SER AMADO PLENAMENTE PODE ACABAR COM A SUA VIDA

 

Meus caros, minhas caras, prestem bem atenção, conselho de gente vivida: ser amado pode acabar com a sua vida.

É o que todo mundo diz que quer. Alguém por quem seja amado incondicionalmente, alguém apaixonado, que de tão apaixonado seja subserviente, excessivo, que encha todos os espaços em volta, que viva pra você, que admire, venere, faça feliz e só por isso se sinta feliz também.

Ok, é mesmo uma delícia. E se você encontrar essa pessoa, não haveria nada melhor a fazer a não ser se jogar nos braços dela e curtir a vida adoidado.

Mas cuidado. É possível que você tenha o que deseja, e que alguém te ame assim. E é possível que, por alguma razão, esse alguém suma de sua vida. Pode ser que a pessoa canse. Pode ser que a convivência seja medíocre demais para a grandeza do sentimento. Pode ser que a vida dê suas voltas incompreensíveis e estrague o prazer de vocês. Pode ser morte, cinismo, doença, dificuldade financeira, viagem, traição. Pode ser que você – veja bem, você! – que tanto quer ser amado ou amada assim, simplesmente não consiga aceitar esse amor, não consiga se permitir ser amado ou amada ( sim, é triste, mas tem gente que não sabe ser amado ) e faça besteiras suficientes pra acabar com tudo. Seja como for, pode ter um fim.

Depois do fim, você vai entender a grandeza do que teve. Coisas de ser humano. Só perceber o real valor das coisas com o afastamento – temporário ou definitivo – do que o sustenta. Paciência com nossa natureza limitada, é assim.

Você vai demorar, mas vai se recuperar. Claro que vai. Se tem uma coisa que o tempo pode fazer por você, é curar suas feridas. E você, que uma vez foi amado, vai se tocar que não consegue viver mais sem amor. É que amor vicia. Miseravelmente. Você vai querer mais.

Mas um grande desafio espera por você. Quem teve tudo, dificilmente aceita pouco, aceita menos. Pode até fingir que aceita, mas, no fundo, fica uma profunda sensação de estranhamento, de algo fora de lugar, de dívida constante. A pessoa pode até te amar com tudo que pode, mas o que ela pode, pode ser pouco pra você, que já teve tanto.

Quem já recebeu declarações de amor fartas e constantes, dificilmente se conformará com um “te amo” seco e automático na despedida.

Quem já passou horas ao telefone sem ver o assunto acabar, vai achar pouco falar 5 minutinhos entre um compromisso e outro pra checar se está tudo bem.

Quem já foi olhado profundamente nos olhos, e viu o outro se perder ali, não vai ver nada em olhos que olham de relance, com desconfiança, fugidios.

Quem já teve certeza do amor de alguém, vai morrer de ciúme de quem sabe não ter se entregado.

Quem já foi aceito e admirado em tudo que é, sentindo-se forte e quase perfeito pelo olhar do outro, vai enfraquecer ao ser constantemente julgado com frieza por quem não é generoso na aceitação e vê seus defeitos com precisão cirúrgica.

Quem já teve entrega total de alguém, não aceita meio pacote.

Quem já ouviu belos poemas e canções de amor dedicadas só pra si, não vai achar bonito melodias pobres e frases feitas.

Quem já teve fidelidade e lealdade, não vai se conformar com escapadelas de pensamento, ainda que sejam coerentes e normais.

Quem já dormiu conversando e acordou na mesma conversa de tanta afinidade de ideias, não vai ver a divergência como algo saudável, apenas aborrecido.

Quem já sonhou a dois e aprendeu a abrir mão de bons planos pra voar junto, não vai se acostumar com pé no freio e pouca doação, vai querer voar de novo.

Quem já se fundiu no corpo de alguém de tanta intimidade, não vai ter tanto tesão em fazer sexo por fazer, por mais que seja tecnicamente gostoso.

Quem já sofreu com a angústia da separação consentida para ir à padaria ou ao trabalho só para esperar pelo reencontro, não vai entender quem não sente falta desesperadamente.

Quem já foi prioridade na vida de alguém, não vai aceitar ser uma opção para o tempo livre ou para o final de semana.

Quem já viveu o encaixe da combinação perfeita, não aceita apenas estar ao lado. Vai tentar se mutilar pra encaixar de novo, sem sucesso.

Quem já foi plenamente amado, não vai aceitar nada menos que outro amor pleno.

É raro, é difícil. Pode ser que um amor assim não bata na sua porta duas vezes, muito menos três.

O problema do bom amor é que ele te ensina o valor de ser amado. E depois, não há mais possibilidade de deixar por menos.

É verdade que ser bem amado muda sua visão de você mesmo ou mesma, de todos e todas, do mundo, e te permite, ao mesmo tempo, ser mais exigente e mais solidário com os corações perdidos. Pode ser que você consiga, a duras penas, construir o amor de novo ao amar alguém como um dia foi amado. Mas, é difícil. A reciprocidade é quase um milagre, e todos esperamos por ele. Porém, todos sabemos porque os milagres se chamam milagres. Não são comuns. Não são fáceis. Não são para todos. São especiais.

É, camarada. Cuidado. Ser amado ou amada plenamente pode acabar com sua vida, é verdade.

Mas também é verdade que você não saberá o que é uma vida até ser plenamente amado.

Então, na dúvida… Ame.

E feliz dia dos namorados!

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TODOS DIZEM EU TE AMO

Napoleão e Josefine

Trechos de cartas de amor de homens famosos para suas amadas e amados…

Belíssimas. Todos dizem eu te amo. Uns com mais classe que outros, claro, mas todos dizem. Basta saber ouvir.

“Não acreditarás na saudade que sinto de ti. Só fico livre desse tormento quando estou assoberbado de trabalho no tribunal e nos processos dos amigos. Avalie como é a minha vida quando só encontro repouso no trabalho e conforto na tristeza e na ansiedade…”

Plínio, o Jovem, para a esposa Calpúrnia

 

“Quanto não pode acontecer em um dia! Na noite anterior eu me considerava um homem feliz, a quem nada faltava, com a certeza da sorte. (…) Mas o amor, o todo-poderoso amor, parece ter em um único instante me afastado prodigiosamente de tudo que não seja sua pessoa. No meio da multidão, estou só. E todo o mais tornou-se insignificante.”

William Congreve, para Arabella Hunt

 

“És uma dádiva grande demais para ser conquistada de imediato, portanto, devo ser preparado aos poucos para que esse presente precioso não me deixe louco de alegria.”

Richar Steele, para Mary Scurlock

 

“Querida esposinha, tenho alguns pedidos a fazer. Rogo-te que (1) não fiques triste; (2)cuides da saúde e tenhas cuidado com as brisas da primavera; (3) não saias para caminhar sem companhia – e, de preferência, não saias para caminhar de jeito nenhum; (4) fiques absolutamente segura do meu amor. Até o presente não escrevi nenhuma carta para ti sem ter diante de mim teu amado retrato.”

Mozart, para Constanze

 

“Em meio aos meus deveres, quer eu esteja à frente do exército ou inspecionado os campos, minha amada Josefina domina meu coração, ocupa minha mente, preenche meus pensamentos. Se estou me afastando de ti à velocidade da torrente do Ródano, é somente para poder tornar a ver-te mais cedo. Se me levanto para trabalhar no meio da noite, é porque isso pode acelerar em alguns dias a chegada do meu doce amor.”

Napoleão Bonaparte, para Josefina

 

“Não acreditarás na saudade que sinto de ti. Só fico livre desse tormento quando estou assoberbado de trabalho no tribunal e nos processos dos amigos. Avalie como é a minha vida quando só encontro repouso no trabalho e conforto na tristeza e na ansiedade…”

Plínio, o Jovem, para a esposa Calpúrnia

 

“O amor exige tudo e está certo. Portanto, ele me quer contigo, e te quer comigo. Apenas te esqueces que eu preciso para ti, e para mim – se estivéssemos juntos, sentirias essa dor tão pouco quanto eu deveria senti-la.”
Ludwin van Beethoven, para sua Amada Imortal

 

“Oh! Como teria gostado de passar meio dia ajoelhado a teus pés, com a cabeça sobre teus joelhos, sonhando lindos sonhos, contando-te meus pensamentos com lassitude, com arrebatamento, às vezes sem dizer nada, mas pressionando meus lábios contra teu vestido!”

Honoré de Balzac, para Condessa Ewelina Hanska

 

“Não é ela a única razão do meu viver?  Se ela me demonstrar indiferença, ou mesmo ódio, será meu infortúnio, é tudo. Portanto, que importa, se com isso a felicidade dela não for prejudicada? Sim, se ela não puder me amar, só a mim mesmo caberá a culpa. Meu dever é seguir-lhe de perto os passos, cercar a existência dela com a minha, servir-lhe de barreia contra todos os perigos, oferecer-lhe minha cabeça como apoio, colocar-me incessantemente entre ela e todas as tristezas, sem demandar qualquer prêmio, ou esperar qualquer recompensa. (…) Se cada um dos meus dias for marcado por algum sacrifício em favor dela, no dia da minha morte eu ainda não terei resgatado nem uma fração da dívida infinita da minha existência para com a existência dela.”

Victor Hugo, para Adéle

 

“Perdoa tanto egoísmo – digo-te isso porque penso que irás humanizar-me, e logo irás ensinar-me que existe uma felicidade maior do que construir teorias e acumular fatos no silêncio e na solidão. Minha mui querida Emma, espero de todo coração que nunca te arrependas do grandioso, diria mesmo excelente, ato que realizarás na terça-feira. Minha querida futura esposa… Deus te abençoe.”

Charles Darwin para Emma, sua esposa, três dias antes do casamento.

 

“Cada dia que passamos juntos fortalece minha confiança de que não só nunca mais desejaremos estar separados, como nunca poderemos sequer imaginar a tristeza de não nos termos unido. Hoje és mais cara para mim, minha criança, do que eras no dia do teu aniversário passado, quando eras mais querida que no ano anterior – foste tornando-te, progressivamente, mais querida desde o primeiro aniversário, e não tenho dúvida de que essa preciosa progressão continuará até o fim.”

Mark Twain, para Livy

 

“Em alguns momentos, pensei que seria melhor nos separarmos. Ah! Momentos de fraqueza e loucura! Agora vejo que isso teria mutilado minha vida, arruinado minha arte, destruído os acordes que compõem uma alma perfeita. Mesmo coberto de lama, eu te louvarei; dos abismos mais profundos, eu clamarei por ti. Na minha solidão, tu estarás comigo. Estou decidido a não me revoltar, mas aceitar todos os ultrajes pela devoção ao amor; deixar meu corpo ser desonrado, desde que minha alma possa guardar sempre a tua imagem.”

Oscar Wilde, para Alfred Douglas

 

“Significas tanto para mim, não imaginas quanto. A vida sem ti seria absolutamente vazia. Eu me pergunto como conseguia viver antes. Na verdade, estou cheio de amor, e durante os últimos dois ou três anos esperava despejá-lo sobre alguém, e sempre vivi na esperança de poder fazê-lo… Era o que me sustentava. Agora, tenho alguém a quem posso dedicar e dedico todo o meu amor. Alguém que me faz sorrir e sonhar em meio aos horrores da guerra.”

Tenente John Lindsay, para a noiva – ele morreu na guerra antes de reencontrá-la.

Fonte:

livro

O PATINHO LINDO

Era uma vez uma mamãe pata. Como todas as mães, ela ficou muito feliz quando colocou seus ovinhos e começou a chocá-los. O tempo de choca é importante para que as mamães possam ter sonhos sobre seus patinhos… Imaginá-los, esperá-los, ter medo por eles, sentir amor por eles, antes mesmo que eles existam. Foi uma maneira que a natureza criou para plantar amor no coração das mamães patas (porque amor não é fácil de criar). Enquanto chocava seus ovinhos, mamãe pata também chocava suas expectativas.

Os ovinhos começaram a se abrir. Finalmente tinha chegado a hora! Todos os ovinhos foram estourando a casca, e de lá saíram patinhos, patinhos como todos os outros patinhos da Terra, frágeis, dependentes, fofinhos. Em cada patinho, mamãe pata colou os sonhos que vinha sonhando. Mas um ovo demorou mais para se abrir. E mamãe pata voltou a chocá-lo, preocupada, mas amorosa ainda. Com o passar dos dias, aconteceu algo diferente: os sonhos sonhados por mamãe pata começaram a retroceder… E ela não sabia o que esperar. Um patinho que demorava tanto pra nascer, só podia ser especial, além ou aquém de tudo que ela pudesse esperar. Mamãe pata teve medo de fazer um sonho pra ele. Mesmo assim, continuou chocando.

Tempos depois, nasceu um patinho. Não haviam mais sonhos para serem colados. Até porque era verdade, ele não era como os outros. Desde que abriu os olhos, ao invés de olhar a mamãe, ou o que estava mais próximo, ele olhou para o sol, para as nuvens… Para longe. Mamãe pata ficou um pouco preocupada. Seria o seu patinho especial, diferente? Ela já conhecia o mundo… Já sabia que os patinhos diferentes não eram tolerados com tranquilidade… Sabia que um patinho diferente sofreria um pouco mais.

Ele era maior que os outros. Um pouco mais lento, mas extremamente profundo. Aprendia as coisas com muita facilidade, era inteligentíssimo. Mas acima de tudo… Era um patinho sonhador.

Sonhava, sonhava, sonhava. Sonhava sonhos pra ele, sonhos para os mais próximos, sonhos para o mundo todo. E tinha nele uma serenidade e um amor que não cabiam nele. E era um amor tão grande que o fazia olhar para as pessoas e saber tudo delas, amá-las quase que instantaneamente. Mas justamente por isso, por evidenciar essa falta de amor que havia entre as criaturas com o seu super amor… Ele não era compreendido. E muito menos bem quisto.

Os da mesma idade, por inveja ou por medo, costumavam isolá-lo. Os mais velhos achavam que era um patinho atrasado, que gostava de vadiar. Não entendiam essa postura contemplativa. O patinho tinha coração de poeta. E os poetas estão sempre sós neste mundo. Em sua solidão, tão profunda, eles vêem o tamanho da paisagem – do mundo e das pessoas. Os patinhos com coração de poeta vêem tudo nas criaturas. Vêem a guerra, a maldade, as diversas fomes, as carências que há dentro de cada um. Vêem a alegria, a satisfação, a disposição. Vêem a melancolia, o medo, a raiva, o desprezo. E sentem tudo muito profundamente. Pobre patinho… Não sabia o que fazer com tudo isso. Por isso, tornava-se cada vez mais diferente, cada vez mais só.

Mas ele não gostava de ser só. Por isso, tentou mudar a si mesmo. Não conseguiu. Depois, tentou mudar o mundo. Também não deu certo. Depois ele achou que o problema era o mundo a sua volta. Então, sentiu vontade de fugir. Fugir para bem longe, para algum lugar onde ele não fosse tão diferente, onde ele pudesse ser quem é, junto a pessoas iguais como ele. Mas em todos os lugares do mundo onde ele foi, não encontrou ambientes diferentes. As criaturas do mundo se repetem, se repetem, se repetem… Incansavelmente.

Cansado de tudo, o patinho resolveu parar. Parar de procurar, de mudar, de tentar mudar o mundo, parar de querer companhia. E então, o patinho descobriu o remédio para a sua intensidade: o tempo.

Sim, o tempo… O tempo tinha muito para ensinar ao patinho. Ensinar a ter mais paciência com o insistente atraso do mundo… Ensinar a sempre achar um jeito de se comunicar com as pessoas… Ensinar a achar as companhias certas, nas horas certas, do jeito certo. E o patinho foi aprendendo… Aprendendo.

O patinho foi feliz. Trabalhou, estudou, arrumou amigos, se divertiu… Se apaixonou e fez uma nova família, com outros patinhos… E foi o melhor pai patinho de todos.

E, ainda velhinho, o patinho olhava para o horizonte da mesma maneira que olhou quando nasceu: querendo catar estrelas, querendo assoprar as nuvens, querendo amainar o calor do sol e tocar no brilho da lua. E as criaturas gostavam de ouvir as histórias do patinho. E, por causa dele, elas também aprendiam a olhar para o universo de um jeito diferente… O de fora e o de dentro. O patinho enfeitou o mundo o quanto pode.

E então o mundo percebeu a verdade. Ele não era um patinho feio, estranho ou diferente. Era um patinho lindo… Lindo, lindo, lindo. E na feiura do mundo… Ele brilhava. E fazia brilhar.

TRAUMA

 

 

A palavra “trauma” vem do grego “ferida”.

Não é cicatriz, não é passado, não é “já devia ter sarado”, não é “seja forte”, não é “dorzinha” – é ferida.

Um jeito de ver a palavra “trauma” é pensando em rompimento, como no momento em que um osso se parte, quando se corta um pedaço do braço, ou se torce o tornozelo, ou se leva um tiro. Traumatizou. Feriu. Bang.

O outro jeito de ver o “trauma” é quando algo que devia estar sarando não sara, de jeito nenhum. É como se a ferida se atualizasse, sem trégua pra recuperação. Aí dizemos que aquela pessoa ficou “traumatizada”.

Algo que se atualiza como ferida cravada na carne ou na alma é difícil de encarar. É como se você se machucasse de novo quase todo dia. O problema não é ter caído e machucado e cortado e quebrado e traumatizado uma vez. É quando a ferida reabre, devagarinho e sempre, ou de repente, e não te deixa fazer uma cicatriz.

Quem tem um corte suturado, precisa ter cuidado para não bater ali, para que não se abra de novo. Quem tem uma perna quebrada, precisa tomar cuidado ao andar para não cair e prejudicar a recomposição do osso, ou o que é pior – quebrar a outra perna e ficar impossibilitado de andar. Quem tem um “trauma” em si, seja lá qual for, vive assim, com medo, procurando não deixar que nada que aconteça piore o seu estado.

De vez em quando, a gente se testa. Passa o dedo na ferida, que parece quase fechada, pra ver se ainda dói. Mete a língua na afta, pra ver se ainda está lá, doendo. Tira a casquinha do machucado pra saber se por baixo ainda está infeccionado, e faz sangrar mais. Ouve aquela música. Vai visitar aquela pessoa. Faz aquela comida. Passa por aquele caminho. A gente se testa, claro que sim. Tenta. Mas é tão difícil perceber que, no processo de cura, ainda falta um tanto. Difícil perceber que ainda dói, ainda sangra.

Mesmo as cicatrizes da ferida não são como o resto que não foi traumatizado. Sei porque tenho uma no braço direito, fruto de uma cirurgia que fiz pra resolver um calo no osso, depois de terem engessado o meu braço errado após uma queda da bicicleta que causou quatro fraturas.Faz 30 anos que a cicatriz está aqui. É um risco grande na minha pele, discreto. Em cima daquele risco, a minha pele é diferente. Não tem sensibilidade nenhuma. Se fechou para sentir qualquer coisa; talvez porque ali houve intensidade demais e não sobrou nada pra depois; não é mais a minha pele original, mas uma pele que veio depois, sem terminações nervosas. Um risco na pele que não serve pra mais nada a não ser me lembrar da história, da queda.

Me lembro com alegria do acidente, mesmo lembrando da dor que senti por causa das fraturas, e da cirurgia depois; me lembro das pessoas adultas dizendo, quando eu tive medo de subir na bicicleta sem rodinhas de novo, “você precisa tentar, e logo; senão vai traumatizar”. Eu tentei. Aprendi a andar. Não tem coisa mais gostosa que andar de bicicleta. Agradeço aos meus pais e tios por isso, por terem me ensinado a fazer assim, a ir, a tentar de novo, a subir na bicicleta e cair quantas vezes fossem necessárias até aprender. O medo deles era que a fratura do corpo virasse também uma fratura da alma. Porque os “traumas” do corpo, a gente sabe mais ou menos quanto tempo demora pra curar. Mas os traumas da alma… Ah, esses, são imprevisíveis. E gostam de durar pra sempre.

O trauma da alma é uma prisão. Vejo tanta gente que nem sabe o quanto está presa, e outros que, como eu, lutam contra o que sentem sem sucesso ( não sei o que é pior ). Mulheres e homens que não querem filhos por não terem sido amados na infância. Moças e moços que morrem de vontade de se apaixonar, mas não conseguem, porque um dia foram miseravelmente traídos e abandonados. Gente que não consegue viver o prazer do sexo, porque um dia se sentiram usados e reprimidos. Pessoas que deixaram de sonhar porque um dia viram tudo que acreditaram ruir em pedacinhos impossíveis de colar em sua frente. Gente impedida de fazer escolhas livres. E pode ser mais simples, mas não menos dolorido. Gente que sente tremedeira ao passar em determinado lugar onde viveu um acidente; gente que morre de medo de velórios porque ainda não superou um luto grave; gente que não consegue colocar aliança no dedo, não consegue dormir depois de ver um inseto em casa, que não consegue vestir determinada cor, que sente náuseas ao sentir determinado cheiro que lembra um momento ruim, que mudam de humor ao ouvir determinada palavra, que nunca mais provaram uma comida depois de terem comido aquilo estragado. Prisões, que impedem o movimento da vida, livre, indo, voltando, machucando, curando. Prisões que paralisam e machucam de novo, e de novo, e de novo.

Creio que o trauma é uma vontade de segurar o tempo; de não sentir o vazio. Ao deixar a ferida da alma aberta, você se apega ao último vestígio do que um dia existiu de bom ali. Mas é uma ilusão. Ninguém segura o tempo, e ninguém apaga o que passou. Ninguém.

Quem tem um trauma precisa de cuidado. Precisa de gesso, de sutura, de fisioterapia, de remédio pra dor, de apoios externos. Precisa de carinho, de atenção, de gentileza, de cautela, de conversa, de fé em algo ou alguém. Precisa de muito, muito amor. Mas quem tem tempo pra muito amor hoje em dia? Tá difícil.

Mas mesmo o amor só pode ir até uma parte do caminho. Chega uma hora, um momento, um pedacinho que só o traumatizado pode fazer. É você com a sua alma, você em seu quarto escuro, trancado e lacrado e ignorado antes, mas agora aberto… E nada mais. Como o cachorro e o gato que, ao se machucarem, não deixam que ninguém chegue perto, e têm o instinto de lamber as próprias feridas, e ficar ali, acariciando o local ferido sozinho, achando que só saliva de quem sentiu a dor pode curar. E de repente é só isso mesmo. Sempre ouvi e acreditei que a natureza é mais sábia que qualquer um de nós.

Hoje, ao me ver morrendo de vontade de ir abraçar uma amiga em um momento difícil indo a um velório, sem conseguir, pensei nisso tudo, nos meus traumas. Me senti assim, presa, incapaz. O último velório que fui me deu vontade de morrer também, ali na hora, e tantas vezes depois. Ouço ainda a voz do meu próprio choro. Minha amiga e sua família querida nada têm a ver com isso, e são situações completamente diferentes. Mas não consegui.

Traumas são assim. Feridas.

E já passou da hora de eu entrar no meu quartinho escuro e ver o que tanto tem lá. Colocar todas as cruzes na beira da estrada. Subir de novo na bicicleta. Pra seguir. Pra continuar. Livre.

“Eu sei que as cicatrizes falam
Mas as palavras calam
O que eu não me esqueci.”