2016

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Convidei o Carpinejar e o Tom Jobim pra me fazer companhia neste post.

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Ah, 2016. Ano de colapso, de quebra. O mundo caindo a minha volta. Golpes, guerras, refugiados, fascismo, ódio, intolerância, morte, retrocessos, catástrofes, absurdos como há muito tempo eu não via; aliás, acho que nunca tinha visto, só ouvido falar. Indignação, medo, perplexidade que paralisa. Ano de revelação. As pessoas mostrando quem realmente são. Eu me mostrando como realmente sou.

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E eu aqui… Tão dentro e ao mesmo tempo tão alheia a tudo isso.

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No começo do ano eu tinha dito que 2016 seria um ano de cura pra mim. E foi. Quanta coisa aconteceu! Coisas ótimas, coisas péssimas. E no entanto, eu me mantive lá, firme no propósito de colar meus caquinhos. Hoje olho pra dentro do meu espelho e vejo as marcas, as cicatrizes, o aspecto remendado. Não tem jeito, “nada vai trazer de volta a beleza cristalina do começo”.  E sim, “os remendos pegam mal”. Mas não estou mais despedaçada. Estou inteira outra vez. Me sinto EU MESMA de novo, esse “I” em maiúsculo do inglês, esse “self” tão interessante do Jung, essa totalidade. Mas é uma outra “eu”. Outra Karina. E eu ainda não sei direito quem ela é. Mas eu gosto dela.

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2016 não foi um ano bom, se eu contar que sou humana, e a humanidade está derretendo. Mas também não foi um ano ruim pra mim… Aqui dentro.

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Eu fiz 40 anos. Não há mais dúvidas, sou uma mulher numericamente vivida. E eu comemorei isso de várias formas. Eu terminei um relacionamento abusivo. Eu tentei recomeçar, me diverti e aprendi bastante nas tentativas. Eu beijei bastante os moços e gostei de me ver como uma mulher que tem seus encantos nos olhos deles. Eu me apaixonei de novo, e lembrei da sensação maravilhosa e desesperadora que é apaixonar-se. Eu ganhei um prêmio profissional, e percebi a grandeza do trabalho lindo que fazemos lá na escola ao ir compartilhar sobre isso com tanta gente pela cidade. Eu falei da minha dor no grupo de ajuda mútua sobre luto. Eu chorei esse luto todo de novo, eu aprendi a chorar, eu não sabia. Eu conheci a Louremi, minha terapeuta, e me afundei com ela nessa dor e delícia de ser quem eu sou e ter a história que eu tenho. Eu topei essa parada e mergulhei nessa lama, que foi virando uma água mais limpa, e saí mais forte do mergulho. Eu senti muita, muita dor no corpo. Eu trabalhei demais, até à exaustão. Eu conheci um monte de gente bacana. Eu deixei de falar com um monte de gente chata. Eu vi o mar, eu vi o topo da montanha. Eu me permiti dizer um monte de nãos. Eu me despedi. Eu me recolhi. Eu me mostrei. Eu falei o que estava engasgado, entendendo que nem sempre preciso ser cordata pra ser meiga. Eu discuti. Eu defendi pessoas indefensáveis. Eu aprendi a me virar sozinha – eu paguei as contas, eu pintei as paredes, eu carreguei o lixo, eu comprei uma furadeira, e usei. Eu pintei um quadro. Eu assumi a minha casa e fiz ela parecer comigo. Eu cozinhei e inventei um monte de receitas novas. Eu voltei a escrever. Eu cuidei das plantas. Eu criei. Eu falei muito, muito mesmo, com os amigos, e especialmente com as amigas – e eu não agradeci o suficiente por ter tanta gente que me ama cuidando incansavelmente de mim por perto, do jeito que pode, na medida em que eu deixo me cuidarem. Eu me senti profundamente amada. Eu virei amiga da minha mãe. Eu vi meus sobrinhos crescerem um pouco mais. Eu vi a Débora adolescer. Eu tive vontade de ser mãe, e quase tomei essa decisão. Eu lutei, me indignei, bronqueei. Eu orei, muito, mas de um jeito diferente. Eu ajudei quem eu pude. Eu deixei pra trás as coisas que me atrapalhavam sem dó. Eu dormi melhor. E eu me formei pedagoga! Cara, 4 longos anos depois, que na verdade, significam mais de 20, eu me formei.

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E é por causa de tudo isso que eu estou feliz hoje. Falta pouquinho pra 2016 acabar. E me sinto assim, com essa sensação gostosa de missão cumprida. Não tenho mais a ilusão de que de novo voltarei a ver a garota feliz e ingênua que fui um dia. Não… Ela morreu conforme eu fui vivendo de verdade. Eu tenho marcas, não saí ilesa da vida, e nunca sairei. Eu sou a mulher que carrega em si muitas cruzes. Mas a diferença é que agora eu as aceito como parte da minha história. A dor não me caracteriza mais. Eu não sou a viúva, a orfã de pai, a agredida, a lascada, a vitimada, a abusada, a tristonha. Não… Eu sou a mulher que sobreviveu a tudo isso, e de tudo conseguiu fazer alguma coisa boa. E na minha alegria, o Carpinejar tem razão… Sempre vai ter um pouco da minha dor. E eu tenho orgulho de ser essa pessoa que tem muita história pra contar, porque viveu; não teve medo de viver e nem terá.

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Obrigada Deus, obrigada Tempo, obrigada pessoas que me cercam, obrigada VIDA. Eu não quero mais morrer, mas não ligo se acontecer. Porque o tempo nada mais é do que isso: vida que vai, vida que vem, e em tudo isso, eu, virando eu, “I”, “self”, cada vez mais eu, em um processo infinito de tornar-se pessoa. Não nego nada do que já foi, e aceito com coragem e alegria o que virá.

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Esperei muito, muito tempo para cantar essa canção com o coração, como estou fazendo hoje. Hoje, essa também é minha meditação.

“Quem acreditou no amor, no sorriso, na flor,

E então, sonhou, sonhou…

E perdeu a paz:

O amor, o sorriso e a flor se transformam depressa demais.

Quem no coração abrigou a tristeza de ver tudo isso se perder…

E, na solidão,

Procurou um caminho e seguiu… Já descrente de um dia feliz.

Quem chorou, chorou…

E tanto que o seu pranto já secou.

Quem depois voltou ao amor, ao sorriso e à flor,

E então, tudo encontrou.

Pois a própria dor revelou o caminho do amor,

E a tristeza acabou.”

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6 comentários sobre “2016

  1. Ai, amiga… li chorando… eu sei o que custou pra vc chegar a escrever isso! Tão feliz por vc existir, e em ver sua vitória ! Te amo mto e desejo que o seu 2017 seja tempo de colheita de tudo que vc regou com lágrimas até aqui. Vc é a pessoa mais linda que eu conheço! DEUS te abençoe como vc nós abençoa sempre.

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  2. Ka… Muito de tudo isso eu acompanhei, mas com certeza muito mais foi somente seu. Obrigada por compartilhar. Assumir tantas coisas “pesadas”, fortes… é pra gente raçuda e corajosa. É pra gente como você.
    Te amo!!!

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  3. Ai, Karina… Quanta intensidade em você… Quanta coisa você viveu, você é… E generosamente partilha conosco. Sou grato por ter cruzado o meu caminho. É mesmo de longe, sigo te olhando, encantado com essa sua luz. Amor, demais, por você.

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