40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – PASSIONAL

Não sei se Deus me sonhou toda assim, voltada pro lado de dentro, meu e dos outros, não sei por que entendo tão pouco da vida prática e entendo perfeitamente o que vai no coração das pessoas, no meu.

Não sei se é conjunção astral, a natureza canceriana, em Sol e ascendência, dizem, tão dramática, sentimental, profunda, protegida em ser tão frágil, cheia de carne molinha e trêmula dentro da casca dura do caranguejo.

Não sei se é cultura, se é criação, se fui criada em família de mulheres fortíssimas e suspirantes, que aguentaram os vários trancos da vida e, com os olhos cheios de água, seguiam em frente.

Não sei se é a formação em Psicologia, o encantamento pelos símbolos, a vontade de decifrar todos os enigmas nos mares escuros e perigosos da psique humana, que me faz enxergar além e atrás do aparente, que me faz querer, quase que inconscientemente, dar significado pra tudo e pra todos.

Não sei se é a miopia, aquela, que me faz ver tudo embaçado de longe e tão nítido de perto, que me obriga a enxergar detalhes, a ver pequenas partes e não o todo, a virar as costas pra banda passando na rua e olhar as formigas passando no canto da calçada, a achar sentido nas coisas mais idiotas e corriqueiras.

Não sei se é a nacionalidade errada; eu deveria ter nascido mexicana, pra justificar o rímel borrando, as lágrimas contidas escorrendo à revelia, o coração batendo forte olhando a lua de madrugada, a música entrando no ouvido e batendo direto na alma, a resignação, o “pra sempre” e o “nunca mais”, o arrebatamento imediato diante do objeto do desejo, a pessoa do desejo, não sei de onde vem tanto desejo, caramba, esse desejo que não para nunca e me faz seguir assim… Desejando, desejando, desejando.

Não sei se é a alma lotada de poesia, essa alma que se apaixona tanto pelas palavras e as valoriza tanto, alma contemplativa, que “projeta-me em tal solidão” que consigo ver tudo de todo o lado e sentir tudo ao mesmo tempo, até que fique exausta, não sei por que essa determinação absurda de carregar água na peneira e guardar vento no  bolso.

Não sei se aprendi a ser assim, se sou assim, se queria ser assim, mas o fato é que é assim que é… O coração na mão, sempre entregue, sempre vivo, “saliente, bate, bate muito mais que sente, fica doente, mas é natural“, porque não teve outro caminho pra mim. Eu sou assim… Refém dos meus sentimentos. A vida me dói tanto. Sou passional.

Passional, palavra que me soa perfeita para quem tem “coração na mão como um refrão de bolero“, previsível e intensa. “Sem paixão não dá nem pra chupar um picolé”, disse o outro, mas com paixão demais eu vivo assim, perdida, no meio de um tiroteio, pegando tudo pra mim, absorvendo, significando, e me vem essa sensação de ser ridícula, desnecessária, incompreendida, inútil pra este mundo… Tão só neste mundo vão.

Passional vem do latim, significa “suscetível à dor”, exposta, sem defesa, tão frágil diante de qualquer possibilidade de sentir. Vou lá e sinto mesmo, vou inteira, entrego o ouro, abro a porta, entro com tudo e que se dane os estragos de depois. Quando eu vi, já tinha ido. E aí tudo me dói. A planta balançando no vento, a pessoa abandonada dormindo no chão, a voz da Billie Holiday, o frio ou o calor, as escolhas erradas – minhas e dos outros, o papel em branco esperando um registro, a vida como ela é, ai, como tudo dói.

Claro, com o tempo, aprendi a disfarçar. Pareço ponderada, tranquila, racional, até cética, às vezes; tão consciente de tudo, tão calma, me procuram para acalmar os ânimos, para apaziguar, para explicar, para separar a briga. Pareço, sim, tão amiga de paz. Mas só eu sei como aqui dentro tudo derrete, tudo me consome, tudo me causa insônia, tudo ferve, e na noite que se faz em mim, preciso tanto desse pulso da paixão das coisas, paixão de tudo. E não tem jeito. Eu represo, mas não é raro, isso tudo vaza de mim. Ai, ai, ai, que me dói tanto, e precisa vazar, senão explodo, ou implodo.

É que dentro tem água, muita água. Sempre sonho com água. Cachoeiras, poças, lagos profundos, canais subterrâneos, mares e oceanos, cascatas, me afogo sempre nessa água de paixão e acordo puxando o ar. Não é raro desejar não ser assim. Queria tanto passar mais leve, ser superficial, medíocre, não perceber, não sentir, fazer o que vejo tanta gente fazendo, vivendo por viver. Mas fazer o quê, sou assim. E tive, nesse tempo todo, de aprender a lidar com isso, comigo, com a vida de quem sente demais.

Se é pra trabalhar, que seja um trabalho idealista, que seja bonito, que seja pra fazer diferença e pra mudar o mundo. Se é pra crer, que não seja pra repetir rezas, esquentar banco de igreja no domingo, fingir que sou boazinha; vou crer no impossível, no mais difícil, vou querer entender os mistérios a fundo e mudar a mim mesma, e não vou me conformar com respostas prontas. Se é pra ter amigos e amigas, que sejam irmãos e irmãs, que contemos tudo, que nos mimemos, que nos acarinhemos, que nos ajudemos e alimentemos, não me venha com amizade meia boca e troca de conversas formais. Se é pra ter família, que seja família de verdade, que sejamos envolvidos, que façamos tudo uns pelos outros, que criemos os filhos e enterremos os mortos do jeito inteiro, do jeito certo. Se é pra amar, que seja amor total, de entrega, de corpo e alma, que me jogue no abismo, que qualquer coisa menos que isso me parece traição do próprio amor, ao próprio amor; que seja pra tirar tudo do lugar e me fazer mudar, crescer, me fazer ser outra pessoa – ou melhor, fazer ser eu mesma -, que seja um desafio todo dia, e se não for assim, não quero, e vou morrer tentando encontrar o que eu procuro. E se for pra doer… Que doa até o fim, tudo que tenha que doer, e tudo que dói que doa mesmo – a saudade, o abandono, a morte, o medo, a culpa, a incapacidade. É pra sentir tudo inteiro, nunca quero ser metade de nada nem de ninguém.

Eu antes achava que ser passional me fazia uma vítima da vida. Passiva, não tinha escolha. Mas hoje eu sei que não é verdade. Essa é a vida que eu escolhi. Pago o preço. Até aqui, paguei. Isso é, ao mesmo tempo, minha desgraça e minha alegria, meu desespero e minha consolação. “O que eu sofri por causa do amor ninguém sofreu, mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais… Mais do que eu.”.

Não sei se é melhor ser assim, não faço defesa pros outros do que acabei achando ser bom pra mim. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Mas é assim que é, digo e repito. E se é, melhor que continue sendo. Nada de tons pastéis. Nada de assepsia. Nada de morninho. Nada de qualquer coisa serve. Nada de rotina. Nada de nem lembrar o que estou fazendo aqui. Nada de trabalhar só pra ganhar dinheiro. Nada de cozinhar com pouco tempero. Nada de cruzar com as pessoas sem deixar marcas, e sem ser profundamente marcada. Nada de fazer 40 anos como se fosse quaisquer outros anos. Não, assim não quero. E algo me diz que, como já encontrei uma vez, ainda posso encontrar par neste mundo, em tudo isso.

“E se houver gente que ainda sente solidão não mais virá”.

Que eu possa cantar uma balada de amor com a voz embargada, sentindo cada palavra, indo e voltando no sentimento, chorando mais uma vez uma dor de amor que acabou, sentindo que não vou suportar… Mas suportarei. E continuarei assim, passional… Porque é assim que é, e se é assim que é… Assim continuará sendo.

Me arrasta, sentimento, me leva… E só me deixe estar… Me deixe estar.

 

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2 comentários sobre “40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – PASSIONAL

  1. Caramba, miga… Que texto é esse…
    Toda vez que o rss me avisa que tem post novo aqui, eu paro tudo e venho correndo. Hoje li sem saber se chorava contigo, se te aplaudia de pé ou se batia a cabeça na parede por ser tão idiota de não passarmos mais tempo juntas… Como eu posso me manter longe do presente de pessoa que é vc?
    Vc é assim, luz, luz, luz, luz.
    E não é à toa que sempre tem tanta gente te rodeando, atraída pela luz…
    Te amo, só isso, te amo.

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  2. Felizes são as pessoas com grande percepção de si mesmas, mas essa é uma cruz pesada de carregar tb, querida…

    Puxa, que texto incrível, eu fiquei mais uma vez tomado de emoção e pensando, como é bom cruzar com vc nessa vida e provar um pouco de tamanha sensibilidade, tamanha intensidade, tamanho amor e, principalmente, GENEROSIDADE… Não há como passar ileso por ti, vc acorda a gente por dentro, causa tanta coisa. Falou na força das suas águas, mas vc também tem muito fogo, muita terra, muito ar aí dentro. És completa, e por isso temos a sensação constante de que tudo que dizes e fazes é tão raro, tão precioso. Sabes disso, e sabes também da responsabilidade que isso é pra vc.

    Meu desejo é que aprenda um jeito de ser passional sem doer tanto assim. E que encontre não apenas um par… Mas muitos. Que saibas olhar e deixá-los entrar, você merece.

    Um bjo…

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