ESCRITOS DE CASAMENTO V – PRESENTES

Quando você casa, te dão muitos presentes. Muitos mesmo. Muito mais do que a gente ganharia em muitos aniversários. Eu fiquei impressionada. E muito feliz.

Não é fácil começar uma vida. O custo de se montar uma casa e fazer uma pequena e simplória festa é alto, e as pessoas ajudam porque comemoram com você essa nova etapa. Eu já dei muitos presentes de casamento. Muitos dei com sacrifício, outros nem tanto, mas sempre dei com prazer. Porém, só percebi a importância deles quando fui eu a casar. São muitos mimos vindos dos familiares e amigos – amigos de todo canto, de toda época da vida, de todo jeito e intensidade. Alguns presentes são úteis, outros são bonitos, outros são interessantes. Uns são exclusivíssimos, outros formais, outros elegantes. Mas todos fazem a gente se animar a começar a vida, e marcam a presença das pessoas em cada cantinho da casa, da vida.

Cafeteira, amassador de alho, escova de banheiro, televisão, ventilador, lençol de cama, conjunto de ferramentas, pano de prato,  batedeira, micro-ondas, cesto de roupa, talheres, pratos, copos, fogão, geladeira, tapete, mangueira, máquinas e eletrodomésticos maravilhosos, jogo disso, jogo daquilo, porta-isso, porta-aquilo, aquela quantia em dinheiro que vem na hora em que você mais precisa… Todas essas coisas têm preço, embora o valor delas a gente só consiga perceber mesmo no dia-a-dia.

Coisas têm, sim, preço. Mas as coisas, com o tempo, somem. Infelizmente é verdade. As coisas são assim. Elas se desgastam, quebram, pifam, rasgam, ficam manchadas, queimam, encardem, ficam obsoletas. E em algum tempo, precisam ser trocadas. Com as coisas que nos foram dadas, creio que não será diferente.

Porém tem algo que vem junto com as coisas, que ganhamos de monte por essa ocasião do casamento. Algo belíssimo, que o tempo não é capaz de apagar, que ninguém é capaz de botar preço, que encheu nosso coração de alegria e fez a gente entender bem o significado profundo da palavra benção. Junto com as coisas, nós ganhamos muitos gestos… Gestos de amor, de carinho, de amizade, de simpatia, de nobreza de espírito, de alegria, de atitude, de benção. E esses foram os verdadeiros presentes.

Todas as coisas são legais, mas nunca vamos esquecer de todo o tempo que nos dedicaram os familiares que viveram em função desse casamento junto com a gente nesses meses. Não dá pra esquecer os irmãos que furaram parede, foram com a gente alugar casa, fiaram, fizeram bolo e docinhos, carregaram coisas pra lá e pra cá, conversaram, deram força, embrulharam lembrancinhas e convites, cuidaram pra que tudo saísse perfeito. Não dá pra esquecer as cunhadas que foram pra cozinha, organizaram materiais, dedicaram tempo de descanso, foram na 25 e março, grampearam e separaram papéis, emprestaram seus filhos pra serem pajens e daminhas, gastaram dinheiro com cabeleireiro e aluguel de vestido, arrumaram bibliotecas e armários de cozinha, e ainda por cima, deram toda força o tempo todo pra que a gente visse o lado lindo de tudo. Gestos pequenos ou grandes que nunca vamos esquecer.

Assim como também não esqueceremos da amiga fotógrafa que saiu lá de Ilhéus só para acompanhar a noiva, acalmá-la, e registrar em fotos belíssimas e cheias de emoção esse dia tão importante. Nem dá pra esquecer nenhuma das madrinhas que toparam o desafio de entrarem sozinhas na cerimônia só porque era importante pra nós. As mesmas madrinhas que agiram como irmãs ao aconselhar, dar força, cuidar do bolo, da cerimônia, ajudar a planejar os detalhes. Nós vimos todos esses gestos. Vimos também quem viajou de Brasília, do Rio de Janeiro, de Minas, da Bahia, e de outras cidades do estado e veio sem piscar só pra nos dar um abraço. Vimos também quem não pode vir, mas mandou tanto carinho em correspondências, toalhas bordadas em cores especiais que chegaram pelo correio e que encheram meus olhos de água e nosso banheiro de beleza. Vimos também quem não pode vir, mas queria tanto ter vindo, tanto que o carinho chegou aqui. E sentimos quem esteve de joelho no chão, orando por nós, pedindo todas essas bençãos que vieram.

Também nos tocou a listinha do bolo de noivos em que todo mundo no trabalho colaborou. A gráfica, que fez os convites e lembrancinhas mais lindos que já existiram – esses que foram bolados junto com outra amiga, tão querida, que fez também o livro de assinaturas onde escreveram coisas maravilhosas. E falando em tocar, que maravilha foi a música do nosso casamento, perfeita. Vimos todas as noites em que aqueles amigos saíram para ensaiar depois de um dia de trabalho e largaram em casa os filhos pequenos, com a compreensão dos companheiros e companheiras, tudo pra que o som tocasse em nosso coração para sempre. Ouvimos também um som alto e nítido, só por causa do amigo que veio ajudar a montar a aparelhagem. Assim como ouvimos, e muito, os gestos que foram ditos – as palavras da amiga que me fez sentir a mulher mais especial do mundo no chá de panela; o sermão do pastor, tão inteligente e emocionante; cada sussurro em cada abraço; cada conselho em cada roda de amigos; cada dica animada de quem gosta de criar e fazer festa; cada explosão de felicidade. Deu pra registrar também as conversas de quem segurou as pontas afetivamente, conversando, telefonando, visitando, mandando email, conversando pelo msn, avisando que tudo ia dar certo e ajudando a seguir em frente.

Teve também os gestos pesados. Aqueles, que alguém precisa fazer,e fez. Quem carregou peso, limpou casa, lavou louça, limpou chão, montou decoração com flores, montou mesa, fez sopa, fez torta, mexeu tacho de doce, descascou mandioca, ficou com calo na mão de tanto cortar e enrolar e lavar, empurrou mesa e cadeira, empilhou, entortou,  levou, dirigiu, mexeu, trocou. Cada gesto desse nos poupou e fez nossa vida melhor.

Vimos também os gestos de beleza. As flores, os enfeites, os arranjos de cabelo, as mesas bem montadas, a louça bem lavadinha, o cheiro bom que tinha no ar. Os bordados especiais.

Teve tanto carinho em cada serviço… Vi sorrisos amigos na cozinha, na padaria, na lojinha de xerox, na gráfica, na costureira, no alfaiate, no salão. Em todo lugar tinha gente torcendo por nós.

Tem também os gestos chatos e complicados, mas imprescindíveis. Vimos a prima que resolveu pepinos no dia do casório, a amiga que organizou a cerimônia, quem esperou entrega que não veio, quem saiu correndo pra buscar gelo porque tinha acabado, quem desembolsou grana de última hora e não quis receber de volta, a tia e o tio que ficaram disponíveis pra chata tarefa de esperar entregas, e também foram ao cartório conosco, e também as muitas cabeleireiras que tiveram que trabalhar bem mais cedo naquele sábado, assim como quem saiu lá de São Roque bem cedo pra chegar na hora, e também veio pro chá de panela com tanta alegria e simpatia. E o que dizer de quem perdeu aniversário de neta, jogo de filho, o próprio aniversário, outros casamentos e batizados, só pra estar conosco?

Vimos os gestos de sacrifício. De quem gastou até o que não tinha. De quem veio mesmo sem poder vir. De quem ajudou mesmo sem concordar. De quem brigou pela gente. De quem estava com o coração apertado pelas despedidas, mas sorriu e apoiou. De quem passou por cima de convicções religiosas e pessoais pra nos prestigiar. De quem, mesmo esgotado de cansaço, se doou mais um pouco. De quem veio doente, grávida de barrigão, de gesso, de bengala, de quem dispôs  a si mesmo, sem ter tempo ou dinheiro pra dispor.

Vimos os gestos amorosos da mãe e da tia, que se doaram inteiramente pra nós e conseguiram passar no difícil teste de entender toda essa situação como um ganho… E não uma perda.

Vimos também o enorme presente que foi o dia lindo, o sol, o vento suave, as flores abertas, cada folha cuidadosamente derrubada para formar aquela paisagem belíssima que serviu de fundo pro nosso dia. E antes disso, vimos os pequenos e grandes arranjos que o nosso Pai maior, o Pai do Céu, aquele que tudo pode, fez para garantir que, de fato, nada nos faltasse, e que deitássemos em verdes pastos, bebêssemos de águas tranquilas e tivéssemos a alma refrigerada. A Ele, também teremos sempre que agradecer.

Claro, tem gestos que a gente pode não ter percebido, mas que de alguma forma chegaram a nós. Assim como outros tantos que não dá pra descrever a importância. O fato é que todos esses gestos foram presentes caríssimos que nunca esqueceremos. E que, certamente, nos ajudaram e ajudarão por muito tempo a sermos presente na vida um do outro.

Com o coração grato, só nos resta retribuir no limite das nossas forças… E na infinitude do nosso amor. 🙂

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