40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – CANÇÃO

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Eu tentei tocar. Lembro da mãe, toda orgulhosa de me ver tocando nas audições de piano. Ela me aprontava como uma pequena princesinha, mas eu rasgava a meia calça branquinha na primeira oportunidade correndo e zoando atrás do palco – nunca tive pinta de pianista.

Lembro da professora de piano, Dona Dora – rígida, tentando me fazer executar as peças clássicas de Beethoven e Tchaikovsky,  tentando me fazer compreender a função dos exercícios e das escalas, quando tudo que eu queria era brincar com as teclas do velho piano preto que minha mãe colocou dentro de casa pra ver se eu ia em frente. Mas me lembro de me emocionar até as lágrimas quando consegui tocar um dos sensíveis e tocantes noturnos de Chopin. Deve ser por isso que até hoje me arrepio do começo até o final da coluna sentindo as notas das peças eruditas quando vejo alguma orquestra tocando ao vivo.

Lembro também do vô, autodidata que amava os sons, me fazendo solfejar com o velho Bonna, tentando colocar ritmo nas minhas palmas e me mostrando as notas na escaleta, tentando afinar a minha voz – ele mesmo, um tanto desafinado. Ele amava a música, e fez todo mundo na família amar um pouco também.

Lembro do namorado querido, de ouvido apuradíssimo, quase um músico profissional, que gostava da minha voz, e ficava tocando flauta, guitarra, bandolim e violão pra eu cantar, e me ensinou a dedilhar umas cordas.  Lembro das aulas de violão, que eu fui fazer só pra aprender a tocar uma canção dos Beatles pra agradá-lo, fazer surpresa no aniversário dele. O meu professor, tão maravilhoso e criativo, tentando me ajudar a fazer as pestanas que os meus dedos gorduchos nunca conseguiram arranjar nas cordas. Hoje o violão está lá, sem cordas, esperando eu me lembrar dele. Lembro das aulas de percussão e de flauta doce, que também não deram muito certo. Tocar música é para os talentosos, ou para os disciplinados. Não sou nem um, nem outro. Mas tentei. E gostei de tentar.

Tentei também dançar. E danço, malemá, mas danço. Fiz dança do ventre, dança de salão, danças de roda, fiz aula de samba. Mas a dança, pra mim, sempre foi uma brincadeira, que a gente faz sozinha, ou faz pra alguém. Mas dançar com alguém… Isso não, é seríssimo. Quem já dançou de rosto colado com alguém que ama e se sentiu levitando, fora do chão, sabe do que eu estou falando. E se não sabe, na minha modesta opinião, deveria procurar saber antes de morrer. Não tem carinho mais gostoso que dançar colado – a respiração, o toque mais ou menos apertado no refrão, sentir o coração batendo forte dentro do peito. E a música lá, sublime, poderosa, acompanhando todas as reações de paixão. Mas, de preferência, que seja a sós, longe de qualquer um que venha atrapalhar com uma vassourinha pra tirar o seu par, ou tirar você dele. Ah, os bailinhos da adolescência…

Eu também tentei cantar. E canto. Hoje mesmo passei a tarde brincando no aplicativo mais legal do mundo, cantando com gente da Rússia, da Inglaterra, do México, no  karaokê do Sing!. Já fiz canto coral, e essas coisas. Mas minha pegada não é cantar pra ninguém além de mim mesma, embora já tenha cantado pra muita gente, especialmente pras crianças. Pra elas, eu canto, toco e danço sem nenhuma timidez. Porque as crianças são pura música. Elas fazem tudo cantando, elas curtem todos os ritmos, elas reparam nos sons da natureza, elas pesquisam tudo, são curiosas e espontâneas. Pelo menos o são antes de nós, adultos, estragarmos o ouvido e sensibilidade delas com nossas regras e grosserias musicais, com nossa poluição sonora.

Onde eu estive, sempre teve música. Tinha música em casa… Os hinos do meu avô, as canções do Roberto da minha mãe, o pop rock do bão da vitrola do meu tio, a MPB que o outro tio vivia assobiando, as canções agudas e singelas na voz da minha avó, o rádio alto da Lúcia nos Top Hits das FMs, os programas de auditório que o meu pai gostava. Aprendi a gostar de tudo, e gosto de ser assim… Tão pouco seletiva. Tinha música na escola, fosse pra disciplinar, pra passar o tempo, pra apresentar, pra tentar entender. Tinha música na igreja, na televisão. E quando não tinha, eu levava comigo. Lembro de quando eu, muito jovem ainda, não me importei com o ladrão que roubou minha carteira, mas bati no que tentou roubar meu walkman e coloquei ele pra correr. Ouvia música enquanto estudava na biblioteca. Ouvia o Love Songs todo dia quando voltava da faculdade, na longa viagem que ia da Vila Mariana até Pirituba. Colecionei posteres dos cantores bonitos, fui à gravação de programas de televisão ver os artistas, perdi a conta de quantos shows eu fui ver, fosse em lugares chiquérrimos, fosse na rua com a galera. Eu tinha um caderno com letras de música e, com os amigos, ficávamos cantando sentados na calçada. Contrabandeávamos revistas de letras traduzidas pra aprender cantar em inglês, em francês. Antes, as pessoas gostavam de cantar, dançar e ouviam músicas juntas quando se reuniam.  Dedicavam canções… Faziam serenatas. Passei por tudo isso e tudo foi muito gostoso, muito lindo.

Sinto tanta emoção quando lembro de música. Seria incapaz de escolher uma, ou mesmo algumas músicas que fossem mais importantes. Músicas, pra mim, sempre estão associadas a momentos… Pessoas… Sentimentos. Sempre que alguém precisa de uma música para simbolizar algo, me procura, me pede. Sei que tenho enorme bagagem musical, e sou feliz por isso. Não consigo colocar um post aqui sem deixar pra ele uma trilha sonora.

Em algumas vezes, a música acompanha o que vivi. Outras, provoca coisas que não aconteceriam se ela não estivesse ali. Quantas tristezas explicadas pelas melodias e poesias musicais. Quantas alegrias comemoradas ao som empolgante de alguma canção. Quantas reflexões provocadas por palavras e ritmos que eu nem ousaria imaginar sozinha. A música une pessoas do mundo inteiro, eleva o espírito, marca a história e, como disse Beethoven, faz com que entremos na cabeça de quem a compôs e compartilhemos do sentimento que motivou tudo. Música une, música transforma, música revoluciona e diverte.

Na minha juke box mental dos 40 anos, eu tenho trilha sonora pra tudo que me acontece. Ouço a música tocando dentro da cabeça, sempre, sempre, sempre. Quanto mais velha fico, é verdade, dou mais valor ao silêncio. Mas não canso de tentar me entender com a música. Como ouvinte, instrumentista, ou cantora, não sou lá essas coisas. Mas não me importo em ser mais do que sou. Porque sei do principal: no peito dos desafinados, também bate um coração. 🙂

Eu possuo apenas o que Deus me deu…

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3 comentários sobre “40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – CANÇÃO

  1. Oi, querida Karina. Queridíssima!
    Você é toda melodia, ritmo, harmonia, arranjos criativos. Uma verdadeira enciclopédia musical, sensibilíssima. Devo dizer que amei ouvir a sua voz na canção dos Beatles, e ouvi mais umas tantas outras. Sua voz é doce e redondinha.
    Eu tenho uma história forte com música. Faz tanto parte de mim que não sei como começou, sempre esteve presente. Você é da cantoria, eu do som… Vamos fazer uma dupla?
    Pra você, uma música que me lembra nossa amizade:
    “Estranho mas já me sinto como um velho amigo seu
    Seu all star azul combina com meu preto de cano alto
    Se o homem já pisou na lua
    Como ainda não tenho seu endereço?
    O tom que eu canto as minhas músicas pra tua voz
    Parece exato…”

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  2. Quantas lembranças felizes neste post!
    Você montou um coral onde a gente estudava, lembra? Todo mundo te amava e respeitava, você ensaiou aquele bando de adolescente maluca e fizemos uma apresentação emocionante! Lembra?!?
    Lembro do teu caderno de letras de música. Lembro da gente cantando juntas e indo a shows. Muito do que eu sei de música foi você que me ensinou!
    Desafinada, vc… Ah vá. Ficou linda a gravação dos Beatles.
    Amo vc, miga.
    Tá de férias! Escreve mais!
    Bjo.

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  3. Queria deixar aqui uma canção dedicada a vc.
    “Nunca mais você ouviu falar de mim
    Mas eu continuei a ter você
    Em toda esta saudade que ficou
    Tanto tempo já passou e eu não te esqueci

    Quantas vezes eu pensei voltar
    E dizer que o meu amor nada mudou
    Mas o meu silêncio foi maior
    E na distância morro todo dia sem você saber…”

    E já faz tempo que “cato a poesia que entornas no chão ” por aí, aos pedaços. E estou feliz que também poderei fazê -lo ao te ouvir cantar.
    Não vou assinar… já faz anos, mas acho que vai saber quem eu sou.
    Que a música dentro de vc nunca pare de tocar.

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