2017… ADEUS, CASULO.

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Relendo alguns dos últimos textos de ano novo aqui, percebo que é recorrente essa sensação de esperança, de renovação; esse sentir profundo da essência das coisas e esse banho revigorante da força pra continuar. Dia 31 normalmente me bate essa enorme vontade de jogar no lixo os episódios ruins, enfiar os bons debaixo do braço, fazer faxina, limpar a agenda, olhar pra frente e pisar duro na nova estrada, como se fosse realmente ser tudo diferente.

Os últimos anos foram anos difíceis, mas terminaram; e ao terminarem, trouxeram com eles alívio e desejos – ora tímidos, ora desesperados – de que tudo fosse mais calmo, mais tranquilo, mais sereno… Melhor.

Engano… Um delicioso e necessário auto engano. A vida é a alternância de sempre entre o descanso e o trabalho, a paz e a guerra, o amor e a solidão, o sonho e a morte. É isso aí e sempre será. E um ano… Ah, é só mais 365 dias da mesma vida de sempre.

Mas a vida não é a de sempre, porque a única coisa certa sobre ela é que muda. TODO cambia, como dizia a belíssima canção castelhana. Ainda bem. E como não dá pra refletir a vida inteira, e nem mudar tudo de uma vez, é abençoada a ideia explicitada pelo cronista, de cortar o tempo em fatias… E pensar um pouco sobre os pedaços que deleitamos, mastigamos ou fomos obrigados a engolir ultimamente.

E olhando pro meu 2017, vejo que foi um ano especialmente difícil pra mim. Solidão; doenças diversas; decepções múltiplas; dores, muitas, no corpo e na alma; despertar de velhas feridas; estranhamento das pessoas; sono demais, sono de menos; equivocadíssimos romances; medos e poucas vitórias; nada além do pão do dia a dia, sem muito sonho, sem muita vontade de nada. Embotamento, apatia. Pouca fé. Pouca esperança. O mundo desabando em ódio, fascismo, rancor, violência, e nenhuma reação decente onde eu pudesse me encaixar pra ir contra a maré. E uma persistente, enorme e fundante dúvida no espelho – afinal de contas, quem é essa mulher aí, cheia de olheiras, de olhar perdido e aspecto envelhecido que eu vejo no espelho? Quem é ela, meu Deus, que eu não sei quem é!?

Apesar da vida que seguiu e me obrigou a seguir com ela, saindo de casa todos os dias, trabalhando, dando conta das coisas… Se eu tivesse que escolher uma imagem para 2017 seria a de um casulo. Sim, um casulo. Estive dormindo todo esse tempo, mesmo que parecesse que não. E como é dolorido ficar assim. É muito dolorido saber que você não é mais o que era, e também não saber ainda o que você será. É muito triste essa perda de identidade… E eu tentei desesperadamente ignorar essa dor, mas o meu corpo me parou e me fez perceber: não dava mais pra ser a mesma de antes… E seria preciso sonhar com a que eu virei a ser. Não é algo inédito passar por metamorfoses, mas do jeito que foi, nunca tinha sido antes.

Antes… A direção de antes não vai mais pra lugar nenhum; os ambientes onde antes eu me sentia segura parecem muito hostis, estranhos; as pessoas de antes parecem diferentes, algumas delas nem sei mais se quero em minha vida; os erros de antes, já não é mais tolerável que continuem sendo cometidos; os velhos hábitos, aquele velho rastejar da lagarta, aquilo não me serve mais. Eu não sou mais apenas a filha da Jaci, a irmã do Rodrigo e do Levy, a professorinha, a amigona, a namorada… Nem mesmo sou mais a viúva do Marcelo, e essa dor, que por tanto tempo me definiu, me protegeu, me encalacrou… Aos poucos perde a força e já não consegue mais tomar o lugar da minha personalidade. Entrei no casulo para sair de lá outra… Outra filha, outra irmã, outra profissional, outra amiga, outra mulher, outra… Tão outra. Mas que outra é essa?

A lagartinha, antes programada pra cumprir com suas tarefas – comer, trocar de pele, proteger-se dos perigos e armazenar energia – finalmente entra no casulo. Isola-se. Para de olhar pra fora. Fecha-se. E lá dentro… Com a ajuda do tempo e de um pouco de sorte ( afinal, um casulo atacado simplesmente morre ), forma-se esse novo ser.

É bonitinho pensar na metamorfose, eu mesma já escrevi mais de uma vez sobre isso aqui. Mas o que acontece dentro do casulo não é nada divertido. É um processo doloridíssimo chamado histólise, e depois histogênese: a lagarta é literalmente derretida em seus próprios sucos ácidos, e suas células vão sendo destruídas de dentro pra fora. É preciso aniquilar a lagarta, mas uma parte dela é poupada – suas células tronco, as principais… A essência. Toda a casca vai embora e fica apenas a origem. E é dessas células que a reconstrução começa. É delas que vai sair um novo corpo, uma nova estrutura, uma nova aparência, novos músculos… Um novo coração. E o pior: no tempo do casulo, não é possível jogar nada fora dessa velha vida. Fica tudo ali, acumulado… Enquanto o outro ser se forma, até que esteja pronto pra sair.

Foi assim, exatamente que me senti durante este ano que termina hoje. Dentro do casulo. Reconstruindo tudo. Perdida entre o velho e o novo, entre ir e ficar, entre esquecer e lembrar, entre tentar mais uma vez e desistir. Sem poder jogar nada fora, mas também sem saber o que colocar pra dentro. Doeu tanto. Tanto. E foi uma dor solitária. Como poucas que tive na vida. Não achei ninguém neste mundo a quem eu pudesse ou conseguisse explicar o que estava acontecendo, ninguém que eu achei que se interessasse, ou se interessando, compreenderia. Foi um tempo de silêncio, recolhimento e solidão… Acompanhado de perto pela única pessoa que protegeu o meu casulo com extrema delicadeza e paciência ( Louremi, eternamente grata a você, minha terapeuta querida ).

Claro, borboletas não tem consciência. Mas se tivessem, enquanto passam por tudo isso, toda esse desmanchar e refazer, elas poderiam dedicar seu tempo a sonhar com a nova vida. Mas não é assim. Não dá pra sonhar muito em meio a dor de ver derretido tudo que você era. É preciso esperar… Apenas esperar.

Às portas de sair do casulo, me sentindo quase pronta, começo a me incomodar com a espera. Começo a ter vontade de sair…. E também vontade de sonhar com minha nova vida. De que cor serão minhas asas? Pra onde é que eu vou voar? Quais serão os novos hábitos que vou ter que construir? Quem eu vou encontrar no céu, que não encontrarei mais lá no chão? Quem vai me achar mais bonita, ou mais feia? O que eu vou fazer com essas novas capacidades? Como é ser uma borboleta madura? “Será que a borboleta lembra que já foi lagarta? Será que a lagarta sabe que um dia vai voar?”

Talvez 2018 seja esse ano, o ano do esforço de deixar o casulo. O ano de encontrar esse novo ser, sonhá-lo, deixá-lo vir. Não é assim, mágico. É preciso esforço, é preciso forçar a saída, é preciso romper.  E depois, deixar as asas secarem ao sol completamente, até que possam sentir-se fortes para o primeiro voo. Não sei quanto tempo leva, não sei nem mesmo se é isso.  Observo tanta gente que desiste no meio do caminho e começa tudo de novo, voltando à condição antiga e segura da lagarta. Vai saber o que me espera!

Mas a primeira decisão do ano novo já está tomada – deixar ser… Let it be.

Sim, let it be… Não dá pra controlar o movimento da natureza, o despertar do ser, a ação do tempo… Não dá pra adiantar e nem atrasar a cordinha da vida. Não dá pra resolver todos os problemas… Não dá pra ficar parado também esperando tudo se resolver. A cada dia, muita luta, muito sonho, muito cansaço, e muito desejo também… Farei o pouco que der pra fazer, e desistirei sem me destruir antes.  E dentro disso tudo, apenas a vontade de viver, sem segurar a rédia de nada… Deixando ser.

A velha canção dos Beatles sempre me consolou nos piores momentos. A “mother Mary” do Paul está dentro dele, a minha também está aqui… Haverá a resposta pra tudo, haverá a força pra continuar, haverá as quedas e os novos voos. 2018… Apenas vou deixá-lo ser e sair do meu casulo. O que eu encontrar por aí será bem vindo para que essa nova “eu” apareça e finalmente eu volte a me reconhecer no espelho. Essa nova pessoa, também vou deixá-la ser. Let it be… Let it be. É sabedoria, é paciência, é consciência, é sonho… É vida.

Que em 2018 todos nós nos deixemos ser tudo que conseguirmos. Pra quem está no chão, entre as folhas, lagarteando… Se alimente bastante. Para quem vai entrar no casulo… Força pra aguentar o tranco. Pra quem está saindo… Vamos em frente. E pra quem já está voando… Aproveite.

Feliz ano novo!

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4 comentários sobre “2017… ADEUS, CASULO.

  1. Eu tenho tanta saudade de vc… Tanta. Da sua doçura, sabedoria, seu exemplo e sua fé. Vc já era uma lagarta diferente. Imagina a borboleta fantástica que vai se tornar! Vem que o mundo vai parar pra te ver voar, linda. Eu vou. Bjo com amor.

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  2. Em 2010 eu escrevia um blog e vinha muito aqui… me via muito aqui. Depois a vida foi me atropelando e me levando junto. Hj, com uma insônia inexplicável aqui pelas redes, me lembrei do seu blog e levei um tempo para reencontra-lo. Mas fiquei feliz em te “rever” e desejo que neste novo ciclo q se inicia você Alex voos lindos! Sempre gostei danaua maneira de se expressar, de se abrir sem medo. Voltarei para ler tudo que perdi e espero também que este ano sua escrita esteja cheia de alegrias pra contar neste mundo que irá te redescobrir. Um beijo! 😘

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