2014

Caro 2014…

Você ainda é um bebê dentro do ventre. Mas sua força será, em pouco tempo, tão maior do que a minha. Por isso, nesse primeiro contato nosso, me chego com respeito e esperança pra falar contigo. Chego assim, pequenininha, me sentindo uma poeira, menor que você. Mas eu tinha que vir pra gente conversar.

Eu tinha um desenho lindo, sabe. Lindo. Um desenho que passei muito tempo fazendo. Ele tinha retoques, mas estava vistoso, vistoso demais. Eu achava que estava pronto, achava mesmo, de verdade. Eu coloquei ele na parede quando terminei, e todo mundo admirou comigo. Estava lá, minha vida, meu projeto, a vida ideal, toda desenhadinha, em carvão, giz, tinta, lápis, caneta preta, aquarela. Eu estava muito feliz com ele. Um desenho que fazia todo sentido, e parecia justo querer ele daquele jeito.

Mas destruíram ele todo. Disseram, não, não é assim que é pra ser. Deixaram ele irreconhecível. E me disseram, tire ele da parede. Não serve. Doeu. Muito. É que eu fiz com tanto carinho. Algumas partes pintei com sangue, até. E eu gostava tanto dele. E, de repente, rabiscaram ele todo. Eu fiquei ali, chorando, olhando pra ele algum tempo, daquele jeito, tentando achar ali algo do desenho que um dia eu tinha feito. Mas não dava mais. Pasma, não tive outra coisa a fazer a não ser aceitar. Tentei arrumar, mas não dava. Foi perda total.

E agora vem você, 2014, me dizendo pra fazer um outro. Me dando outra tela. Me oferecendo lápis novos, me dizendo pra criar outras imagens. Mas, como é que se refaz um projeto de vida? Como é que a gente sonha novamente, de que jeito? E você diz, não sei, mas você tem que fazer. Pode começar.

Aí eu te pergunto, que garantia eu tenho de que não vão rabiscar tudo de novo? E aí você me responde, nenhuma. Não dá pra dar garantia. Só dá pra dizer que não dá mais pra você ficar aí, sentada, olhando o seu desenho antigo rabiscado, rasgado, destruído. Ele era bom, mas já se foi. Agora tem que fazer um novo.

Aí eu digo, 2014, não dá mais pra fazer um desenho tão bonito quanto o outro, não. Porque a arte da gente se faz também de ilusões. E quando as ilusões, à moda do Cartola, viram pó… Não tem como evitar as marcas. Meus traços serão tímidos, porque não saberei fazer de novo nada grandioso daquele jeito. Aí você me diz, mesmo assim, comece.

Aí eu digo, mas 2014, joguei alguns dos meus lápis fora. As tintas perderam a validade. Os pincéis estão despelados, coitados. Já tinha esquecido do cheiro da tinta, já perdi um pouco a mão do traço… Estou mais velha, menos habilidosa, chateada. Aí você diz, não interessa, pode começar.

Aí eu digo, 2014, não tenho mais nada pra inventar. Eu não queria nada demais. Nunca tive sonhos mirabolantes, imagens surreais, desenhos de verossimilhança meticulosos… Não, não. Eu tinha um desenho simplezinho, todo fofo. E agora, não lembro mais dele. Não sei o que eu tenho que desenhar que era diferente daquilo. Não sei o que no meu desenho não foi aceito. Puxa, 2014! Não quero mais desenhar. Aí você diz, respire fundo… Inspire-se… E recomece.

Aí eu digo… 2014… Eu estou sozinha. Tanta gente que me ajudou fazer aquele desenho antigo já se foi. Tanta gente já não quer mais me ajudar a desenhar nada. Outros estão tão felizes com seus próprios desenhos… E outros desistiram de desenhar. Eu tenho tanta saudade dos traços de antes… Tanta saudade das ideias daquele povo que por tanto tempo foi o centro da minha vida. Eu não sei como se faz um desenho assim, tão importante, sozinha. E aí você diz, arrume outros parceiros… E desenhe de novo.

Sem outros argumentos, sei que vou ter que começar a desenhar outra coisa. Talvez, cole uns caquinhos do desenho antigo nesse. Não sei por onde começar.

Sinto você assim, 2014. Um grande zero. Uma grande tela virgem. Uma grande pauta. Uma grande página em branco.

Estou cansada, mas sei que terei que deixar algumas marcas em você… Pra refazer a minha vida.

Já que não tem outro jeito… Pelo menos seja bonzinho e me ajude. Me dê muito material pra eu usar… Muitas referências de imagens… Me apresente muitos parceiros… Me dê muitas experiências, e me ajude a lidar com minhas limitações e talentos no meio disso tudo.

Vamos ver o que vai sair.

Sei que nada será como antes… Amanhã.

Feliz eu, 2014… Feliz você. Feliz a gente. Feliz.

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7 comentários sobre “2014

  1. Que coisa linda de ler! Em varias linhas reconheci e me vi nelas…como é bom ler doces palavras que representam nossa caminhada, embora diferentes, muita coisa em comum.
    Muito bom! Bjs

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