40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – INFÂNCIA

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Amo essa foto. A menina, com a beca da pseudo formatura, toda danadinha, subvertendo a seriedade da situação com um sorriso sapeca. É isso que ela era, e é isso que eu queria ter continuado a ser. A menina dessa foto.

Muito difícil falar da menina. Porque eu tenho saudade dela. Porque meus olhos enchem de brilho. Porque ela vivia em tempo de tanto amor e tanta alegria e tanto exagero de sentimento. Porque ela se foi… E eu queria que ela voltasse. Porque é falar de gente que não está mais aqui, gente que a menina amava, e dá muita saudade. Porque falar da menina é falar do que ficou no fundo, do mais puro. E não falo dessa pureza boboca, estereotipada, não, essa ideia que fazem de menina como se ela fosse um anjinho imaculado… Não. A menina era gente, todas as meninas e meninos são. E gente é sempre assim, em qualquer idade, em qualquer tamanho – complexa, cheia de manha, um mar de pensamentos e emoções, contraditória e extremamente necessária. A pureza da menina é uma pureza não idealizada, mas densa… Bruta. A pureza da menina é quem eu sou, aquilo que eu tenho de essencial, aquilo que se condensarem, separarem, depurarem… É o que sobra. É isso aí! A menina é essência.

Eu lembro dos fatos marcantes da menina, os grandes momentos, as grandes passagens… As coisas que colocam marcos: antes e depois daquilo. Lembro, e como lembro, do dia em que o irmão da menina nasceu. Lembro da festa que fizeram no dia em que descobriram que, lá com três anos, ela tinha aprendido a ler. Lembro das festas de aniversário, que naquele tempo, eram feitas no quintal de casa. Lembro da primeira vez que a menina dormiu na vó, longe da mãe. Lembro do primeiro tapa que a menina levou de outra garotinha, do ódio e da dor que ela sentiu. Lembro também do primeiro dia na escola. Lembro da pediatra; do primeiro dente que caiu; do dia em que quebrou o braço tentando andar de bicicleta; no dia em que descobriu que o nome do pai era curioso – Pedro Álvares Cabral.

Mas a menina não era feita só de grandes eventos…

A menina tinha cheiros. Cheiro de bolo de limão da mãe; cheiro da pipoca na porta do circo; cheiro da pizza na saída da igreja; cheiro do perfume da vó; cheiro do gel de cabelo do tio; cheiro da folha de mangueira do cemitério onde vô trabalhava.

A menina também tinha gentes. A mãe… Ah, a mãe. Que colo era aquele! Que sorriso, que paixão, a maior paixão da vida… E tinha também pai. Mais distante, mas ele pegava a menina, colocava sentada nos ombros e saía com ela por aí na rua. Ah, nos ombros de pai ela era mais alta, mais onipotente, mais mais mais de tudo! Pai, herói esquisito e amado. E vó? A que fazia comida, a que dava banho, cuidava. E tinha vô. A figura que a menina,mesmo pequena, já admirava por toda a sabedoria, a mansidão, o sorriso largo. Tinha a professora, a Tia Rita. Linda! Alta, ruiva, boazinha, querida. Tinha tios e primos. E tinha todos os filhos dos amigos dos pais, e o pessoal da igreja, os moleques e molecas da rua. Naquele tempo, meninas não viviam sozinhas como vivem hoje.  Todo mundo vivia junto de todo mundo, era educado por todo mundo e aprendia a lidar com todo mundo.

Menina também tinha aquele movimento louco, parque, só andar correndo, ralar joelho toda hora, brincar, brincar, brincar, brincar. Correr, esconder, fazer teatro, desenhar, até graveto no chão vira brincadeira. Dia de menina dá pra fazer tudo, comer, brincar, ver TV, brincar, chamego da família, brincar, passear, brincar, tomar banho, brincar… E naquele tempo, eram as crianças mais velhas que ensinavam as crianças mais novas a brincar.

Menina tinha brinquedos. A bola vermelha. Os jogos. A bicicleta. Os carrinhos do irmão. E as bonecas. A Farofinha, a Pistache, o Fofão, a Joaquina… E lógico, a mais querida de todas, a boneca bebê, que está guardada até hoje.

Menina também sofria, muito. A dificuldade de entender o tempo, e por isso achar que tudo – seja a mais deliciosa paz e alegria, ou o mais doloroso inferno – vai durar pra sempre. Tem aquela incompreensão sobre quem eram os adultos. Tem aquela eterna angústia de sentir que nunca vai aprender todas as regras sociais, e saber onde é que é pra pisar, o que se pode ou não se pode falar, o que é feio e o que é bonito, o que é certo e o que é errado. Tem as loucuras dos adultos, que tanto marcaram a vida da menina. Tem aquelas maldades que só menina sabe fazer. Tem a sensação incrível e difícil de estar em novos ambientes, onde menina não sabia o que esperavam dela. Tem aquela coisa chata de sentir a espontaneidade cortada a cada dois minutos por um adulto que está ensinando a “ser gente”. Tem o fato de menina ser, sim, frequentemente desconsiderada, agredida, vista como idiota, sem direitos. Tem a dificuldade de lidar com os desejos que não podem ser satisfeitos imediatamente. E tem a dificuldade da espera… Ah, como menina tem que esperar tanta coisa. E como é ruim esperar!

Falar da menina é também falar das coisas simples que davam em sorriso. Desenhar. Assistir desenhos na TV. Colinho. Brincar. Maria Chiquinha. Vestido de florzinha. Bichos de jardim. Curiosidade. Sorrisos e lágrimas viscerais.

A menina dorme comigo todos os dias. Eu cresci… Mas ela ficou em algum lugar dentro de mim. É ela quem me segura, quem me sustenta, quem me acalma, quem me ajuda a ter esperança. É essa menina que conversa com os meninos e meninas com quem eu cruzo todos os dias.

Não morra nunca, menina. Não deixe de sorrir desse jeito. Você é assim, pra mim… Fruto e flor.

 

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