BRINCAR DE VIVER

Eu era pequenininha, meu irmão Rodrigo menor ainda; e sei disso porque lembro dele cantando com a fala meio enrolada e fofinha, exatamente como o filho dele, Dudu, faz hoje. A Maria Bethânia parecia um anjo na televisão, toda de branco, iluminada, com aquela voz forte e doce que lhe é tão característica cantando “a arte de sorrir cada vez que o mundo diz ‘não’ “. Minha mãe achava linda essa canção; ela olhava nos olhos da gente, sorria e cantava pra nós. Eu também achava linda a música, embora não a entendesse da maneira que entendo hoje. Mal sabia, naquele tempo, como eu teria que ouvi-la na minha cabeça ao longo da vida.

2016, vou fazer 40 anos. Aos 20, eu tinha muitos sonhos. Ter uma família, marido e filhinhos. Fazer algo incrível na minha profissão. Mudar o mundo, torná-lo um lugar justo e habitável. Viver experiências incríveis. Ter um grande amor. Viajar pra um lugar em que ninguém pisou. Escrever um livro. Ter uma casa com jardim. Me divertir rodeada de bons amigos. Ser bem sucedida em muitas pequenas coisas interessantes. Ler todos os livros que eu quisesse. Pintar as paredes de rosa. Ser alguém interessante.

Alguns sonhos se frustraram, outros se realizaram e superaram minhas expectativas, e outros foram remediados. Creio que com todo mundo é assim. É mesmo assim. Desejo, expectativa, vida, alegria ou tristeza. Movimento. Ninguém escapa. Por que eu escaparia?

Mas é triste, de repente, se ver sem sonhos. Sem gostar de viver. Sem querer estar perto das pessoas. Se prejudicando, se sabotando, se esmagando, se colocando em situações perigosas pra ver tudo degringolar mais ainda e provar que tem razão. Provar que não vale a pena.

Não foram poucas as vezes em que eu me peguei, ultimamente, dizendo NÃO pra vida. Em muitos, profundos e difíceis sentidos. Que vontade de desistir.

Talvez eu até tivesse o direito de desistir. Quem me condenaria? Talvez a força das minhas tragédias me absolvesse por parar de aprender essa arte de sorrir pros “nãos” da vida, e me daria permissão pra continuar fazendo o que andei fazendo nos últimos tempos… Vivendo apenas um dia por vez, sem muitas expectativas, me esforçando pra não sonhar, pra não esperar, pra não desejar, e assim… Não me machucar de novo. E de novo. E de novo. Estive fazendo como fazem aquelas pessoas que não querem ser notadas em festa, me escondendo pelos cantos, pra vida não perceber o meu potencial de felicidade e acabar com tudo de novo.

Eu tentei desistir.

Mas algo, alguém tem me chamado. Algo, alguém (alguéns) com a mesma força do olhar e da voz da minha mãe, olhando nos meus olhos e dizendo, volta pro ninho, redescobre o seu lugar, retorna, enfrenta o dia a dia… Reaprende a sonhar. A vida é mesmo assim. A história não tem fim. Continua sempre que você responde SIM.

Sim, eu quero voltar a sonhar, como sonhava aos vinte anos, outros sonhos, sabendo que pode dar tudo errado, mas esperando que dê tudo certo.

Sim, eu quero continuar amando muita gente, mesmo que essa coisa de amar seja algo tão difícil de se fazer e às vezes acabe comigo.

Sim, eu quero continuar aprendendo, e entendendo cada vez mais que o que eu sei é muito pouquinho perto do que há pra se saber.

Sim, eu quero cuidar das pessoas. É assim que eu sou, eu cuido. E quero também que elas cuidem de mim. Eu quero aprender a deixar elas cuidarem de mim.

Sim, eu aceito resignada o que não posso mudar em mim e na vida, porque algumas coisas simplesmente são como são. Limitações são necessárias. Em mim e na vida.

Sim, eu vou lutar com unhas, dentes e coração pra mudar aquilo que eu puder, porque ter preguiça de me mexer e largar tudo pra lá é um desperdício da vida que me foi dada um dia.

Sim, eu vou continuar partilhando experiências, inclusive com quem não merece, porque muitas vezes aceito as partilhas generosas de quem me cerca sem que eu mereça.

Sim, eu quero fazer coisas, eu quero que aconteçam coisas comigo, eu quero reagir, eu quero brilhar com a doçura e a força da Maria Bethânia, eu quero ter algo de bom pra contar no meio das coisas ruins.

Sim… Eu vou continuar.

A emoção começa agora. Agora é brincar de viver.

Vem, 2016. Eu digo SIM pra você.

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