SATISFAÇÃO

Sempre vivo falando das coisas que meus avós diziam. Ela, a velhinha bocadura que transformava lixo cotidiano em pérolas ouro-sabedoria; ele, o velhinho doce erudito que transformava tudo que lia e via em assobio e jogava assim, no vento, pra quem quisesse pegar. Poucos pegavam… Eu peguei muita coisa dos dois.

Mas nem tudo eles me disseram. E se eu fosse uma avó, tem algo que eu faria questão de dizer pra quem se interessasse: se quiser saber o que uma coisa ( ou uma pessoa ) é de verdade, vá xeretar lá na sua origem; embora tudo mude, tudo se mostra como realmente é, se olharmos bem no começo.

Sim, buscar nas origens. É por isso que, se eu, além de uma avó, fosse também estudante de Letras, ia me especializar na ciência da Etimologia. Mas já que não sou, recorro ao incrível site Origem da Palavra. E lá aprendi que a própria palavra origem tem um significado interessante: do latim ORIGO, quer dizer, elevar-se, tornar-se visível, aparecer. Enfim… Revelar-se.

Mas toda essa divagação pra dizer que estava lá, no site, pesquisando o que quer dizer satisfação, o que essa palavra carrega. E ela se revelou pra mim. Satisfação é uma palavra que junta duas palavras em latim: SATIS – bastante, suficiente; e FACERE – fazer do modo desejado. Quem está satisfeito tem o bastante… Faz do jeito que quer… Está tranquilo.

Estava eu a pensar na satisfação vendo o irmãozinho de minha afilhada dormir. É um bebê pequeno, de três meses. Dormia e sorria. Aquele sono gostoso, pesado, contagiante. No rostinho dele, nenhum traço de preocupação. Estava alimentado, limpo, tranquilo, sem dor, sentindo o cheiro da mãe, que estava perto. Nada lhe faltava, nada lhe preocupava. Apenas dormia, um sono que nenhum adulto seria capaz de imitar, por melhor que esteja. O bebê, inocente por ainda não entender que o tempo passa, e que a vida dá voltas, e que tudo muda, e que há muito para se querer… Não anseia – apenas dorme. Totalmente satisfeito.

O bebê dormindo me lembrou da extrema insatisfação do mundo.  E que mundo doido e insatisfeito é esse que eu enxergo hoje. Nunca nada é o bastante. As pessoas entraram em um vício perigoso de querer sempre mais, mais e mais.

Não desprezo o desejo, e nem a ambição. Freud já explicou, bem antes que eu, que o desejo é covarde e cruel. Mas é ele, o desejo, a força que nos move – o instinto de vida, a energia da mente… O nosso combustível. Portanto, não há problema algum em desejar. O problema é quando perdemos a dimensão do desejo, e fazemos com que ele, de tão gigante e atrapalhado, seja desprezível e banal… Fazendo de nós escravos que querem tudo, mas nunca valorizam nada.

E as pessoas hoje desejam tanto… Elas querem muitas coisas. Elas querem um motor de carro com mais cavalos. Elas querem mais um hambúrguer no lanche. Elas querem mais canais na televisão. Elas querem estar na moda, bem vestidas e portando objetos valorizados. Elas querem um celular menor e internet mais rápida. Elas querem atendimento rápido no restaurante e na loja. Elas querem viajar pra um lugar onde ninguém mais foi, e lá elas querem tirar milhares de fotos. Elas querem uma posição melhor na empresa e um título a mais de pós-phd-doutorado formação acadêmica. Elas querem saber de todos os assuntos, opinar sobre tudo. Elas querem mais remédios para não sofrer com a depressão e a ansiedade. Elas querem ir a todas as festas e eventos. Elas querem mais plásticas, e roupas, e tratamentos e ginástica para ter um corpo perfeito. Elas querem amigos legais, família bem resolvida, amores eternos. E quando tiverem tudo isso, elas vão se sentir insatisfeitas de novo e querer mais coisas. Pobres deslumbradas pessoas, que de tanto querer por querer, nunca vão entender o que é satisfação.

Lembrei do Riley. Sim, o Riley. Riley é um ratinho, personagem de um fantástico livro álbum. E na contra capa do livro, está escrito assim:

“Nós, seres humanos, vivemos bastante tempo e na maior parte do tempo não somos felizes. Queremos ser mais altos, mais baixos, mais gordos, mais magros, mais velhos e mais jovens. Queremos que o nosso cabelo liso seja ondulado e que os nossos olhos castanhos sejam azuis. Brigamos com nossos pais, filhos, professores, amigos, com todo mundo. Queremos estar em outro lugar, com outra pessoa, comendo outra coisa e usando algo fantástico que ninguém mais pode se dar ao luxo de ter, e depois desfilar num enorme carrão vermelho. Os ratos vivem muito pouco tempo, e na maior parte desse tempo, eles são muito, muito felizes…”

O Riley vale a sua leitura. Pra ele, as coisas e pessoas bastam. E ele é satisfeito… E feliz.

O Fernando Pessoa também vale a sua leitura. Em seu poema em linha reta, ele se diz farto de seus irmãos que agem como deuses e príncipes…

Eu tento ser como o bebê, como o Riley. Tento sim, mesmo sabendo que é uma luta vã. Não que tenha desistido de desejar. Ainda tem uma porção de coisas que gostaria de fazer na vida, e se for possível, farei… Ainda tenho tanto para aprender. Mas não quero desejar de maneira doentia aquilo que os outros querem que eu deseje, muito menos esquecer do que já tenho para querer o que não posso ter. Não preciso procurar o companheiro perfeito – alguém que me ame, com todas as suas limitações e problemas, está bom. Não preciso viajar pra lugares incríveis nas férias – se der pra me divertir e descansar, está ótimo. Não quero fazer mestrados e doutorados para ser uma profissional melhor – ter o tempo de refletir e aprender com gente interessante está de bom tamanho. Não preciso ter carro grande, apartamento luxuoso e bem localizado, salários astronômicos, jóias caras ou roupas e bolsas de marca pra provar que sou boa – o que tenho me serve. Não preciso ter por perto as pessoas que eu idealizei como família, amor ou amigos – é bom que as pessoas reais me surpreendam, e que eu aprenda a conviver com elas do jeito que são. E, tentando ser assim, não chego a ser como o bebê, mas tenho períodos de sono tranquilos de quem está satisfeita com a vida que tem… Existem dias que são assim, dias de tranquilidade e satisfação, quando tudo está ajeitado e estou curtindo algo, mas curtindo profundamente mesmo… Dias em que bastam um almocinho caseiro, um céu bonito pra olhar, um colo gostoso, risadas e conversas, e um bom pedaço de descanso. Dias em que se pode descobrir  que, como dizia a velha placa de caminhão, posso não ter tudo que amo… Mas amar tudo que tenho já me faz feliz.

Ah, bruta flor do querer…

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2 comentários sobre “SATISFAÇÃO

  1. Estou adorando essa fase produtiva sua aqui no Mafalda, querida Karina. Você continua irresistivelmente encantadora no manejo das palavras… E continua trazendo reflexões importantíssimas. De fato, ambição e desejo demais atrapalham bastante, é um poço sem fundo. Podemos trocar isso tudo pelos sonhos, mais leves e menos tiranos! Não pare! Continue escrevendo…. E sendo feliz. Beijo saudoso…

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  2. Oi, Karina
    Que delícia lê-la novamente… Sabe, eu penso exatamente como vc, e às vezes me sinto completamente na contramão desse mundo em que as pessoas tem esquecido o essencial e se alucinado na busca por coisas efêmeras e muitas vezes desnecessárias.
    Obrigada por mais essa preciosa reflexão.
    Abraço apertado…

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