AQUELE CHEIRO…

De vez em quando eu sinto esse cheiro no ar…

E ele me anima, ele me agrada, ele me acalma, ele me inquieta.

E o cheiro vem acompanhado do velho sonho, aquele, em que tenho que atravessar o abismo fundo e escuro, e ao invés de ir me segurando na corda com tanta dificuldade, tenho que ter fé pra largar da corda… E voar. No meu sonho eu posso voar… E é uma sensação maravilhosa. De vez em quando percebo que na vida eu também já voei… E muito alto.

Quando sinto esse cheiro no ar, não sinto mais medo. Já passou o tempo de sentir medo, e já foi também o tempo dos enterros, das despedidas, da consciência de que não posso segurar a linha do tempo, de que não posso segurar os furacões da vida, de que não posso manter as pessoas como estão, de que não posso garantir que sinto e sentirei sempre a mesma coisa. Não mesmo. E quanto mais velha eu fico, menos quero fazê-lo… Mais eu gosto desse cheiro. Mais espero por ele.

Quando sinto esse cheiro, fico nostálgica, sim. Fico balançada em perder os velhos confortos, mas já sei que não me resta outra coisa senão ir em frente.

Ah, cheirinho bom, tão bom quanto o de pão assando, quanto o de goiaba madura, quanto o de neném banhado, quanto o de chuva no asfalto. Cheiro sedutor.

Sou grata por tudo que tem me sido dado, e a mim tem sido dado o essencial.

Mas agora, depois do descanso, chegou de novo o tempo da batalha, dos recomeços, dos começos, das transformações. Sinto muito forte que tudo será diferente em breve, e que eu também serei diferente.

Porque o cheiro é de mudança… Doce e excitante cheiro.

“Cambia lo superficial

Cambia también lo profundo

Cambia el modo de pensar

Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años

Cambia el pastor su rebaño

Y así como todo cambia,

Que yo cambie, no es extraño…”

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SATISFAÇÃO

Sempre vivo falando das coisas que meus avós diziam. Ela, a velhinha bocadura que transformava lixo cotidiano em pérolas ouro-sabedoria; ele, o velhinho doce erudito que transformava tudo que lia e via em assobio e jogava assim, no vento, pra quem quisesse pegar. Poucos pegavam… Eu peguei muita coisa dos dois.

Mas nem tudo eles me disseram. E se eu fosse uma avó, tem algo que eu faria questão de dizer pra quem se interessasse: se quiser saber o que uma coisa ( ou uma pessoa ) é de verdade, vá xeretar lá na sua origem; embora tudo mude, tudo se mostra como realmente é, se olharmos bem no começo.

Sim, buscar nas origens. É por isso que, se eu, além de uma avó, fosse também estudante de Letras, ia me especializar na ciência da Etimologia. Mas já que não sou, recorro ao incrível site Origem da Palavra. E lá aprendi que a própria palavra origem tem um significado interessante: do latim ORIGO, quer dizer, elevar-se, tornar-se visível, aparecer. Enfim… Revelar-se.

Mas toda essa divagação pra dizer que estava lá, no site, pesquisando o que quer dizer satisfação, o que essa palavra carrega. E ela se revelou pra mim. Satisfação é uma palavra que junta duas palavras em latim: SATIS – bastante, suficiente; e FACERE – fazer do modo desejado. Quem está satisfeito tem o bastante… Faz do jeito que quer… Está tranquilo.

Estava eu a pensar na satisfação vendo o irmãozinho de minha afilhada dormir. É um bebê pequeno, de três meses. Dormia e sorria. Aquele sono gostoso, pesado, contagiante. No rostinho dele, nenhum traço de preocupação. Estava alimentado, limpo, tranquilo, sem dor, sentindo o cheiro da mãe, que estava perto. Nada lhe faltava, nada lhe preocupava. Apenas dormia, um sono que nenhum adulto seria capaz de imitar, por melhor que esteja. O bebê, inocente por ainda não entender que o tempo passa, e que a vida dá voltas, e que tudo muda, e que há muito para se querer… Não anseia – apenas dorme. Totalmente satisfeito.

O bebê dormindo me lembrou da extrema insatisfação do mundo.  E que mundo doido e insatisfeito é esse que eu enxergo hoje. Nunca nada é o bastante. As pessoas entraram em um vício perigoso de querer sempre mais, mais e mais.

Não desprezo o desejo, e nem a ambição. Freud já explicou, bem antes que eu, que o desejo é covarde e cruel. Mas é ele, o desejo, a força que nos move – o instinto de vida, a energia da mente… O nosso combustível. Portanto, não há problema algum em desejar. O problema é quando perdemos a dimensão do desejo, e fazemos com que ele, de tão gigante e atrapalhado, seja desprezível e banal… Fazendo de nós escravos que querem tudo, mas nunca valorizam nada.

E as pessoas hoje desejam tanto… Elas querem muitas coisas. Elas querem um motor de carro com mais cavalos. Elas querem mais um hambúrguer no lanche. Elas querem mais canais na televisão. Elas querem estar na moda, bem vestidas e portando objetos valorizados. Elas querem um celular menor e internet mais rápida. Elas querem atendimento rápido no restaurante e na loja. Elas querem viajar pra um lugar onde ninguém mais foi, e lá elas querem tirar milhares de fotos. Elas querem uma posição melhor na empresa e um título a mais de pós-phd-doutorado formação acadêmica. Elas querem saber de todos os assuntos, opinar sobre tudo. Elas querem mais remédios para não sofrer com a depressão e a ansiedade. Elas querem ir a todas as festas e eventos. Elas querem mais plásticas, e roupas, e tratamentos e ginástica para ter um corpo perfeito. Elas querem amigos legais, família bem resolvida, amores eternos. E quando tiverem tudo isso, elas vão se sentir insatisfeitas de novo e querer mais coisas. Pobres deslumbradas pessoas, que de tanto querer por querer, nunca vão entender o que é satisfação.

Lembrei do Riley. Sim, o Riley. Riley é um ratinho, personagem de um fantástico livro álbum. E na contra capa do livro, está escrito assim:

“Nós, seres humanos, vivemos bastante tempo e na maior parte do tempo não somos felizes. Queremos ser mais altos, mais baixos, mais gordos, mais magros, mais velhos e mais jovens. Queremos que o nosso cabelo liso seja ondulado e que os nossos olhos castanhos sejam azuis. Brigamos com nossos pais, filhos, professores, amigos, com todo mundo. Queremos estar em outro lugar, com outra pessoa, comendo outra coisa e usando algo fantástico que ninguém mais pode se dar ao luxo de ter, e depois desfilar num enorme carrão vermelho. Os ratos vivem muito pouco tempo, e na maior parte desse tempo, eles são muito, muito felizes…”

O Riley vale a sua leitura. Pra ele, as coisas e pessoas bastam. E ele é satisfeito… E feliz.

O Fernando Pessoa também vale a sua leitura. Em seu poema em linha reta, ele se diz farto de seus irmãos que agem como deuses e príncipes…

Eu tento ser como o bebê, como o Riley. Tento sim, mesmo sabendo que é uma luta vã. Não que tenha desistido de desejar. Ainda tem uma porção de coisas que gostaria de fazer na vida, e se for possível, farei… Ainda tenho tanto para aprender. Mas não quero desejar de maneira doentia aquilo que os outros querem que eu deseje, muito menos esquecer do que já tenho para querer o que não posso ter. Não preciso procurar o companheiro perfeito – alguém que me ame, com todas as suas limitações e problemas, está bom. Não preciso viajar pra lugares incríveis nas férias – se der pra me divertir e descansar, está ótimo. Não quero fazer mestrados e doutorados para ser uma profissional melhor – ter o tempo de refletir e aprender com gente interessante está de bom tamanho. Não preciso ter carro grande, apartamento luxuoso e bem localizado, salários astronômicos, jóias caras ou roupas e bolsas de marca pra provar que sou boa – o que tenho me serve. Não preciso ter por perto as pessoas que eu idealizei como família, amor ou amigos – é bom que as pessoas reais me surpreendam, e que eu aprenda a conviver com elas do jeito que são. E, tentando ser assim, não chego a ser como o bebê, mas tenho períodos de sono tranquilos de quem está satisfeita com a vida que tem… Existem dias que são assim, dias de tranquilidade e satisfação, quando tudo está ajeitado e estou curtindo algo, mas curtindo profundamente mesmo… Dias em que bastam um almocinho caseiro, um céu bonito pra olhar, um colo gostoso, risadas e conversas, e um bom pedaço de descanso. Dias em que se pode descobrir  que, como dizia a velha placa de caminhão, posso não ter tudo que amo… Mas amar tudo que tenho já me faz feliz.

Ah, bruta flor do querer…

O MELHOR ABRAÇO

Se tem uma coisa que o tempo me trouxe, foi a dura compreensão do aforismo engraçadinho do Mario Quintana: “o pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”.

O poeta concluiu que, em horas de medo, tristeza, desespero, cansaço, doença e inconstância… Embora seja válido ( e mais que válido ) a gente buscar apoio, e recebê-lo de algumas poucas almas iluminadas que ainda se dedicam a importar-se com outras almas perdidas… Na hora H, a coisa tem que ser vivida apenas por quem precisa vivê-la. E os abraços, mensagens, telefonemas, orações, palavras bonitas e boas intenções apenas abrandam, mas não resolvem a dor. A existência humana é essencialmente solitária. E são poucos os que conseguem realmente compartilhá-la;  compartilhar é abrir mão de querer ter tudo para si mesmo; é dividir, é dividir-se, por vezes até mesmo dilacerar-se – coisa que cada vez mais desaprendemos a fazer. Como dizia minha sábia vozinha, “pela gente, só Deus. O resto é conversa.”.

Hoje, depois de passar dias e dias cuidando de outras pessoas, e outras coisas… Eu me senti profundamente cansada. E quando cheguei em casa e me vi sozinha, eu fiquei triste pensando que devia ter alguém ali pra cuidar de mim. Só um pouquinho. Só hoje. Mas não tinha.

Então fui eu mesma tomar um longo banho, separei um livro bem bacana e coloquei na cabeceira, vesti uma roupa muito confortável, deixei tocando minhas músicas favoritas ao fundo, peguei meu chinelinho, e preparei uma canja. E vou dizer uma coisa: duvido que tenha havido no mundo uma canja com gosto melhor do que essa.

Avant!

SEGUINDO

E o mundo não acabou.

Um lado meu até queria que fosse verdade essa história de fim do mundo. É um lado que observa, impotente e assustado, as coisas ruins e estranhas que acontecem. Um lado pessimista, um lado triste… Um lado cansado.

Mas tem um outro lado que acredita no recomeço. É um lado sabedor de que, pra muita gente, o mundo acaba de vez em quando. Gente que perde alguém que ama. Gente que vê projetos darem errado. Gente que se sente sozinho e abandonado. Gente que naufraga. Que perde tudo. Gente que desiste. E, apesar disso tudo, o sol não vai parar de nascer. E essa gente não parou ainda de respirar. E sendo assim, não há jeito, a não ser continuar… Vivendo, indo, acreditando… Esperando por dias melhores.

Sinceramente, não sei o que esperar do ano que começa. Tenho sido surpreendida frequentemente pela vida. Coisas muito ruins acontecem. Coisas muito boas também. E por isso, não sei o que esperar. Apenas tento olhar pra frente com fé, pedindo o tempo de comemorar… E a força para não cair.

Independente do que virá… Seguirei respirando e vivendo. Desejando, sim, o melhor. Lidando, sim, com o pior. E no mais, que seja um ano tranquilo e feliz.

Se o meu mundo não acabou ainda… Eu saberei recomeçar. Sempre sempre.

2o13 será o ano em que o Mafalda Crescida completa 10 anos. Uma década do meu percurso interno registrado em palavras, trocas, imagens. E vejo quanto já andei… E o quanto ainda é possível andar. É só não parar.

Feliz 2013!