MEIO ANO

Seis meses… Parecem seis anos. Que estrada longa.

Eliane tem razão, o tempo, para quem sofre o luto, é algo bem diferente do que é pra todos os outros.

Marcelo era alguém amável; não por essa ou aquela qualidade, embora ele tivesse muitas, mas amável como um todo. Machucado pela vida, mas extremamente amável. E eu o amava muito. E não sei se algum outro na vida me amou mais do que ele. Era alguém que me fazia sentir assim, amada, todo o tempo. Alguém que me fez conhecer essa incrível sensação de aceitação plena… Como ele vivia dizendo, para ele, eu era perfeita. E eu acabei acreditando. E isso me fazia muito feliz.

Não é fácil lidar com essa falta. É como esquecer o sabor de um doce maravilhoso que você comeu com o maior prazer da vida, mas sabe que não tem onde conseguir outro, não igual aquele. Talvez consiga outros melhores, ou quase daquele jeito, mas aquele… Aquele não tem como repetir. Vai ficar a lembrança daquele momento, daquele prazer, daquela delícia, daquele contexto. Mas o gosto… Esse a memória não é capaz de repetir. Porque a vida é assim. A gente vive o que tem hoje, sem saber o que fica pra amanhã. E por isso é tão importante viver plenamente, sentir todos os sabores, os cheiros, os sons… Hoje. Não depois, nem um dia… Mas hoje.

Me esforcei muito pra não deixar que um amor bonito virasse uma pedra dura e pesada no meu coração. Esforço mesmo. Me esforcei pra não deixar que o que me fez feliz me deixasse amargurada. E foi tanta força que eu tive que fazer que ninguém sabe. Ninguém pode nem mesmo imaginar. Talvez por isso de vez em quando me sinta tão cansada… Um cansaço milenar.

Mas quanto mais o tempo passa, mais tenho certeza de que, a mim, só cabe a gratidão por ter tido uma experiência tão intensa que me ensinou não só a amar mais e melhor, amar sem esperar nada em troca; mas também me ensinou a ter mais fé, sabedoria, me fez mais forte e me ajudou a confiar mais nos planos de Deus, mesmo que eu não os entenda. Hoje sinto que por pior que sejam as pancadas da vida, eu levantarei e seguirei adiante… Porque o melhor e o pior já aconteceram. E eu sobrevivi. Sei que a vida ainda pode me surpreender, para o bem e para o mal. Mas eu me sinto pronta para o que vier.

A vida é sempre melhor vivida do que imaginada. E pra viver, já dizia o Guimarães que o Marcelo tanto amava, a gente precisa mesmo é de coragem.

Hoje pensei tanto em quem me acompanhou nesse tempo. Me veio um profundo sentimento de gratidão. Quem chorou comigo… Quem veio aqui e me esperou dormir… Quem me deu atenção… Quem me pegou no colo… Quem me presenteou, mandou flores, cestas, presentes, bilhetes, cartas, livros. Quem resolveu coisas práticas pra mim… Quem me fez olhar para o passado e refletir… Quem me ajudou a olhar adiante e ver que existe uma tela em branco, que posso pintar como eu quiser. Quem me fez rir, cantar, acreditar, manter o foco no trabalho e nos estudos. Quem me levou pra passear, me levou pra igreja, me levou pra casa, me levou pro cinema, pro restaurante, pro show, pra festa, pra livraria. Quem não me deixou esquecer que eu era profundamente amada, e que não valia a pena desistir. Quem orou por mim nas madrugadas, nas manhãs, nas noites… Quem telefonou, mandou mensagem, se preocupou. E também quem soube a hora de fazer silêncio, se retirar e me deixar sozinha. Quem, em lágrimas, pediu para que eu não desistisse, para que eu não enlouquecesse, para que eu fosse adiante. Quem me ” fez comida, velou meu sono, foi meu amigo e me levou junto”. Muita coisa eu vi, outras não vi, não percebi, mesmo sabendo que aconteceram. Mas agradeço por todas, todas essas boas intenções e ações dirigidas a mim.

Tenho família, tenho amigos, tenho companheiros de oração, de vida, de sorrisos, de lágrimas, e de luta. Especialmente, tenho Deus Emanuel, que me acompanhou em todas as madrugadas solitárias, muitas de desespero e choro, de insônia e angústia, e soprava suave no meu ouvido… “Vai amanhecer já já… Tenha calma.” E amanheceu mesmo. Que presente… Que bem.

Hoje está nublado, e o sol e a chuva estão brigando por espaço no céu. “Eu rabisco o sol que a chuva apagou”. O céu parece perfeito assim, dúbio, da minha janela… E me deu vontade de cantar.

“E mesmo sem te ver, acho até que estou indo bem.
Só apareço, por assim dizer,
Quando convém aparecer.
Ou quando quero…
Quando quero…
Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção.
Eu rabisco o sol que a chuva apagou…
Quero que saibas que me lembro.
Queria até que pudesses me ver…
És parte ainda do que me faz forte;
E pra ser honesto, só um pouquinho infeliz.
Mas tudo bem, tudo bem, tudo bem…
Lá vem, lá vem, lá vem de novo,
Acho que estou gostando de alguém.
E é de ti que não esquecerei…”

 

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