UM PEDAÇO DE BOLO

Hoje eu passaria na Sodiê e compraria um pedaço de bolo pra gente comemorar. Mês passado você me disse que compraria um bolo bem casado, cheio de doce de leite, porque o nosso casamento era muito doce, e a gente tinha casado bem, mesmo. Eu concordei com você. E a gente passaria a tarde toda namorando, falando bobagem, dando risada e cochilando, na maior preguiça. E eu diria pra você, puxa, o nosso casamento é tão novinho, mas parece que faz tanto tempo… 3 meses que valeram 3 décadas. Tenho certeza que você concordaria comigo.

Ou talvez hoje você teria estado comigo e com a minha família, ou teríamos estado com a sua, ou quem sabe a gente faria um almoço bacana aqui em casa chamando as duas famílias e alguns amigos, pra esse povo partilhar da nossa felicidade. E eu ficaria cansada e você feliz e radiante como andava ultimamente, e a gente se sentiria daquele jeito realizado, e você daria risada com as minhas atrapalhações, e com o meu bico pra esse horário de verão que eu odeio.

Hoje você deixaria um bilhete na porta da geladeira, aqueles bilhetes com aqueles apelidos carinhosos que você vivia deixando espalhados pra mim por aí, seus bilhetes legais e apaixonados. E eu pegaria o bilhete e pensaria, puxa, não acredito que isso está acontecendo… É bom demais pra ser verdade. Acho que era mesmo.

Hoje a gente sonharia um pouco mais, como andávamos fazendo, com o nosso filho ou nossa filha, com a nossa casa, e talvez a gente tivesse se inscrito em um cursinho bacana de iniciação literária, ou você já tivesse começado a faculdade… Aquela que nem deu tempo de você saber que passou. A gente gostava de sonhar. E eu gostava do seu jeito, tão confiante, dizendo que ia dar certo, e ia sim, e pronto, já tinha dado certo. Eu gostava de você resolvendo todas as minhas angústias com um beijo, um agarrão,  e uma apertada no nariz.

Talvez a gente já tivesse brigado alguma vez, talvez outra coisa ruim tivesse acontecido, talvez uma coisa muito legal tivesse acontecido, mas de um jeito ou de outro, a gente estaria junto.

Eu levo a vida, sim, você sabe que eu levo… Se tem uma coisa que eu sou é uma pessoa que dá conta do recado, o que de maneira nenhuma é uma vantagem, mas é assim que é. E se a vida decidiu que eu tinha que continuar aqui, viva e sozinha, então é assim que vai ser. Aprendi que “não discuto com o destino, o que pintar, eu assino”, e acabou. Eu vou continuar trabalhando, estudando, cuidando das pessoas, convivendo, sorrindo o dia, chorando a noite… E o resto vai passar. “Tristeza não tem fim, felicidade sim.” Eu deveria ter ouvido o poeta.

Eu teria muito pra falar, mas ultimamente tudo que eu quero é solidão e silêncio. Só. Não me interessam o telefone, nem os lugares para passear, nem as notícias cada vez mais absurdas, nem as providências, nem os planos, nem as lembranças. Por gratidão, tento corresponder ao carinho das pessoas que se importam… E espero. Espero a vida dar sua volta mais uma vez.

Hoje, na verdade, eu não comprei um pedaço de bolo. Porque, meu bem, a vida não tem mais aquele gostinho doce que você deixava em mim. Não era o bolo que era tão bom… Mas era comê-lo com você que fazia sentido.

Sim, estou apática, raivosa, desesperançosa e descrente. Mas mesmo isso acaba. É só esperar.

“O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou
O que foi feito da vida, o que foi feito do amor?
Quisera encontrar aquele verso menino que escrevi há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade, falo assim por saber
Se muito vale o já feito, mais vale o que será
E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir
Falo assim sem tristeza, falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer
Outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz…”

MAIS NOTÍCIAS DE MIM

São Paulo, 06 de outubro de 2013

Olá, meu bem.

Continuo com saudades. Continuo morrendo de vontade de falar com você… De deixar você saber de mim.

O tempo me parece mais estranho que nunca. Tem horas que parece que um século se passou, desde que você morreu. Tem horas que tudo parece tão absurdo como se fosse ontem, e dói absurdamente. O tempo cronos passa sem parar, do mesmo jeito, e isso vai ajudar. Isso eu eu sei. Mas o tempo de dentro está em espiral, dando voltas e mais voltas, me deixando perdida… Isso eu sinto. E o pior, você não está aqui pra me explicar as coisas, do jeito que sempre fez.

Foi uma semana longa, mas passou. Segunda, peguei sua certidão de óbito e fiquei pensando no que aquele papel se parece com você, com quem você era. Quem me atendeu foi o mesmo moço que pegou os papéis do nosso casamento, tão pouco tempo antes. Ele se lembrou de nós, disse que reparou em como estávamos felizes naquele dia, que chamou a atenção dele o nosso jeito. Também ficou triste por nós, ficou com pena de mim. E quando as pessoas me olham do jeito como ele me olhou, eu fico pensando que não estaria louca se subisse agora para a nossa cama e não quisesse levantar de lá nunca mais. Fui também ao seu trabalho, avisar sobre tudo, e são tantos papéis… Papéis que de modo algum preenchem o que você foi. Coisa estranha, ser sua viúva. Viúva, na raiz latina da palavra – alguém que está vazia.

A casa está vazia, cada vez mais. Sinto que ela, que era do nosso jeito, nosso tamanho, a cada dia fica grande demais pra mim. Não sei o que fazer. Algumas pessoas esperavam que eu estivesse prostrada, chorando, acabada. Outras esperavam que eu já tivesse tomado algumas decisões importantes. Não sei quem tem razão, mas nem ligo. Só eu sei o que vai dentro de mim… E no mais, espero o tempo passar pra resolver o que não tem jeito.

Terça, voltei ao trabalho. Foi um esforço sobre-humano, mas eu fui. Lá recebi muito carinho, como tenho recebido de tanta gente, durante toda a semana. As crianças me encheram de abraços, beijos e perguntas; as amigas, que casaram comigo, também se mostram enlutadas, se esforçando pra sorrir e me animar. Foi bom ter voltado, você sabe o quanto amo estar ali e o quanto amo o que faço… Mas faltou você, no final do dia, me esperando pra falarmos… Pra você rir dos meus comentários, e pra dormir comigo. Talvez, pela sua falta, eu quase não tenha dormido esses dias… Mas tem uma hora que o cansaço do corpo vence o protesto do coração, e eu desmaio… Pra acordar assustada, pensando se tudo isso está sendo um sonho, e se vou acordar uma hora dessas e perceber que você está ali.

Voltei também pras coisas da faculdade, mesmo tendo enorme dificuldade de me concentrar. Não queria falar de sociologia da infância, de ensino tradicional, de ferramentas de observação… Só tem duas coisas que eu quero – ficar em silêncio, ou falar de você. As pessoas não me entendem, nenhuma delas, mas não as culpo… Ninguém que eu conheço passou por algo assim. Por isso fiquei tão feliz quando chegou o livro do C. S. Lewis sobre o luto. Estou lendo, e isso me dá um enorme alento. É importante a gente saber que tem alguém, no mundo, que entende o que você está passando, mas nem tem coragem de confessar.

O chuveiro continua pingando, e parece que agora a torneira está pingando também. O Felipe fez aniversário. A Deby e o Guilherme só tiraram 10 na escola. Falo com sua tia quase todos os dias. Paguei o aluguel.  Limpei a máquina de lavar, e o Rodrigo consertou a porta do armário da cozinha. Meu cabelo está caindo assustadoramente. O Levy vai mesmo fazer negócio, e a minha mãe está sendo a melhor mãe do mundo. Fiz a feirinha da semana no japonês. Ontem saí e fiquei um pouco com as meninas, que cuidam de mim como irmãs, como madrinhas que são.  As crianças vieram aqui hoje, encheram a casa de barulho e alegria, foi legal… E eu coloquei seu prato na mesa sem querer. A Letícia me pergunta toda hora se estou sentindo saudade – acho que ela faz o que os outros não tem coragem, olha pra mim e vê a sua falta no meu rosto. A geladeira ficou vazia, só com água, tomate e manteiga.

Falar em esvaziar, ontem tive coragem e comecei a mexer nas suas coisas. Foi tanta dor que não posso explicar. Chamei a Marisa Monte pra me fazer companhia, com seu cor de rosa e carvão. A sua imagem está aos poucos ficando embaçada na minha mente. O seu cheiro está sumindo dos cantos da casa. As suas comidas estragaram, suas últimas roupas já foram lavadas, o seu travesseiro já desamassou. Como a existência humana é mesmo efêmera, e se eu não tivesse um pouco de fé de que há sentido em tudo isso, eu não me importaria em morrer agora mesmo. As suas coisas estão indo embora. Fiquei com algumas. A camisa roxa, a gravata do casamento, o perfume que você tanto gostava, os seus livros do Guimarães, o seu cd do Bob Marley. Vai ser difícil arrancar você da minha vida, não por causa dos objetos, das roupas, das coisas. Mas por causa das lembranças, por causa de tudo que você mudou em mim.. Espero ter sabedoria para fazer o melhor com tudo aquilo. Espero ter paciência para lidar melhor com tudo isso.

As pessoas se espantam com a minha força, com esse meu jeito de continuar, e continuar, e continuar, e tampar o nariz, e ir em frente, e segurar as pontas dos outros ( e quanto mais preciso de cuidado, mais aparece gente pra eu cuidar ), e dormir sozinha aqui, e ser assim. Eu não gosto de ser assim, eu queria ser um pouco mais frágil e me permitir desmontar. Faço isso aos poucos, em escapes. Mas talvez -e só talvez – isso seja uma dádiva. Eu não aguentaria sentir todo o impacto da destruição dos nossos sonhos de uma vez. A dor é de quem tem.

Torça por mim… Continuo amando você. Muito.

“É meu troféu, é o que restou,
É o que me aquece sem me dar calor
Se eu não tenho o meu amor,
Eu tenho a minha dor.

A sala, o quarto, a casa está vazia,
A cozinha, o corredor
Se nos meus braços ela não se aninha,
A dor é minha, a dor…”

 

 

NOTÍCIAS DE MIM

São Paulo, 30 de setembro de 2013

Bom dia, M. …

Acordei nessa cama enorme com dor de cabeça, ouvindo o barulho da chuva. Foi uma noite longa. O sono veio no fim da madrugada. E quase no fim da manhã acordei, ouvindo o dia chuvoso, um dia perfeito pra começar algo que vá para dentro, e não para fora. Chegou a hora de começarmos uma conversa que vai ser longa… Na verdade, a saudade de você vai ser uma estrada longa. Achei que você gostaria de saber notícias de mim.

Sei que você não pode ouvir, ver, sentir nada agora. De acordo com o que acredito ( e sei que minha verdade não é a única ), você está dormindo, repousando nos braços do Pai, curado, tranquilo. Mesmo assim, escrevo agora a você, esse você abstrato. E não me angustio por esta carta ser uma carta sem resposta, porque a resposta virá. Pra você, as perguntas não fazem mais sentido. E pra mim… A mim só resta aguardar o tempo fazer seu implacável trabalho.

O Mafalda Crescida é o meu inventário emocional, um incrível filme do meu desenvolvimento como pessoa. Há 10 anos registro aqui parte das coisas que sinto sobre a vida, sobre as pessoas, sobre mim, devaneios e fatos. Estava registrando, inclusive, partes da imensidão de sentimentos que foi ter me casado com você e começarmos uma vida juntos. Acordei me lembrando de você, sentindo uma enorme necessidade de te contar coisas… E depois me lembrei do blog.

Você morreu, eu fiquei. Quantas vezes conversamos sobre escrever, você, que também era bom com as letras. Você dizia, escrever comunica ideias. Eu dizia, escrever dá descanso aos sentimentos. Pra você, era de dentro pra fora. Pra mim, era de dentro, pra fora, e depois pra dentro de novo. Senti necessidade de escrever pra você. Escrever por você. Escrever você. É um jeito de manter você, esse você que até poucos dias atrás era tão presente e concreto, vivo e perto de mim.

Muita gente tem pena de mim. Pobre moça, casou-se apenas dois meses atrás, e já ficou viúva. Justo ela, que já tinha também perdido um noivo de repente, e ficou viúva antes de casar. Pobre mulher, teve que ver seu marido morrer em seus braços, sem nada poder fazer, e agora, como vai ser? Pobre ser humano, não tem sorte no amor, ama, se entrega, e depois perde, fica sozinha. É verdade, é de dar pena. Parece injusto. Parece triste demais. E é.

E nesses dias, eu senti de tudo. Em alguns momentos, eu também tive dó de mim. Tive raiva de você, raiva de Deus. Tive medo do que vai vir.  Senti uma pedra no meu peito. Senti desespero. Senti uma tristeza milenar dentro de mim, uma tristeza de todas as pessoas que sentiram essa perda um dia. Tive dúvidas racionais e sentimentos irracionais. Mas tudo isso passa quando me lembro de você.

Você… Ai, você. As pessoas falam sobre você. Calado, meio marrudo, um irmão amigo, um sobrinho cuidadoso e querido, um filho amado, um amigo brincalhão, um cara inteligente, um companheiro ponta firme, um coração frágil, uma pessoa interessante, um moço sofrido, uma incógnita.

Cada um sente sua falta de um jeito, mas eu sinto falta de você todo. Sinto falta do meu amigo, aquele que prestava atenção em tudo que eu dizia e me fazia enxergar as coisas do cotidiano de um outro jeito, via televisão junto, saia comigo pra passear de carro, que se divertia comigo, que comia junto. Sinto falta da sua tagarelice noturna, quando eu queria ficar quieta e você queria conversar sem parar. Sinto falta dos seus melindres de bebê grandão. Sinto falta de você me fazendo rir quase que todo o tempo, imitando meus bicos, imitando meu mimimi. Sinto falta do meu parente, que estava comigo no seio da minha família, observando as crianças crescerem, que deu pra mim também novos irmãos, uma sobrinha linda, uma tia. Sinto falta do meu marido, me olhando dormir de noite, me achando linda o tempo inteiro, me elogiando sem parar, convivendo comigo numa leveza que quase me tirava do chão de tão perfeita e harmoniosa, penteando meu cabelo, me ajudando a escolher a roupa, cuidando de mim. Sinto falta do meu homem me fazendo sentir a mulher mais satisfeita do mundo, e nisso éramos tão bons juntos. Sinto falta do meu companheiro, resolvendo os pepinos da casa, combinando o cardápio da janta, me ajudando a pagar as contas, carregando as sacolas do mercado, lavando a roupa, me ajudando a colocar o carro na garagem. Sinto falta do meu irmão, com quem eu queria fazer todos os projetos, que olhava pra vida com a mesma sede, a mesma revolta, o mesmo jeito de ver o mundo, que orava comigo, que dividia comigo uma visão de vida e de mundo, que acreditava nas mesmas causas e tinha orgulho de mim. Você, e toda sua gentileza, sua delicadeza, sua força, seu bom humor, sua fé, sua inteligência… “Sua vida, meu caminho, nosso amor.”

Foi uma semana bem longa, desde que enterramos você no cemitério em que estavam os corpos do seu pai, que morreu com a mesma idade que você… Da sua mãe adorada, de quem você sentia tanta falta e sempre lembrava. Uma semana intensa, confusa, doloridíssima. Gostaria de fazer como C.S.Lewis, que descreveu com precisão cirúrgica as emoções do luto, mas não tenho essa habilidade. Posso dizer que foi uma semana suspensa… Como se o tempo tivesse parado, em choque. Um minuto de silêncio que durou uma semana. E agora eu tenho que recomeçar. Porque a vida aqui não pára e nem dá o tempo pra gente ir fundo nos sentimentos. Talvez seja melhor assim.

Não quis sair muito da nossa casa. Aqui tem ainda o seu cheiro, aqui me lembro perfeitamente do som da sua voz, aqui na nossa cama ainda sinto seu abraço… Aqui estão suas coisas, nossas coisas, esse sonho que foi o nosso lar construído com amor e alegria em cada pedacinho, em cada prateleira, em cada roupa no varal e no guarda-roupa, em cada coisa misturada, em cada receita anotada no caderninho, em cada detalhe. Outro dia fiz o bolo de banana que você adorava, só pra espalhar aquele cheiro pela casa e lembrar de você assim, fisicamente, sensorialmente… Sinto tanto sua falta, amor. As pessoas se preocupam por eu estar sozinha aqui, mas na verdade, não estou sozinha. Estou acompanhada da nossa história, essa história tão linda que nós fizemos, e que agora está me sustentando. Essa história que permite que eu fique profundamente triste sem me desesperar, que me traz essa paz enorme. Só eu e você podemos saber o tamanho e o significado da nossa história.

Tenho me surpreendido com essa força que eu tenho em mim. Não sei de onde vem essa força, amor. De mim não pode ser. Vem de Deus, vem das pessoas, vem da experiência de uma vida sofrida, vem de tudo que eu aprendi, vem das perdas superadas de antes, vem da fé, vem de tudo isso junto. Você diria que vem de mim, como disse tantas vezes, você tantas vezes me dizia que eu não era uma pessoa como as outras, e que eu era forte, que eu era capaz, que eu via as coisas de um jeito diferente, e você me via diferente. E como eu disse pra você naquela manhã daquele domingo de primavera, aquele em que você se foi, e a gente ainda nem imaginava o que ia acontecer dali a poucas horas… Quando você me perguntou, brincando, se no seu velório eu me jogaria no caixão com você e pediria pra ir junto, eu te disse, bem firme, não, eu não vou morrer, eu vou continuar. Você, brincando com a morte, sorrindo, me fez prometer que eu ia continuar, que ia acabar a faculdade, que ia escrever sobre meu trabalho, que ia cuidar da nossa casa, que ia fazer uma coisa que ninguém imaginava que eu faria, que ia seguir. E eu estou seguindo. Sozinha, sim, que essa solidão é tão funda, é de ser humano, e toda companhia é apenas uma ilusão que a gente inventa pra domar essa dor de ser só… E com você, foi quando essa dor ficou tão pequena que quase sumiu.

Sigo também na presença de quem gosta de mim. Falando em pessoas, elas estão aqui perto. Minha família, sua família, meus amigos, nossos amigos. Todos preocupados comigo, sofrendo comigo, dividindo comigo essa dor, de joelhos dobrados por mim. Foram tantas lágrimas repartidas, eu me surpreendi com tanto carinho das pessoas. Ninguém substitui você. Mas estou bem guardada. E está ajudando, sabe. Eu sinto um conforto que só pode vir do céu, do amor dos outros… Não poderia vir de mim. Ontem estive na casa da sua irmã, da sua tia. Foi um momento tão lindo, nós ali, de mãos dadas, cuidando um do outro, chorando juntos, nos abraçando, nos dando força. Tudo isso por causa de você, meu bem. Ontem estive também na igreja. Senti tanto sua falta lá, comigo. Fui deixar meu coração partido aos pés da cruz, pedir pra Jesus cuidar dele, pedir pra Emanuel vir comigo nesta semana, que vou voltar ao trabalho, estabelecer uma nova rotina, resolver coisas. Creio muito que Ele veio… Que na verdade, Ele nunca saiu. 

Olhando as fotos do nosso casamento, eu vejo tanta felicidade, tanta alegria. Eu vejo em mim e em você duas pessoas curadas das amarguras da vida. Vejo um casal apaixonado, esperançoso, abençoado. Vejo uma família se formando, vejo um monte de gente feliz – adultos, jovens, idosos, crianças, casais… Vejo flores, comida boa, música suave, amigos, um dia lindo de sol, uma promessa sendo cumprida. Por isso gosto de olhar, não me causa sofrimento, ao contrário, revive em mim toda a grandeza daquele dia, renova em mim a certeza de que, embora o tempo do relógio pareça pouco, nós fomos felizes eternamente… Renova em mim a certeza de que fizemos tudo certinho, como tinha que ser.

Você me libertou. Me libertou do medo de crescer. Me libertou das dores de amores passados. Me libertou das esquisitices de mim mesma. Me arrependo de coisas, claro que sim. Talvez eu devesse ter parado de tomar o remédio e tentar engravidar desde o primeiro dia, como você queria. Talvez eu não devesse ter enrolado tanto pra casar. Talvez a gente pudesse ter feito diferente. Mas isso é pequeno perto da certeza de que foi como tinha que ser.

O que vem pela frente, eu já sei como é. A saudade… Primeiro, dolorida. Depois, suave. Tentarei ter paciência. Tentarei continuar sendo quem eu sou. Tentarei cuidar de mim e aceitar o cuidado dos outros… Mas tem uma coisa que eu não preciso me esforçar pra fazer… Não pretendo me esquecer de você.

Boa noite, M…

Amo você.

 

ESCRITOS DE CASAMENTO VII – OS VOTOS DO DIA

E foi eterno enquanto durou… E foi tão eterno que, de algum jeito, vai durar pra sempre.

Karina e Marcelo 179

 

Marcelo,

Estamos aqui, diante de Deus, de nossa família e nossos amigos queridos para casar.

É um dia feliz, pelo qual esperamos e do qual sempre nos lembraremos para o resto de nossas vidas. Estamos aqui para comemorar, festejar, nos alegrar… E para isso contamos com a ajuda, o sorriso, o dinheiro, o incentivo, a presença e as orações de tanta gente.

Estamos aqui por causa de nossa história, essa história difícil e linda que tivemos… Uma história de amor, paciência, superação, milagres, fé, romance, lágrimas e sorrisos… Como são tantas outras histórias, todas especiais para quem as vive. A vida é feita de histórias…

Mas estamos aqui para falar da caminhada que virá de hoje em diante. Viemos para firmar um compromisso… Uma aliança, simbolizada por este anel que tenho em minhas mãos agora.

Ao colocá-lo em seu dedo, afirmo não só que o amo hoje e que você é o homem com quem quero passar o resto da minha vida, com quem quero construir uma família, fazer um lar. Afirmo também que estou disposta a me esforçar, porque o amor não é mágico. Ele é luta diária de paixão e renúncia ao nosso ego. Por isso estou disposta a mudar a mim mesma, em tudo que conseguir, para ser sua companheira em tudo que as pessoas dizem, e também no que as pessoas não dizem – porque creio que o amor transforma. Quero estar com você em bons e maus momentos, nas coisas mais simples e nos grandes eventos… Quando estivermos saudáveis e felizes, mas também quando estivermos fragilizados e tristes… Quando tivermos coisas, ou quando elas faltarem… Quando estivermos calmos e tranquilos, ou quando os problemas chegarem… Quando estivermos sós, ou rodeados de pessoas queridas… Quando estivermos esperançosos, ou quando parecer que tudo vai dar errado. Quero ser para você exemplo de fé, de carinho, de lealdade, de compreensão, de desejo, de alegria… Para bordarmos juntos a nossa vida. E para isso, peço a ajuda de Deus, em nome de Jesus, para que essa aliança seja sagrada, e para que a lembrança desse dia sempre sustente o nosso amor… E também peço a sua ajuda, para que estejamos assim, como disse o Guimarães que você tanto gosta – afinando e desafinando, sempre mudando… Mas nunca deixando de amar.

Karina e Marcelo 176

 

“Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”

Fernando Pessoa

E pensar que já não acreditávamos, ou que já estávamos tão desesperançosos em relação ao amor. Pensar que tudo começou de maneira conturbada, desconfiada, atravessada… e mesmo assim, nos demos a chance de viver, conviver, conhecer, reconhecer…

Pensar que tivemos mais motivos para estarmos separados e, mesmo assim, não abrimos mão deste ou daquele encontro inesperado, do telefonema, trocar livros, trocar ideias, trocar experiências, trocar o que der vontade de viver, conviver, conhecer, reconhecer…

Pensar nas histórias que rimos até hoje: o segurança e sua espada, a tropa de elite, a garçonete que indicou outro restaurante, se você aceitava a manga… os números que nos aproxima: os 13, o 29 de cada mês, o 5×2, o 5% de chance, o 4, o 6, o 10 do 7…

Pensar nas histórias tristes: O primeiro assalto bem agressivo, o segundo um pouco menos, a perda de grande parte que organizava o casamento… A primeira internação… a segunda… o vai e vem de hospital… o encaminhamento pra transplante… a internação da minha mãe, o velório, a perda… a cada acontecimento, aumentar a vontade de viver, conviver, conhecer , reconhecer…

Pensar… que a partir de hoje, tudo isso e mais um monte de acontecimentos virão e não vejo, sem qualquer dúvida, que haverá alguém que possa contar sempre ao seu lado e que sempre terá essa sede, coragem, paixão, amor e vontade de viver, conviver, conhecer e reconhecer-se completo ao seu lado quanto eu tenho.

Quer dizer… a partir de hoje se aceitar casar comigo. Aceita?