O PATINHO LINDO

Era uma vez uma mamãe pata. Como todas as mães, ela ficou muito feliz quando colocou seus ovinhos e começou a chocá-los. O tempo de choca é importante para que as mamães possam ter sonhos sobre seus patinhos… Imaginá-los, esperá-los, ter medo por eles, sentir amor por eles, antes mesmo que eles existam. Foi uma maneira que a natureza criou para plantar amor no coração das mamães patas (porque amor não é fácil de criar). Enquanto chocava seus ovinhos, mamãe pata também chocava suas expectativas.

Os ovinhos começaram a se abrir. Finalmente tinha chegado a hora! Todos os ovinhos foram estourando a casca, e de lá saíram patinhos, patinhos como todos os outros patinhos da Terra, frágeis, dependentes, fofinhos. Em cada patinho, mamãe pata colou os sonhos que vinha sonhando. Mas um ovo demorou mais para se abrir. E mamãe pata voltou a chocá-lo, preocupada, mas amorosa ainda. Com o passar dos dias, aconteceu algo diferente: os sonhos sonhados por mamãe pata começaram a retroceder… E ela não sabia o que esperar. Um patinho que demorava tanto pra nascer, só podia ser especial, além ou aquém de tudo que ela pudesse esperar. Mamãe pata teve medo de fazer um sonho pra ele. Mesmo assim, continuou chocando.

Tempos depois, nasceu um patinho. Não haviam mais sonhos para serem colados. Até porque era verdade, ele não era como os outros. Desde que abriu os olhos, ao invés de olhar a mamãe, ou o que estava mais próximo, ele olhou para o sol, para as nuvens… Para longe. Mamãe pata ficou um pouco preocupada. Seria o seu patinho especial, diferente? Ela já conhecia o mundo… Já sabia que os patinhos diferentes não eram tolerados com tranquilidade… Sabia que um patinho diferente sofreria um pouco mais.

Ele era maior que os outros. Um pouco mais lento, mas extremamente profundo. Aprendia as coisas com muita facilidade, era inteligentíssimo. Mas acima de tudo… Era um patinho sonhador.

Sonhava, sonhava, sonhava. Sonhava sonhos pra ele, sonhos para os mais próximos, sonhos para o mundo todo. E tinha nele uma serenidade e um amor que não cabiam nele. E era um amor tão grande que o fazia olhar para as pessoas e saber tudo delas, amá-las quase que instantaneamente. Mas justamente por isso, por evidenciar essa falta de amor que havia entre as criaturas com o seu super amor… Ele não era compreendido. E muito menos bem quisto.

Os da mesma idade, por inveja ou por medo, costumavam isolá-lo. Os mais velhos achavam que era um patinho atrasado, que gostava de vadiar. Não entendiam essa postura contemplativa. O patinho tinha coração de poeta. E os poetas estão sempre sós neste mundo. Em sua solidão, tão profunda, eles vêem o tamanho da paisagem – do mundo e das pessoas. Os patinhos com coração de poeta vêem tudo nas criaturas. Vêem a guerra, a maldade, as diversas fomes, as carências que há dentro de cada um. Vêem a alegria, a satisfação, a disposição. Vêem a melancolia, o medo, a raiva, o desprezo. E sentem tudo muito profundamente. Pobre patinho… Não sabia o que fazer com tudo isso. Por isso, tornava-se cada vez mais diferente, cada vez mais só.

Mas ele não gostava de ser só. Por isso, tentou mudar a si mesmo. Não conseguiu. Depois, tentou mudar o mundo. Também não deu certo. Depois ele achou que o problema era o mundo a sua volta. Então, sentiu vontade de fugir. Fugir para bem longe, para algum lugar onde ele não fosse tão diferente, onde ele pudesse ser quem é, junto a pessoas iguais como ele. Mas em todos os lugares do mundo onde ele foi, não encontrou ambientes diferentes. As criaturas do mundo se repetem, se repetem, se repetem… Incansavelmente.

Cansado de tudo, o patinho resolveu parar. Parar de procurar, de mudar, de tentar mudar o mundo, parar de querer companhia. E então, o patinho descobriu o remédio para a sua intensidade: o tempo.

Sim, o tempo… O tempo tinha muito para ensinar ao patinho. Ensinar a ter mais paciência com o insistente atraso do mundo… Ensinar a sempre achar um jeito de se comunicar com as pessoas… Ensinar a achar as companhias certas, nas horas certas, do jeito certo. E o patinho foi aprendendo… Aprendendo.

O patinho foi feliz. Trabalhou, estudou, arrumou amigos, se divertiu… Se apaixonou e fez uma nova família, com outros patinhos… E foi o melhor pai patinho de todos.

E, ainda velhinho, o patinho olhava para o horizonte da mesma maneira que olhou quando nasceu: querendo catar estrelas, querendo assoprar as nuvens, querendo amainar o calor do sol e tocar no brilho da lua. E as criaturas gostavam de ouvir as histórias do patinho. E, por causa dele, elas também aprendiam a olhar para o universo de um jeito diferente… O de fora e o de dentro. O patinho enfeitou o mundo o quanto pode.

E então o mundo percebeu a verdade. Ele não era um patinho feio, estranho ou diferente. Era um patinho lindo… Lindo, lindo, lindo. E na feiura do mundo… Ele brilhava. E fazia brilhar.

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