ESCRITOS DE CASAMENTO V – PRESENTES

Quando você casa, te dão muitos presentes. Muitos mesmo. Muito mais do que a gente ganharia em muitos aniversários. Eu fiquei impressionada. E muito feliz.

Não é fácil começar uma vida. O custo de se montar uma casa e fazer uma pequena e simplória festa é alto, e as pessoas ajudam porque comemoram com você essa nova etapa. Eu já dei muitos presentes de casamento. Muitos dei com sacrifício, outros nem tanto, mas sempre dei com prazer. Porém, só percebi a importância deles quando fui eu a casar. São muitos mimos vindos dos familiares e amigos – amigos de todo canto, de toda época da vida, de todo jeito e intensidade. Alguns presentes são úteis, outros são bonitos, outros são interessantes. Uns são exclusivíssimos, outros formais, outros elegantes. Mas todos fazem a gente se animar a começar a vida, e marcam a presença das pessoas em cada cantinho da casa, da vida.

Cafeteira, amassador de alho, escova de banheiro, televisão, ventilador, lençol de cama, conjunto de ferramentas, pano de prato,  batedeira, micro-ondas, cesto de roupa, talheres, pratos, copos, fogão, geladeira, tapete, mangueira, máquinas e eletrodomésticos maravilhosos, jogo disso, jogo daquilo, porta-isso, porta-aquilo, aquela quantia em dinheiro que vem na hora em que você mais precisa… Todas essas coisas têm preço, embora o valor delas a gente só consiga perceber mesmo no dia-a-dia.

Coisas têm, sim, preço. Mas as coisas, com o tempo, somem. Infelizmente é verdade. As coisas são assim. Elas se desgastam, quebram, pifam, rasgam, ficam manchadas, queimam, encardem, ficam obsoletas. E em algum tempo, precisam ser trocadas. Com as coisas que nos foram dadas, creio que não será diferente.

Porém tem algo que vem junto com as coisas, que ganhamos de monte por essa ocasião do casamento. Algo belíssimo, que o tempo não é capaz de apagar, que ninguém é capaz de botar preço, que encheu nosso coração de alegria e fez a gente entender bem o significado profundo da palavra benção. Junto com as coisas, nós ganhamos muitos gestos… Gestos de amor, de carinho, de amizade, de simpatia, de nobreza de espírito, de alegria, de atitude, de benção. E esses foram os verdadeiros presentes.

Todas as coisas são legais, mas nunca vamos esquecer de todo o tempo que nos dedicaram os familiares que viveram em função desse casamento junto com a gente nesses meses. Não dá pra esquecer os irmãos que furaram parede, foram com a gente alugar casa, fiaram, fizeram bolo e docinhos, carregaram coisas pra lá e pra cá, conversaram, deram força, embrulharam lembrancinhas e convites, cuidaram pra que tudo saísse perfeito. Não dá pra esquecer as cunhadas que foram pra cozinha, organizaram materiais, dedicaram tempo de descanso, foram na 25 e março, grampearam e separaram papéis, emprestaram seus filhos pra serem pajens e daminhas, gastaram dinheiro com cabeleireiro e aluguel de vestido, arrumaram bibliotecas e armários de cozinha, e ainda por cima, deram toda força o tempo todo pra que a gente visse o lado lindo de tudo. Gestos pequenos ou grandes que nunca vamos esquecer.

Assim como também não esqueceremos da amiga fotógrafa que saiu lá de Ilhéus só para acompanhar a noiva, acalmá-la, e registrar em fotos belíssimas e cheias de emoção esse dia tão importante. Nem dá pra esquecer nenhuma das madrinhas que toparam o desafio de entrarem sozinhas na cerimônia só porque era importante pra nós. As mesmas madrinhas que agiram como irmãs ao aconselhar, dar força, cuidar do bolo, da cerimônia, ajudar a planejar os detalhes. Nós vimos todos esses gestos. Vimos também quem viajou de Brasília, do Rio de Janeiro, de Minas, da Bahia, e de outras cidades do estado e veio sem piscar só pra nos dar um abraço. Vimos também quem não pode vir, mas mandou tanto carinho em correspondências, toalhas bordadas em cores especiais que chegaram pelo correio e que encheram meus olhos de água e nosso banheiro de beleza. Vimos também quem não pode vir, mas queria tanto ter vindo, tanto que o carinho chegou aqui. E sentimos quem esteve de joelho no chão, orando por nós, pedindo todas essas bençãos que vieram.

Também nos tocou a listinha do bolo de noivos em que todo mundo no trabalho colaborou. A gráfica, que fez os convites e lembrancinhas mais lindos que já existiram – esses que foram bolados junto com outra amiga, tão querida, que fez também o livro de assinaturas onde escreveram coisas maravilhosas. E falando em tocar, que maravilha foi a música do nosso casamento, perfeita. Vimos todas as noites em que aqueles amigos saíram para ensaiar depois de um dia de trabalho e largaram em casa os filhos pequenos, com a compreensão dos companheiros e companheiras, tudo pra que o som tocasse em nosso coração para sempre. Ouvimos também um som alto e nítido, só por causa do amigo que veio ajudar a montar a aparelhagem. Assim como ouvimos, e muito, os gestos que foram ditos – as palavras da amiga que me fez sentir a mulher mais especial do mundo no chá de panela; o sermão do pastor, tão inteligente e emocionante; cada sussurro em cada abraço; cada conselho em cada roda de amigos; cada dica animada de quem gosta de criar e fazer festa; cada explosão de felicidade. Deu pra registrar também as conversas de quem segurou as pontas afetivamente, conversando, telefonando, visitando, mandando email, conversando pelo msn, avisando que tudo ia dar certo e ajudando a seguir em frente.

Teve também os gestos pesados. Aqueles, que alguém precisa fazer,e fez. Quem carregou peso, limpou casa, lavou louça, limpou chão, montou decoração com flores, montou mesa, fez sopa, fez torta, mexeu tacho de doce, descascou mandioca, ficou com calo na mão de tanto cortar e enrolar e lavar, empurrou mesa e cadeira, empilhou, entortou,  levou, dirigiu, mexeu, trocou. Cada gesto desse nos poupou e fez nossa vida melhor.

Vimos também os gestos de beleza. As flores, os enfeites, os arranjos de cabelo, as mesas bem montadas, a louça bem lavadinha, o cheiro bom que tinha no ar. Os bordados especiais.

Teve tanto carinho em cada serviço… Vi sorrisos amigos na cozinha, na padaria, na lojinha de xerox, na gráfica, na costureira, no alfaiate, no salão. Em todo lugar tinha gente torcendo por nós.

Tem também os gestos chatos e complicados, mas imprescindíveis. Vimos a prima que resolveu pepinos no dia do casório, a amiga que organizou a cerimônia, quem esperou entrega que não veio, quem saiu correndo pra buscar gelo porque tinha acabado, quem desembolsou grana de última hora e não quis receber de volta, a tia e o tio que ficaram disponíveis pra chata tarefa de esperar entregas, e também foram ao cartório conosco, e também as muitas cabeleireiras que tiveram que trabalhar bem mais cedo naquele sábado, assim como quem saiu lá de São Roque bem cedo pra chegar na hora, e também veio pro chá de panela com tanta alegria e simpatia. E o que dizer de quem perdeu aniversário de neta, jogo de filho, o próprio aniversário, outros casamentos e batizados, só pra estar conosco?

Vimos os gestos de sacrifício. De quem gastou até o que não tinha. De quem veio mesmo sem poder vir. De quem ajudou mesmo sem concordar. De quem brigou pela gente. De quem estava com o coração apertado pelas despedidas, mas sorriu e apoiou. De quem passou por cima de convicções religiosas e pessoais pra nos prestigiar. De quem, mesmo esgotado de cansaço, se doou mais um pouco. De quem veio doente, grávida de barrigão, de gesso, de bengala, de quem dispôs  a si mesmo, sem ter tempo ou dinheiro pra dispor.

Vimos os gestos amorosos da mãe e da tia, que se doaram inteiramente pra nós e conseguiram passar no difícil teste de entender toda essa situação como um ganho… E não uma perda.

Vimos também o enorme presente que foi o dia lindo, o sol, o vento suave, as flores abertas, cada folha cuidadosamente derrubada para formar aquela paisagem belíssima que serviu de fundo pro nosso dia. E antes disso, vimos os pequenos e grandes arranjos que o nosso Pai maior, o Pai do Céu, aquele que tudo pode, fez para garantir que, de fato, nada nos faltasse, e que deitássemos em verdes pastos, bebêssemos de águas tranquilas e tivéssemos a alma refrigerada. A Ele, também teremos sempre que agradecer.

Claro, tem gestos que a gente pode não ter percebido, mas que de alguma forma chegaram a nós. Assim como outros tantos que não dá pra descrever a importância. O fato é que todos esses gestos foram presentes caríssimos que nunca esqueceremos. E que, certamente, nos ajudaram e ajudarão por muito tempo a sermos presente na vida um do outro.

Com o coração grato, só nos resta retribuir no limite das nossas forças… E na infinitude do nosso amor. 🙂

ESCRITOS DE CASAMENTO IV – OS VOTOS

Tenho pensado muito se pessoas imperfeitas podem fazer promessas. Que direito temos, em nossa tão limitada humanidade, diante de tantas variáveis do tempo, diante daqueles 50% que não dependem de nós, diante de tanta coisa que pode mudar, de prometer alguma coisa a alguém? Como posso prometer amar alguém para sempre?

Mas, como aprendi nesse tempo de preparação para o casamento, não é o amor que sustenta uma aliança… E sim o compromisso que fazemos que sustenta o amor. Amar é uma decisão renovada todos os dias, em nossa disposição de fazer o outro feliz… Em nossa fé… Em nossa abertura para renúncia, sem deixar nossa dignidade pra trás… Em nosso eterno aprendizado de entregar-se e salvar-se ao mesmo tempo… Em nossa consciência de que sempre haverá outras tantas possibilidades, mas estarmos juntos foi a nossa escolha.

Os votos são os mesmos para todos… Amar, respeitar e ser fiel – na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, até que a morte nos separe. Hoje, em meu coração, esses são os meus desejos mais profundos.

Mas tem um monte de outros votos que gostaria de fazer… Que mais do que compromissos, são intenções… Desejos.

Que tenhamos prazer em comer juntos, em cozinhar juntos. Que cada panela, cada prato, e cada copo esteja sempre cheio de saúde e carinho, e que não falte um tempero diferente, mesmo no arrozfeijão do dia a dia.

Que nossa cama seja boa para dormir depois de termos cansado bastante nos enroscando. Que nunca nos sintamos obrigados a fazer sexo, que ele nunca seja para cumprir protocolos ou funções, e sim por fome, por desejo, por loucura. Que sejamos criativos. E que nunca usemos o sexo para manipular um ao outro, e sim para brincarmos, seduzirmos, renovarmos no corpo a paixão que está na alma.

Que nunca percamos esse gosto maravilhoso pelas coisas simples. Que continuemos gostando do papo, dos livros, das palavras, da música, e de tudo aquilo que nos alimenta e nos afina. Que tenhamos olhos para enxergar a beleza do cotidiano.

Que saibamos deixar da porta pra fora qualquer tipo de influência ruim. Que saibamos identificar aqueles que nos querem bem e diferenciá-los de quem finge querer bem. Que o nosso futuro a ser construído não nos deixe lembrar do passado, mas se mesmo assim lembrarmos, que seja para comemorar o que hoje é tão diferente de antes, e tão bom, e tão perfeito.

Que não anulemos um ao outro com manias, com falta de comunicação, com imposições. Que seguremos o ímpeto de brigar por bobagens, que saibamos defender as questões que realmente importam. Que deixemos pra lá o que não vai fazer diferença em pouco tempo. Que não usemos um ao outro como lata de lixo. Que tenhamos cautela, cuidado com as palavras. Que não deixemos que a intimidade acabe com o encanto. Que não usemos o que descobrirmos um do outro como armas na hora da raiva.

Que as ilusões sejam docemente vencidas pela realidade… Que possamos ver um ao outro como somos, e não como gostaríamos que fosse.

Que não percamos essa mania deliciosa de conversar, e que também saibamos respeitar os momentos de silêncio um do outro. Que nossa casa tenha sempre espaço para ficarmos juntos… E também para ficarmos sozinhos, se precisarmos.
Que nossa despensa esteja sempre cheia, pelo fruto do nosso trabalho. Que possamos dividir as contas, o trabalho da casa, os aborrecimentos, e os problemas com o mesmo entusiasmo com que dividimos os sucessos e alegrias. Que não nos falte a calma para lidar com os momentos ruins um do outro. Que os valores que nos guiam estejam sempre claros e fortes.

Que saibamos rir muito. Rir um do outro. Rir um com o outro. Rir do feijão queimado, da roupa manchada, do prato que quebrou, da coisa que ficou fora do lugar, da mania esquisita, do escorregão. E que isso tudo só nos deixe ainda mais apaixonados.

Que nossa mesa esteja sempre cheia de amigos. Amigos, muitos amigos. Amigos da família, do trabalho, da igreja, dos estudos, da rua, da infância, da juventude, os que já estão, os que voltarem, e os que vierem. Que eles gostem de vir nos ver… E que possamos recebê-los com alegria e fartura.

Que Deus esteja sempre presente em nosso lar. Para nos ensinar o que não sabemos, para multiplicar os pães e os peixes, para consolar, para nos mostrar o que está escondido, para proteger os nossos bens e as nossas vidas.

Que saibamos manter nossos segredos. E que o amor seja repleto em gestos e palavras… Por vontade, e por esforço.

E vamos lá, que a vida é linda… Por causa do amor.

 

ESCRITOS DE CASAMENTO III – DESPEDIDAS

Que alegria é casar! É uma correria muito maluca, mas é muito gostoso. Não estou falando apenas de estar me preparando para estar com alguém que amo e com quem quero passar o resto da vida, porque isso tem um lado muito profundo e que não consigo ainda descrever nem para mim mesma. Mas tem muitas partes boas nisso.

Pensar e sonhar acordada com o grande dia, ganhar um monte de presentes, contar com a ajuda das pessoas, rever velhos amigos, fazer amigos novos, aproximar as famílias, planejar como será a casa, me perder nos carinhos e sorrisinhos cúmplices do noivo, me olhar no espelho com o vestido de noiva, comprar os móveis, ir aos lugares, visitar os sites, ler os livros, ouvir as canções, os papos com as amigas, jogar coisas velhas fora, comprar enxoval, as utilidades domésticas, furar as paredes, colocar a minha marca em tudo, fazer lembrancinhas, aprender a dizer “nós” e “nosso” em vez de “meu” e “eu”, experimentar o cheiro das flores e o gosto do bolo e dos doces… Ai, que cheiro bom tem essa coisa de casamento!

Mas já tinha ouvido dizer, e é verdade, que pra quem topa participar desse ritual, os momentos difíceis aparecem. Me lembro de amigas contando que não conseguiram tirar as roupas do armário do quarto de solteira, que brigaram com o noivo/marido por eles terem casado com elas, que choraram horas quando voltaram da lua de mel, que voltaram pra casa da mãe por não conseguir dormir na própria casa nos primeiros dias, que chamaram o pai pra resolver problemas da casa na primeira dificuldade. Achava tudo isso algo e curioso e meio louco… Mas passando pela situação, finalmente entendi. Casar talvez seja a decisão mais importante da vida. E isso dá um medo, uma euforia e um luto muito grande.

Nos últimos dias percebi, finalmente, que pra ir pra minha casa nova e começar uma nova família, eu teria que sair do meu quarto, da minha casa… Do meu papel de sempre.

Sim, e foi desde sempre que fui a filha, a irmã, a sobrinha, a prima, a neta… A moça que muitas vezes não queria crescer. Aqui, na casa da minha mãe, a casa onde eu cresci e vivi 37 anos da minha vida, sempre foi o meu lugar. E para uma pessoa que gosta muito mais de raízes do que de asas, como eu, desprender-se do chão é algo muito estranho.

Achei estranho deixar o travesseiro que amparou tantas noites de sono e tantos sonhos, tantas lágrimas e sorrisos. Mais estranho ainda tirar as roupas do guarda-roupa que sempre esteve ali e sempre foi só meu. Tirar os meus livros, embalar os CDs, tomar a decisão de guardar ou descartar papéis, fotos, bilhetes, cartões… Cada coisa que eu desencalacrava de cada buraquinho da casa tinha uma história… Carregava um pouco de mim. E como é forte essa sensação de estar triste e feliz ao mesmo tempo.

Fiquei pensando que a vida agora vai ser outra. Não estarei sozinha, mas dividirei com meu marido as coisas de igual pra igual. Serei a dona da casa, a esposa, a mãe. Eu vou organizar, limpar, cuidar, fazer acontecer. Quando eu ligar o chuveiro, serei eu a pagar a água e a luz. Quando eu for cozinhar, eu decidirei o cardápio. Quando faltar ou sobrar alguma coisa, a responsabilidade vai ser minha. Eu vou pensar se quero ou não plantas na minha varanda, se quero o escorredor de arroz no armário de cima ou de baixo, se o telefone fica no quarto ou na sala, pagar as contas no banco, ir fazer o mercado, e que marcas de comida e produtos de limpeza vamos trazer para casa. Quando der algum problema, a bomba vai estourar na minha mão. É coisa de gente grande. E pra quem viveu uma vida inteira sendo filha da mamãe, isso dá um medo e um prazer muito grande.

O último armário que eu abri para esvaziar foi o que tinha os brinquedos da infância. A minha boneca, algumas fotos, lembranças de tempos antigos. Um pequeno relicário que conta a minha história.Um passado que me fez ser quem eu sou.

A sensação de vazio ao olhar o meu quarto sem as minhas coisas só passou quando vi tudo ajeitado na outra casa. Tudo arrumadinho, novinho, com cheiro de mudança. Por aí vem uma vida nova.  E isso me trouxe uma alegria indizível.

Enfim, casar é uma coisa complicada, que embora tanta gente faça, é preciso lembrar: precisa muita coragem.

Uma coragem que só o amor pode dar.

 

 

(IM) POSSIBILIDADES

Esse povo podia deveria lavar a boca com sabão antes de falar de amor. É um absurdo tanta gente falando de amor desse jeito, leviano, descuidado, chamando de amor a posse, o desejo fugaz, a ilusão, a carência, o comodismo.

Mas por outro lado, esse povo deveria era falar de amor muito mais. Indiscriminadamente. Espalhar o amor por aí, e cada vez que falassem de amor, mesmo que não seja bem amor, o amor poderia ser convidado a ficar por perto, e quem sabe logo teria muito mais amor por aí.

Esse povo devia explicar pra gente como funciona essa coisa de amar, desde que a gente é pequeno. Deviam dar os passos, um por um, pra gente não fazer besteira. Quando a gente nascesse, podia ter uma bula, um guia, algo assim, ensinando a melhor idade, o melhor jeito, a melhor pessoa, o melhor momento pra amar. Quem não quisesse aprender, que não aprendesse… Mas pelo menos alguém teria ensinado.

Por outro lado, deveriam deixar cada um achar o seu jeito de amar, sem falar nada. Não deveria ter padrão nenhum, conselho nenhum, expectativa nenhuma, nenhum filme de princesa, nenhum jeito esperado. A gente deveria ter o direito de ser surpreendido pelo amor em cada passo que desse em direção a ele, e deveria ter, como tem, o direito de errar e aprender com os erros, e superar.

Deveriam criar um dicionário exclusivo só pra definir o amor. Sociólogos, filósofos, psicólogos, médicos, linguistas, biólogos, matemáticos, poetas deveriam se debruçar no assunto e chegar a um consenso, e escrever uma definição completa, precisa, definitiva sobre o amor, pra todo mundo poder saber o que é e o que não é.

Por outro lado, deviam tirar o amor do dicionário. Não adianta querer definir o que não tem definição, o que cada um sente de um jeito, o que, quando transborda, dá desespero de não conseguir dizer, e o que, quando falta, a gente acha infinitas palavras para dizer o quanto queria que estivesse lá.

Deviam fazer um dia só pra que a gente pudesse declarar o amor. Um dia de namorados, de maridos e esposas, de São isso ou São aquilo feito pra que a gente pudesse ter a chance de dizer aquilo que fica desdito todos os dias.

Por outro lado… A gente devia aprender a se declarar todo dia. E de repente, até se declara. Porque quem ama sabe que o amor não pode, não consegue, não fica quieto. Não declarações prontas, aquele “eu te amo” automático que nem ouvido é. Mas aquelas declarações que não se falam… Porque já estão ditas da maneira mais profunda que se pode dizer.

Feliz dia dos namorados!

Especialmente pro meu namorado… Que será marido muito em breve. 🙂

ESCRITOS DE CASAMENTO II – MADRINHAS E PADRINHOS

Esse foi o nosso convite para as madrinhas e padrinhos… 🙂

Madrinhas e Padrinhos

Precisamos de madrinhas e padrinhos para o nosso casamento.  Precisamos de gente que vá conosco até o lugar da cerimônia, estenda suas mãos sobre nós e nos abençoe. Gente que segure o buquê, cuide da música, resolva problemas de última hora, vá nos buscar ou nos levar dos lugares. Gente que se vista de modo especial para celebrar conosco a nossa união.

Precisamos de madrinhas e padrinhos para ajudar a fazer as mudanças – a dos móveis, e também as de vida. Para ajudar a colocar as coisas e os sentimentos no lugar. Para ajudar a rir muito e fazer barulho quando as alegrias vierem, para ajudar a organizar a mesa das festas que virão. E também para oferecer um lencinho e um ombro quando as lágrimas chegarem. Precisamos de madrinhas e padrinhos para orar por nós, para nos ajudarem a construir um lar e para puxar nossa orelha quando for preciso.

Precisamos, e muito, de madrinhas e padrinhos, porque aprendemos mais quando somos aconselhados, quando somos acompanhados, quando alguém amplia a nossa visão mostrando horizontes que não vimos ainda. Precisamos de gente companheira, que chegue em nossa casa e se sinta à vontade, que nos receba em sua casa com alegria, que saiba ouvir nossas dúvidas e goste de ouvir nossos causos. Precisamos de gente mais experiente que nos diga, “tenha calma e cautela”. E precisamos também de gente menos experiente que nos diga, “vai com tudo, tenha coragem!”.

Precisamos de madrinhas e padrinhos para pentear o cabelo, oferecer o colo, levar ao cinema, trocar as fraldas e encher as festas de aniversário de nossos filhos, e também para ficar com eles quando quisermos ficar sozinhos de vez em quando, e se filhos as madrinhas e padrinhos também tiverem, queremos também ser para eles tudo isso. Precisamos de gente que faça o papel do pai, que já não temos, e que sejam mães do coração.

Precisamos de madrinhas e padrinhos para nos ajudar no que somos falhos, e para nos elogiar quando fizermos algo bacana. Precisamos de quem venha para nos observar de perto, e para fazer valer o amor que um dia Deus gentilmente dividiu conosco… Precisamos de gente que queira fazer parte e redividir o amor em forma de amizade. Precisamos de madrinhas e padrinhos para nos acalmar quando estivermos com medo, para nos colocar no rumo quando nos perdermos, e para celebrar quando tudo estiver bem.

Precisamos de madrinhas e padrinhos que nos conheçam bem, que nos acompanharam em outras pedreiras e em outras calmarias da vida… Que já mostraram que podem ser, e são, madrinhas e padrinhos. Gente que acompanhou a nossa história de amor, que torceu por nós, que nos recebeu dentro da família e da roda de amigos, que orou por nós e sofreu conosco quando tudo ia desmoronar e vibrou conosco quando Deus mostrou que tudo pode, e que está conosco sempre.

Precisamos de madrinhas e padrinhos porque a vida é grande demais pra não ser dividida.

 

ESCRITOS DE CASAMENTO I – O RITUAL

As histórias de amor podem começar do jeito mais inusitado, ou do jeito mais comum. Creio que isso não tem muita importância. Mais importante do que o motivo por que uma história começa, é o motivo pelo qual uma história continua.

Comigo e com o Marcelo foi assim. Um início confuso. De um lado, uma pessoa indisposta e machucada, cansada de tentar. De outro, uma pessoa sedenta de mudanças, mas travada pela vida. Aconteceu tudo pra separar, mas a vontade era só de unir. Aos poucos foi impossível não ficar perto. Os dois resolveram dar um passo de coragem… E pronto, estava formado um casal.

Nossa história de amor foi se construindo devagar e delicadamente, mas com muita solidez – muito mais do que eu mesma poderia imaginar.

Não sei direito onde começou a história do casamento. Ele sempre falou nisso, e de repente, eu percebi que não dava mais pra não falar. Eu, que estava morrendo de medo de sonhar novamente e não queria viver mais que um dia por vez, tive que passar por duros testes que provaram a minha fé e o meu amor. Mas deu certo! De repente, eu me vi de novo pensando no futuro… Querendo algo mais. E então… Vamos nos casar.

Nós já sofremos um tantão nessa vida. De muitos jeitos. E o tempo em que estamos juntos não é longo, mas foi intenso. Teve alegria e teve tristeza. Teve saúde e teve doença. Teve dias bons, outros nem tanto. Dinheiro nunca teve muito, mas sempre tivemos as bençãos de Deus e até aqui não nos faltou nada que precisamos. E já que a vida estava preparando essa união, não achei certo negar a mim e nem a ele o direito de fazer um casamento como a gente queria. Ficamos noivos, trocamos alianças… E começamos a planejar nossa vidinha juntos. Com festa, bolo e brigadeiro, com papel passado e um canto sossegado. Sem muita gente e  nem muita pompa e circunstância, que o dinheiro é curto e amigos são raros. Mas com muita vontade de celebrar.

É incrível como esse ritual do casamento é mesmo marcante. É incrível como provoca coisas em nós e nas pessoas ao nosso redor. Toda a indústria que existe por trás dessa celebração – abusiva e irreal, às vezes – vai se montando pra convencer que você é alguém diferente. E então, por onde você passa, as pessoas te olham diferente, te tratam diferente, te fazem acreditar que o mundo inteiro está sabendo que você é A NOIVA.

Eu nunca me imaginei assim, de noiva. Não que nunca quis casar. Já quis sim. Mas nunca tinha me visto de verdade assim, nessa condição. E agora, quando tudo vai se desenhando – o vestido, o penteado, o buquê, as flores, a cerimônia, as pessoas, os mimos, a lua de mel, a nossa casa, os votos, o bolo, os presentes – eu vou me sentindo como nunca me senti antes. Nunca fui princesa, mas imagino que elas devam se sentir assim… Especiais pra todo mundo.

Esse ritual realmente prepara a gente pra vida que vai vir. Todos os gritinhos das meninas, todos os conselhos, todos os documentos que é preciso separar, os bens, os compromissos assumidos, todas as dicas, todas as coisas que dizem e não dizem, o enxoval, as despedidas que vão sendo feitas, as coisas que vão sendo empacotadas, as malas que vão sendo montadas… Essa coisa toda de ser senhora e ir embora da casa da mamãe… Dá medo e dá alegria. São muitas despedidas para deixar de ser solteira… E muitas coisas para receber pra unir minha vida com a dele, e viver como adulta e como casal. Um momento muito especial e diferente na vida.

Estou gostando de ser noiva, porque isso é um sonho maravilhoso, o herói e a mocinha com um final feliz e uma vida pela frente. Porque antes de tudo ele, que é meu par, me viu por dentro. Ele me amou e agora quer dizer pra todo mundo que pretende fazer de tudo pra me amar pra sempre. E eu vou com ele, porque amo também. Porque viver é dar esses passos pra frente, é ter coragem e aventurar-se… Em tudo!  🙂

“Eu quero a sina de um artista de cinema
Eu quero a cena onde eu possa brilhar
Um brilho intenso, um desejo, eu quero um beijo
Um beijo imenso, onde eu possa me afogar
Eu quero ser o matador das cinco estrelas
Eu quero ser o Bruce Lee do Maranhão
A Patativa do Norte, eu quero a sorte
Eu quero a sorte de um chofer de caminhão
Pra me danar por essa estrada, mundo afora, ir embora
Sem sair do meu lugar…
Ser o primeiro, ser o rei, eu quero um sonho
Moça donzela, mulher, dama, ilusão
Na minha vida tudo vira brincadeira
A matinê verdadeira, domingo e televisão
Eu quero um beijo de cinema americano
Fechar os olhos fugir do perigo
Matar bandido, prender ladrão
A minha vida vai virar novela
Eu quero amor, eu quero amar,
Eu quero o amor de Lisbela,
Eu quero o mar e o sertão…”

 

ILUMINADOS

A fé venceu o medo…

A alegria venceu a dor…

O esforço venceu o desânimo…

O sonho venceu a realidade…

O amor venceu a morte…

E o futuro está apenas começando…

Cheio de graça, leveza e esperança.

🙂

“O amor tem feito coisas
Que até mesmo Deus duvida…
Já curou desenganados,
Já fechou tanta ferida…

O amor junta os pedaços
Quando um coração se quebra.
Mesmo que seja de aço,
Mesmo que seja de pedra!

Fica tão cicatrizado,
Que ninguém diz que é colado:

Foi assim que fez em mim,
Foi assim que fez em nós,
Esse amor, iluminados…”

CELEBRAR O AMOR

Sozinho ou acompanhado, feliz ou triste… Não, não deixe de celebrar o amor. Ele merece… Você merece.

Mas saiba fazer a festa. E lembre que é você, e sempre você, quem escolhe como fazer.

Celebre o amor não como um buquê presenteado, enfeitado, pomposo, cheio de flores perfeitas… Mas que estarão mortas em poucos dias. Prefira celebrar o amor como uma roseira cultivada em um jardim amplo. Aceite as rosas pequenas e tortas. Mexa na terra. Suje-se. Molhe-se. Aceite os espinhos, as pragas, as podas, as rosinhas roubadas pela grade do jardim, o vento, a chuva, a tempestade. Cuide. E não se surpreenda quando sua roseira estiver florida e forte como nunca.

Celebre o amor não como um delírio, uma alucinação, algo que lhe rouba da realidade, que ilude, que engana, que lhe tira a paz como uma doença… Que lhe possui como um demônio velho. Antes, prefira celebrar o amor como um sonho bonito, como um devaneio gostoso, como uma viagem interna que você faz quando quer, onde seu desejo flui infinito e tranquilo… E de onde você pode voltar quando achar melhor. E não admire quando os seus sonhos se tornarem realidade.

Celebre o amor… Sim, celebre. Não como uma tese de doutorado finalmente vencida, um livro enorme e difícil finalmente lido, uma sinfonia grandiosa e milimetricamente executada com perfeição, algo complicadíssimo e medido em escalas de méritos. Não, não… Deixe os méritos, as medidas, as manias esquisitas, as opiniões… Deixe tudo pra lá, de nada lhe servirá. Antes, celebre o amor como um poema, uma canção despretensiosa, uma leitura em voz alta, um rabisco sem razão, um improviso em voz e violão, um assobio… Uma serenata sem ensaio. E de repente você terá composto o que de mais lindo já se ouviu ou leu.

Celebre o amor… Não como um dom, uma habilidade mística, uma mágica, um encanto, algo tão incrível quanto inalcançável. Mas sim, celebre o amor na simplicidade do sentimento, no valor dos pequenos gestos, na luta e no esforço diário de compreender a si mesmo, de se doar a outro ser humano, de se aventurar e de vencer o medo e a preguiça. E você descobrirá poderes nunca antes imaginados… Milagres nunca antes vividos.

Celebre o amor! Não como um evento especial, uma festa, um dia ou noite de gala, um almoço formal na presença de estranhos, onde se usa sapato apertado, cabelo preso, vestido desconfortável, onde se interpreta um papel para se exibir para quem não importa. Esqueça isso. Celebre o amor como um jantar familiar bem feito durante a semana, como uma roupa que só se usa em casa, como um chinelo surrado e que acarinha os seus pés… Como o prazer de deitar no sofá e esparramar-se no chão. E então você verá que o amor é leve… Leve, leve, leve. Tão leve que deixa você leve também.

Celebre o amor não como um jogo complicado, um tabuleiro de xadrez onde se precisa pensar nos movimentos adequados, onde é necessário prever o outro, onde é necessário esconder, dizer e fazer o que é preciso dizer ou fazer para ganhar… Pisar com cuidado, calcular, pensar. Não! Jogos são para adversários. Celebre o amor como quem brinca de roda, quem improvisa, quem ri e chora com vontade e sem controle, celebre o amor como quem dança sem saber dançar, mas querendo se divertir, acertar… Levar e ser levado. E de repente você verá que venceu.

Celebre o amor de hoje… Não o de ontem, porque já foi. Nem o de amanhã, por que nem existe ainda. É o amor de hoje que lhe convida para celebrar.

Sim, celebre o amor com alegria…

Não por sua força, mas por sua sutileza.

Não por seu brilho, mas por seu segredo.

Não pelo que oferece, mas pelo que nega.

Não por suas regras, mas por suas transgressões.

Não por fazer o que você queria… Mas por fazer exatamente o que você precisava.

Celebre o amor por sua presença suave, sábia, delicada… Silenciosa. Aceite-o… Mime-o… Permita-o.  E não o deixe ir embora.

Celebre o amor como quem celebra a própria vida. J

E se ainda não conseguir… Celebre assim mesmo!

Feliz dia dos namorados!

“Ser o senhor e ser a presa: é um mistério, a maior beleza…
Amor é dom da natureza…
Amar é laço que não escraviza.”

 *PS:. Dedico esse post ao meu namorado que é tão amado, que tem se aventurado a ensinar e aprender comigo, todos os dias, o que é amar assim, desse jeito… Celebrando. 😉

DECISÃO

Um trabalho pode ser apenas um emprego, um enfado, uma obrigação, um lugar de onde você tira o mínimo pra sobreviver, pra onde você vai todos os dias porque não tem outro jeito, reclamando infeliz da vida.

Mas se você colocar amor, ele se torna sua missão, sua realização, seu prazer, fica cheio de significado e poesia… Um dos seus motivos para acordar.

Um bebê que nasce pode ser apenas um pedaço de carne com olhos e boca que vai sugar sua energia, tomar todo seu tempo, atrapalhar o seu sono, trazer gastos e dívidas e amarrar sua vida por um longo tempo.

Mas se você colocar amor nessa relação, o bebê se torna seu filho, e você vai curtir cada minuto, comemorar cada conquista, sofrer com cada tropeço e experimentar o lago mais profundo que um sentimento pode encher.

Um problema pode ser só um evento ou um fato que você, infelizmente, tem que resolver.

Mas resolva com amor, e você terá uma causa, uma luta, um aprendizado, algo para te desafiar e ensinar.

Uma pessoa com quem você convive pode ser apenas um colega, alguém que está perto, que não atrapalha, mas também não faz falta nenhuma, com quem você trabalha, almoça, pega ônibus, cruza no portão de casa, fica junto apenas por ficar.

Mas dedique algum amor a essa pessoa e ela será um amigo, alguém com quem você pode dividir sua existência, alguém que te ajude a compreender tudo e todos, com quem você pode realmente contar, a quem você pode realmente ajudar, e com quem você poderá se sentir menos só no mundo.

O lugar onde você vive pode ser apenas um chão pra você pisar, uma região de onde você pode retirar tudo que precisa, um espaço para você depositar ou retirar coisas, um lugar como qualquer outro onde você casualmente nasceu e/ou vive.

Mas coloque amor nisso e você terá um lar, uma cidade, um país para defender, e rapidamente aparecerão oportunidades para tornar você alguém mais responsável, mais cidadão, mais transformador da realidade – e portanto, mais consciente e ativo.

Uma pessoa problemática pode ser só alguém que não tem mais jeito, um tropeço, uma encheção, alguém vazio, sem esperança, sem futuro, sem razão de existir, que merece ser jogado de lado, abandonado, deixado para trás.

Mas dê muito amor, invista, acredite, cuide, fique quando todos já foram – e então você verá uma nova pessoa, alguém com um novo horizonte, com uma nova paixão, com um novo motivo, e então a vida pulsará em você também.

Alguém que você conhece pode ser só mais uma boca para beijar, um corpo para usar, alguém para passar o tempo, alguém com quem ficar trocando mentirinhas e truques de sedução… Mais um para colocar na lista de conquistas.

Mas se você colocar amor, essa pessoa pode ser sua companheira, sua alegria, alguém que você deseja com força, alguém para te desafiar e te levar cada vez mais além.

Religião, sem amor, é prisão; com amor, é fé.

Leitura, sem amor, é tarefa; com amor, é alegria.

Música, sem amor, é barulho; com amor, é arte.

Doação, sem amor, é vaidade; com amor, é solidariedade.

Sanções, sem amor, são ordens; com amor, são cuidados.

Reflexões, sem amor, são apenas pensamentos; com amor, são movimento.

Uma palavra, dita com amor, é um carinho.

Uma ação, se tem amor, é um gesto.

Um objeto, se tem amor, é um poema.

Um projeto, quando feito com amor, já é um sucesso.

Uma comida, feita com amor, é um banquete.

Um filme, feito com amor, é um clássico.

Uma viagem, vivida com amor, é uma jornada.

Uma tarefa, realizada com amor, é uma criação.

Uma escolha, quando feita por amor, é o caminho certo.

Uma mudança, quando vem com amor, é progresso.

O amor não acontece. Ele faz acontecer…

Porque o amor não é mágica. É uma decisão.

ACEITAR… APRENDER

Essa história de amor é, antes de tudo, aceitar. Aceitar, do latim acceptare – “receber de boa vontade”. É bom quando você é assim, recebida com alegria, com vontade, com coração aberto, como se estivesse sendo muito esperada. Não como um acaso, uma surpresa, algo inesperado. Não como um estorvo, algo que de repente aconteceu, e trouxe problemas, e tem que ser contornado. Não como algo que tem que ser encaixado entre um compromisso e outro, algo que tem que ser espremido para caber onde não tem espaço. Não como quem precisa se adequar e se vestir de um outro jeito para merecer ser convidada.  Não como quem está quebrando um galho porque o outro não achou nada melhor pra fazer, ou ninguém melhor pra conhecer. Não com distração, de qualquer jeito… Mas ser aceita… Realmente recebida, como um presente, como algo suave e agradável… Aceita como você é. Ser aceita sem medo de ser acusada por seus defeitos. Sem receio de mostrar-se em todas os seus sucessos. Com seus tormentos do passado… Com todas as suas possibilidades de futuro. Ser aceita, ser curtida, admirada, observada com atenção… Ser degustada aos pedaços, com alegria, com festa, com respeito, com elevação… Com graça. E por isso, também aceitar. Aceitar, apesar de, por causa de, por ocasião de… Aceitar como quem é presenteada ao se doar. Aceitar conhecendo a si mesma, e também querendo investigar o outro por dentro, naquilo que realmente importa. E, nessa de ser aceita, entender-se como pessoa que merece ter amigos que te aceitem, família que te aceite… Um companheiro que te aceite, nas suas grandezas e pequenezas.

Essa história de amor é, depois de tudo, aprendizado. Aprender, em sua origem, apprehendere – “agarrar, tomar posse de”. A gente não agarra se não sabe abrir as mãos na hora certa… A gente não agarra se não sabe fechar as mãos na hora certa. A gente não aprende a amar se não se desprende de si mesma para abraçar o outro… A gente não aprende a amar se não deixa as mãos vazias do passado para enchê-las de futuro. Aprender, um esforço diário. Aprender, uma superação da antiga ignorância pela luz do novo conhecimento. Aprender, sempre e aos poucos, como quem devora o que está aprendendo, mas pelas beiradas. Aprender, desafio depois de desafio. Aprender, sendo fácil ou difícil. A gente não toma posse daquilo que não entende como seu… Mesmo que não seja. A gente não aprende se não se doa para ser de alguém. Aprender, todos os dias, e em todos os movimentos… Aprender, aquilo que traz a mudança… O crescimento. Aprender junto… Aprender sempre.

Na última semana, passei por um teste muito duro. Ao ver meu companheiro em uma cama de hospital, eu tive medo de reviver a dor de ser abandonada mais uma vez. Medo, essa emoção tão verdadeira, genuína… Forte. Medo, mau conselheiro, péssimo delineador de ideias e de fatos. Medo… Esse ladrão da esperança que eu tão lenta e duramente reconstruí. Mas foi aceitando, e aprendendo, que passei na prova. E hoje, posso dizer que amo realmente… Amo de novo.

Eu talvez já tenha sido amada antes. Mas talvez nunca tenha sido aceita de verdade. Talvez já tenha sido engolida, mas nunca aceita. E é maravilhoso merecer ganhar esse presente da vida.

E sei que estarei sempre, sempre aprendendo a amar. Mesmo que doa, mesmo que não seja fácil, estarei sempre aprendendo. Porque só ama quem não desiste… Nem de si mesmo, nem do outro.

Sou grata pelo teste. Grata aos que me ajudaram a passar por ele. E principalmente grata por saber que essa chama que eu carrego dentro de mim não se apagou… Nem se apagará.