40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – TRABALHO

 

( Hoje a lição da faculdade de Pedagogia virou post. 🙂 )

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis ( Fernando Pessoa ), 14-2-1933

Puxa… Que interessante ter uma disciplina pra falar sobre o exercício da profissão. Mais interessante ainda é falar sobre isso 22 anos depois de ter entrado em uma sala de aula pela primeira vez como professora. O caminho foi longo, difícil e cheio de idas e vindas. Mas se tem uma coisa que aprendi nesse tempo, é que, como diz o poeta Antonio Machado, “o caminho se faz ao caminhar”.

Fiquei pensando muito em que caminho foi esse, está sendo esse. Quando a colega apontou no fórum que “professor nasce professor”, eu fiquei pensando se ela estava certa. Por muito tempo aceitei essa ideia, do dom, da vocação, da missão. Mas ao longo dos anos percebi que, caso existam essas coisas, elas não são quase nada perto do compromisso ético com a profissão, a vontade de aprender, a consciência de saber-se incompleta, e a disposição para relacionar-se com as pessoas, todas elas.

Fiquei pensando por que resolvi tornar-me professora. Muitas lembranças me vieram à cabeça, e a principal delas é que não escolhi… Isso aconteceu.

Quando eu era criança, eu queria ser bailarina, médica, astronauta; não professora. Fui fazer o curso de magistério por fazer, talvez uma rebeldia juvenil contra minha mãe. Eu achava que seria bom, já que eu, mesmo adolescente, gostava de crianças. Motivos que hoje vejo como ridículos.

Um grande professor que tive, uma vez, me disse que tanto faz o motivo pelo qual você começa algo. O importante é saber o motivo pelo qual se continua. Na verdade, ser professora era algo marcado em minha trajetória de vida. Eu tinha um avô erudito, autodidata; uma mãe que valorizava o estudo, um pai que me trazia caixas de revistas para ler. Cresci aprendendo que é bom aprender, embora odiasse a escola ( lá é um lugar que aprendi muito pouco, por ter professoras como a “tia” do Lucas, do texto, que ignora a vida para privilegiar a “Didática” ).

Mas foi na minha formação inicial, no magistério, que entendi o que estava acontecendo ali. E entendi que eu queria, sim, ser professora… Mas pra mudar o mundo. Pra consertar tudo que estava errado. Nos meus sonhos adolescentes que surgiram de uma inconformidade com a vida como ela nos é dada, era isso que eu queria… E achava que ia conseguir educando as pessoas. Eu lia Paulo Freire, Rubem Alves e chorava de emoção. Esse compromisso com a utopia  de uma sociedade inclusiva, justa, coletiva e solidária começou a me tomar por inteiro. E nessa sociedade sonhada, o poder que vem do conhecimento precisava ser dividido para todos e todas, especialmente para os quais tudo isso havia sido historicamente negado até ali.

Desde cedo aprendi que a profissão de professora me traria percalços sociais. Pouco dinheiro, jornada extensiva, péssimas condições de trabalho, apanhar do governador na rua, ser humilhada na família, ser tratada como um trouxa pela sociedade, ser diminuída pela minha escolha. Militar sempre por causas e pessoas que estão condenadas ao desprezo da sociedade, quando deveriam ser das mais importantes. Ainda mais escolhendo, como eu escolhi, a escola pública e as crianças pequenas. Diga aí se uma professora não tem que ser forte para segurar tudo isso.

Mas meu trabalho não é apenas o lugar de onde tiro meu sustento, pago minhas contas e me adapto ao “sistema”. É muito mais que isso! É realização, é sonho, é luta, é poesia, é contato… É alegria. É de onde tiro meu sustento, e também a minha força pessoal.

E isso não faço sozinha. Faço com minhas parceiras. Faço com os livros, com o estudo, que nunca cessa. Faço com os encontros, palestras, cursos. Faço com o interesse pela cultura, ela, que alimenta a educação. Mas, principalmente… Faço com as crianças. Elas é que me ensinam como ser professora todos os dias. Elas que me surpreendem, me chamam atenção, me encantam, me provocam, me tocam, se relacionam comigo, me fazem seguir em pé, e adiante. Sem elas, nenhuma teoria faria sentido, nenhum salário seria suficiente, nenhum sonho continuaria vivo.

A sala de aula ( e hoje, nem entendo mais sala de aula como uma sala física, concreta, mas sim um lugar mental, construído coletivamente ) é mágica. Acontece alguma coisa lá dentro que me faz ser uma pessoa melhor a cada dia, e essa coisa é o conhecimento, que só se dá a partir da experiência, das relações.. Sem dar-se ali, nada acontece. Nem para mim, nem para as crianças.

Amanhã vou pra escola cedinho. Vai ter festa de aniversário. Vai ter leitura. Vai ter pintura. Vai ter gente rindo e chorando. Vai ter fala genial das crianças. Vai ter algo diferente acontecendo lá, que vai me chamar a atenção pra alguma coisa da vida. Vai ter desenho. Vai ter brincadeira… Vai ter vida acontecendo.

E eu estarei lá de novo pra participar de tudo isso, e me tornar uma professora diferente da que está indo dormir agora.

Cada um tem um jeito de semear algo de bom neste planeta pela sua força, sua inteligência, sua persistência… Seu afeto. O meu jeito é ser professora.

Como eu poderia não querer tudo isso? 🙂
“Se os frutos produzidos pela terra ainda não são
Tão doces e polpudos quanto as pêras da tua ilusão…
Amarra o teu arado a uma estrela,
E os tempos darão safras e safras de sonhos… Quilos e quilos de amor!
Noutros planetas risonhos, outras espécies de dor…
Se os campos cultivados neste mundo são duros demais
E os solos assolados pela guerra não produzem a paz!
Amarra o teu arado a uma estrela, e aí tu serás
O lavrador louco dos astros, o camponês solto nos céus…
E quanto mais longe da terra, tanto mais longe de Deus!”
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