COISAS QUE EU SEI

Pra que mais serviria fazer mais um aniversário, se não para refletir ( além de comer brigadeiros, claro )?

Nunca foi tão difícil viver como foi nos últimos tempos. Em muitos momentos, eu não queria mais. Mas o tempo foi passando e outro aniversário chegou. O meu dia da vida. Vida… Ah, vida. Não tem como não comemorar a minha vitória, a minha benção… O tempo que passou e me ensinou e maltratou e aliviou tanto.

Li textos de aniversários antigos ( e esse blog acaba de completar 11 anos, tenho alguns deles ). Como eu mudei… Quanta coisa que esperei à toa, quantos sonhos que já não tenho e não fazem o menor sentido, quanta expectativa frustada, quantas surpresas boas a vida me trouxe… Quantas decepções. Quantas voltas o mundo deu. Sou quase uma mulher de quarenta. E isso só me deixa segura e feliz de, apesar de tudo, ter vivido. E bem vivido.

E me deu vontade de registrar um pouco das coisas que hoje eu sei.

E eu sei que as principais coisas a gente não deve escrever à caneta, e sim a lápis. Eu sei também que você pode até deixar de abrir uma fatura de cartão de crédito ou olhar o saldo no banco, mas nunca deve deixar de abrir um livro de poemas ou parar para olhar a lua de vez em quando.

Sei que pode ser que você capriche, e muito, dê o seu melhor; e ainda assim, quase ninguém perceba, porque é preciso muito mais esforço para provar o que você pode fazer de bom – muito mais esforço do que o que você precisa para que percebam o que você pode fazer de ruim. Eu sei também que na maioria das vezes damos importância apenas ao que não importa, e isso é um vício idiota.

Eu sei que não é nada fácil ser leal e fiel aos seus valores, ao que você chama de ética… Mas vale a pena tentar. Eu sei também que nem tudo que me disseram era verdade, até porque a verdade quase nem existe; mas quando você encontra algo que é verdade, aquilo, de fato, pode libertar. Sei também que é muito tênue o limite entre esperar e agir. Sei que religiosidade é uma coisa, espiritualidade é outra, e é legal quando as duas se cruzam para virar aquilo que chamamos de fé.

Eu sei, e como sei, que realmente “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. E quando as pessoas se vão – e elas acabam indo, de um jeito ou de outro – a sensação de ter ido até o fim é a única coisa que pode te salvar da amargura e da tristeza.

Eu sei que nunca, nunca mesmo, vou agradar todo mundo, e por isso desisti de tentar. Eu sei que as máscaras cansam. Sei que não vou destruir e nem salvar o mundo com nada que eu diga. Sei que algumas utopias são quase impossíveis, mas esse “quase” me obriga a continuar brigando por elas. Sei também que todos os dias, os bons e os ruins, inevitavelmente passarão, e é minha tarefa escolher o que guardar de cada um. Sei o quanto a hipocrisia é demolidora de caráter e de relações. Sei também que odeio dinheiro, por causa do que ele faz contra as pessoas puras, e pelo que as pessoas impuras fazem por ele. Sei que  a única briga que vale a pena é aquela pelos seus sonhos mais loucos e profundos – o resto é apenas desgaste.

E eu sei também que a fé é algo para se aprender, não para se ganhar… Na prática. Sei que os mais sábios não são os velhos, e sim as crianças. Sei que a vaidade destrói mais que a inveja. Sei que o amor acaba. E a amizade também. Já a saudade… Essa não tem fim.

Sei que recomeçar é bom, mas não apaga cicatrizes. Sei que os vencedores não aprendem nem a metade do que aprenderam os perdedores. Sei que a maior prova de amor não são as palavras doces… E sim o silêncio das palavras duras.

Eu sei que minha mãe tinha razão em muito mais coisas do que eu imaginava, e não tinha um pingo de razão em outras tantas que pareciam tão certas. Sei que os perfeccionistas e críticos são apenas vaidosos que se acham bons demais para viver em um mundo caótico. Sei que tem mortos que voltam a arranhar o caixão. E sei também que não dá pra voltar atrás. Nunca. A vida só anda pra frente.

E eu também sei que cada um é capaz de dar conta de seu sofrimento – aos trancos e barrancos, mas dá. Sei que sempre vale a pena comemorar o pouco de felicidade que se consegue no câmbio ilegal, porque a vida é muito mais dor e luta do que sossego e sorriso. Sei que algumas pessoas nunca mudam, e outras mudam sempre – e eu gosto mais do segundo tipo de gente.

E eu tô sabendo que só vale a pena discutir com quem sabe que não sabe de nada. Sei que achar que sabe ou fingir que sabe é mais feio que não saber. Inclusive, tudo isso que hoje eu sei, amanhã posso não estar sabendo. Sem problemas.

Eu sei que o perdão é possível e fundamental, justamente porque desculpa não tira a dor. Que o tempo de dentro realmente passa bem diferente do tempo de fora.

Hoje sei que a falta de sono mata, e que só dorme tranquilo quem acredita que tem alguém cuidando de você enquanto seus olhos estão fechados. E sei que quem ama não maltrata, mesmo podendo fazê-lo. Sei que as pessoas morrem, de repente ou aos poucos.

Eu sei que, mesmo não estando só… Serei sempre só. Todos somos.

E eu sei que, mesmo sendo a vida o desafio que é, ela ainda vale a pena a tentativa de ser vivida. Até porque… Não tem outro jeito.

“Eu quero ficar perto

De tudo que acho certo
Até o dia em que eu
Mudar de opinião.
A minha experiência,
Meu pacto com a ciência,
Meu conhecimento
É minha distração…

Coisas que eu sei:
Eu adivinho
Sem ninguém ter me contado…
Coisas que eu sei:
O meu rádio relógio
Mostra o tempo errado;
Aperte o Play…

Eu gosto do meu quarto,
Do meu desarrumado,
Ninguém sabe mexer
Na minha confusão;
É o meu ponto de vista,
Não aceito turistas,
Meu mundo tá fechado
Pra visitação…

Coisas que eu sei:
O medo mora perto
Das idéias loucas.
Coisas que eu sei:
Se eu for eu vou assim,
Não vou trocar de roupa;
É minha lei…

Eu corto os meus dobrados,
Acerto os meus pecados,
Ninguém pergunta mais
Depois que eu já paguei.
Eu vejo o filme em pausas,
Eu imagino casas,
Depois eu já nem lembro
Do que eu desenhei…

Coisas que eu sei:
Não guardo mais agendas
No meu celular.
Coisas que eu sei:
Eu compro aparelhos
Que eu não sei usar.
Eu já comprei…

As vezes dá preguiça,
Na areia movediça,
Quanto mais eu mexo
Mais afundo em mim.
Eu moro num cenário,
Do lado imaginário;
Eu entro e saio sempre
Quando tô a fim…

Coisas que eu sei:
As noites ficam claras
No raiar do dia.
Coisas que eu sei:
São coisas que antes
Eu somente não sabia…

Agora eu sei.”


 

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