NOTÍCIAS DE MIM

São Paulo, 30 de setembro de 2013

Bom dia, M. …

Acordei nessa cama enorme com dor de cabeça, ouvindo o barulho da chuva. Foi uma noite longa. O sono veio no fim da madrugada. E quase no fim da manhã acordei, ouvindo o dia chuvoso, um dia perfeito pra começar algo que vá para dentro, e não para fora. Chegou a hora de começarmos uma conversa que vai ser longa… Na verdade, a saudade de você vai ser uma estrada longa. Achei que você gostaria de saber notícias de mim.

Sei que você não pode ouvir, ver, sentir nada agora. De acordo com o que acredito ( e sei que minha verdade não é a única ), você está dormindo, repousando nos braços do Pai, curado, tranquilo. Mesmo assim, escrevo agora a você, esse você abstrato. E não me angustio por esta carta ser uma carta sem resposta, porque a resposta virá. Pra você, as perguntas não fazem mais sentido. E pra mim… A mim só resta aguardar o tempo fazer seu implacável trabalho.

O Mafalda Crescida é o meu inventário emocional, um incrível filme do meu desenvolvimento como pessoa. Há 10 anos registro aqui parte das coisas que sinto sobre a vida, sobre as pessoas, sobre mim, devaneios e fatos. Estava registrando, inclusive, partes da imensidão de sentimentos que foi ter me casado com você e começarmos uma vida juntos. Acordei me lembrando de você, sentindo uma enorme necessidade de te contar coisas… E depois me lembrei do blog.

Você morreu, eu fiquei. Quantas vezes conversamos sobre escrever, você, que também era bom com as letras. Você dizia, escrever comunica ideias. Eu dizia, escrever dá descanso aos sentimentos. Pra você, era de dentro pra fora. Pra mim, era de dentro, pra fora, e depois pra dentro de novo. Senti necessidade de escrever pra você. Escrever por você. Escrever você. É um jeito de manter você, esse você que até poucos dias atrás era tão presente e concreto, vivo e perto de mim.

Muita gente tem pena de mim. Pobre moça, casou-se apenas dois meses atrás, e já ficou viúva. Justo ela, que já tinha também perdido um noivo de repente, e ficou viúva antes de casar. Pobre mulher, teve que ver seu marido morrer em seus braços, sem nada poder fazer, e agora, como vai ser? Pobre ser humano, não tem sorte no amor, ama, se entrega, e depois perde, fica sozinha. É verdade, é de dar pena. Parece injusto. Parece triste demais. E é.

E nesses dias, eu senti de tudo. Em alguns momentos, eu também tive dó de mim. Tive raiva de você, raiva de Deus. Tive medo do que vai vir.  Senti uma pedra no meu peito. Senti desespero. Senti uma tristeza milenar dentro de mim, uma tristeza de todas as pessoas que sentiram essa perda um dia. Tive dúvidas racionais e sentimentos irracionais. Mas tudo isso passa quando me lembro de você.

Você… Ai, você. As pessoas falam sobre você. Calado, meio marrudo, um irmão amigo, um sobrinho cuidadoso e querido, um filho amado, um amigo brincalhão, um cara inteligente, um companheiro ponta firme, um coração frágil, uma pessoa interessante, um moço sofrido, uma incógnita.

Cada um sente sua falta de um jeito, mas eu sinto falta de você todo. Sinto falta do meu amigo, aquele que prestava atenção em tudo que eu dizia e me fazia enxergar as coisas do cotidiano de um outro jeito, via televisão junto, saia comigo pra passear de carro, que se divertia comigo, que comia junto. Sinto falta da sua tagarelice noturna, quando eu queria ficar quieta e você queria conversar sem parar. Sinto falta dos seus melindres de bebê grandão. Sinto falta de você me fazendo rir quase que todo o tempo, imitando meus bicos, imitando meu mimimi. Sinto falta do meu parente, que estava comigo no seio da minha família, observando as crianças crescerem, que deu pra mim também novos irmãos, uma sobrinha linda, uma tia. Sinto falta do meu marido, me olhando dormir de noite, me achando linda o tempo inteiro, me elogiando sem parar, convivendo comigo numa leveza que quase me tirava do chão de tão perfeita e harmoniosa, penteando meu cabelo, me ajudando a escolher a roupa, cuidando de mim. Sinto falta do meu homem me fazendo sentir a mulher mais satisfeita do mundo, e nisso éramos tão bons juntos. Sinto falta do meu companheiro, resolvendo os pepinos da casa, combinando o cardápio da janta, me ajudando a pagar as contas, carregando as sacolas do mercado, lavando a roupa, me ajudando a colocar o carro na garagem. Sinto falta do meu irmão, com quem eu queria fazer todos os projetos, que olhava pra vida com a mesma sede, a mesma revolta, o mesmo jeito de ver o mundo, que orava comigo, que dividia comigo uma visão de vida e de mundo, que acreditava nas mesmas causas e tinha orgulho de mim. Você, e toda sua gentileza, sua delicadeza, sua força, seu bom humor, sua fé, sua inteligência… “Sua vida, meu caminho, nosso amor.”

Foi uma semana bem longa, desde que enterramos você no cemitério em que estavam os corpos do seu pai, que morreu com a mesma idade que você… Da sua mãe adorada, de quem você sentia tanta falta e sempre lembrava. Uma semana intensa, confusa, doloridíssima. Gostaria de fazer como C.S.Lewis, que descreveu com precisão cirúrgica as emoções do luto, mas não tenho essa habilidade. Posso dizer que foi uma semana suspensa… Como se o tempo tivesse parado, em choque. Um minuto de silêncio que durou uma semana. E agora eu tenho que recomeçar. Porque a vida aqui não pára e nem dá o tempo pra gente ir fundo nos sentimentos. Talvez seja melhor assim.

Não quis sair muito da nossa casa. Aqui tem ainda o seu cheiro, aqui me lembro perfeitamente do som da sua voz, aqui na nossa cama ainda sinto seu abraço… Aqui estão suas coisas, nossas coisas, esse sonho que foi o nosso lar construído com amor e alegria em cada pedacinho, em cada prateleira, em cada roupa no varal e no guarda-roupa, em cada coisa misturada, em cada receita anotada no caderninho, em cada detalhe. Outro dia fiz o bolo de banana que você adorava, só pra espalhar aquele cheiro pela casa e lembrar de você assim, fisicamente, sensorialmente… Sinto tanto sua falta, amor. As pessoas se preocupam por eu estar sozinha aqui, mas na verdade, não estou sozinha. Estou acompanhada da nossa história, essa história tão linda que nós fizemos, e que agora está me sustentando. Essa história que permite que eu fique profundamente triste sem me desesperar, que me traz essa paz enorme. Só eu e você podemos saber o tamanho e o significado da nossa história.

Tenho me surpreendido com essa força que eu tenho em mim. Não sei de onde vem essa força, amor. De mim não pode ser. Vem de Deus, vem das pessoas, vem da experiência de uma vida sofrida, vem de tudo que eu aprendi, vem das perdas superadas de antes, vem da fé, vem de tudo isso junto. Você diria que vem de mim, como disse tantas vezes, você tantas vezes me dizia que eu não era uma pessoa como as outras, e que eu era forte, que eu era capaz, que eu via as coisas de um jeito diferente, e você me via diferente. E como eu disse pra você naquela manhã daquele domingo de primavera, aquele em que você se foi, e a gente ainda nem imaginava o que ia acontecer dali a poucas horas… Quando você me perguntou, brincando, se no seu velório eu me jogaria no caixão com você e pediria pra ir junto, eu te disse, bem firme, não, eu não vou morrer, eu vou continuar. Você, brincando com a morte, sorrindo, me fez prometer que eu ia continuar, que ia acabar a faculdade, que ia escrever sobre meu trabalho, que ia cuidar da nossa casa, que ia fazer uma coisa que ninguém imaginava que eu faria, que ia seguir. E eu estou seguindo. Sozinha, sim, que essa solidão é tão funda, é de ser humano, e toda companhia é apenas uma ilusão que a gente inventa pra domar essa dor de ser só… E com você, foi quando essa dor ficou tão pequena que quase sumiu.

Sigo também na presença de quem gosta de mim. Falando em pessoas, elas estão aqui perto. Minha família, sua família, meus amigos, nossos amigos. Todos preocupados comigo, sofrendo comigo, dividindo comigo essa dor, de joelhos dobrados por mim. Foram tantas lágrimas repartidas, eu me surpreendi com tanto carinho das pessoas. Ninguém substitui você. Mas estou bem guardada. E está ajudando, sabe. Eu sinto um conforto que só pode vir do céu, do amor dos outros… Não poderia vir de mim. Ontem estive na casa da sua irmã, da sua tia. Foi um momento tão lindo, nós ali, de mãos dadas, cuidando um do outro, chorando juntos, nos abraçando, nos dando força. Tudo isso por causa de você, meu bem. Ontem estive também na igreja. Senti tanto sua falta lá, comigo. Fui deixar meu coração partido aos pés da cruz, pedir pra Jesus cuidar dele, pedir pra Emanuel vir comigo nesta semana, que vou voltar ao trabalho, estabelecer uma nova rotina, resolver coisas. Creio muito que Ele veio… Que na verdade, Ele nunca saiu. 

Olhando as fotos do nosso casamento, eu vejo tanta felicidade, tanta alegria. Eu vejo em mim e em você duas pessoas curadas das amarguras da vida. Vejo um casal apaixonado, esperançoso, abençoado. Vejo uma família se formando, vejo um monte de gente feliz – adultos, jovens, idosos, crianças, casais… Vejo flores, comida boa, música suave, amigos, um dia lindo de sol, uma promessa sendo cumprida. Por isso gosto de olhar, não me causa sofrimento, ao contrário, revive em mim toda a grandeza daquele dia, renova em mim a certeza de que, embora o tempo do relógio pareça pouco, nós fomos felizes eternamente… Renova em mim a certeza de que fizemos tudo certinho, como tinha que ser.

Você me libertou. Me libertou do medo de crescer. Me libertou das dores de amores passados. Me libertou das esquisitices de mim mesma. Me arrependo de coisas, claro que sim. Talvez eu devesse ter parado de tomar o remédio e tentar engravidar desde o primeiro dia, como você queria. Talvez eu não devesse ter enrolado tanto pra casar. Talvez a gente pudesse ter feito diferente. Mas isso é pequeno perto da certeza de que foi como tinha que ser.

O que vem pela frente, eu já sei como é. A saudade… Primeiro, dolorida. Depois, suave. Tentarei ter paciência. Tentarei continuar sendo quem eu sou. Tentarei cuidar de mim e aceitar o cuidado dos outros… Mas tem uma coisa que eu não preciso me esforçar pra fazer… Não pretendo me esquecer de você.

Boa noite, M…

Amo você.

 

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12 comentários sobre “NOTÍCIAS DE MIM

  1. Vim procurar outra coisa e me deparei com essa lindeza de texto… As lágrimas insistem em cair, num misto de tristeza, de dor, de solidariedade, de compaixão, mas também de muito orgulho, de muita gratidão a Deus por ter me permitido conhecer pessoa tão extraordinária quanto você!
    Que esse nosso Deus lindo e tremendo, que tem te feito doce, tem te feito forte, tem te feito serena, tem te feito livre, e que usou para muito disso e ainda mais o Marcelo, continue a sustentá-la, a guiá-la, a suprir as suas necessidades, todas elas, lhe dando paz e coragem, a cada amanhecer…
    E pra você, todo, todo o meu carinho, expresso não só nas minhas palavras, mas nas orações e no cuidado de sempre.
    Deus te abençoe, minha amiga querida!
    Abraço apertado e beijo no coração…

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  2. Sempre passo por aqui, porque gosto do que você escreve, como escreve, do que escreve.E agora, me surpreendo mais ainda, pois, sim, M. tinha razão: você não é igual a todo mundo. É muito forte…. Minha admiração…

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  3. Sem palavras…
    Te acompanho pelo blog a alguns anos e não poderia deixar de mandar meu afago.
    Estou em lágrimas e em oração.
    Rogo a Deus para que conforte seu coração e continue lhe dando forças para seguir, que Deus seja sua rocha e seu alicerce para superar a saudade e a dor. Coisas maravilhosas virão.
    Agradeça pelo tempo dado e não pelo perdido.
    Efatá em seus caminhos…
    Paz e bem,
    Lorena Peres.
    Transcrevo uma musiquinha linda do Teatro Mágico que conforta meu coração todo vez que ouço. Lembro-me da irmã que perdi há 9 anos:

    “O dia mente a cor da noite
    E o diamante a cor dos olhos
    Os olhos mentem dia e noite a dor da gente”

    Enquanto houver você do outro lado
    Aqui do outro eu consigo me orientar
    A cena repete a cena se inverte
    Enchendo a minha alma daquilo que outrora eu deixei de acreditar

    Tua palavra, tua história
    Tua verdade fazendo escola
    E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

    Metade de mim
    Agora é assim
    De um lado a poesia, o verbo, a saudade
    Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
    E o fim é belo incerto… Depende de como você vê
    O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

    Só enquanto eu respirar
    Vou me lembrar de você
    Só enquanto eu respirar…

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  4. Oh Karina,
    Estou sem palavras. Muitas lágrimas nos olhos e, mesmo sem te conhecer pessoalmente, muita dor no coração. Que Deus e os queridos continuem sendo sua fortaleza.
    beijo grande e abraço apertado.

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