MEDO

Ai, medo medo medo.

O maior sucesso do medo é seu efeito paralisante. Não fosse ele, seríamos pessoas de existência curta, mas intensa e incessantemente em movimento. Qualquer movimento. Puro desejo, puro fluir. Mas o medo nos para, nos dá um respiro pra pensar, pra conter, pra ponderar… Pra decidir.

Claro, há vantagens. Medo protege, conserva, educa, salva, preserva, torna possível a convivência. Mas muitas vezes também nos rouba a inocência, a liberdade, a vontade de fazer coisas interessantes na vida. O medo isola, nos deixa encalacrados em uma prisão pessoal, da qual só nossa decisão de não ter mais medo pode nos tirar. Uma prisão muito triste.

Fiquei pensando nisso depois que sofri, dias atrás, um roubo violento. Eu e meu namorado, colocados pra fora do carro sob a mira de revólveres de desconhecidos, dois homens alucinados berrando conosco, ameaçando, expondo nossa fragilidade, quebrando nossa sensação de eterna segurança. Naquele curto momento, muita coisa passou pela minha cabeça. A minha vida, a vida dele, as coisas que tínhamos, a agressão daquele ato. Quase tudo resolvido ( e devolvido ) depois, percebi que o pior não foi a possibilidade nem o que de fato levaram de nós, e sim o que eles deixaram conosco. O medo. Um medo chato, que incomoda, que nos tirou o prazer de nos despedirmos com calma, do carinho do último beijo, do último olhar do dia, da conversa jogada fora ( e que, só agora percebo, era jogada dentro ). Agora o olhar é desconfiado, apressado… Cauteloso. Perdeu-se parte do encanto. Roubaram parte da alegria de estarmos juntos ali.

E foi então que dei pra pensar em quantas coisas me amedrontam hoje em dia. Eu era mais jovem antes. E de primeiro impulso, achei que era mais corajosa também. Mas não, não é isso não. Olhando bem, mas bem mesmo, percebi que medos sempre me acompanharam. A maturidade anulou alguns, especialmente aqueles medos que eu tinha em relação aos outros – medo de não ser aceita, de parecer ridícula, de dar tudo errado, de não corresponder ao que esperavam de mim, e um fortíssimo medo de dizer não. Medos que passaram com tudo que aprendi e conquistei, a duras penas, na vida ( embora, admito, resquícios deles ainda apareçam ). Mas estar mais velha e mais madura me trouxe novos medos. Medos sérios, graves, que tem a ver com a minha existência, com a perda das pessoas que amo, com a finitude de tudo, com os projetos que precisam ser abortados antes de virarem realidade. Sob o pretexto da prudência, escondo minha preguiça e incapacidade de enfrentamento. O medo ainda continua ganhando várias batalhas.

Olhando por aí, vejo quanto medo paira no ar. Não sou a única a ser roubada por ele. As pessoas ficaram mais inconsequentes no que não deviam… E mais medrosas no que deviam. Uma pena. Mas é muito medo.

E é o medo de algo dar errado que faz a mesmice, o tédio. É o medo da mudança que faz as pessoas cultivarem infelicidades enormes como se fossem a maior joia que possuem. É o medo do contato que faz a solidão tão poderosa. É o medo de olhar que torna as pessoas tão cegas. É o medo de dar um passo na direção errada que faz trilhar o mesmo difícil e pedregoso caminho de sempre. É o medo do ataque que faz os esconderijos serem tão blindados. É o medo de amar livremente que faz a superficialidade dos relacionamentos. É o medo de perder a integridade que faz com que nos comportemos como zumbis, mortos em vida. É o medo do julgamento que nos faz viver uma vida que não é  nossa, e sim a que quiseram pra nós. É o medo de enxergar a realidade que nos coloca em um mundo de devaneios inúteis, alimentado pela ilusão de que temos o controle mesquinho de tudo que acontece e vai acontecer. O medo engana. Não controlamos nada. E em nossa fragilidade e impotência, não nos resta mais nada a não ser esperar que nada de tão ruim vai acontecer enquanto vivemos… E viver.

Não vou deixar de abrir o vidro do carro e sentir o prazer do vento batendo no rosto por medo do que está lá fora, e nem vou deixar de abrir as portas e janelas da casa quando estiver sozinha pra que a luz e a brisa entrem… Não vou mofar. Não vou deixar de dizer o que eu penso com medo de desagradar a quem não faz questão de agradar ninguém. Não vou deixar de ser gentil e receptiva com quem não conheço por medo de não ser correspondida. Não vou deixar de tomar sorvete, e nem de dançar, e nem de sonhar, e nem de ter fé, e nem de beijar demoradamente na despedida. Não vou ter medo de perder o que não quero mais e com isso não mudar pra ganhar o que quero. Não vou  dizer que não consigo e sim que ainda não sei, e com isso vou seguir aprendendo. Não vou deixar meus erros, meus azares e minhas tristezas me acusarem eternamente e me impedirem de ser feliz nas pequenas e grandes coisas. Deixarei pra ter medo dos números e coisas práticas do cotidiano – essas sim, assustadoras por sua capacidade de nos roubarem do que é essencial. O que de bom a vida me trouxer, tentarei receber… Sem medo.

EXPEDIENTE:

* Em 2013 o Mafalda Crescida faz 10 anos. E nessa quase década, conheci através dele muitas pessoas interessantes. Alguns leitores itinerantes, outros bem fiéis ( mais do que eu mesma me mostro ao deixar o blog sem posts por períodos tão longos… ). Por meio desta página, algumas pessoas que convivem comigo conseguiram me conhecer melhor, e isso ressignificou algumas relações. Alguns homens conheceram e se apaixonaram por essas palavras, e outros me amaram mais ainda pelo que eu expressei aqui. Amigos e amores puderam me entender melhor naquilo que só consigo dizer quando paro pra escrever as tais “entrelinhas do cotidiano”. Alguns amigos chegaram, e de repente estava abraçando ao vivo e a cores pessoas com quem talvez nunca tivesse cruzado se não fosse terem me lido e se entendido comigo antes por aqui. São dias, noites, tardes agradáveis, telefonemas, cartas, presentes, cartões, encontros cheios de amor, carinho e identificação, com muitos sotaques diferentes. E pra mim, isso sempre foi o maior ganho do Mafalda na minha vida.

Na última semana, uma de minhas leitoras mais queridas, que se tornou amiga amada, faleceu depois de uma longa e dolorosa luta contra um câncer inexplicável. Isabela Teixeira era jovem, linda, sábia, corajosa, de um sorriso enorme e um grande talento com as palavras. Muitas vezes ela me disse que se entendeu melhor por conta das explicações que faço sobre mim mesma aqui, e isso nos tornava muito mais próximas do que eu mesma imaginava. A partida dela me deixou triste, aquela tristeza a longo prazo, que a gente vai sentindo aos poucos e nos cantinhos do dia-a-dia, e quando me lembro dela, e tenho lembrado muito… Me vem esse susto de pensar que, de fato, como dizia um de nossos poetas preferidos, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Gostaria de escrever algo para ela que honrasse tudo que ela deixou comigo. Quem sabe um dia… Por hora, só meu respeitoso silêncio, envolto na fé de que ainda nos encontraremos de alguma forma… E escreveremos lindas coisas juntas.

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3 comentários sobre “MEDO

  1. Engraçado como são as experiências de cada um. O medo sempre me impulsionou. Ok, hou aquele que me estancou, mas na maioria das vezes, significativamente, me jogou para adiante. Sabe qdo vc era criança, contava até três antes de sair correndo disparado? POis é…

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  2. O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinaram a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos.Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.

    Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más, propriamente ditas.

    No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.

    Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história e, a mais grave dessa longa herança de intervenção externa, é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo a oriente e a ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação, precisamos de intervenção com legitimidade divina. O que era ideologia passou a ser crença. O que era política tornou-se religião. O que era religião passou a ser estratégia de poder.

    Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: Para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.

    Vivemos como cidadãos e como espécie em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se quisermos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.

    Há uma arma de destruição maciça que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra, essa arma chama-se fome! Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Mencionarei ainda uma outra silenciada violência. Em todo o mundo uma em cada três mulheres, foi ou será, vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte do nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.

    A nossa indignação, porém é bem menor que o medo! Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer: Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras e, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe. Muito obrigado!

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  3. Nossa, isso já aconteceu comigo também. E lí um texto que ando sempre com ele na minha carteira. Acho que se encaixa no que escreveu também.

    Um especialista em estudos bíblicos chamado Matthew Henry, certa vez, quando voltava da universidade em que lecionava, foi assaltado. Naquela noite, ele escreveu a seguinte prece:
    “Quero agradecer, em primeiro lugar, porque nunca fui assaltado antes. “
    ” Em segundo lugar, porque levaram minha carteira e deixaram minha vida.”
    “Em terceiro lugar, porque, mesmo que tenham levado tudo, não era muito.”
    “Finalmente, quero agradecer porque fui aquele que foi roubado e não aquele que roubou.”

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