ESCRITOS DE CASAMENTO IV – OS VOTOS

Tenho pensado muito se pessoas imperfeitas podem fazer promessas. Que direito temos, em nossa tão limitada humanidade, diante de tantas variáveis do tempo, diante daqueles 50% que não dependem de nós, diante de tanta coisa que pode mudar, de prometer alguma coisa a alguém? Como posso prometer amar alguém para sempre?

Mas, como aprendi nesse tempo de preparação para o casamento, não é o amor que sustenta uma aliança… E sim o compromisso que fazemos que sustenta o amor. Amar é uma decisão renovada todos os dias, em nossa disposição de fazer o outro feliz… Em nossa fé… Em nossa abertura para renúncia, sem deixar nossa dignidade pra trás… Em nosso eterno aprendizado de entregar-se e salvar-se ao mesmo tempo… Em nossa consciência de que sempre haverá outras tantas possibilidades, mas estarmos juntos foi a nossa escolha.

Os votos são os mesmos para todos… Amar, respeitar e ser fiel – na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, até que a morte nos separe. Hoje, em meu coração, esses são os meus desejos mais profundos.

Mas tem um monte de outros votos que gostaria de fazer… Que mais do que compromissos, são intenções… Desejos.

Que tenhamos prazer em comer juntos, em cozinhar juntos. Que cada panela, cada prato, e cada copo esteja sempre cheio de saúde e carinho, e que não falte um tempero diferente, mesmo no arrozfeijão do dia a dia.

Que nossa cama seja boa para dormir depois de termos cansado bastante nos enroscando. Que nunca nos sintamos obrigados a fazer sexo, que ele nunca seja para cumprir protocolos ou funções, e sim por fome, por desejo, por loucura. Que sejamos criativos. E que nunca usemos o sexo para manipular um ao outro, e sim para brincarmos, seduzirmos, renovarmos no corpo a paixão que está na alma.

Que nunca percamos esse gosto maravilhoso pelas coisas simples. Que continuemos gostando do papo, dos livros, das palavras, da música, e de tudo aquilo que nos alimenta e nos afina. Que tenhamos olhos para enxergar a beleza do cotidiano.

Que saibamos deixar da porta pra fora qualquer tipo de influência ruim. Que saibamos identificar aqueles que nos querem bem e diferenciá-los de quem finge querer bem. Que o nosso futuro a ser construído não nos deixe lembrar do passado, mas se mesmo assim lembrarmos, que seja para comemorar o que hoje é tão diferente de antes, e tão bom, e tão perfeito.

Que não anulemos um ao outro com manias, com falta de comunicação, com imposições. Que seguremos o ímpeto de brigar por bobagens, que saibamos defender as questões que realmente importam. Que deixemos pra lá o que não vai fazer diferença em pouco tempo. Que não usemos um ao outro como lata de lixo. Que tenhamos cautela, cuidado com as palavras. Que não deixemos que a intimidade acabe com o encanto. Que não usemos o que descobrirmos um do outro como armas na hora da raiva.

Que as ilusões sejam docemente vencidas pela realidade… Que possamos ver um ao outro como somos, e não como gostaríamos que fosse.

Que não percamos essa mania deliciosa de conversar, e que também saibamos respeitar os momentos de silêncio um do outro. Que nossa casa tenha sempre espaço para ficarmos juntos… E também para ficarmos sozinhos, se precisarmos.
Que nossa despensa esteja sempre cheia, pelo fruto do nosso trabalho. Que possamos dividir as contas, o trabalho da casa, os aborrecimentos, e os problemas com o mesmo entusiasmo com que dividimos os sucessos e alegrias. Que não nos falte a calma para lidar com os momentos ruins um do outro. Que os valores que nos guiam estejam sempre claros e fortes.

Que saibamos rir muito. Rir um do outro. Rir um com o outro. Rir do feijão queimado, da roupa manchada, do prato que quebrou, da coisa que ficou fora do lugar, da mania esquisita, do escorregão. E que isso tudo só nos deixe ainda mais apaixonados.

Que nossa mesa esteja sempre cheia de amigos. Amigos, muitos amigos. Amigos da família, do trabalho, da igreja, dos estudos, da rua, da infância, da juventude, os que já estão, os que voltarem, e os que vierem. Que eles gostem de vir nos ver… E que possamos recebê-los com alegria e fartura.

Que Deus esteja sempre presente em nosso lar. Para nos ensinar o que não sabemos, para multiplicar os pães e os peixes, para consolar, para nos mostrar o que está escondido, para proteger os nossos bens e as nossas vidas.

Que saibamos manter nossos segredos. E que o amor seja repleto em gestos e palavras… Por vontade, e por esforço.

E vamos lá, que a vida é linda… Por causa do amor.

 

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ESCRITOS DE CASAMENTO III – DESPEDIDAS

Que alegria é casar! É uma correria muito maluca, mas é muito gostoso. Não estou falando apenas de estar me preparando para estar com alguém que amo e com quem quero passar o resto da vida, porque isso tem um lado muito profundo e que não consigo ainda descrever nem para mim mesma. Mas tem muitas partes boas nisso.

Pensar e sonhar acordada com o grande dia, ganhar um monte de presentes, contar com a ajuda das pessoas, rever velhos amigos, fazer amigos novos, aproximar as famílias, planejar como será a casa, me perder nos carinhos e sorrisinhos cúmplices do noivo, me olhar no espelho com o vestido de noiva, comprar os móveis, ir aos lugares, visitar os sites, ler os livros, ouvir as canções, os papos com as amigas, jogar coisas velhas fora, comprar enxoval, as utilidades domésticas, furar as paredes, colocar a minha marca em tudo, fazer lembrancinhas, aprender a dizer “nós” e “nosso” em vez de “meu” e “eu”, experimentar o cheiro das flores e o gosto do bolo e dos doces… Ai, que cheiro bom tem essa coisa de casamento!

Mas já tinha ouvido dizer, e é verdade, que pra quem topa participar desse ritual, os momentos difíceis aparecem. Me lembro de amigas contando que não conseguiram tirar as roupas do armário do quarto de solteira, que brigaram com o noivo/marido por eles terem casado com elas, que choraram horas quando voltaram da lua de mel, que voltaram pra casa da mãe por não conseguir dormir na própria casa nos primeiros dias, que chamaram o pai pra resolver problemas da casa na primeira dificuldade. Achava tudo isso algo e curioso e meio louco… Mas passando pela situação, finalmente entendi. Casar talvez seja a decisão mais importante da vida. E isso dá um medo, uma euforia e um luto muito grande.

Nos últimos dias percebi, finalmente, que pra ir pra minha casa nova e começar uma nova família, eu teria que sair do meu quarto, da minha casa… Do meu papel de sempre.

Sim, e foi desde sempre que fui a filha, a irmã, a sobrinha, a prima, a neta… A moça que muitas vezes não queria crescer. Aqui, na casa da minha mãe, a casa onde eu cresci e vivi 37 anos da minha vida, sempre foi o meu lugar. E para uma pessoa que gosta muito mais de raízes do que de asas, como eu, desprender-se do chão é algo muito estranho.

Achei estranho deixar o travesseiro que amparou tantas noites de sono e tantos sonhos, tantas lágrimas e sorrisos. Mais estranho ainda tirar as roupas do guarda-roupa que sempre esteve ali e sempre foi só meu. Tirar os meus livros, embalar os CDs, tomar a decisão de guardar ou descartar papéis, fotos, bilhetes, cartões… Cada coisa que eu desencalacrava de cada buraquinho da casa tinha uma história… Carregava um pouco de mim. E como é forte essa sensação de estar triste e feliz ao mesmo tempo.

Fiquei pensando que a vida agora vai ser outra. Não estarei sozinha, mas dividirei com meu marido as coisas de igual pra igual. Serei a dona da casa, a esposa, a mãe. Eu vou organizar, limpar, cuidar, fazer acontecer. Quando eu ligar o chuveiro, serei eu a pagar a água e a luz. Quando eu for cozinhar, eu decidirei o cardápio. Quando faltar ou sobrar alguma coisa, a responsabilidade vai ser minha. Eu vou pensar se quero ou não plantas na minha varanda, se quero o escorredor de arroz no armário de cima ou de baixo, se o telefone fica no quarto ou na sala, pagar as contas no banco, ir fazer o mercado, e que marcas de comida e produtos de limpeza vamos trazer para casa. Quando der algum problema, a bomba vai estourar na minha mão. É coisa de gente grande. E pra quem viveu uma vida inteira sendo filha da mamãe, isso dá um medo e um prazer muito grande.

O último armário que eu abri para esvaziar foi o que tinha os brinquedos da infância. A minha boneca, algumas fotos, lembranças de tempos antigos. Um pequeno relicário que conta a minha história.Um passado que me fez ser quem eu sou.

A sensação de vazio ao olhar o meu quarto sem as minhas coisas só passou quando vi tudo ajeitado na outra casa. Tudo arrumadinho, novinho, com cheiro de mudança. Por aí vem uma vida nova.  E isso me trouxe uma alegria indizível.

Enfim, casar é uma coisa complicada, que embora tanta gente faça, é preciso lembrar: precisa muita coragem.

Uma coragem que só o amor pode dar.