40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – CICATRIZES

Eu sou do clã das cicatrizes. Tenho muitas pra exibir. Sinais de pele, sinais de alma. Não doem mais, mas nunca saem. Pra você não esquecer que doeu.

Tenho as marcas do combate com a vida. Claro, tenho muitas coisas a agradecer. Claro, tem gente que sofreu e sofre muito mais do que eu. Mas são os meus quarenta anos… E estou aqui pra falar das cruzes que precisam ser colocadas na beira do meu caminho… Não no dos outros.

Eu sou assim, sempre fui. Forte e pragmática. Não me orgulho de ser. Não queria ter que ser. Eu queria ser mais feliz, eu queria que tivesse sido normal, eu queria aprender a mostrar fraqueza, queria aprender a pedir as coisas, queria dizer, “cuida de mim”. Eu queria ser incapaz de certas coisas. Eu queria que a minha vida passasse mais leve, como vejo a de tanta gente passar. Mas nisso fui uma negação na vida. Eu sofri pra caramba e estou aqui de pé pra contar a história, e exigir que me respeitem por isso, caramba.

Nada me derrubou até aqui. E ao dizer isso, não estou desafiando a vida. Estou apenas dizendo que, se me foi dada uma carga maior de problemas, também me foi dada uma certa gana de não deixar que eles me derrubem.

Clarissa Pinkola Estés, em seu livro “Mulheres que correm com os lobos”, fala de uma experiência interessante, a confecção de um “capote expiatório”; um casaco onde você possa pintar, pendurar ou escrever as dores que foi tendo na vida, os segredos que lhe obrigaram a guardar, as lágrimas que não pôde chorar. Fiquei pensando nas dores que penduraria no meu capote, e que tecido forte eu teria que providenciar para suportar o peso delas.

Eu penduraria o meu pai alcoólatra e violento, que implicava comigo e nunca, ou quase nunca, me fez um elogio. Penduraria todas as surras, gritos e humilhações que ele me fez, ainda sem entender por que cargas d’água ele não gostava de mim.

Penduraria todas as brigas e discussões dos meus pais, os gritos deles de madrugada, os jogos deles pra se magoarem usando a mim e meu irmão, que foram destroçando a nossa capacidade de amar.

Penduraria toda a crueldade dos moleques da escola, o sarro que tiraram de mim, todas as ofensas que me fizeram, tudo que falaram pra destruir a minha auto estima, apenas por eu existir.

Penduraria o abuso sexual que sofri, muito menina ainda, por um velho nojento que não foi punido, e as outras duas vezes em que isso aconteceu de novo comigo, ainda na infância.

Pintaria todas as castrações da minha criatividade, das minhas manias de fazer  tudo diferente, das minhas esquisitices, das coisas que me obrigaram a fazer sem eu querer.

Escreveria o nome dos amigos e amigas chegadas que me traíram e me abandonaram miseravelmente. E também o nome dos que só se aproximaram para tirar de mim algum benefício e se aproveitar da minha boa fé, me exploraram, me usaram e jogaram fora.

Escreveria também o nome dos homens que mentiram descaradamente pra mim, traíram e me manipularam como quiseram jurando que me amavam, nos quais eu acreditei.

Eu penduraria todas as vezes que suportei sorrindo toda gente invejosa que cruzou o meu caminho profissional e fez de tudo pra me prejudicar; as vezes que fingi que não ver os comentários maldosos, as intrigas, os olhares atravessados, as injustiças de todo tipo que ouvi da boca de gente que devia ser grata por tudo que eu fiz por elas sem elas nem saberem.

Penduraria o enterro de dois companheiros – um faltando pouco pra casar, e outro dois meses depois de casar. Eu fui lá, vi fecharem os caixões deles, e voltei pra casa sentindo o maior vazio do mundo, querendo morrer. Eu suportei esses dois lutos enormes sem conseguir partilhar isso direito com ninguém. Seriam, sem dúvida, as duas maiores cruzes.

Mas também penduraria lá a morte da minha vó, do meu avô, do meu pai, de amigos e amigas queridas que se foram cedo.

Pintaria, no meu capote, a indignação com toda a injustiça, violência, burrice e estupidez desse mundo; meu ódio da hipocrisia, e minha impotência por nada poder fazer para impedir o mal de seguir adiante.

Penduraria meus três meses de insônia e todas aquelas noites torturantes pra mim. Os momentos de síndrome do pânico, as paranoias, as tristezas profundíssimas. Todas as vezes que pedi  pra morrer. Todos aqueles comprimidos que eu tive que tomar pra ajudar o meu cérebro a reagir a tanta melancolia.

Penduraria todo preconceito e discriminação pela cor da minha pele, por ser mulher, por morar na periferia, por ser gorda, por ser professora, por ganhar pouco, e tantas outras coisas que fazem parte de mim, mas são motivo de rejeição das pessoas.

Eu engoli muito, mas muito, mas muito sapo mesmo. Penduraria eles todos. E também os muitos panos quentes que coloquei em briga dos outros pra salvar muitas relações, e quando todo mundo ia dormir tranquilo, eu ficava acordada sentindo o estresse acumulado.

Eu penduraria as dores que sinto todos os dias, as mais variadas, por trabalhar a mais do que a minha capacidade física suporta.

Pintaria a solidão milenar que eu sinto aqui, sozinha, nesse apartamento que as pessoas nem imaginam o custo afetivo que teve pra mim.

Colocaria também todas as vezes que fui caluniada sem motivo algum; todas as coisas estranhas que aconteceram na minha vida por causa da energia ruim das pessoas, e tudo que pude fazer foi dobrar meu joelho e pedir pra ser protegida.

Fui assaltada à mão armada, fui agredida, quase fui estuprada por um palhaço que saiu comigo quando era adolescente, escapei de várias. E isso me aterrorizou por me fazer sentir a minha fragilidade. Eu poderia colar tudo isso em meu capote também.

E tem muita coisa que eu nem tenho coragem de lembrar ou escrever aqui.

Mas, como bem disse o Carpinejar, “cambalear ainda é caminhar. A chuva lava minha ferida e o vento seca.”. E vamos em frente.

Clarissa conta que, na hora de jogar o capote fora, as mulheres com quem ela trabalhava não queriam desfazer-se deles. É que, se dói pensar que há tanta coisa pra ser colocada em um casaco de nossas dores, é pra dar uma força e uma alegria imensa pensar que eu sou a mulher que vestiu aquele casaco, e ainda estou aqui, viva, e de pé; ainda consigo amar; ainda consigo sonhar; ainda consigo esperar pelo melhor; ainda consigo confiar nas pessoas; ainda consigo criar; ainda consigo gostar de mim; ainda consigo viver, e não apenas sobreviver.

Respeito muito minhas lágrimas. Mas ainda mais minha risada.

Olho pra Deus, os que me amam me empurram, e eu vou em frente, pensando ainda em ter um sonho todo azul… Azul da cor do mar.

Vamos tomar os analgésicos, desabafar com um amigo, cantar com o Tim e dormir, que amanhã tem mais.

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3 comentários sobre “40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – CICATRIZES

  1. Descobri seu site um dia desses, e… Tudo que posso dizer é que estou comovido, emocionado, envolvido. Não consigo parar de te ler. Que pessoa profunda, complexa e generosa você é.
    Que você é forte, ninguém ousaria ter dúvida.
    O que torna você especial é conseguir sendo doce e otimista, apesar de tudo.
    Encantado, moça.
    Estava te procurando.
    Abraço…
    Rafael

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