40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – IMPERMANÊNCIA

20160718_122644

Escrevi na borda do espelho do meu quarto, para que eu não esqueça toda vez que quiser olhar pra mim mesma: nem sempre vai ser assim.

Aprendi uma vez essa frase em uma fábula chinesa. É algo pra se lembrar todos os dias. Nos dias de dor ou de alegria; nos dias de luta ou de paz; nos dias de fracasso ou de glória, nos dias de ascendência ou decadência; nos dias de encontro ou abandono… É preciso lembrar que seja qual for o dia, ele passará. E depois dele virá outro, onde tudo estará diferente. E a quantidade de sofrimento é proporcional à quantidade de teimosia – é preciso aceitar que, para o bem e para o mal… Nem sempre vai ser assim.

Sim, é o Tempo. O velho tempo que passa e arrasta tudo com ele, e provoca em nós alívio ou um triste saudosismo. Mas ele nada conseguiria se não houvesse em tudo que vive e que está a condição existencial da impermanência. Nada foi feito para durar. Há o que dure alguns milésimos de segundo, e há o que dure séculos… Mas, fora o próprio tempo, nada dura para sempre. Por desgaste, por luta, por quebra, por reinvenção… Tudo, tudo muda.

Talvez por uma rebeldia profunda de espírito, eu, como tanta gente, demorei a entender e aceitar a condição de impermanência das coisas. Quantas e quantas vezes quis segurar tudo como estava, pensei que minha fé ou minha vontade garantiria que nada mudaria. Quantas vezes, por preguiça, acomodação ou covardia, achei que seria melhor manter coisas ruins exatamente como se apresentavam, pois até com o que é ruim as pessoas se acostumam, e queremos manter, com medo que piore. Quantas vezes quis que pessoas não fossem embora, ou não mudassem nunca de opinião e afeto. Quantas vezes quis segurar um momento feliz por mais tempo, e preocupada com isso, sequer pude aproveitá-lo, achando que qualquer truque meu podia dar uma volta na vida e fazer o tempo se esquecer de mim. E é aí que coisas ruins acontecem. É aí, justamente aí que fazemos promessas  que não podemos cumprir, que nos envaidecemos de vitórias que não vão durar, que juramos sentimentos que não podemos ter, que nos desesperamos por coisas que não podem nos afligir para sempre, que nos esquecemos que vamos aprender, sentir e viver coisas que se transformarão… E tentamos segurar com as mãos o movimento da vida. Uma grande tolice… Cambia… Todo cambia.

Fico pensando em quantas vezes odiei as mudanças. Como eu queria ter brincado de boneca mais tempo; como quis que aquele amor não terminasse; como quis que aquela festa durasse mais; que aquela viagem durasse mais uns dias; que aquela comida deliciosa não estragasse. Como quis guardar, segurar, reter, manter tudo no lugar, não me mexer, não respirar… Mas não teve jeito.

Se não há o que não mude… Eu também não escapei de mudar. E, fazendo 40 anos, penso em como tanta coisa mudou em mim. Rio do que antes me causava medo; sei fazer rapidamente o que antes era difícil; entendo coisas que antes eram nebulosas; falo coisas que antes não tinha coragem de dizer; faço o que antes não podia fazer; aceito o que antes não queria aceitar. E outros medos vieram, outras dificuldades, outros impedimentos, outros inconformismos. E não há porque esquecer a frase do espelho: nem sempre vai ser assim. A vida ainda tem muito a me mostrar, ensinar. E eu quero que ela ande.

Mas percebo, também com alegria, que há coisas que não mudaram. E essa é a maior vitória sobre a impermanência: a essência das coisas. A planta que morre, deixa sementes que, de certa forma, a continuam. Os animais, deixam filhotes. Os sábios e sábias deixam coisas importantes que são repetidas, e assim fazem-se eternos. Há maneiras de manter-se, mas só fica o que é principal, essencial… A alma de tudo.

Que eu siga os dias que me restam aceitando que a vida, a vida de verdade, é mesmo assim. Muda. Passa. Vai e volta. Que eu saiba mudar com ela. Que eu não apresse e nem atrase nada que estiver diante de mim. Que eu esteja perto de pessoas que também sabem mudar, para que delas eu não precise me afastar se ficar muito longe. Que eu entenda que nem sempre vai ser assim… E aceite isso como uma benção, não uma maldição. Que eu não esqueça que “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” ( Guimarães Rosa ). Que eu afine, e desafine. Que eu tenha coragem para não me abrigar na mediocridade, que eu não tenha a ilusão da estabilidade do que não é estável… Que eu conserve a minha essência e deixe ir o que é aparência. Que cada dia seja uma surpresa, que eu receba isso com alegria… E que, de fato, nem sempre seja assim. Seja desse jeito, ou de outro… Que tudo, de fato, mude.

“Coitado de quem pôs sua esperança
nas praias fora do mundo…
– Os ares fogem, viram-se as águas,
mesmo as pedras, com o tempo, mudam.”

Cecília Meireles

Anúncios

4 comentários sobre “40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – IMPERMANÊNCIA

  1. Cê sabe que sou seu fã, né… Fico tão feliz quando venho aqui e vejo texto novo.

    Um dia você me contou essa história com sua habitual doçura, e me tirou de grande sofrimento, será que você lembra? Sempre fui grato por causa disso. De fato, aceitar a impermanência da vida é um grande desafio, e você tem razão em ficar alegre por mudar… Há pessoas que sofrem tanto por serem impermeáveis, e por serem covardes, insistindo em viver de acordo com um tempo que já passou, sem serem gratas pelo tempo que está adiante. Aceitar que nem sempre vai ser assim é um gesto sábio que você aprendeu, e agora divide conosco. A vida passa mais leve quando aceitamos o seu ir e vir…

    Amor essencial por você… Continue a série, não pare não!

    Beijos… Muitos.

    Curtir

  2. “Scrivimi…
    Quando il vento avrà spogliato gli alberi
    Gli altri sono andati al cinema, ma tu vuoi restare sola
    Poca voglia di parlare allora, scrivimi…

    Servirà a sentirti meno fragile,
    Quando nella gente troverai solamente indifferenza,
    Tu non ti dimenticare mai di me…

    E se non avrai da dire niente di particolare,
    Non ti devi preoccupare: io saprò capire.
    A me basta di sapere che mi pensi anche un minuto…
    Perché io so accontentarmi anche di un semplice saluto.
    Ci vuole poco per sentirsi più vicini…

    Scrivimi, quando il cielo sembrerà più limpido
    Le giornate ormai si allungano
    Ma tu non aspettar la sera, se hai voglia di cantare…
    Scrivimi…
    Anche quando penserai che ti sei innamorata…

    Tu scrivimi.”

    Alguém me prometeu uma coisa e não cumpriu…

    Curtir

    • Ai… Não faz assim comigo hoje, não, malvado… rs
      Amo essa música, li cantando… Que bonito, obrigada.
      Prometo cumprir minha promessa até o final da semana. Dedinhos beijados. Desculpe… Dias difíceis.
      Beijoca…

      Curtir

Deixe uma resposta para Flavio Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s