SACRIFÍCIOS

Vendo a inundação de fotos de crianças no Facebook, comentava com Andréa Cordeiro: incrível como as fotos de infância guardam algo que nunca perdemos, e ao mesmo tempo, deixam aquele gosto de saudade de algo que deixamos para trás. Os olhares permanecem, os sorrisos modificam-se… E talvez seja por isso que todos gostem tanto de guardar em bom lugar suas fotos de infância; fotos nos lembram que o tempo passa – para o bem e para o mal – e passando, nos modifica. Comentávamos ainda, Andréa e eu: em uma situação de desastre, depois das pessoas, se possível fosse levar algo da casa, salvaríamos as fotografias… Todo o resto se repõe.

Tantas fotos me fizeram pensar por que raios crescemos e nos tornamos tão distantes da criança que fomos um dia. Alguns olhares, antes tão vivos, hoje são apagados. Algumas verdades que dizíamos se calaram simplesmente. Alguns sonhos simplesmente soterramos. Algumas coisas e pessoas que amávamos tanto, simplesmente deixamos para trás. Como é cruel crescer. E como fazemos crueldades com as crianças para que cresçam logo.

Estou perto de crianças todos os dias. Crianças pequenas, tão graciosas e impetuosas. Tento fazê-las encantar-se com as coisas e compreender o mundo. Sou responsável, entre outros adultos, por ensinar a elas coisas sobre a humanidade – o que se pode saber, o que se pode curtir, as perguntas que ainda restam ser feitas, as respostas que precisam ser modificadas… Músicas, artes e ciências que as pessoas construíram ao longo da história, os livros, as coisas, a natureza, os animais e plantas, os fenômenos, as regras de conduta, a suposta melhor maneira de vencer o desafio de conviver com outras pessoas. Mas também sinto tanta pena delas, por ver o óbvio: quantas coisas roubamos delas. Quantas coisas importantes vamos gradativamente reprimindo, deturpando, corrompendo. Quantas mentiras contamos a elas… Quantas coisas vamos ensinando a fazer, impondo nossa lógica viciada, nossos maus hábitos, nosso jeito que tem deixado o mundo como está, esse mundo estranho que entregamos a elas embrulhado em bela embalagem para presente, mas apodrecido por dentro.

Estragamos as crianças ensinando-lhes o jeito de ser e viver dos adultos, quando deveríamos aprender com elas. Minimizamos sua maneira de pensar, seu jeito de desenhar, sua opinião, suas escolhas,  sua maneira simples de ver o mundo, seu senso estético, sua fala sincrética, a incrível capacidade que elas têm de equilibrar atividade e ócio… Sacrificamos tudo isso para, de certa forma, aplicar nelas o troco do que fizeram conosco – todo esse estrago que tornar-se grande significa. Invejamos os mais jovens… E pela força, diminuímos o que deveríamos engrandecer.

Estragamos a infância de nossas crianças quando dizemos a elas que devem se preocupar com o futuro, justo elas, que são tão sábias em viver cada momento intensamente. Rimos e apoiamos quando deixam brinquedos de lado para se preocupar com outras coisas. Damos a elas roupas de “mocinho” e “mocinha”, calçados que não as deixam correr, brincar, pular. Colocamos em escolas que preparam para o vestibular, quando deveríamos colocá-las naquelas que as deixam brincar, que facilitam a convivência com outras pessoas, que valorizam a natureza, a arte, a filosofia e a reflexão, que as ensinam a viver o tempo lentamente, que salvam o tempo de criação e de fruição. Enchemos o tempo delas de atividades que só fazem sentido para nós, e não as deixamos mais em paz.

Escravizamos tão cedo a infância de nossas crianças ensinando-as a consumir, consumir desenfreadamente. Não temos mais tempo de cozinhar para elas, de ler para elas, de conversar com elas, de banhá-las, de colocá-las na cama. Damos a elas presentes caros, excesso de plástico, aparelhos eletrônicos para entretê-las, quando deveríamos, nós mesmos, ser a companhia de que mais querem e precisam. Pobres crianças que nunca cantaram com seus pais no carro enquanto eles dirigiam, nunca caminharam na chuva, nunca fizeram um graveto virar brinquedo, nunca dormiram na casa dos primos. Cuidamos em excesso sem perceber que as tornamos tão desprotegidas para o mundo que – não podemos evitar – elas enfentarão sem casca, sem poder defender-se. Colocamos a malícia e a maldade no lugar errado.

Exigimos tanto dessas crianças… Coitadinhas. Ensinamos as meninas que não podem curtir o seu corpo. Ensinamos os meninos que não podem expressar seus sentimentos. Ensinamos a todos que não podem dizer o que pensam, não podem criar um jeito diferente de organizar as próprias coisas, não podem dar conta de assumir o que fazem e dizem. Subestimamos suas capacidades, desprezamos suas ideias. E ao mesmo tempo, deixamos que pensem que são os reis do mundo, que podem fazer tudo, que jamais serão impedidos ou barrados.  Damos a eles quartos cheios de coisas, roupas cheias de fechos e detalhes, brinquedos cheios de estímulos, ensinamentos cheios de nossas vivências fracassadas, relacionamentos cheios de regras, agendas cheias de compromissos, e aos poucos vamos deixando-os vazios… Tão vazios, os pobres infantes.

Transformamos a infância em doença. Aos mais calados, que gostam de contemplar a vida em silêncio, damos anti-depressivos. Aos ansiosos e criativos, damos calmantes. Aos que devolvem a agressividade, damos indutores. Aos que insistem em fazer a infância durar um pouco mais, chamamos de imaturos. Categorizamos o comportamento infantil como doentio e medicalizamos a infância, para que as crianças não nos atrapalhem, não nos questionem, não nos mostrem tudo aquilo que acostumamos deixar de lado, submerso, encalacrado, escondido debaixo do tapete.

Tenho pena das crianças, mas elas, enquanto crianças, são fortes e inventivas, e costumam nos dar muitas voltas antes que possamos nos dar conta. Que consigam nos vencer e conservar aquilo que de melhor tinham. Que sejamos superados e encantados por elas. Que tenham compaixão de nós e nos reensinem a viver.

 

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ILUMINADOS

A fé venceu o medo…

A alegria venceu a dor…

O esforço venceu o desânimo…

O sonho venceu a realidade…

O amor venceu a morte…

E o futuro está apenas começando…

Cheio de graça, leveza e esperança.

🙂

“O amor tem feito coisas
Que até mesmo Deus duvida…
Já curou desenganados,
Já fechou tanta ferida…

O amor junta os pedaços
Quando um coração se quebra.
Mesmo que seja de aço,
Mesmo que seja de pedra!

Fica tão cicatrizado,
Que ninguém diz que é colado:

Foi assim que fez em mim,
Foi assim que fez em nós,
Esse amor, iluminados…”