40 TEMAS PARA OS 40 ANOS – NAMORADO

Entre tempo de preparação, ação e reação… São 40 anos tentando entender o que significa ter um namorado. Poucas coisas ocuparam tanto os meus pensamentos e palavras, e causaram tantas mudanças na minha vida quanto essa busca do encontro com alguém que, hoje eu sei… É paradoxalmente uma busca por mim mesma.

Hoje eu penso que o amor entre duas pessoas que se querem como companheiros é uma fruta deliciosa, de casca grossa, espinhosa e pontuda… E de polpa doce, carnuda e suculenta, que a gente nunca vai provar por inteiro, mas pode dar umas boas abocanhadas durante a vida. Quem se dedica a descascar essa fruta e consegue provar um pouco de seu sabor… Jamais esquece o gosto.

Tem gente que aprende na teoria, mas não consegue na prática. Tem gente que tem um professor ou professora só, e consegue aprender tudo com ele ou ela. Tem gente que passa a vida inteira com medo de tentar. E outros, poucos, que tiram de letra.  Pra mim, o caminho foi partilhado com muita alegria e muita dor, muita paixão e muito abandono, muita entrega e muita incompreensão, tudo “muito”. E é com gratidão que olho pra  trás e penso no que passou… Em quem passou e dividiu um pouco da vida, do corpo, dos pensamentos, dos sonhos, do coração comigo. Ah, eu sou grata a vocês, queridos namorados que um dia tive. Agradeço muito, e não importa se deu certo por um mês, seis meses, um ano, cinco anos, dez anos. Um encontro de amor é sempre mais certo que a segurança da solidão… É sempre mais certo do que não tentar.

Agradeço ao que me beijava escondido da inspetora de alunos e pegava na minha mão, me fazendo corar e tremer inteira, por ter me ensinado que amar é uma aventura secreta que faz vento dentro do estômago.

Agradeço ao mais velho que gostava tanto das minhas ideias de mocinha e vivia me dizendo que eu era inteligente, por ter me ensinado que amar envolve intensa e atenta admiração.

Agradeço ao companheiro que escrevia coisas comigo, me levava ao cinema, ao museu, ao teatro, e que ficava muito tempo ao meu lado estudando e batendo papo sem perceber a hora passar, por ter me ensinado que amar é afinidade, é troca, é congruência.

Agradeço ao moço que me beijava até eu ficar tonta e perder o ar, por ter me mostrado que o amar tem uma inegável e deliciosa expressão física, química, biológica.

Agradeço ao príncipe encantado romântico e problemático, que me escreveu lindas cartas de amor, se rasgava em elogios, e me fazia sentir a mulher mais incrível do mundo só em um olhar… Por ter me mostrado que amar faz a gente ser melhor quando o outro nos olha com tanta generosidade, e a gente se reconhece nesse espelho.

Agradeço ao bonzinho que fazia todas as minhas vontades e recebia de coração aberto todos os meus carinhos, me mostrando que amar é um doce e voluntário regime de servidão.

Agradeço ao malvado que nunca conseguiu assumir nosso romance e com isso me machucou tanto, por ter me ensinado que amar exige uma entrega de olhos fechados, mas com a qual precisamos tomar muito cuidado para não perder a mão de quem somos.

Agradeço ao moço da outra cidade que viajava horas e horas só pra ganhar um beijo, por ter me ensinado que o amar é subverter as regras, até mesmo do tempo e do espaço.

Agradeço ao companheiro imperfeito que o amor fez ser perfeito, que era meu parceiro em tudo e partilhava comigo canções, leituras, poemas, sonhos, reflexões, família, tudo com muita doçura, por ter me ensinado que amar precisa de uma dose diária e profunda de ternura.

Agradeço ao rapaz que teve toda paciência de me resgatar dador profunda e cuidou do meu coração com dedicação e esforço, por me mostrar que o amar carece de certa dose de investimento e semeadura, ainda que o solo pareça seco. É uma questão de esperança.

Agradeço ao namorado que virou marido, que me fez feliz como nunca, e involuntariamente me causou a maior dor que já senti, mas me ensinou que o amar de verdade liberta e nos faz ser quem realmente somos.

Agradeço ao moço que me acolheu no meio da maior melancolia da minha vida, me ouviu, me recuperou, me acompanhou, cuidou do meu dia a dia e me fez ter vontade  de continuar, me ensinando que o amar é a única coisa que pode reparar um buraco deixado pelo próprio amor.

Agradeço também ao adversário de valor que namorei por último, que deu uma boa sacudida na minha vida, por ter me mostrado que o amar é desafio de olhar ao diferente e a partir disso rever a mim mesma, “ferro afiando ferro”, no choque. Amar é encontro de duas pessoas inteiras, que voluntariamente assinam um acordo de interdependência… E não de dependência.

Agradeço também a todas as tentativas que não deram muito certo e/ou não duraram muito, mas o suficiente pra entender que o amar é isso aí mesmo, aproximações sucessivas, ir, chegar perto e voltar… O importante é ter coragem de tentar.

Mas agora quero agradecer, de antemão, ao que vai chegar pra me mostrar que o amar é algo que eu não vi ainda, mas vou ver… É algo que ainda vou aprender… É algo bom que ainda vou viver… É alegria e dor que ainda não experimentei… É semente que ainda não foi plantada… É síntese de tudo que vivi até aqui… É esperança de futuro, é continuar caminhando.

Love is a bird… She needs to fly“. O amor é uma águia… Não pode viver presa, caída, machucada no chão. Ela precisa voar. E voará de novo para horizontes diferentes, que eu nunca sonhei em ver. E se assim não for, eu estarei congelada. Fria, morta, em suspenso.

You´re frozen… When your heart is not open.

Feliz dia nos namorados e namoradas, queridos e queridas.

“You only see what your eyes want to see.
How can life be what you want it to be?
You’re frozen… When your heart’s not open.

You’re so consumed with how much you get…
You waste your time with hate and regret.
You’re broken, when your heart’s not open.

If I could melt your heart,
We’d never be apart.
Give yourself to me,
You hold the key.

Now there’s no point in placing the blame
And you should know I suffer the same…
If I lose you, my heart will be broken.

Love is a bird, she needs to fly…
Let all the hurt inside of you die…
You’re frozen… When your heart’s not open.

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SER AMADO PLENAMENTE PODE ACABAR COM A SUA VIDA

 

Meus caros, minhas caras, prestem bem atenção, conselho de gente vivida: ser amado pode acabar com a sua vida.

É o que todo mundo diz que quer. Alguém por quem seja amado incondicionalmente, alguém apaixonado, que de tão apaixonado seja subserviente, excessivo, que encha todos os espaços em volta, que viva pra você, que admire, venere, faça feliz e só por isso se sinta feliz também.

Ok, é mesmo uma delícia. E se você encontrar essa pessoa, não haveria nada melhor a fazer a não ser se jogar nos braços dela e curtir a vida adoidado.

Mas cuidado. É possível que você tenha o que deseja, e que alguém te ame assim. E é possível que, por alguma razão, esse alguém suma de sua vida. Pode ser que a pessoa canse. Pode ser que a convivência seja medíocre demais para a grandeza do sentimento. Pode ser que a vida dê suas voltas incompreensíveis e estrague o prazer de vocês. Pode ser morte, cinismo, doença, dificuldade financeira, viagem, traição. Pode ser que você – veja bem, você! – que tanto quer ser amado ou amada assim, simplesmente não consiga aceitar esse amor, não consiga se permitir ser amado ou amada ( sim, é triste, mas tem gente que não sabe ser amado ) e faça besteiras suficientes pra acabar com tudo. Seja como for, pode ter um fim.

Depois do fim, você vai entender a grandeza do que teve. Coisas de ser humano. Só perceber o real valor das coisas com o afastamento – temporário ou definitivo – do que o sustenta. Paciência com nossa natureza limitada, é assim.

Você vai demorar, mas vai se recuperar. Claro que vai. Se tem uma coisa que o tempo pode fazer por você, é curar suas feridas. E você, que uma vez foi amado, vai se tocar que não consegue viver mais sem amor. É que amor vicia. Miseravelmente. Você vai querer mais.

Mas um grande desafio espera por você. Quem teve tudo, dificilmente aceita pouco, aceita menos. Pode até fingir que aceita, mas, no fundo, fica uma profunda sensação de estranhamento, de algo fora de lugar, de dívida constante. A pessoa pode até te amar com tudo que pode, mas o que ela pode, pode ser pouco pra você, que já teve tanto.

Quem já recebeu declarações de amor fartas e constantes, dificilmente se conformará com um “te amo” seco e automático na despedida.

Quem já passou horas ao telefone sem ver o assunto acabar, vai achar pouco falar 5 minutinhos entre um compromisso e outro pra checar se está tudo bem.

Quem já foi olhado profundamente nos olhos, e viu o outro se perder ali, não vai ver nada em olhos que olham de relance, com desconfiança, fugidios.

Quem já teve certeza do amor de alguém, vai morrer de ciúme de quem sabe não ter se entregado.

Quem já foi aceito e admirado em tudo que é, sentindo-se forte e quase perfeito pelo olhar do outro, vai enfraquecer ao ser constantemente julgado com frieza por quem não é generoso na aceitação e vê seus defeitos com precisão cirúrgica.

Quem já teve entrega total de alguém, não aceita meio pacote.

Quem já ouviu belos poemas e canções de amor dedicadas só pra si, não vai achar bonito melodias pobres e frases feitas.

Quem já teve fidelidade e lealdade, não vai se conformar com escapadelas de pensamento, ainda que sejam coerentes e normais.

Quem já dormiu conversando e acordou na mesma conversa de tanta afinidade de ideias, não vai ver a divergência como algo saudável, apenas aborrecido.

Quem já sonhou a dois e aprendeu a abrir mão de bons planos pra voar junto, não vai se acostumar com pé no freio e pouca doação, vai querer voar de novo.

Quem já se fundiu no corpo de alguém de tanta intimidade, não vai ter tanto tesão em fazer sexo por fazer, por mais que seja tecnicamente gostoso.

Quem já sofreu com a angústia da separação consentida para ir à padaria ou ao trabalho só para esperar pelo reencontro, não vai entender quem não sente falta desesperadamente.

Quem já foi prioridade na vida de alguém, não vai aceitar ser uma opção para o tempo livre ou para o final de semana.

Quem já viveu o encaixe da combinação perfeita, não aceita apenas estar ao lado. Vai tentar se mutilar pra encaixar de novo, sem sucesso.

Quem já foi plenamente amado, não vai aceitar nada menos que outro amor pleno.

É raro, é difícil. Pode ser que um amor assim não bata na sua porta duas vezes, muito menos três.

O problema do bom amor é que ele te ensina o valor de ser amado. E depois, não há mais possibilidade de deixar por menos.

É verdade que ser bem amado muda sua visão de você mesmo ou mesma, de todos e todas, do mundo, e te permite, ao mesmo tempo, ser mais exigente e mais solidário com os corações perdidos. Pode ser que você consiga, a duras penas, construir o amor de novo ao amar alguém como um dia foi amado. Mas, é difícil. A reciprocidade é quase um milagre, e todos esperamos por ele. Porém, todos sabemos porque os milagres se chamam milagres. Não são comuns. Não são fáceis. Não são para todos. São especiais.

É, camarada. Cuidado. Ser amado ou amada plenamente pode acabar com sua vida, é verdade.

Mas também é verdade que você não saberá o que é uma vida até ser plenamente amado.

Então, na dúvida… Ame.

E feliz dia dos namorados!

TODOS DIZEM EU TE AMO

Napoleão e Josefine

Trechos de cartas de amor de homens famosos para suas amadas e amados…

Belíssimas. Todos dizem eu te amo. Uns com mais classe que outros, claro, mas todos dizem. Basta saber ouvir.

“Não acreditarás na saudade que sinto de ti. Só fico livre desse tormento quando estou assoberbado de trabalho no tribunal e nos processos dos amigos. Avalie como é a minha vida quando só encontro repouso no trabalho e conforto na tristeza e na ansiedade…”

Plínio, o Jovem, para a esposa Calpúrnia

 

“Quanto não pode acontecer em um dia! Na noite anterior eu me considerava um homem feliz, a quem nada faltava, com a certeza da sorte. (…) Mas o amor, o todo-poderoso amor, parece ter em um único instante me afastado prodigiosamente de tudo que não seja sua pessoa. No meio da multidão, estou só. E todo o mais tornou-se insignificante.”

William Congreve, para Arabella Hunt

 

“És uma dádiva grande demais para ser conquistada de imediato, portanto, devo ser preparado aos poucos para que esse presente precioso não me deixe louco de alegria.”

Richar Steele, para Mary Scurlock

 

“Querida esposinha, tenho alguns pedidos a fazer. Rogo-te que (1) não fiques triste; (2)cuides da saúde e tenhas cuidado com as brisas da primavera; (3) não saias para caminhar sem companhia – e, de preferência, não saias para caminhar de jeito nenhum; (4) fiques absolutamente segura do meu amor. Até o presente não escrevi nenhuma carta para ti sem ter diante de mim teu amado retrato.”

Mozart, para Constanze

 

“Em meio aos meus deveres, quer eu esteja à frente do exército ou inspecionado os campos, minha amada Josefina domina meu coração, ocupa minha mente, preenche meus pensamentos. Se estou me afastando de ti à velocidade da torrente do Ródano, é somente para poder tornar a ver-te mais cedo. Se me levanto para trabalhar no meio da noite, é porque isso pode acelerar em alguns dias a chegada do meu doce amor.”

Napoleão Bonaparte, para Josefina

 

“Não acreditarás na saudade que sinto de ti. Só fico livre desse tormento quando estou assoberbado de trabalho no tribunal e nos processos dos amigos. Avalie como é a minha vida quando só encontro repouso no trabalho e conforto na tristeza e na ansiedade…”

Plínio, o Jovem, para a esposa Calpúrnia

 

“O amor exige tudo e está certo. Portanto, ele me quer contigo, e te quer comigo. Apenas te esqueces que eu preciso para ti, e para mim – se estivéssemos juntos, sentirias essa dor tão pouco quanto eu deveria senti-la.”
Ludwin van Beethoven, para sua Amada Imortal

 

“Oh! Como teria gostado de passar meio dia ajoelhado a teus pés, com a cabeça sobre teus joelhos, sonhando lindos sonhos, contando-te meus pensamentos com lassitude, com arrebatamento, às vezes sem dizer nada, mas pressionando meus lábios contra teu vestido!”

Honoré de Balzac, para Condessa Ewelina Hanska

 

“Não é ela a única razão do meu viver?  Se ela me demonstrar indiferença, ou mesmo ódio, será meu infortúnio, é tudo. Portanto, que importa, se com isso a felicidade dela não for prejudicada? Sim, se ela não puder me amar, só a mim mesmo caberá a culpa. Meu dever é seguir-lhe de perto os passos, cercar a existência dela com a minha, servir-lhe de barreia contra todos os perigos, oferecer-lhe minha cabeça como apoio, colocar-me incessantemente entre ela e todas as tristezas, sem demandar qualquer prêmio, ou esperar qualquer recompensa. (…) Se cada um dos meus dias for marcado por algum sacrifício em favor dela, no dia da minha morte eu ainda não terei resgatado nem uma fração da dívida infinita da minha existência para com a existência dela.”

Victor Hugo, para Adéle

 

“Perdoa tanto egoísmo – digo-te isso porque penso que irás humanizar-me, e logo irás ensinar-me que existe uma felicidade maior do que construir teorias e acumular fatos no silêncio e na solidão. Minha mui querida Emma, espero de todo coração que nunca te arrependas do grandioso, diria mesmo excelente, ato que realizarás na terça-feira. Minha querida futura esposa… Deus te abençoe.”

Charles Darwin para Emma, sua esposa, três dias antes do casamento.

 

“Cada dia que passamos juntos fortalece minha confiança de que não só nunca mais desejaremos estar separados, como nunca poderemos sequer imaginar a tristeza de não nos termos unido. Hoje és mais cara para mim, minha criança, do que eras no dia do teu aniversário passado, quando eras mais querida que no ano anterior – foste tornando-te, progressivamente, mais querida desde o primeiro aniversário, e não tenho dúvida de que essa preciosa progressão continuará até o fim.”

Mark Twain, para Livy

 

“Em alguns momentos, pensei que seria melhor nos separarmos. Ah! Momentos de fraqueza e loucura! Agora vejo que isso teria mutilado minha vida, arruinado minha arte, destruído os acordes que compõem uma alma perfeita. Mesmo coberto de lama, eu te louvarei; dos abismos mais profundos, eu clamarei por ti. Na minha solidão, tu estarás comigo. Estou decidido a não me revoltar, mas aceitar todos os ultrajes pela devoção ao amor; deixar meu corpo ser desonrado, desde que minha alma possa guardar sempre a tua imagem.”

Oscar Wilde, para Alfred Douglas

 

“Significas tanto para mim, não imaginas quanto. A vida sem ti seria absolutamente vazia. Eu me pergunto como conseguia viver antes. Na verdade, estou cheio de amor, e durante os últimos dois ou três anos esperava despejá-lo sobre alguém, e sempre vivi na esperança de poder fazê-lo… Era o que me sustentava. Agora, tenho alguém a quem posso dedicar e dedico todo o meu amor. Alguém que me faz sorrir e sonhar em meio aos horrores da guerra.”

Tenente John Lindsay, para a noiva – ele morreu na guerra antes de reencontrá-la.

Fonte:

livro

SURRENDER…

 

Ah, o som de algumas palavras da língua inglesa… Gosto muito de algumas delas. Quando ouço “still”, “wonder”, “baby”, “mommy”, “rainbow”, “trust”… Acho o som lindo, independente do significado. É uma questão da língua e das sensações físicas que ela causa em pessoas como eu, que amam as palavras e tudo que elas ajudam a dar sentido. Mas nenhuma palavra da língua inglesa me parece mais linda que surrender.

Gosto do som… Mas gosto mais ainda do significado. Surrender , verbo ou substantivo, significa “render-se”. Entregar-se… Deixar de resistir, de tentar fugir, de tentar manter-se a salvo. Levantar os braços e dizer, “eu desisto!”. Significa também resgatar algo, no sentido de pegar de volta o valor investido. Significa, ainda, ceder… Entregar o ouro, deixar pra lá, desistir da discussão, dar-se por vencido.

Sim, este é o famigerado post de dia dos namorados do Mafalda Crescida, e cá estou eu divagando sobre a origem e o significado das palavras. É que eu acho que não se faz amor sem surrender. Aliás… Amar é muita coisa, mas principalmente… Surrender.

Pessoas que já caminharam alguns quilômetros na estrada da vida – que tem grama fresquinha, algumas flores, mas muitos trechos de pedregulhos – e que já machucaram bastante os pezinhos pisando nas pedras, acabam ficando com duas alternativas: ou sangram… Ou calejam. E muitos de nós, calejados ou doridos, acabamos escolhendo parar de caminhar… Ou continuar caminhando, mas com botas pesadas, meias de proteção e muito cuidado. Não queremos mais correr. Não queremos mais sentir o frescor da grama, e nem a delicadeza das flores. Não queremos pisar firme. Nos armamos dos pés à cabeça para evitar a dor, o sofrimento. E não surrender.

É que quem surrender pode ser considerado fraco. E ninguém quer ser fraco. Ninguém quer ser carente. Ninguém quer ser manipulável, ou sensível. Ninguém quer ser considerado boboca. Ninguém quer ser vencido. Ninguém quer ser levado no bico. Ninguém quer perder. Ninguém quer abrir mão das próprias manias, os próprios objetivos, os próprios sonhos pra dividir coisas com alguém que pode simplesmente deixar sua fortaleza arrasada e destruída, no chão… Mas pode também lhe levar pro céu. Minto. Quem ama, não. Quem ama, surrender. Quem ama quer e precisa surrender. Porque não dá pra saborear o melhor pedaço do amor sem baixar as armas e surrender.

Surrender pode ser tanta coisa. Pode ser admitir o encantamento, mesmo correndo o risco de o outro nem ter olhado direito pra você. Pode ser ter coragem de ligar, de convidar pra sair a primeira vez, de tentar. Surrender é aquela sensação incrível de medo e desejo que vem antes do primeiro beijo, quando você arrisca tudo e se joga num abismo, sem saber onde vai cair. Surrender é dispor-se… Dispor de tempo, de dinheiro, de sentimento. Surrender é aventurar-se. Surrender é ir sem jogar pedrinhas pensando no caminho da volta.

Mas, depois dos primeiros passos… Surrender passa a ser mais. É mesmo essa coisa de se render. De entender que não dá pra evitar dizer “eu te amo”, de procurar quando a saudade vem, de rearranjar toda a sua agenda pra ficar junto, de deixar todo o medo de se machucar de novo. É mais forte que você. E por isso, você surrender.

Surrender é mesmo também essa coisa de investir e resgatar depois. Tudo que você dá, o outro percebe e recebe… E acaba te dando de volta. Algumas vezes você fica em débito, outras em crédito. Mas o amor também é essa balança comercial em que a gente coloca tudo que tem, esperando render. E é uma delícia quando chega aquele momento de usar o que você economizou e investiu daquele jeito suado… E aproveitar, usufruir. Surrender a fundo… E ser feliz.

Não ama quem não surrender… Quem não aprende a perder, a ceder. Quem não abre mão de dizer o que pensa pra não desagradar. Quem não deixa pra lá algumas coisas que gosta ou precisa fazer pra passar algum tempo junto. Quem não perdoa. Quem não aprender a deixar de fazer questão da sua opinião, do seu estilo de vida, das suas coisas em benefício do outro, e ainda sentir prazer por isso. Não ama, pelo menos não plenamente, quem não se doa… Quem não tem paciência pra acertar as arestas. Isso não é mágica… É esforço. É surrender.

É uma delícia quando alguém se surrender por você… Pra você. É tão bom quando alguém baixa a guarda e se rende, e diz, tá legal, você venceu, faz de mim o que quiser, estou todinho ou todinha aqui, sou seu prisioneiro, sua prisioneira… E gosto de ser.

E também é bom quando você percebe que não adianta… Você está completamente surrender por alguém, pra alguém. É aquela sensação de se jogar em um rio do alto de um penhasco. O perigo é grande… Mas nada se compara à sensação de voar, e mergulhar. Uma delícia. Imagina só, se você sobreviver… Que história linda vai ter pra contar.

Neste dia dos namorados, meu caro defendido, minha cara protegida… Não se acanhe. Se joga. Pula. Vai. Surrender!

Eu estou indo de novo. E está sendo muito bom. J

“I´ll let you stay with me, if you surrender…”

MEIO ANO

Seis meses… Parecem seis anos. Que estrada longa.

Eliane tem razão, o tempo, para quem sofre o luto, é algo bem diferente do que é pra todos os outros.

Marcelo era alguém amável; não por essa ou aquela qualidade, embora ele tivesse muitas, mas amável como um todo. Machucado pela vida, mas extremamente amável. E eu o amava muito. E não sei se algum outro na vida me amou mais do que ele. Era alguém que me fazia sentir assim, amada, todo o tempo. Alguém que me fez conhecer essa incrível sensação de aceitação plena… Como ele vivia dizendo, para ele, eu era perfeita. E eu acabei acreditando. E isso me fazia muito feliz.

Não é fácil lidar com essa falta. É como esquecer o sabor de um doce maravilhoso que você comeu com o maior prazer da vida, mas sabe que não tem onde conseguir outro, não igual aquele. Talvez consiga outros melhores, ou quase daquele jeito, mas aquele… Aquele não tem como repetir. Vai ficar a lembrança daquele momento, daquele prazer, daquela delícia, daquele contexto. Mas o gosto… Esse a memória não é capaz de repetir. Porque a vida é assim. A gente vive o que tem hoje, sem saber o que fica pra amanhã. E por isso é tão importante viver plenamente, sentir todos os sabores, os cheiros, os sons… Hoje. Não depois, nem um dia… Mas hoje.

Me esforcei muito pra não deixar que um amor bonito virasse uma pedra dura e pesada no meu coração. Esforço mesmo. Me esforcei pra não deixar que o que me fez feliz me deixasse amargurada. E foi tanta força que eu tive que fazer que ninguém sabe. Ninguém pode nem mesmo imaginar. Talvez por isso de vez em quando me sinta tão cansada… Um cansaço milenar.

Mas quanto mais o tempo passa, mais tenho certeza de que, a mim, só cabe a gratidão por ter tido uma experiência tão intensa que me ensinou não só a amar mais e melhor, amar sem esperar nada em troca; mas também me ensinou a ter mais fé, sabedoria, me fez mais forte e me ajudou a confiar mais nos planos de Deus, mesmo que eu não os entenda. Hoje sinto que por pior que sejam as pancadas da vida, eu levantarei e seguirei adiante… Porque o melhor e o pior já aconteceram. E eu sobrevivi. Sei que a vida ainda pode me surpreender, para o bem e para o mal. Mas eu me sinto pronta para o que vier.

A vida é sempre melhor vivida do que imaginada. E pra viver, já dizia o Guimarães que o Marcelo tanto amava, a gente precisa mesmo é de coragem.

Hoje pensei tanto em quem me acompanhou nesse tempo. Me veio um profundo sentimento de gratidão. Quem chorou comigo… Quem veio aqui e me esperou dormir… Quem me deu atenção… Quem me pegou no colo… Quem me presenteou, mandou flores, cestas, presentes, bilhetes, cartas, livros. Quem resolveu coisas práticas pra mim… Quem me fez olhar para o passado e refletir… Quem me ajudou a olhar adiante e ver que existe uma tela em branco, que posso pintar como eu quiser. Quem me fez rir, cantar, acreditar, manter o foco no trabalho e nos estudos. Quem me levou pra passear, me levou pra igreja, me levou pra casa, me levou pro cinema, pro restaurante, pro show, pra festa, pra livraria. Quem não me deixou esquecer que eu era profundamente amada, e que não valia a pena desistir. Quem orou por mim nas madrugadas, nas manhãs, nas noites… Quem telefonou, mandou mensagem, se preocupou. E também quem soube a hora de fazer silêncio, se retirar e me deixar sozinha. Quem, em lágrimas, pediu para que eu não desistisse, para que eu não enlouquecesse, para que eu fosse adiante. Quem me ” fez comida, velou meu sono, foi meu amigo e me levou junto”. Muita coisa eu vi, outras não vi, não percebi, mesmo sabendo que aconteceram. Mas agradeço por todas, todas essas boas intenções e ações dirigidas a mim.

Tenho família, tenho amigos, tenho companheiros de oração, de vida, de sorrisos, de lágrimas, e de luta. Especialmente, tenho Deus Emanuel, que me acompanhou em todas as madrugadas solitárias, muitas de desespero e choro, de insônia e angústia, e soprava suave no meu ouvido… “Vai amanhecer já já… Tenha calma.” E amanheceu mesmo. Que presente… Que bem.

Hoje está nublado, e o sol e a chuva estão brigando por espaço no céu. “Eu rabisco o sol que a chuva apagou”. O céu parece perfeito assim, dúbio, da minha janela… E me deu vontade de cantar.

“E mesmo sem te ver, acho até que estou indo bem.
Só apareço, por assim dizer,
Quando convém aparecer.
Ou quando quero…
Quando quero…
Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção.
Eu rabisco o sol que a chuva apagou…
Quero que saibas que me lembro.
Queria até que pudesses me ver…
És parte ainda do que me faz forte;
E pra ser honesto, só um pouquinho infeliz.
Mas tudo bem, tudo bem, tudo bem…
Lá vem, lá vem, lá vem de novo,
Acho que estou gostando de alguém.
E é de ti que não esquecerei…”

 

PARA QUEM BEM VIVEU O AMOR

20/11/2013

Oi, meu bem.

Já tem um tempo que não escrevo… É o que acontece quando tenho muito a dizer – nada consegue ser dito. Talvez não faça diferença mesmo, mas hoje eu preciso deixar vazar um pouco de mim pra ver se o sono vem. O sono tranquilo que há dois meses não tenho mais… E que me faz tanta falta.

E eu sinto falta, sim… Falta de dormir, falta de abraço, de beijo, de ajuda, de sorriso, de papo, de sexo, de ressonância, de parceria, de companhia, de música, falta de tudo. Tudo que vinha de você. Não se trata apenas de sentimento romântico… É falta física, concreta, que aos poucos vai se materializando e me deixando com essa sensação estranha de que, por mais que eu tente esconder, algo está muito errado… Algo deu muito errado.

Eu continuo levando a vida, e o tempo continua passando. Sabe que muita gente achou que eu estivesse grávida? Sonharam com isso, pensaram isso, tiveram premonições diversas com isso, e eu, de repente, até pensei que podia ser verdade algo assim acontecer. Lembrei de todas as vezes em que você me pediu isso, esse filho que você tanto falava, com quem você tanto sonhava – e  eu te perguntei por que a pressa. Acho que as pessoas queridas queriam muito isso porque, como eu, queriam que a vida desse algum troco, que não fosse possível que não ficasse nada assim, grandioso, de nós dois pra mim, pra elas. Mas não aconteceu. É isso mesmo… Você morreu e eu fiquei sozinha.

As pessoas são ótimas, muitas delas são. Mas tem também outras que são insuportáveis, e que eu já não suporto. Aprendi a me defender, sabe. Você ia gostar de ver esse meu jeito, meio revoltado, como você diria. Você puxava a minha orelha dizendo que eu não queria nunca desagradar ninguém, e que isso me consumia. Mas não ando fazendo questão, não. E confesso, essa é a parte mais difícil. Se eu tivesse dinheiro, certamente viajaria pra muito longe, onde ninguém me conhecesse, onde eu pudesse estar realmente só. Eu fugiria.

Penso nisso todo santo dia, em como eu poderia fugir. Não tenho vontade de trabalhar, mas me obrigo a ir. Não tenho vontade de atender o telefone, nem de ir arrumar o óculos, nem de resolver o monte de coisas sobre você que tenho pra resolver, nem de comparecer a festas de nenhum tipo, nem de comprar uma roupa nova, ou de sair de casa. Vontade nenhuma mesmo de nada. Mas me obrigo. Eu sou assim, dessas que fazem o que precisa ser feito. Foi nessas que um dia desses fui cortar o cabelo, que estava tão horrível, e pedi pra Ana virar a cadeira, pois não queria me ver no espelho.  Não tenho vontade disso também. Essa falta de vontade é mesmo depressiva, mas estou no meu direito. E quero ver quem prove que não. Eu não vou me matar, claro que não. Mas não ligaria muito se eu fosse logo, porque a vida é meio esse saco mesmo, essa coisa que a gente nunca tem sossego, e esse mundo é tão errado…  Isso só ameniza quando me distraio… Quando a minha fuga acontece, embora de maneira simbólica, quando finjo que nada aconteceu.

Nos últimos dias tenho pensado… Não posso mais fazer o que estou fazendo. Eu fico aqui nessa casa, nossa casa, fazendo as coisas, lavando, cozinhando, saindo para o trabalho, voltando, recebendo pessoas, pagando as contas, assistindo TV, lendo, estudando, colocando o carro na garagem ( e já estou fazendo isso muito bem ), escrevendo pra você… E é como se a qualquer momento você fosse voltar. Eu sei que parece insanidade, mas duvido que alguém passe por um luto difícil e inesperado sem enlouquecer um pouco. Mas chega uma hora em que é preciso olhar pra realidade: você não vai voltar. Não mesmo. Eu não sou mais casada, sou viúva. Não é mera questão de estado civil… É real. Tenho que tirar a aliança, colocar nossas lembranças em uma caixa e olhar pros espaços vazios assim, como eles são… Vazios.

Quando alguém me lembra do que aconteceu, eu fico com raiva, porque não queria lembrar, mesmo que não consiga esquecer, entende? As pessoas dizem tantas coisas de tantos jeitos, e quase nada me acrescenta algo, e são poucas as pessoas que querem realmente me ouvir, e não falar delas mesmas. Outras são fracas e ficam inconformadas por eu não reagir como elas, outras querem mandar no meu tempo interno, outras estranham quando eu dou risada de algo e, incrível – dessa vez, não foi como das outras vezes. Acho que nosso caso é tão chocante que ninguém quer falar dele de verdade comigo. Ficam cheio de dedos, falando baixinho às minhas costas, comentando sobre mim por aí, mas poucos tem coragem de olhar pra mim, perguntar o que tenho sentido e aguentar o tranco da resposta depois. Nem mesmo Deus parece querer se pronunciar, nem meu inconsciente me deixa lembrar dos meus sonhos. Por isso eu não me importo mais com tudo isso. Meu rosto e meu coração estão cheios de marcas, e quem quiser estar perto de mim vai ter que olhar pra minha dor… Infelizmente.

O que sobra é cada vez menos de você, porque é isso que o tempo faz, para o bem e para o mal – apaga rastros. Eu fico com medo disso, sabe. Medo de perder você de vez. De esquecer seu cheiro, de esquecer o som da sua voz bonita, de não lembrar de você sorrindo – só lembrar de você morrendo na minha frente. Aliás, eu acho tão triste que essa seja a imagem de você que venha à minha cabeça, aquilo que só eu vi… Seus olhos perdendo o brilho. Por isso ainda gosto de ver nosso álbum de casamento… Lá você está feliz.

Devo começar a pensar minha mudança desta casa. Não queria ir embora, mas preciso, porque pagar e viver nessa casa não era tarefa pra um… Era pra dois. Isso é o que mais me dói. Desfazer o cantinho da beleza que você montou pra mim, tirar o que colocamos na parede, embalar cada item da nossa cozinha maravilhosa, sair daqui, dessa casa linda que eu gosto tanto… Esse gosto de fracasso horrível que vai ser tudo isso. Fracasso, já dizia o Cazuza, essa palavra triste que tem nome de perfume barato. Vou ter que dar alguns passos pra trás, e isso me deixa tão triste… Tão triste, amor.

Dia desses vieram me dizer que alguém que viu você no outro mundo tinha baixado em algum lugar por aí e tinha me deixado uma mensagem, dizendo que você tinha dito que estava bem com sua mãezinha e com saudades, que eu não estava sozinha, e que você estaria comigo, e que eu ia continuar meu caminho de luz, e blá blá blá. Você sabe que não acredito nessas coisas, e tenho certeza que, se você me mandasse uma mensagem, começaria dizendo, você tem razão, Karina… Aqui tem coisas muito melhores pra se fazer do que ficar rondando o mundo dos vivos, pt, saudações e toca o barco… Era o que você diria. E assim me faria sorrir mais uma vez. Já que você foi, não quero mensagens suas… E talvez faça parte eu não escrever mais pra você também. Creio, de verdade, que o que vivemos foi tão fundo que já dissemos tudo. Aliás, veja você… Ao tentar me consolar da perda de alguém que eu amei e pra tentar me convencer que não era bom que eu ficasse estagnada no meu sofrimento, você me disse coisas que hoje me consolam por ter perdido você. Isso eu não tenho medo que a memória apague.

Não gostaria que a saudade me deixasse amarga e rabugenta como aquele velhinho do filme. E então, eu me lembrei do Gonzaguinha. Estranho gente que faz uma música que fala de saudade chamando-a de “feliz”. Mas é assim que é… Pelo menos “para quem bem viveu o amor”. E eu vivi… Nós vivemos. E só por isso eu sei que tudo isso vai passar… E eu vou chegar lá.

Amo você… Mas vou te deixar. Aos poucos, mas vou. Não me queira mal por isso… Que eu não vou querer mal você por ter desfeito o nosso trato de felizes para sempre.

“Para quem bem viveu o amor

Duas vidas que abrem não acabam com a luz
São pequenas estrelas que correm no céu
Trajetórias opostas sem jamais deixar de se olhar

É um carinho guardado no cofre de um coração que voou
É um afeto deixado nas veias de um coração que ficou
É a certeza da eterna presença da vida que foi na vida que vai
É a saudade da boa feliz, cantar

Que foi, foi, foi… Foi bom e pra sempre será
Mais, mais, mais maravilhosamente amar…”

UM PEDAÇO DE BOLO

Hoje eu passaria na Sodiê e compraria um pedaço de bolo pra gente comemorar. Mês passado você me disse que compraria um bolo bem casado, cheio de doce de leite, porque o nosso casamento era muito doce, e a gente tinha casado bem, mesmo. Eu concordei com você. E a gente passaria a tarde toda namorando, falando bobagem, dando risada e cochilando, na maior preguiça. E eu diria pra você, puxa, o nosso casamento é tão novinho, mas parece que faz tanto tempo… 3 meses que valeram 3 décadas. Tenho certeza que você concordaria comigo.

Ou talvez hoje você teria estado comigo e com a minha família, ou teríamos estado com a sua, ou quem sabe a gente faria um almoço bacana aqui em casa chamando as duas famílias e alguns amigos, pra esse povo partilhar da nossa felicidade. E eu ficaria cansada e você feliz e radiante como andava ultimamente, e a gente se sentiria daquele jeito realizado, e você daria risada com as minhas atrapalhações, e com o meu bico pra esse horário de verão que eu odeio.

Hoje você deixaria um bilhete na porta da geladeira, aqueles bilhetes com aqueles apelidos carinhosos que você vivia deixando espalhados pra mim por aí, seus bilhetes legais e apaixonados. E eu pegaria o bilhete e pensaria, puxa, não acredito que isso está acontecendo… É bom demais pra ser verdade. Acho que era mesmo.

Hoje a gente sonharia um pouco mais, como andávamos fazendo, com o nosso filho ou nossa filha, com a nossa casa, e talvez a gente tivesse se inscrito em um cursinho bacana de iniciação literária, ou você já tivesse começado a faculdade… Aquela que nem deu tempo de você saber que passou. A gente gostava de sonhar. E eu gostava do seu jeito, tão confiante, dizendo que ia dar certo, e ia sim, e pronto, já tinha dado certo. Eu gostava de você resolvendo todas as minhas angústias com um beijo, um agarrão,  e uma apertada no nariz.

Talvez a gente já tivesse brigado alguma vez, talvez outra coisa ruim tivesse acontecido, talvez uma coisa muito legal tivesse acontecido, mas de um jeito ou de outro, a gente estaria junto.

Eu levo a vida, sim, você sabe que eu levo… Se tem uma coisa que eu sou é uma pessoa que dá conta do recado, o que de maneira nenhuma é uma vantagem, mas é assim que é. E se a vida decidiu que eu tinha que continuar aqui, viva e sozinha, então é assim que vai ser. Aprendi que “não discuto com o destino, o que pintar, eu assino”, e acabou. Eu vou continuar trabalhando, estudando, cuidando das pessoas, convivendo, sorrindo o dia, chorando a noite… E o resto vai passar. “Tristeza não tem fim, felicidade sim.” Eu deveria ter ouvido o poeta.

Eu teria muito pra falar, mas ultimamente tudo que eu quero é solidão e silêncio. Só. Não me interessam o telefone, nem os lugares para passear, nem as notícias cada vez mais absurdas, nem as providências, nem os planos, nem as lembranças. Por gratidão, tento corresponder ao carinho das pessoas que se importam… E espero. Espero a vida dar sua volta mais uma vez.

Hoje, na verdade, eu não comprei um pedaço de bolo. Porque, meu bem, a vida não tem mais aquele gostinho doce que você deixava em mim. Não era o bolo que era tão bom… Mas era comê-lo com você que fazia sentido.

Sim, estou apática, raivosa, desesperançosa e descrente. Mas mesmo isso acaba. É só esperar.

“O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou
O que foi feito da vida, o que foi feito do amor?
Quisera encontrar aquele verso menino que escrevi há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade, falo assim por saber
Se muito vale o já feito, mais vale o que será
E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir
Falo assim sem tristeza, falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer
Outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz…”

MAIS NOTÍCIAS DE MIM

São Paulo, 06 de outubro de 2013

Olá, meu bem.

Continuo com saudades. Continuo morrendo de vontade de falar com você… De deixar você saber de mim.

O tempo me parece mais estranho que nunca. Tem horas que parece que um século se passou, desde que você morreu. Tem horas que tudo parece tão absurdo como se fosse ontem, e dói absurdamente. O tempo cronos passa sem parar, do mesmo jeito, e isso vai ajudar. Isso eu eu sei. Mas o tempo de dentro está em espiral, dando voltas e mais voltas, me deixando perdida… Isso eu sinto. E o pior, você não está aqui pra me explicar as coisas, do jeito que sempre fez.

Foi uma semana longa, mas passou. Segunda, peguei sua certidão de óbito e fiquei pensando no que aquele papel se parece com você, com quem você era. Quem me atendeu foi o mesmo moço que pegou os papéis do nosso casamento, tão pouco tempo antes. Ele se lembrou de nós, disse que reparou em como estávamos felizes naquele dia, que chamou a atenção dele o nosso jeito. Também ficou triste por nós, ficou com pena de mim. E quando as pessoas me olham do jeito como ele me olhou, eu fico pensando que não estaria louca se subisse agora para a nossa cama e não quisesse levantar de lá nunca mais. Fui também ao seu trabalho, avisar sobre tudo, e são tantos papéis… Papéis que de modo algum preenchem o que você foi. Coisa estranha, ser sua viúva. Viúva, na raiz latina da palavra – alguém que está vazia.

A casa está vazia, cada vez mais. Sinto que ela, que era do nosso jeito, nosso tamanho, a cada dia fica grande demais pra mim. Não sei o que fazer. Algumas pessoas esperavam que eu estivesse prostrada, chorando, acabada. Outras esperavam que eu já tivesse tomado algumas decisões importantes. Não sei quem tem razão, mas nem ligo. Só eu sei o que vai dentro de mim… E no mais, espero o tempo passar pra resolver o que não tem jeito.

Terça, voltei ao trabalho. Foi um esforço sobre-humano, mas eu fui. Lá recebi muito carinho, como tenho recebido de tanta gente, durante toda a semana. As crianças me encheram de abraços, beijos e perguntas; as amigas, que casaram comigo, também se mostram enlutadas, se esforçando pra sorrir e me animar. Foi bom ter voltado, você sabe o quanto amo estar ali e o quanto amo o que faço… Mas faltou você, no final do dia, me esperando pra falarmos… Pra você rir dos meus comentários, e pra dormir comigo. Talvez, pela sua falta, eu quase não tenha dormido esses dias… Mas tem uma hora que o cansaço do corpo vence o protesto do coração, e eu desmaio… Pra acordar assustada, pensando se tudo isso está sendo um sonho, e se vou acordar uma hora dessas e perceber que você está ali.

Voltei também pras coisas da faculdade, mesmo tendo enorme dificuldade de me concentrar. Não queria falar de sociologia da infância, de ensino tradicional, de ferramentas de observação… Só tem duas coisas que eu quero – ficar em silêncio, ou falar de você. As pessoas não me entendem, nenhuma delas, mas não as culpo… Ninguém que eu conheço passou por algo assim. Por isso fiquei tão feliz quando chegou o livro do C. S. Lewis sobre o luto. Estou lendo, e isso me dá um enorme alento. É importante a gente saber que tem alguém, no mundo, que entende o que você está passando, mas nem tem coragem de confessar.

O chuveiro continua pingando, e parece que agora a torneira está pingando também. O Felipe fez aniversário. A Deby e o Guilherme só tiraram 10 na escola. Falo com sua tia quase todos os dias. Paguei o aluguel.  Limpei a máquina de lavar, e o Rodrigo consertou a porta do armário da cozinha. Meu cabelo está caindo assustadoramente. O Levy vai mesmo fazer negócio, e a minha mãe está sendo a melhor mãe do mundo. Fiz a feirinha da semana no japonês. Ontem saí e fiquei um pouco com as meninas, que cuidam de mim como irmãs, como madrinhas que são.  As crianças vieram aqui hoje, encheram a casa de barulho e alegria, foi legal… E eu coloquei seu prato na mesa sem querer. A Letícia me pergunta toda hora se estou sentindo saudade – acho que ela faz o que os outros não tem coragem, olha pra mim e vê a sua falta no meu rosto. A geladeira ficou vazia, só com água, tomate e manteiga.

Falar em esvaziar, ontem tive coragem e comecei a mexer nas suas coisas. Foi tanta dor que não posso explicar. Chamei a Marisa Monte pra me fazer companhia, com seu cor de rosa e carvão. A sua imagem está aos poucos ficando embaçada na minha mente. O seu cheiro está sumindo dos cantos da casa. As suas comidas estragaram, suas últimas roupas já foram lavadas, o seu travesseiro já desamassou. Como a existência humana é mesmo efêmera, e se eu não tivesse um pouco de fé de que há sentido em tudo isso, eu não me importaria em morrer agora mesmo. As suas coisas estão indo embora. Fiquei com algumas. A camisa roxa, a gravata do casamento, o perfume que você tanto gostava, os seus livros do Guimarães, o seu cd do Bob Marley. Vai ser difícil arrancar você da minha vida, não por causa dos objetos, das roupas, das coisas. Mas por causa das lembranças, por causa de tudo que você mudou em mim.. Espero ter sabedoria para fazer o melhor com tudo aquilo. Espero ter paciência para lidar melhor com tudo isso.

As pessoas se espantam com a minha força, com esse meu jeito de continuar, e continuar, e continuar, e tampar o nariz, e ir em frente, e segurar as pontas dos outros ( e quanto mais preciso de cuidado, mais aparece gente pra eu cuidar ), e dormir sozinha aqui, e ser assim. Eu não gosto de ser assim, eu queria ser um pouco mais frágil e me permitir desmontar. Faço isso aos poucos, em escapes. Mas talvez -e só talvez – isso seja uma dádiva. Eu não aguentaria sentir todo o impacto da destruição dos nossos sonhos de uma vez. A dor é de quem tem.

Torça por mim… Continuo amando você. Muito.

“É meu troféu, é o que restou,
É o que me aquece sem me dar calor
Se eu não tenho o meu amor,
Eu tenho a minha dor.

A sala, o quarto, a casa está vazia,
A cozinha, o corredor
Se nos meus braços ela não se aninha,
A dor é minha, a dor…”

 

 

NOTÍCIAS DE MIM

São Paulo, 30 de setembro de 2013

Bom dia, M. …

Acordei nessa cama enorme com dor de cabeça, ouvindo o barulho da chuva. Foi uma noite longa. O sono veio no fim da madrugada. E quase no fim da manhã acordei, ouvindo o dia chuvoso, um dia perfeito pra começar algo que vá para dentro, e não para fora. Chegou a hora de começarmos uma conversa que vai ser longa… Na verdade, a saudade de você vai ser uma estrada longa. Achei que você gostaria de saber notícias de mim.

Sei que você não pode ouvir, ver, sentir nada agora. De acordo com o que acredito ( e sei que minha verdade não é a única ), você está dormindo, repousando nos braços do Pai, curado, tranquilo. Mesmo assim, escrevo agora a você, esse você abstrato. E não me angustio por esta carta ser uma carta sem resposta, porque a resposta virá. Pra você, as perguntas não fazem mais sentido. E pra mim… A mim só resta aguardar o tempo fazer seu implacável trabalho.

O Mafalda Crescida é o meu inventário emocional, um incrível filme do meu desenvolvimento como pessoa. Há 10 anos registro aqui parte das coisas que sinto sobre a vida, sobre as pessoas, sobre mim, devaneios e fatos. Estava registrando, inclusive, partes da imensidão de sentimentos que foi ter me casado com você e começarmos uma vida juntos. Acordei me lembrando de você, sentindo uma enorme necessidade de te contar coisas… E depois me lembrei do blog.

Você morreu, eu fiquei. Quantas vezes conversamos sobre escrever, você, que também era bom com as letras. Você dizia, escrever comunica ideias. Eu dizia, escrever dá descanso aos sentimentos. Pra você, era de dentro pra fora. Pra mim, era de dentro, pra fora, e depois pra dentro de novo. Senti necessidade de escrever pra você. Escrever por você. Escrever você. É um jeito de manter você, esse você que até poucos dias atrás era tão presente e concreto, vivo e perto de mim.

Muita gente tem pena de mim. Pobre moça, casou-se apenas dois meses atrás, e já ficou viúva. Justo ela, que já tinha também perdido um noivo de repente, e ficou viúva antes de casar. Pobre mulher, teve que ver seu marido morrer em seus braços, sem nada poder fazer, e agora, como vai ser? Pobre ser humano, não tem sorte no amor, ama, se entrega, e depois perde, fica sozinha. É verdade, é de dar pena. Parece injusto. Parece triste demais. E é.

E nesses dias, eu senti de tudo. Em alguns momentos, eu também tive dó de mim. Tive raiva de você, raiva de Deus. Tive medo do que vai vir.  Senti uma pedra no meu peito. Senti desespero. Senti uma tristeza milenar dentro de mim, uma tristeza de todas as pessoas que sentiram essa perda um dia. Tive dúvidas racionais e sentimentos irracionais. Mas tudo isso passa quando me lembro de você.

Você… Ai, você. As pessoas falam sobre você. Calado, meio marrudo, um irmão amigo, um sobrinho cuidadoso e querido, um filho amado, um amigo brincalhão, um cara inteligente, um companheiro ponta firme, um coração frágil, uma pessoa interessante, um moço sofrido, uma incógnita.

Cada um sente sua falta de um jeito, mas eu sinto falta de você todo. Sinto falta do meu amigo, aquele que prestava atenção em tudo que eu dizia e me fazia enxergar as coisas do cotidiano de um outro jeito, via televisão junto, saia comigo pra passear de carro, que se divertia comigo, que comia junto. Sinto falta da sua tagarelice noturna, quando eu queria ficar quieta e você queria conversar sem parar. Sinto falta dos seus melindres de bebê grandão. Sinto falta de você me fazendo rir quase que todo o tempo, imitando meus bicos, imitando meu mimimi. Sinto falta do meu parente, que estava comigo no seio da minha família, observando as crianças crescerem, que deu pra mim também novos irmãos, uma sobrinha linda, uma tia. Sinto falta do meu marido, me olhando dormir de noite, me achando linda o tempo inteiro, me elogiando sem parar, convivendo comigo numa leveza que quase me tirava do chão de tão perfeita e harmoniosa, penteando meu cabelo, me ajudando a escolher a roupa, cuidando de mim. Sinto falta do meu homem me fazendo sentir a mulher mais satisfeita do mundo, e nisso éramos tão bons juntos. Sinto falta do meu companheiro, resolvendo os pepinos da casa, combinando o cardápio da janta, me ajudando a pagar as contas, carregando as sacolas do mercado, lavando a roupa, me ajudando a colocar o carro na garagem. Sinto falta do meu irmão, com quem eu queria fazer todos os projetos, que olhava pra vida com a mesma sede, a mesma revolta, o mesmo jeito de ver o mundo, que orava comigo, que dividia comigo uma visão de vida e de mundo, que acreditava nas mesmas causas e tinha orgulho de mim. Você, e toda sua gentileza, sua delicadeza, sua força, seu bom humor, sua fé, sua inteligência… “Sua vida, meu caminho, nosso amor.”

Foi uma semana bem longa, desde que enterramos você no cemitério em que estavam os corpos do seu pai, que morreu com a mesma idade que você… Da sua mãe adorada, de quem você sentia tanta falta e sempre lembrava. Uma semana intensa, confusa, doloridíssima. Gostaria de fazer como C.S.Lewis, que descreveu com precisão cirúrgica as emoções do luto, mas não tenho essa habilidade. Posso dizer que foi uma semana suspensa… Como se o tempo tivesse parado, em choque. Um minuto de silêncio que durou uma semana. E agora eu tenho que recomeçar. Porque a vida aqui não pára e nem dá o tempo pra gente ir fundo nos sentimentos. Talvez seja melhor assim.

Não quis sair muito da nossa casa. Aqui tem ainda o seu cheiro, aqui me lembro perfeitamente do som da sua voz, aqui na nossa cama ainda sinto seu abraço… Aqui estão suas coisas, nossas coisas, esse sonho que foi o nosso lar construído com amor e alegria em cada pedacinho, em cada prateleira, em cada roupa no varal e no guarda-roupa, em cada coisa misturada, em cada receita anotada no caderninho, em cada detalhe. Outro dia fiz o bolo de banana que você adorava, só pra espalhar aquele cheiro pela casa e lembrar de você assim, fisicamente, sensorialmente… Sinto tanto sua falta, amor. As pessoas se preocupam por eu estar sozinha aqui, mas na verdade, não estou sozinha. Estou acompanhada da nossa história, essa história tão linda que nós fizemos, e que agora está me sustentando. Essa história que permite que eu fique profundamente triste sem me desesperar, que me traz essa paz enorme. Só eu e você podemos saber o tamanho e o significado da nossa história.

Tenho me surpreendido com essa força que eu tenho em mim. Não sei de onde vem essa força, amor. De mim não pode ser. Vem de Deus, vem das pessoas, vem da experiência de uma vida sofrida, vem de tudo que eu aprendi, vem das perdas superadas de antes, vem da fé, vem de tudo isso junto. Você diria que vem de mim, como disse tantas vezes, você tantas vezes me dizia que eu não era uma pessoa como as outras, e que eu era forte, que eu era capaz, que eu via as coisas de um jeito diferente, e você me via diferente. E como eu disse pra você naquela manhã daquele domingo de primavera, aquele em que você se foi, e a gente ainda nem imaginava o que ia acontecer dali a poucas horas… Quando você me perguntou, brincando, se no seu velório eu me jogaria no caixão com você e pediria pra ir junto, eu te disse, bem firme, não, eu não vou morrer, eu vou continuar. Você, brincando com a morte, sorrindo, me fez prometer que eu ia continuar, que ia acabar a faculdade, que ia escrever sobre meu trabalho, que ia cuidar da nossa casa, que ia fazer uma coisa que ninguém imaginava que eu faria, que ia seguir. E eu estou seguindo. Sozinha, sim, que essa solidão é tão funda, é de ser humano, e toda companhia é apenas uma ilusão que a gente inventa pra domar essa dor de ser só… E com você, foi quando essa dor ficou tão pequena que quase sumiu.

Sigo também na presença de quem gosta de mim. Falando em pessoas, elas estão aqui perto. Minha família, sua família, meus amigos, nossos amigos. Todos preocupados comigo, sofrendo comigo, dividindo comigo essa dor, de joelhos dobrados por mim. Foram tantas lágrimas repartidas, eu me surpreendi com tanto carinho das pessoas. Ninguém substitui você. Mas estou bem guardada. E está ajudando, sabe. Eu sinto um conforto que só pode vir do céu, do amor dos outros… Não poderia vir de mim. Ontem estive na casa da sua irmã, da sua tia. Foi um momento tão lindo, nós ali, de mãos dadas, cuidando um do outro, chorando juntos, nos abraçando, nos dando força. Tudo isso por causa de você, meu bem. Ontem estive também na igreja. Senti tanto sua falta lá, comigo. Fui deixar meu coração partido aos pés da cruz, pedir pra Jesus cuidar dele, pedir pra Emanuel vir comigo nesta semana, que vou voltar ao trabalho, estabelecer uma nova rotina, resolver coisas. Creio muito que Ele veio… Que na verdade, Ele nunca saiu. 

Olhando as fotos do nosso casamento, eu vejo tanta felicidade, tanta alegria. Eu vejo em mim e em você duas pessoas curadas das amarguras da vida. Vejo um casal apaixonado, esperançoso, abençoado. Vejo uma família se formando, vejo um monte de gente feliz – adultos, jovens, idosos, crianças, casais… Vejo flores, comida boa, música suave, amigos, um dia lindo de sol, uma promessa sendo cumprida. Por isso gosto de olhar, não me causa sofrimento, ao contrário, revive em mim toda a grandeza daquele dia, renova em mim a certeza de que, embora o tempo do relógio pareça pouco, nós fomos felizes eternamente… Renova em mim a certeza de que fizemos tudo certinho, como tinha que ser.

Você me libertou. Me libertou do medo de crescer. Me libertou das dores de amores passados. Me libertou das esquisitices de mim mesma. Me arrependo de coisas, claro que sim. Talvez eu devesse ter parado de tomar o remédio e tentar engravidar desde o primeiro dia, como você queria. Talvez eu não devesse ter enrolado tanto pra casar. Talvez a gente pudesse ter feito diferente. Mas isso é pequeno perto da certeza de que foi como tinha que ser.

O que vem pela frente, eu já sei como é. A saudade… Primeiro, dolorida. Depois, suave. Tentarei ter paciência. Tentarei continuar sendo quem eu sou. Tentarei cuidar de mim e aceitar o cuidado dos outros… Mas tem uma coisa que eu não preciso me esforçar pra fazer… Não pretendo me esquecer de você.

Boa noite, M…

Amo você.

 

ESCRITOS DE CASAMENTO – VI – A LINHA E O LINHO

Dois meses que somos dois… E não mais um só.

Ao contrário do que as pessoas dizem e interpretam, casar-se não é tornar-se um, mas deixar de ser um só… Pra ser um que gosta de estar em dois.

As pessoas também dizem muitas coisas sobre casar. Uns dizem que vai ser difícil, que são muitas brigas; outros dizem que o começo é uma eterna lua de mel; outros dizem que dá vontade de voltar pra casa da mãe; outros dizem que a gente se arrepende; outros que a gente pensa por que não fez isso antes; outros que é difícil acertar o passo. Uns dizem que intimidade é uma maravilha, outros que é uma porcaria e acaba com o sentimento. Na verdade, dizem tantas coisas… E estou percebendo que é uma bobagem tentar ouvir os outros. Porque o caminho de dois juntos é um caminho só… Que só eles podem dizer como é e como se faz. Depende de cada dois fazer esse caminho que é um só… E só deles.

Daqui do meu cantinho, tão aconchegante e sereno, posso dizer que o casamento tem me mostrado lados do amor que eu não conhecia. Lidar com coisas como intimidade e perdão, dividir de verdade, deixar pra lá, fazer questão das coisas que realmente importam, reformular velhos hábitos, se perguntar o porquê de tudo, rir de si mesmo, domar os próprios impulsos, curtir o prazer das coisas simples, curtir o prazer enorme que é fazer alguém feliz, e por isso, ser feliz também… É uma experiência única, e que agradeço por estar vivendo assim, nesse momento,com essa maturidade, com essa alegria, com essa calma… Com essa vontade… E principalmente com essa pessoa… Tão enorme, e querida, e fascinante, e surpreendente, e disposta pessoa.

No dia do nosso casamento tocou uma música linda linda, que para mim, é exatamente o que é o casamento: a linha e o linho… Bordados dia a dia, passo a passo, pouco a pouco… De coração aberto, vida disponível, sonho galopante e realidade presente. Porque, ao contrário do que dizem, o amor não vem pronto, nem inteiro. Ele é assim, bordado… Ponto a ponto. Mesmo que as linhas se confundam, o desenho vai se formando… E começamos sem saber que desenho vai aparecer, mas certos que é o movimento lento, carinhoso e generoso que faz o amor ser vistoso.

E falando em presente, pensei em algo que marcasse essa data como mais um dia feliz, mas um dia especial. Saí caçando pela casa coisas que mostrassem que aqui somos dois trilhando o mesmo caminho… Dividindo cama, comida, vida. E percebi que a coisa mais legal é essa… Dar-se de presente… Ser presente… Estar presente… Receber o presente que é o outro assim, como ele é. Assim se faz o bordado da vida.

Canta, Gil! 🙂

É a sua vida que eu quero bordar na minha…

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Como se eu fosse o linho e você fosse a linha…CAM00154

E a agulha do real nas mãos da fantasia…CAM00150

Fosse bordando ponto a ponto nosso dia a dia…CAM00143

E fosse aparecendo aos poucos nosso amor…CAM00153

Os nossos sentimentos loucos, nosso amor…CAM00147

O zig-zag do tormento, as cores da alegria… A curva generosa da compreensão…CAM00156

Formando a pétala da rosa da paixão…SAMSUNG CAMERA PICTURESA sua vida, o meu caminho… Nosso amor…CAM00155Você a linha, eu o linho… Nosso amor…SAMSUNG CAMERA PICTURESNossa colcha de cama…

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Nossa toalha de mesa… Reproduzidos no bordado, a casa, a estrada, a correnteza, o sol, a ave, a árvore…SAMSUNG CAMERA PICTURES

O ninho da beleza… CAM00138