40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – PERSONAS

Me quiseram vestir com a máscara de menina graciosa e delicada. Mas eu era moleca, ralava o joelho no asfalto, rasgava a meia calça e deixava cair a presilha do cabelo nos primeiros cinco minutos, falava alto e não levava o menor jeito pra ser bailarina ou tocar piano.

Me quiseram vestir com a máscara de filha boazinha e comportada. Mas eu era contestadora, criativa, danada e não engolia ordens sem entendê-las.

Me quiseram vestir com a máscara da adolescente gorducha, excluída e problemática. Mas eu soube inventar um jeito de usar a cabeça pra escapar das armadilhas e viver a juventude cheia de amigas e amigos, fazendo coisas importantes, e sendo sincera no meu desejo de mudar o mundo.

Quiseram que eu usasse tantas vezes máscaras como namorada cordata, perfeita e que escolhia o melhor homem de todos. Mas eu escolhi quem eu quis, e fui para eles a melhor que pude ser, com todos os meus defeitos que, eu tenho certeza, me tornaram inesquecível para eles, como eles se tornaram inesquecíveis para mim.

Quiseram que eu vestisse máscaras de boa cristã. De mulher independente. De amiga fiel. De boa profissional. De estudante nota 10. De negra, gorda, mulher e pobre excluída. De negra, gorda, mulher e pobre empoderada. De princesinha. De patinho feio. De revolucionária. De feliz. De sofrida. De boa prima, neta, amiga, esposa, colega, líder.

Algumas máscaras bem me couberam. Outras, achei que valia a pena tentar vestir. E outras  não consegui, porque já era eu, eu mesma, gritando dentro delas pra parecer simplesmente quem sou. Em cada máscara que me deram, eu quis pintar um pouco de mim.

E quem eu sou, não sou, estou sendo. E uma das coisas mais lindas e libertadoras que podem acontecer com alguém é ter prazer em ser quem se é, simples assim. E por isso ser amada. E por isso se colocar novos desafios. E por isso, só por isso, saber que nunca se vai agradar a todos. Mas pode-se agradar a alguns, algumas. E esses, essas, serão sinceros em estar por perto. Será verdadeiro. Porque amam a você… E não à máscara.

Perto dos 40, já não gosto tanto das máscaras, já não sei identificá-las, ou mesmo vesti-las. A filha, a profissional, a apaixonada, a desiludida, a deprimida, a doce, a otimista – todas elas convivem em mim e fazem parte de mim, e não há problema algum nisso. Eu sou assim. Eu sou uma, eu sou inteira; eu sou muitas, eu sou pedaços.

Uma das tarefas mais importantes e significativas que há pra se fazer na vida é descobrir quem você é, em meio ao que gostariam que você fosse.

Eu olho pro que já descobri… E penso que vale a pena cavocar um pouco mais.

Não posso jogar fora todas as máscaras. Mas quero pintá-las, cada vez mais, do meu jeito.

“Eis o melhor e o pior de mim; o meu termômetro, o meu quilate.
Vem, cara, me reparte: não é impossível, eu não sou difícil de ler!
Faça sua parte,eu sou daqui, eu não sou de Marte.
Vem, cara, me repara: não vê, tá na cara, sou porta-bandeira de mim…
Só não se perca ao entrar no meu infinito particular.
Em alguns instantes, sou pequenina, e também gigante.
Vem, cara, se depara: o mundo é portátil pra quem não tem nada a esconder!
Olha minha cara: é só mistério, não tem segredo.
Vem cá, não tenha medo: a água é potável, daqui você pode beber…
Só não se perca ao entrar no meu infinito particular.”
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