PARA AJUDAR UMA PESSOA EM LUTO

Fui criada em parte na casa da minha avó, brincando perto de um velório; o cemitério era o lugar do nosso pega-pega, do nosso esconde-esconde. Todo dia eu via gente morta, e gente chorando por causa de quem tinha morrido. Víamos as fotos das pessoas enterradas, víamos gente se derretendo em lágrimas ajoelhada na grama… Gente trazendo flores. Tudo aquilo era comum, mas confuso… Porque embora a gente veja a morte de longe, só entende quem ela é quando ela bate na nossa própria cara.

Eu sei que existem vários tipos de luto. Várias mortes em vida. Várias perdas, várias pequenas cruzes que a gente vai tendo que colocar na estrada da vida. A vida tem mudanças, finais. Mas só tem um luto que não tem nenhuma esperança de volta. É mesmo o luto da morte. Pode chorar, espernear, chocar, paralisar, fingir que não viu. Contra esse luto, o luto da morte, nada pode ser feito.

Já perdi amigos de um jeito estúpido. Já vi gente jovem morrer de doenças de velho. Já vi partir meu pai, minhas duas avós, uma delas mais que uma mãe pra mim. Já vi morrer uma amiga querida de repente, e com outro amigo, acompanhei uma longa agonia até que ele se fosse. Já se foi também meu avô, que era a pessoa do lado de quem eu sentia mais paz neste mundo. Vi dois dos meus tios morrerem, aqueles tios que a gente acha que sempre vão estar por perto. Já enterrei um noivo, e com ele todos os nossos planos de futuro. Me despedi também da minha sogra, pessoa tão alegre e querida por todos. E pouco depois dela, deixei enterrado lá meu marido, o nosso amor tão lindo, o nosso casamento novinho e um bom pedaço do meu coração. Por isso, acho que entendo um pouco de luto.

Este texto é um apelo. Uma necessidade. Uma obviedade, que de tão óbvia, precisa ser dita: se alguém está em luto perto de você, meu caro ou minha cara, pelo amor de Deus: tome cuidado.

É que o luto derruba. Derruba mesmo. Fisicamente, inclusive. Você fica com uma sensação estranha que aquela falta vai, de alguma forma, te matar. Você não tem coragem pra tirar a própria vida, mas se morrer, também… Tanto faz. A pessoa de luto precisa ficar um pouco caída mesmo, deprimida, sem dormir. Alimente-a, acarinhe-a, acompanhe-a, vele pelo sono dela. Mas faça silêncio. E não tente levantá-la de lá por um tempo.

A pessoa de luto não suporta ficar sozinha. Mas também não consegue ficar com gente perto. É que a pessoa com o coração enlutado sabe que ninguém ali perto sente o que ela sente. De certa forma, se ofende pelas pessoas sorrirem, brincarem, comemorarem aniversários, contarem piadas. Mas também precisa disso pra saber que a vida continua. A medida das coisas é sempre a sensibilidade… O olhar para o outro.

Não julgue a pessoa em luto por nada que ela faça, porque provavelmente nem ela mesma sabe o que está fazendo. A loucura momentânea faz parte do luto. Não impeça namorados enlutados de visitarem a família de quem morreu. Não condene a mãe por colocar na mesa o prato do filho. Não estranhe irmãos quererem usar a roupa do irmão que se foi. Não ache maluco se alguém se irritar quando você sentar na cadeira que era da pessoa, trocar algo de lugar, fazer algo que o morto ou a morta não gostaria. Não ache estranho a esposa ficar perto da porta quando der a hora do marido chegar. Não ignore o choro de quem, todo dia, acorda e leva um susto ao lembrar que a pessoa morreu. Não force a pessoa a guardar nada, e nem a jogar nada fora. O tempo não é seu, é dela.

Se quiser mesmo ajudar, tenha paciência pra ouvir a pessoa falar. É horrível a sensação de que quem morreu vai sumir com o tempo. Que você vai esquecer do cheiro, do som da voz, dos detalhes do rosto, de pedaços da história. Por isso, o enlutado tem a necessidade de ficar lembrando de quem se foi. Contando mil vezes a mesma história. Falando o nome da pessoa em cada situação. Vendo fotos, pegando objetos, montando relicários, guardando roupas, dormindo abraçado com aquela camisa. A gente fica pensando no que a pessoa diria, fazendo comidas que ela gostaria de comer, repetindo frases que ele ou ela falava. E magoa quando as pessoas mudam de assunto, como se o morto ou a morta, tão querido ou querida, incomodasse, fosse de mau agouro ou algo assim. Se quer ajudar, ouça. Incentive a falar. Não fique com pena. Mas se a opção do enlutado for o silêncio, não cutuque. É como passar a língua numa afta inflamada. Dói.

Se você está enlutado, procure não só as pessoas que sentem pena de você, que estão tristes por você. Procure alguém que sinta realmente falta da pessoa que morreu. Se achegue a esses, porque só eles podem entender um pouco do que você sente.

A pessoa enlutada vai tentar encontrar um caminho pra lidar com tudo isso. Talvez isso se refira a coisas materiais; deixe que ela decida o que vai fazer com as coisas. Deixe também se ela quiser assumir as causas da pessoa que morreu – se quiser brigar pelo que o morto brigava, se ela quiser pensar como ele ou ela pensava, se ela quiser retomar algum projeto que ele deixou pela metade. É um jeito de não deixar a pessoa morrer e, geralmente, daí saem coisas lindas. Admire, incentive.

Não julgue a maneira como a pessoa enlutada vai achar pra lidar com a solidão. Não fofoque sobre viúvos que recomeçam a namorar, mães que resolvem ter outros filhos, parentes que somem e não querem conversar, gente que não quer receber visita, gente que não quer sair de casa, e outros que arrumam mil novos amigos. Aceite os altos e baixos desse processo. Não ache que sabe o tempo, a hora dos outros. Não estipule prazos para a normalidade do luto.

Evite aquelas frases prontas que em nada servem para ajudar. Se quer falar sobre fé, superação, destino, dor, alegria, esperança, fale com o coração, não só com a língua. Se não souber, diga “não sei”. Não fique olhando com pena. Não compare as histórias dos outros com as suas. Não fique falando pelas costas. Não cobre decisões. Entenda se a pessoa mudar de ideia. Não seja maldoso com coisas como heranças, bens, dinheiro. Não fique apontando. Não trate histórias trágicas como histórias curiosas. É feio. É triste. E chateia. Se você realmente quer se colocar em um processo de ajuda, ajude… Mas seja decente. Ofereça-se… Mas não imponha-se.

Enfim, compreenda: o luto é uma luta. Você pode ajudar, mas não pode lutar no lugar de ninguém. Em poucas situações a gente precisa mais de respeito e de amor do que essa. Ame. Respeite. E espere. Porque passa. Chega uma hora que dá vontade de viver de novo. E aí a gente se lembra direitinho de quem se dedicou a ajudar nesse caminho… E fica capaz de ajudar outras pessoas também.

Morrer é inevitável. Chorar a morte de quem morre também. E o tempo faz seu trabalho. Acompanhar uma pessoa enlutada é esperar a borboleta sair do casulo, é esperar a rosa se abrir, é esperar a primavera chegar. Espere. Pode valer a pena.

 

CONDIÇÕES CLIMÁTICAS

Eu estava aqui inconformada pensando como alguém pode ir dormir relativamente de bem com a vida, esperançosa, animada, e acordar achando tudo uma porcaria. Mas abri a janela e vi que, se o céu, que é tão grandioso, pode mudar de cara de uma hora pra outra… Eu também posso.

Tudo é uma questão de condições climáticas, frentes frias, massas de ar quente, formação de nuvens, choques térmicos, um vento que vem dali, uma nevasca inesperada, uma brisa que ninguém espera, uma geleira que derreteu não sei onde e aumentou o fluxo de água no mar não sei qual e causou um efeito em cadeia que chega até aqui… Tudo é movimento, nos céus de dentro e de fora. São tantos fatores que se juntam e se combinam, e por isso que a gente pode até prever algumas coisas… Mas nunca garantir nada a ninguém. A vida é mesmo essa coisa sem garantia de nada, e se ilude quem pensa que é diferente.

O fato é que, às vezes, é horrível ter tempo pra pensar… Tempo pra sentir saudade. Hoje eu queria ter que acordar às 5h40 e ter um dia daqueles cheio de pepinos na escola… Daqueles que não tenho tempo nem pra sentar durante minhas 12 horas de trabalho. Aí chegaria bem cansada, lá pelas 20h, e não conseguir fazer mais nada a não ser desmaiar de cansaço no sofá. Cruel, mas agora estou percebendo como isso foi importante pra mim nos últimos tempos.

Não gosto do calor, não curto o verão. Acho chata essa obrigação de felicidade que o verão me sugere, essa coisa de vamos sair e ir para a praia, vamos badalar, vamos ver o sol, vamos viajar, vamos fazer caminhada no parque, vamos empinar pipa e montar a piscina no quintal, olha o sol, que animação. Detesto acordar suada, ter que andar com o ventilador pra todo lado, não ter fome e nem vontade de cozinhar, demorar pra dormir. Gosto mais do jeito recluso do inverno… Aquela coisa de se encolher, de se voltar pro casulo, de ficar quieta debaixo de um monte de tipos de capas diferentes, de ter um sono interminável… Como se alguma coisa estivesse cozinhando por dentro, em banho maria, bem lentamente. No inverno, os chocolates não derretem, as pessoas ficam mais na delas e você pode ficar mais na sua.

Mas hoje o clima está ameno. Não lembro direito o que sonhei, mas tinha a ver com um rato que ontem o meu vizinho veio me avisar que tinha caído morto do meu quintal. Um rato enorme, que eu não tive coragem de tirar de lá. Simplesmente fechei a porta e as janelas e pensei, amanhã eu cuido disso. Eu sonhei que ele não tinha morrido. E sonhei também que não estava sozinha pra cuidar disso. E sonhei mais um monte de coisas, inclusive que eu falava com alguém que dormia comigo, e a sensação de ter alguém perto era tão boa. Naqueles momentos em que você fica quase no sono, quase acordada… Eu tomei um baita susto quando me lembrei da minha condição – sozinha, com um rato morto no quintal, tendo que tomar coragem pra cuidar do rato e de mim antes que tudo comece a cheirar mal.

Abri a janela e vi que o rato não estava mais lá. Algum gato deve ter levado o cadáver, ou vai ver ele nem estava tão morto assim, se recuperou e foi embora. De repente, alguns problemas se resolvem sozinhos. O calor, o rato, os sonhos ruins… A solidão.

Nada como um filme de divas como Betty Davis e Greta Garbo sofrendo com dignidade, lindas e cantoras. Nada como um sonho estranho pra me mostrar que o meu inconsciente ainda está vivo, tentando processar fatos do passado, presente e intuições da melhor maneira. Nada como um dia depois do outro, uma estação depois da outra. Amanhã tudo pode ser melhor. 

Ou não.