40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – TEMPO

“Batidas na porta da frente… É o Tempo.”

O Tempo, eu já sonhei com ele algumas vezes. Ele, o senhor velhinho de barbas brancas, primo de Deus de tão poderoso, onisciente, onipresente. Também já o vi como o ser de duas cabeças. Cruel, impiedoso, justo, impessoal, o que tira o viço da vida, o que rouba a alegria. Abençoador, condescendente, amoroso, misericordioso, o que leva embora a tristeza e a dor e traz a sabedoria. “Ele sabe passar… E eu não sei.”

Kronos, o exato, o perfeito, o objetivo, o métrico, o linear, o metódico. Ano após ano, ele passou. Eu não o percebia quando era uma menina, tive raiva dele quando era jovem, e agora… Pertinho dos 40… Acho que é hora de fazermos amizade.

Kairós, o subjetivo, o surpreendente, o impossível de medir, o inexplicável, o intenso, o indiferente. É a parte do Tempo que é só minha e que diz que a diferença entre os 12, os 20, os 40, os 60 não é outra coisa senão eu mesma e o meu relógio interno.

O Tempo veio para conversar comigo e me avisar que 40 anos se passaram desde o dia que cheguei a este mundo, nascendo de parto fórceps – talvez, como bem me disse uma das minhas importantes companheiras de jornada, eu já pressentia que não seria uma jornada muito fácil. Foi uma briga pra nascer. Uma briga pra ser uma criança feliz.  Uma briga pra ser uma adolescente normal. Uma briga pra não deixar de ser uma pessoa adulta com o mínimo de sanidade. Não ganhei todas as brigas, claro. Mas foi uma jornada e tanto, como são todas as jornadas, de todas as pessoas – com muita história pra contar, muita coisa pra refletir. Mas não quero falar de outra pessoa; pertinho dos 40, com essa sensação de fim de ciclo, e começo de outro… Acho que já entendi que só posso falar de mim. E olhe lá.

40 anos se passaram. Sei lá mais quantos virão. Sr Kronos pode me dizer, e Sr Kairós me ajudar a passar por eles da melhor forma. A única certeza que tenho é que jamais me deixarão, como não deixam ninguém.

Me deu vontade de voltar a escrever.

Me deu vontade de pensar em 40 temas para os 40 anos. Sem regras, que odeio regras. Posso levar 40 dias para escrevê-los, posso levar 40 semanas. Kronos está passando, e vai fazer chegar o 4 de julho de 2016, mas Kairós me dá essa liberdade.

Me deu vontade de entender o que significa essa mecha de cabelos brancos que eu insisto em arrancar com a pinça, e que agora, não vou arrancar mais, nem pintar. Deixe-a ser, deixe-a vir.

Me deu vontade de refazer o texto “quem sou eu” aí da aba da direita, que foi feito quando eu tinha 20 e alguma coisa, e que agora, quase não me traduz mais.

Me deu vontade de colocar as cruzes que faltaram na beira da minha estrada, olhar pra elas, chorá-las de novo. Me deu vontade de ser livre pra sentir saudade, e ter pena de mim e de todas as maldades que fizeram comigo, e que eu mesma fiz comigo mesma.

Me deu vontade de olhar pra frente, sonhar com o novo horizonte, esse mesmo, que até ontem estava escuro e nebuloso, e agora, começo a ver alguns raios de sol brotando lá longe. Quem sabe… Quem sabe vai dar pra querer voltar a sonhar de novo. Ainda “dá tempo”.

Me deu vontade de revoltar com tudo que o Sr Tempo me tirou. Me deu vontade de agradecer por tudo que o Sr Tempo me tirou.

Me deu vontade de abrir a porta e ter essa conversa.

E me deu coragem pra sentar em frente ao Tempo e pensar, afinal de contas, quem sou eu e o que eu estou fazendo aqui.

Não fui a primeira, não serei a última. Mas é a minha vez.

Pode entrar, Sr Tempo. Vamos ver no que vai dar essa conversa.

“Batidas na porta da frente: é o Tempo.
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento…
Mas fico sem jeito, calado… Ele ri.
Ele zomba do quanto chorei…
Porque sabe passar… Eu não sei.

(…)

Respondo que ele aprisiona… Eu liberto.
Que ele adormece as paixões… Eu desperto.
E o Tempo se rói com inveja de mim,
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor, pra tentar reviver.
No fundo, é uma eterna criança que não soube amadurecer…
Eu posso, ele não vai poder me esquecer.”
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3 comentários sobre “40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – TEMPO

  1. Ahhhhhh, Mafalda querida, ninguém descreve a vida com tanta sensatez e lucidez como você. Dói aqui, mas é preciso doer, faz um bem danado pra quem precisa olhar pra frente, para o que ainda há de vir.

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  2. Ahhhh…. Como eu amo esse Mafalda Crescida! Como eu amo o que você escreve! Como eu amo você! Rsrs… Abraço apertado, Flor, volte, volte mesmo… Estou com tanta saudades de te ler com mais frequencia! E tenho certeza de que, como sempre, vai te fazer um bem danado escrever!

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