido ter um filho sozinha. Pode ser que ela não controle o impulso de ser dominadora e tenha escolhido um homem fraco para ser o pai de seu filho. Pode ser também que seu homem esteja desmotivado, doente, cansado e não consiga ajudar. Pode ser que ele more longe, muito longe. Ou trabalhe demais. Beba demais. Saia demais. Seja duro e ausente demais.

Deus, que não erra, fez as coisas de modo a ser necessário dois seres se unirem para gerar um outro ser da mesma espécie. Isso porque não é fácil cuidar de um filhote, ainda mais se o filhote for um frágil, confuso e eternamente insatisfeito ser humano, como somos todos. Não é fácil alimentar, guiar, proteger, educar, salvar, podar, instruir, amar um serzinho, enchê-lo de representações, padrões, culturas, palavras e exemplos… Prepará-lo para a vida. Trabalho para ser de equipe. Socialmente, construímos papéis de pai e mãe para criar um filho – papéis que se complementam.

Mas… São tantos mas. E elas estão aí. Aquelas que são, ao mesmo tempo, mães e pais de seus filhos. As “pães”, como se diz por aí.

De uns tempos pra cá, virou moda largar os filhos por aí sem sentir nem sequer dor na consciência, sem ser sequer condenado pela irresponsabilidade. Em uma sociedade que prega o individualismo, o consumo desenfreado, o prazer a qualquer custo… Em uma sociedade que nega a reflexão, o questionamento, a grandeza de alma, largar um filho ou uma filha na mão de alguém e sumir por aí é mais que desculpável… Em muitos casos chega a ser estimulado e louvável.

E então vemos surgir as pães. Aquelas que são pais e mães de seus filhos. Minha mãe é pãe. E como ela vi e vejo tantas outras. Elas saem pra trabalhar e fazem a janta. Elas levam ao futebol e pregam os botões da blusa. Elas vão às reuniões de pais e fazem a poupança no banco. Elas pegam no colo e levam ao médico e explicam as doideiras do mundo e dão dura em namorado sem vergonha e vão buscar o filho baderneiro na delegacia e ensinam a dirigir e falam sobre arte e música e vão e vão e vão e não param nunca de ir.

Claro, elas também gostariam de ter alguém pra dividir a responsabilidade e a alegria de cuidar de um filho ou filha. Mas não têm. E dão conta disso sozinhas. E por isso, merecem não uma… Mas duas comemorações.

Feliz dia dos pães a todas aquelas que desempenham lindamente o papel de pai e de mãe ao mesmo tempo. Seus lugares de honra estão duplamente garantidos na vida de seus filhos.

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