TRAUMA

 

 

A palavra “trauma” vem do grego “ferida”.

Não é cicatriz, não é passado, não é “já devia ter sarado”, não é “seja forte”, não é “dorzinha” – é ferida.

Um jeito de ver a palavra “trauma” é pensando em rompimento, como no momento em que um osso se parte, quando se corta um pedaço do braço, ou se torce o tornozelo, ou se leva um tiro. Traumatizou. Feriu. Bang.

O outro jeito de ver o “trauma” é quando algo que devia estar sarando não sara, de jeito nenhum. É como se a ferida se atualizasse, sem trégua pra recuperação. Aí dizemos que aquela pessoa ficou “traumatizada”.

Algo que se atualiza como ferida cravada na carne ou na alma é difícil de encarar. É como se você se machucasse de novo quase todo dia. O problema não é ter caído e machucado e cortado e quebrado e traumatizado uma vez. É quando a ferida reabre, devagarinho e sempre, ou de repente, e não te deixa fazer uma cicatriz.

Quem tem um corte suturado, precisa ter cuidado para não bater ali, para que não se abra de novo. Quem tem uma perna quebrada, precisa tomar cuidado ao andar para não cair e prejudicar a recomposição do osso, ou o que é pior – quebrar a outra perna e ficar impossibilitado de andar. Quem tem um “trauma” em si, seja lá qual for, vive assim, com medo, procurando não deixar que nada que aconteça piore o seu estado.

De vez em quando, a gente se testa. Passa o dedo na ferida, que parece quase fechada, pra ver se ainda dói. Mete a língua na afta, pra ver se ainda está lá, doendo. Tira a casquinha do machucado pra saber se por baixo ainda está infeccionado, e faz sangrar mais. Ouve aquela música. Vai visitar aquela pessoa. Faz aquela comida. Passa por aquele caminho. A gente se testa, claro que sim. Tenta. Mas é tão difícil perceber que, no processo de cura, ainda falta um tanto. Difícil perceber que ainda dói, ainda sangra.

Mesmo as cicatrizes da ferida não são como o resto que não foi traumatizado. Sei porque tenho uma no braço direito, fruto de uma cirurgia que fiz pra resolver um calo no osso, depois de terem engessado o meu braço errado após uma queda da bicicleta que causou quatro fraturas.Faz 30 anos que a cicatriz está aqui. É um risco grande na minha pele, discreto. Em cima daquele risco, a minha pele é diferente. Não tem sensibilidade nenhuma. Se fechou para sentir qualquer coisa; talvez porque ali houve intensidade demais e não sobrou nada pra depois; não é mais a minha pele original, mas uma pele que veio depois, sem terminações nervosas. Um risco na pele que não serve pra mais nada a não ser me lembrar da história, da queda.

Me lembro com alegria do acidente, mesmo lembrando da dor que senti por causa das fraturas, e da cirurgia depois; me lembro das pessoas adultas dizendo, quando eu tive medo de subir na bicicleta sem rodinhas de novo, “você precisa tentar, e logo; senão vai traumatizar”. Eu tentei. Aprendi a andar. Não tem coisa mais gostosa que andar de bicicleta. Agradeço aos meus pais e tios por isso, por terem me ensinado a fazer assim, a ir, a tentar de novo, a subir na bicicleta e cair quantas vezes fossem necessárias até aprender. O medo deles era que a fratura do corpo virasse também uma fratura da alma. Porque os “traumas” do corpo, a gente sabe mais ou menos quanto tempo demora pra curar. Mas os traumas da alma… Ah, esses, são imprevisíveis. E gostam de durar pra sempre.

O trauma da alma é uma prisão. Vejo tanta gente que nem sabe o quanto está presa, e outros que, como eu, lutam contra o que sentem sem sucesso ( não sei o que é pior ). Mulheres e homens que não querem filhos por não terem sido amados na infância. Moças e moços que morrem de vontade de se apaixonar, mas não conseguem, porque um dia foram miseravelmente traídos e abandonados. Gente que não consegue viver o prazer do sexo, porque um dia se sentiram usados e reprimidos. Pessoas que deixaram de sonhar porque um dia viram tudo que acreditaram ruir em pedacinhos impossíveis de colar em sua frente. Gente impedida de fazer escolhas livres. E pode ser mais simples, mas não menos dolorido. Gente que sente tremedeira ao passar em determinado lugar onde viveu um acidente; gente que morre de medo de velórios porque ainda não superou um luto grave; gente que não consegue colocar aliança no dedo, não consegue dormir depois de ver um inseto em casa, que não consegue vestir determinada cor, que sente náuseas ao sentir determinado cheiro que lembra um momento ruim, que mudam de humor ao ouvir determinada palavra, que nunca mais provaram uma comida depois de terem comido aquilo estragado. Prisões, que impedem o movimento da vida, livre, indo, voltando, machucando, curando. Prisões que paralisam e machucam de novo, e de novo, e de novo.

Creio que o trauma é uma vontade de segurar o tempo; de não sentir o vazio. Ao deixar a ferida da alma aberta, você se apega ao último vestígio do que um dia existiu de bom ali. Mas é uma ilusão. Ninguém segura o tempo, e ninguém apaga o que passou. Ninguém.

Quem tem um trauma precisa de cuidado. Precisa de gesso, de sutura, de fisioterapia, de remédio pra dor, de apoios externos. Precisa de carinho, de atenção, de gentileza, de cautela, de conversa, de fé em algo ou alguém. Precisa de muito, muito amor. Mas quem tem tempo pra muito amor hoje em dia? Tá difícil.

Mas mesmo o amor só pode ir até uma parte do caminho. Chega uma hora, um momento, um pedacinho que só o traumatizado pode fazer. É você com a sua alma, você em seu quarto escuro, trancado e lacrado e ignorado antes, mas agora aberto… E nada mais. Como o cachorro e o gato que, ao se machucarem, não deixam que ninguém chegue perto, e têm o instinto de lamber as próprias feridas, e ficar ali, acariciando o local ferido sozinho, achando que só saliva de quem sentiu a dor pode curar. E de repente é só isso mesmo. Sempre ouvi e acreditei que a natureza é mais sábia que qualquer um de nós.

Hoje, ao me ver morrendo de vontade de ir abraçar uma amiga em um momento difícil indo a um velório, sem conseguir, pensei nisso tudo, nos meus traumas. Me senti assim, presa, incapaz. O último velório que fui me deu vontade de morrer também, ali na hora, e tantas vezes depois. Ouço ainda a voz do meu próprio choro. Minha amiga e sua família querida nada têm a ver com isso, e são situações completamente diferentes. Mas não consegui.

Traumas são assim. Feridas.

E já passou da hora de eu entrar no meu quartinho escuro e ver o que tanto tem lá. Colocar todas as cruzes na beira da estrada. Subir de novo na bicicleta. Pra seguir. Pra continuar. Livre.

“Eu sei que as cicatrizes falam
Mas as palavras calam
O que eu não me esqueci.”

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4 comentários sobre “TRAUMA

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