UM JARDIM

Fotos máquina nova2014 foi um ano de sobrevivência. Indubitavelmente.

Posso lembrar dele como um ano de recomeço. O ano em que comprei meu apartamento. O ano em que tive depressão, não gostei mais da vida e precisei da ajuda de um psiquiatra e suas pílulas maravilhosas. O ano de aprender a ser viúva e conviver com uma tragédia, pensando que realmente, como todo mundo diz, eu sou forte, porque o que houve foi realmente grave e devastante. O ano em que me deixei levar por todo mundo, porque todo mundo parecia ter uma ideia do que estava acontecendo, menos eu. O ano em que fui pragmática o suficiente pra fazer o que tinha que ser feito, sem prazer, muitas vezes. O ano em que quase não saí de casa. O ano em que fiz uma greve longa e quase me matei de trabalhar depois. O ano das Alegrias de Quintal, um dos meus maiores sucessos profissionais. O ano em que tive que crescer na marra. O ano em que fui solitária como nunca. O ano em que conheci gente muito legal e que outras pessoas simplesmente desapareceram. Ano, como todos os outros, em que morreu e nasceu gente. O ano em que o amor me sorriu novamente – e estou tentando sorrir de volta. O ano em que todo mundo teve razão – política, ideológica, filosófica, religiosa – e achava que a sua razão era melhor que a dos outros… Ai, que coisa insuportável. O ano em que vi a verdadeira face de muita gente, e me assustei. O ano em que aprendi a orar e voltei a pensar mais sobre a minha fé, um ano de trocas espirituais importantíssimas. Ano de Copa do Mundo no Brasil. O ano em que o caos esperado não veio… E outras surpresas – desagradáveis e agradáveis -aconteceram.

Haveria muito a contar sobre 2014, mas foi um ano de muito, muito silêncio também. O ano em que percebi que a maioria das palavras é vã e inútil. Esse monte de livros que eu tenho aqui na estante, esse monte de coisas que as pessoas falam todos os dias, esse monte de coisas que eu escrevo… Tudo isso me pareceu tão incapaz de dar conta do que havia para ser dito, que o silêncio foi a melhor opção.

2014 poderia ser lembrado como um ano de muitas coisas importantes. Mas o que eu gostaria de guardar dele é que foi um ano em que aprendi a cuidar de plantas.

Sim, cuidar de plantas! Na casa da minha mãe até haviam algumas, mas lá nunca fomos de plantas nem de bichos… Só de pessoas mesmo. Por isso, eu tinha na cabeça que não conseguia cuidar de plantas… E todas as que eu colocava a mão inexplicavelmente morriam em poucos dias. Não tinha paciência. Não tinha jeito. Não tinha nem mesmo muita vontade.

Ao mudar pro apartamento, senti falta de outros seres vivos por perto, porque esse sabor de morte parecia impregnado em tudo por aqui. Bichos, nem pensar. Então, pensei em comprar uma azaleia na feira, do velhinho que vendia flores e recitava um versinho ( ele também morreu em 2014, meses depois ). Trouxe a azaleia pra casa e começou a saga de montar um jardim.

Algumas plantas você ganha; outras, você compra; e outras, você herda. Cada uma é de um jeito. Umas não crescem nunca, vão ser eternamente bebês. Outras, quase dispensam cuidados, ficam de boa no sol, na chuva, aguentam um tempão sem água e dão flor o ano todo. Umas são selvagens, outras delicadíssimas e quase precisam de uma redoma. Umas são plantadas com raízes fortes, e outras duram muito pouco. Sim, plantas morrem. Umas são suculentas e guardam água nas folhas, prevenidas. Outras são frágeis e carentes. Algumas precisam de muita água, outras de bem pouca. Umas adoram sol, outras só de longe. Umas crescem rápido e logo precisam de outro vaso. Outras, nossa, são bem lentinhas. Umas apodrecem por dentro e de repente murcham. Outras, ficam mais bonitas na primavera, e no inverno secam tanto que parecem que morreram. Umas renascem do nada. Algumas têm perfume, outras não. As que precisam de menos cuidados, normalmente, tem espinhos ou são ácidas. Cada uma é bonita de um jeito diferente. E tudo sobre elas você aprende na convivência, na tentativa e erro, prestando atenção. Aprendendo a esperar e observar. Sendo delicada, prestativa e entendendo a poética da coisa.

Então, eu fui entendendo qual é a manha de cuidar de plantas. Você não cuida de plantas se não conseguir se dedicar a elas; não cuida de plantas se não se importar. Não cuida se não investir tempo e dinheiro nelas. Não cuida de planta nenhuma se não usar um pouco a cabeça e aprender sobre elas, pesquisar, trocar umas ideias com quem sabe mais. Não cuida de plantas se não fizer determinados procedimentos vitais para elas, como dar água, adubar, podar, pensar na melhor luz do sol, colocar em local arejado, trocar de vaso. Não cuida de plantas diferentes se tratá-las todas do mesmo jeito, porque cada uma tem uma manha, e todas são muito manhosas. E acima de tudo, você não cuida de plantas se não conversar com elas.

Puxa, que pulo do gato! Sempre achei estranho e ria de quem conversava com plantas. Mas é verdade. Seres vivos, dos mais exuberantes aos mais inexpressivos, são assim – precisam de atenção, de carinho, de dedicação. E quando você dá o que precisam, eles começam a ficar mais fortes, mais viçosos, mais bonitos, e sobrevivem. E o que eles precisam é só isso… Luz, água, ar, carinho e atenção.

Conversei muito com minhas plantas. Contei tudo pra elas. Alguns dias, eu estava feliz e dividia com elas as minhas vitórias. Outros dias, eu contava como estava decepcionada com a vida e com as pessoas, e minhas lágrimas ajudavam a regá-las ( sim, 2014 foi um ano em que aprendi a chorar ). Teve dias em que esqueci delas, e no outro dia, estavam lá, murchinhas, com jeito de morte. De vez em quando passava no corredor e falava, puxa, como vocês estão lindas! Ficava admirando lá de fora como elas estavam crescidas e como o meu jardim foi ficando cheio, lindo, viçoso, chamando atenção das pessoas. Mostrava orgulhosa pras pessoas e dizia, veja, olha como está lindo esse jardim! Às vezes eu ficava com preguiça e tinha raiva do trabalho que elas dão… A sujeira, a  complicação e tudo o mais. Mas foi divertido… Foi tão legal.

Um jardim é um micro sistema de vida. Começam a aparecer coisas lá que não foi você que colocou, e nem chamou, mas que fazem ele ser interessantíssimo. Insetos, passarinhos, beija-flor, belas borboletas, plantinhas de ocasião, trevos, matinhos, folhas caídas. O jardim vai formando uma composição interessante, mutante, bonita, cheia de detalhes que você vê de perto e uma imagem completa que você vê de longe.

Então fui percebendo que esse lance de cuidar, é assim – quando a gente cuida de alguém, do mais simples brotinho, ao mais complexo ser humano, do mais espinhoso cacto à mais delicada flor… A gente também cuida de si mesmo. Não há cuidado sem doação, e sem recepção… Uma coisa leva a outra. Quem cuida de alguém aprende também a ser uma pessoa melhor, mais paciente, mais profunda, mais conhecedora de si mesma. O cuidado cura.

Cultivar é isso… Desenvolver. Cuidar. Doar. Podar. Regar. Arranjar. Todas essas palavras, tão próprias do cultivo de plantas, servem também para toda a vida, todas as relações, todos os aprendizados. A vida se mostra nesses movimentos miúdos. E, como plantinhas, vamos crescendo, sendo podados, mostrando nossas flores, secando, voltando a florescer, resistindo às condições climáticas, vendo alguns de nossos companheiros morrerem, vendo alguns outros chegarem, mostrando a que viemos. Nosso potencial estava todo em nossa semente… E o que nos tornamos está tudo no jeito em que somos cuidados, e no que aprendemos a cuidar de nós mesmos. Quanto mais o tempo passa, mais forte ficamos.

Eu poderia ficar aqui fazendo aquela lista de pedidos e desejos e intenções e tudo o mais pra 2015. É inútil. Será um ano como todos os outros – passos atrás, passos para a frente, 50% depende de mim e os outros 50% não.

Então, pra 2015, só desejo que o meu jardim continue lá, lindo, firme, forte… O de dentro, e o de fora. E que ele atraia muitos passarinhos e borboletas.

E um feliz 2015 com muitas folhas, flores e frutos para todos e todas.

 

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