CELEBRAR A VIDA

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Aprendi com o tempo e com as lágrimas que a morte, a gente teme e respeita. Mas a vida, a gente celebra. E quando essas duas coisas se misturam, a gente precisa aprender a comemorar as coisas de um jeito diferente. E elas sempre se misturam. Quem vive, morre um pouco a cada minuto que passa. E quem morre, só pode morrer porque estava vivo. A festa do dia dos mortos, mexicana, é um pouco isso. Trazer a morte pra celebração. Porque é por causa da morte que a gente entende melhor a vida, e de certa forma, fazemos com que ganhe sentido.

Ano passado tive a oportunidade de ver a chefe do serviço funerário da cidade de São Paulo falando sobre morte em um encontro sobre o que se fazia de bom pela infância na cidade. Eu estava lá pra falar de educação. E ela, pra falar sobre cemitério. Fiquei um tanto chocada. Mas eu não estava lá por acaso. Passado o estranhamento inicial, e após uma fala lindíssima de alguém que estava acostumada a não ser bem acolhida lugar nenhum pelo assunto difícil que significava, eu entendi porque aquela mulher defendia tanto que falássemos sobre a morte. Ela explicou que o cemitério é um patrimônio da cidade, um lugar de memória, de emoção, de vida. Ela defendia que não devíamos deixar de falar da morte às crianças, de prepará-las para isso. Entendi que não fazemos visitas ao túmulo de Tarsila do Amaral, Monteiro Lobato ou Paulo Vanzolini pra lembrar do dia em que morreram, mas sim pra lembrar da vida incrível, produtiva e marcante que tiveram. Tem gente que é assim: morre, mas sempre merece ser lembrada por sua vida.

Uma das coisas mais estranhas do processo de luto é quando as pessoas se incomodam quando a gente, que perdeu alguém querido, fala da pessoa que se foi. Há um silêncio desconfortável, pedindo pra acabar o assunto. Constrangimento. Os interlocutores têm medo de magoar. Sentem dúvida se param ou continuam a conversa. O enlutado percebe que são pouquíssimas as pessoas que gostam de falar de quem morreu. Querem esquecer, fingir que não aconteceu, jogar a morte, a dor, a finitude da vida debaixo do tapete. E, sabendo disso, a gente evita falar pra não causar tanto mal estar por aí.

Na verdade, passado algum tempo, a gente supera a coisa de lembrar de quem partiu de um jeito tão dolorido. E gostaria de falar das coisas boas que aconteceram. Com o Marcelo, meu marido, sinto assim. Sinto dor, claro. Saudade, tanta saudade. Raiva da vida. Medo do futuro e do passado. Inconformidade. Penso milhões de vezes em outros finais pra nossa história. Mas também lembro de tudo de bom que ele era, que fez e que vivemos juntos. E fico com dó de esquecer. Não seria justo não falar mais dele, apagá-lo da minha vida. Então, prefiro lembrar. Mesmo correndo o risco de doer, prefiro lembrar.

Hoje ele faria aniversário. E não consigo evitar de pensar em como seria legal tê-lo aqui. Tenho certeza que teríamos sido felizes juntos, de que ele seria ótimo marido como foi tão bom namorado – tanto acreditava nisso que me casei com ele.

Talvez, se hoje estivesse aqui, estaríamos fazendo um brinde agora. Brindando a pessoa que ele era. Ele teria sido um ótimo escritor. Tinha uma veia sarcástica, dura, debochada e desafiadora na escrita. Teria sido também um ótimo genro, um tio babão, talvez um pai incrível, um companheiro completo, um amante disposto e inesquecível, uma pessoa sensível, um amigo ponta firme, um lutador de ideais nobres, um professor de português muito elegante e inteligente. Ele já era tudo isso. Claro, ele faria besteiras também, todos fazemos. Mas isso não apagaria o brilho da pessoa incrível que era, com quem tive o prazer de conviver, e que ficou assim, cristalizado no tempo: querido, muito querido.

Por isso, hoje, lembro dele e celebro. Sua morte me marcou profundamente. Talvez, a maior cicatriz que tenho na alma. Mas sua vida me marcou mais ainda. Muita, muita gente passa a vida inteira sem ter o gosto, a coragem, a alegria de conviver com alguém que lhe ame de verdade, que lhe conheça tão bem, que faça olhar a vida de um jeito diferente, que partilhe os mesmos ideais, com quem tenha tanta afinidade, e que te olhe como ele me olhava: colocando em mim o carimbo de raridade, de coisa especial, de melhor das melhores, e, por isso, me fazendo sentir tão mais viva e animada pra seguir adiante. Eu tive tudo isso. E não há outro sentimento sobre isso a não ser gratidão.

Ele sempre estava um passo a frente. Foi assim quando nos conhecemos. Ao final do encontro, ele olhou pra mim, e disse, “eu sei exatamente quem você é. Te conheço toda. Você é quem eu tanto procurei todo esse tempo. E por isso, sei que vamos casar. Por mim, pode ser amanhã mesmo.” Eu ri. Achei maluquice. Como assim, era nosso primeiro encontro. Mas ele sabia mesmo. E isso me fez voltar. E voltar de novo. E mais uma vez. Até que não fomos mais embora.

E por saber tanto, creio que, de alguma forma, ele também sabia que iria partir antes. Várias vezes me disse que não amarrasse minha felicidade na dele, apenas caminhasse junto. Várias vezes me fez prometer que sempre olharia pra mim mesma com os olhos dele. Eu ouvi. E, claro, se fiquei aqui, continuo vivendo. Fazendo o melhor que posso, continuando a caminhada. Por ele e por mim.

Celebro a vida e levanto um brinde àquele que me amou, que se deixou amar, e que me libertou de tanta coisa. Sou grata pela vida, mesmo castigada pela morte. E por isso, sinto que agora tenho dois aniversários no ano: o dele, e o meu. Sempre será uma parte de mim. E estou feliz por estar terminando este texto sem lágrimas, e sim com sorrisos.

De fato, o amor é muito maior que a morte. É do tamanho da eternidade. E, após longa travessia no vale da dor, digo orgulhosa que foi o amor, e não a morte, que venceu dentro de mim. Nossa história é linda, digna de nós. E sei que você a brindaria comigo agora, se pudesse, tão feliz quanto eu.

Tim tim, meu bem. 🙂

“E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém aparecer
Ou quando quero
Quando quero

Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És, parte ainda do que me faz forte
Pra ser honesto
Só um pouquinho infeliz

Mas tudo bem
Tudo bem, tudo bem…
Lá vem, lá vem, lá vem
De novo
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti que não esquecerei…”

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