ESCRITOS DE CASAMENTO III – DESPEDIDAS

Que alegria é casar! É uma correria muito maluca, mas é muito gostoso. Não estou falando apenas de estar me preparando para estar com alguém que amo e com quem quero passar o resto da vida, porque isso tem um lado muito profundo e que não consigo ainda descrever nem para mim mesma. Mas tem muitas partes boas nisso.

Pensar e sonhar acordada com o grande dia, ganhar um monte de presentes, contar com a ajuda das pessoas, rever velhos amigos, fazer amigos novos, aproximar as famílias, planejar como será a casa, me perder nos carinhos e sorrisinhos cúmplices do noivo, me olhar no espelho com o vestido de noiva, comprar os móveis, ir aos lugares, visitar os sites, ler os livros, ouvir as canções, os papos com as amigas, jogar coisas velhas fora, comprar enxoval, as utilidades domésticas, furar as paredes, colocar a minha marca em tudo, fazer lembrancinhas, aprender a dizer “nós” e “nosso” em vez de “meu” e “eu”, experimentar o cheiro das flores e o gosto do bolo e dos doces… Ai, que cheiro bom tem essa coisa de casamento!

Mas já tinha ouvido dizer, e é verdade, que pra quem topa participar desse ritual, os momentos difíceis aparecem. Me lembro de amigas contando que não conseguiram tirar as roupas do armário do quarto de solteira, que brigaram com o noivo/marido por eles terem casado com elas, que choraram horas quando voltaram da lua de mel, que voltaram pra casa da mãe por não conseguir dormir na própria casa nos primeiros dias, que chamaram o pai pra resolver problemas da casa na primeira dificuldade. Achava tudo isso algo e curioso e meio louco… Mas passando pela situação, finalmente entendi. Casar talvez seja a decisão mais importante da vida. E isso dá um medo, uma euforia e um luto muito grande.

Nos últimos dias percebi, finalmente, que pra ir pra minha casa nova e começar uma nova família, eu teria que sair do meu quarto, da minha casa… Do meu papel de sempre.

Sim, e foi desde sempre que fui a filha, a irmã, a sobrinha, a prima, a neta… A moça que muitas vezes não queria crescer. Aqui, na casa da minha mãe, a casa onde eu cresci e vivi 37 anos da minha vida, sempre foi o meu lugar. E para uma pessoa que gosta muito mais de raízes do que de asas, como eu, desprender-se do chão é algo muito estranho.

Achei estranho deixar o travesseiro que amparou tantas noites de sono e tantos sonhos, tantas lágrimas e sorrisos. Mais estranho ainda tirar as roupas do guarda-roupa que sempre esteve ali e sempre foi só meu. Tirar os meus livros, embalar os CDs, tomar a decisão de guardar ou descartar papéis, fotos, bilhetes, cartões… Cada coisa que eu desencalacrava de cada buraquinho da casa tinha uma história… Carregava um pouco de mim. E como é forte essa sensação de estar triste e feliz ao mesmo tempo.

Fiquei pensando que a vida agora vai ser outra. Não estarei sozinha, mas dividirei com meu marido as coisas de igual pra igual. Serei a dona da casa, a esposa, a mãe. Eu vou organizar, limpar, cuidar, fazer acontecer. Quando eu ligar o chuveiro, serei eu a pagar a água e a luz. Quando eu for cozinhar, eu decidirei o cardápio. Quando faltar ou sobrar alguma coisa, a responsabilidade vai ser minha. Eu vou pensar se quero ou não plantas na minha varanda, se quero o escorredor de arroz no armário de cima ou de baixo, se o telefone fica no quarto ou na sala, pagar as contas no banco, ir fazer o mercado, e que marcas de comida e produtos de limpeza vamos trazer para casa. Quando der algum problema, a bomba vai estourar na minha mão. É coisa de gente grande. E pra quem viveu uma vida inteira sendo filha da mamãe, isso dá um medo e um prazer muito grande.

O último armário que eu abri para esvaziar foi o que tinha os brinquedos da infância. A minha boneca, algumas fotos, lembranças de tempos antigos. Um pequeno relicário que conta a minha história.Um passado que me fez ser quem eu sou.

A sensação de vazio ao olhar o meu quarto sem as minhas coisas só passou quando vi tudo ajeitado na outra casa. Tudo arrumadinho, novinho, com cheiro de mudança. Por aí vem uma vida nova.  E isso me trouxe uma alegria indizível.

Enfim, casar é uma coisa complicada, que embora tanta gente faça, é preciso lembrar: precisa muita coragem.

Uma coragem que só o amor pode dar.

 

 

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5 comentários sobre “ESCRITOS DE CASAMENTO III – DESPEDIDAS

  1. Coisa mais linda…
    É mesmo, amiga, é difícil, e mais ainda quando é feito conscientemente.
    Fiz isso muito jovem, e não senti tanto, porque primeiro saí de casa pra estudar, e morei num “não lugar” por 4 anos: o quarto que não era meu, e que mudava a cada semestre; as companheiras de quarto que eu não escolhia; a casa com a qual eu não tinha vínculos… então sair para a MINHA casa foi um grande alívio. Mas não nego que chorei também, quando vi a montanha de pratos pra lavar, a comida por fazer… e o desespero de enfrentar as filas pra comprar comida (e até papel higiênico), na grande crise de 1986, com o plano cruzado.
    Mas tudo isso passou, e virou somente memória.
    Foque no futuro, e como você mesma disse, crie asar e permita que as raízes se firmem num novo lugar!
    Beijo enorme, e até daqui a pouco!!!

    SIM, EU VOU AO SEU CASAMENTO!!! E VOU REGISTRAR ESSE MOMENTO LINDO!!!

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  2. Karina, querida, felicidades mil… Você é capaz de aprender tudo o que não sabe. E olha que você já sabe muita coisa… Muito mais coisa do que imagina. Boa sorte no seu dia, na sua vida!

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  3. Nossa, me lembrei de quando casei… voltando da lua de mel passei na casa da minha mãe ainda para buscar algumas coisas que ainda ficaram… foi horrível… caiu a ficha que estava indo embora viver a minha vida… por outro lado foi bom chegar na minha casa e ver que estava como havíamos planejado e que a partir daquele momento eu decidiria como ia ser, quando iria lavar as roupas rs rs rs, onde iria colocar as coisas, a que horas iriamos comer…. partilhar e decidir tudo isso com a pessoa amada então, foi uma forma de conhece-lo melhor… quantas coisas eu ainda não sabia sobre ele e como tudo era encantador… faria tudo novamente.

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  4. Que Deus continue contigo nesse novo caminho, amiga…
    Como vc bem analisou, com tantas novidades!!
    Eu casei menina demais, sem essa maturidade, sem essa segurança, sem saber direito o que estava pela frente, e os sustos foram grandes, quem é que pensa em contas, impostos, supermercado, feira, se nunca trabalhou na vida? rsrsrs…
    As descobertas e o fato de parecer que estava era brincando de casinha fazem parte do lado bonito…
    E no meio do caminho, tudo vai tomando forma e ganhando vida…
    Bjs, belo texto! Como tudo que vc escreve!!

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