PARA QUEM BEM VIVEU O AMOR

20/11/2013

Oi, meu bem.

Já tem um tempo que não escrevo… É o que acontece quando tenho muito a dizer – nada consegue ser dito. Talvez não faça diferença mesmo, mas hoje eu preciso deixar vazar um pouco de mim pra ver se o sono vem. O sono tranquilo que há dois meses não tenho mais… E que me faz tanta falta.

E eu sinto falta, sim… Falta de dormir, falta de abraço, de beijo, de ajuda, de sorriso, de papo, de sexo, de ressonância, de parceria, de companhia, de música, falta de tudo. Tudo que vinha de você. Não se trata apenas de sentimento romântico… É falta física, concreta, que aos poucos vai se materializando e me deixando com essa sensação estranha de que, por mais que eu tente esconder, algo está muito errado… Algo deu muito errado.

Eu continuo levando a vida, e o tempo continua passando. Sabe que muita gente achou que eu estivesse grávida? Sonharam com isso, pensaram isso, tiveram premonições diversas com isso, e eu, de repente, até pensei que podia ser verdade algo assim acontecer. Lembrei de todas as vezes em que você me pediu isso, esse filho que você tanto falava, com quem você tanto sonhava – e  eu te perguntei por que a pressa. Acho que as pessoas queridas queriam muito isso porque, como eu, queriam que a vida desse algum troco, que não fosse possível que não ficasse nada assim, grandioso, de nós dois pra mim, pra elas. Mas não aconteceu. É isso mesmo… Você morreu e eu fiquei sozinha.

As pessoas são ótimas, muitas delas são. Mas tem também outras que são insuportáveis, e que eu já não suporto. Aprendi a me defender, sabe. Você ia gostar de ver esse meu jeito, meio revoltado, como você diria. Você puxava a minha orelha dizendo que eu não queria nunca desagradar ninguém, e que isso me consumia. Mas não ando fazendo questão, não. E confesso, essa é a parte mais difícil. Se eu tivesse dinheiro, certamente viajaria pra muito longe, onde ninguém me conhecesse, onde eu pudesse estar realmente só. Eu fugiria.

Penso nisso todo santo dia, em como eu poderia fugir. Não tenho vontade de trabalhar, mas me obrigo a ir. Não tenho vontade de atender o telefone, nem de ir arrumar o óculos, nem de resolver o monte de coisas sobre você que tenho pra resolver, nem de comparecer a festas de nenhum tipo, nem de comprar uma roupa nova, ou de sair de casa. Vontade nenhuma mesmo de nada. Mas me obrigo. Eu sou assim, dessas que fazem o que precisa ser feito. Foi nessas que um dia desses fui cortar o cabelo, que estava tão horrível, e pedi pra Ana virar a cadeira, pois não queria me ver no espelho.  Não tenho vontade disso também. Essa falta de vontade é mesmo depressiva, mas estou no meu direito. E quero ver quem prove que não. Eu não vou me matar, claro que não. Mas não ligaria muito se eu fosse logo, porque a vida é meio esse saco mesmo, essa coisa que a gente nunca tem sossego, e esse mundo é tão errado…  Isso só ameniza quando me distraio… Quando a minha fuga acontece, embora de maneira simbólica, quando finjo que nada aconteceu.

Nos últimos dias tenho pensado… Não posso mais fazer o que estou fazendo. Eu fico aqui nessa casa, nossa casa, fazendo as coisas, lavando, cozinhando, saindo para o trabalho, voltando, recebendo pessoas, pagando as contas, assistindo TV, lendo, estudando, colocando o carro na garagem ( e já estou fazendo isso muito bem ), escrevendo pra você… E é como se a qualquer momento você fosse voltar. Eu sei que parece insanidade, mas duvido que alguém passe por um luto difícil e inesperado sem enlouquecer um pouco. Mas chega uma hora em que é preciso olhar pra realidade: você não vai voltar. Não mesmo. Eu não sou mais casada, sou viúva. Não é mera questão de estado civil… É real. Tenho que tirar a aliança, colocar nossas lembranças em uma caixa e olhar pros espaços vazios assim, como eles são… Vazios.

Quando alguém me lembra do que aconteceu, eu fico com raiva, porque não queria lembrar, mesmo que não consiga esquecer, entende? As pessoas dizem tantas coisas de tantos jeitos, e quase nada me acrescenta algo, e são poucas as pessoas que querem realmente me ouvir, e não falar delas mesmas. Outras são fracas e ficam inconformadas por eu não reagir como elas, outras querem mandar no meu tempo interno, outras estranham quando eu dou risada de algo e, incrível – dessa vez, não foi como das outras vezes. Acho que nosso caso é tão chocante que ninguém quer falar dele de verdade comigo. Ficam cheio de dedos, falando baixinho às minhas costas, comentando sobre mim por aí, mas poucos tem coragem de olhar pra mim, perguntar o que tenho sentido e aguentar o tranco da resposta depois. Nem mesmo Deus parece querer se pronunciar, nem meu inconsciente me deixa lembrar dos meus sonhos. Por isso eu não me importo mais com tudo isso. Meu rosto e meu coração estão cheios de marcas, e quem quiser estar perto de mim vai ter que olhar pra minha dor… Infelizmente.

O que sobra é cada vez menos de você, porque é isso que o tempo faz, para o bem e para o mal – apaga rastros. Eu fico com medo disso, sabe. Medo de perder você de vez. De esquecer seu cheiro, de esquecer o som da sua voz bonita, de não lembrar de você sorrindo – só lembrar de você morrendo na minha frente. Aliás, eu acho tão triste que essa seja a imagem de você que venha à minha cabeça, aquilo que só eu vi… Seus olhos perdendo o brilho. Por isso ainda gosto de ver nosso álbum de casamento… Lá você está feliz.

Devo começar a pensar minha mudança desta casa. Não queria ir embora, mas preciso, porque pagar e viver nessa casa não era tarefa pra um… Era pra dois. Isso é o que mais me dói. Desfazer o cantinho da beleza que você montou pra mim, tirar o que colocamos na parede, embalar cada item da nossa cozinha maravilhosa, sair daqui, dessa casa linda que eu gosto tanto… Esse gosto de fracasso horrível que vai ser tudo isso. Fracasso, já dizia o Cazuza, essa palavra triste que tem nome de perfume barato. Vou ter que dar alguns passos pra trás, e isso me deixa tão triste… Tão triste, amor.

Dia desses vieram me dizer que alguém que viu você no outro mundo tinha baixado em algum lugar por aí e tinha me deixado uma mensagem, dizendo que você tinha dito que estava bem com sua mãezinha e com saudades, que eu não estava sozinha, e que você estaria comigo, e que eu ia continuar meu caminho de luz, e blá blá blá. Você sabe que não acredito nessas coisas, e tenho certeza que, se você me mandasse uma mensagem, começaria dizendo, você tem razão, Karina… Aqui tem coisas muito melhores pra se fazer do que ficar rondando o mundo dos vivos, pt, saudações e toca o barco… Era o que você diria. E assim me faria sorrir mais uma vez. Já que você foi, não quero mensagens suas… E talvez faça parte eu não escrever mais pra você também. Creio, de verdade, que o que vivemos foi tão fundo que já dissemos tudo. Aliás, veja você… Ao tentar me consolar da perda de alguém que eu amei e pra tentar me convencer que não era bom que eu ficasse estagnada no meu sofrimento, você me disse coisas que hoje me consolam por ter perdido você. Isso eu não tenho medo que a memória apague.

Não gostaria que a saudade me deixasse amarga e rabugenta como aquele velhinho do filme. E então, eu me lembrei do Gonzaguinha. Estranho gente que faz uma música que fala de saudade chamando-a de “feliz”. Mas é assim que é… Pelo menos “para quem bem viveu o amor”. E eu vivi… Nós vivemos. E só por isso eu sei que tudo isso vai passar… E eu vou chegar lá.

Amo você… Mas vou te deixar. Aos poucos, mas vou. Não me queira mal por isso… Que eu não vou querer mal você por ter desfeito o nosso trato de felizes para sempre.

“Para quem bem viveu o amor

Duas vidas que abrem não acabam com a luz
São pequenas estrelas que correm no céu
Trajetórias opostas sem jamais deixar de se olhar

É um carinho guardado no cofre de um coração que voou
É um afeto deixado nas veias de um coração que ficou
É a certeza da eterna presença da vida que foi na vida que vai
É a saudade da boa feliz, cantar

Que foi, foi, foi… Foi bom e pra sempre será
Mais, mais, mais maravilhosamente amar…”

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