40 TEMAS PARA OS 40 ANOS -SOMBRA

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“O Retrato de Dorian Gray”

Deus me livre de tanta fraqueza. De tanta omissão, de tanto comodismo, de tanta covardia. Que eu não escolha o caminho mais fácil, se não for o certo. Que eu vença a vontade de entregar os pontos, de deixar pra lá, de me retirar das lutas justíssimas sem ter ido até as últimas consequências. Que eu não seja aquela rata medíocre que abandona o barco quando ele começa a afundar. Que eu não aceite relacionamentos pífios por medo da solidão, ou para não enfrentar a luta que é desatar nós. Que eu não deixe ninguém na mão, que eu não falte com quem nunca faltou comigo, que eu tenha força pra seguir adiante. Que eu não seja fraca. Mas que eu não esqueça que já fui fraca tantas e tantas vezes.

Deus me livre de tanta mágoa. Que eu consiga perdoar quem me fez mal, e não foram poucos; especialmente aqueles que nem perceberam o que fizeram, ou os que, percebendo, não foram capazes de pedir perdão. Que eu não aponte o dedo em riste pra ninguém, por pior e mais aparente que seja o motivo; que eu não julgue. Que eu não carregue o peso das dores que me foram impostas, que não nasça em mim nenhum desejo de vingança, nenhuma atitude de desforra, ou de desprezo por quem quer que seja. Que eu saiba voltar atrás, que admita minha parte quando as coisas derem errado, que não me porte como vítima quando não for. Que eu não elimine as pessoas da minha vida com tanta facilidade quando me cansar delas e do mal que me fazem. Que eu saiba insistir um pouquinho mais. E quando não for mais possível, que eu saiba ir em frente sem olhar para trás, sem carregar nada na mochila. Que eu não seja uma pessoa ressentida. Porque tantas vezes já fui. E ainda sou.

Deus me livre de tanto ódio. Que eu possa segurar o ímpeto de agressão, de ira, de extermínio que me acomete de vez em quando. Que não me falte paciência com gente ignorante, violenta, nojenta, fascista; que o ódio seja sempre do que pensam e fazem, nunca delas em si. Que eu possa ser aquela que pacifica, que acalma os ânimos, que não piora as coisas, que não leva os boatos e fofocas adiante. Que eu não aumente a chama da confusão em lugar nenhum. Que eu não magoe ninguém, nem gritando, nem sorrindo. Que não haja em mim nem um traço de cinismo. Que eu não me conforme em machucar alguém, e que, machucando, saiba pedir perdão. Porque tantas e tantas vezes já machuquei, querendo e sem querer.

Deus me livre de tanta vaidade. De tanto ego, de tanto eu. Que eu consiga segurar a onda das minhas qualidades, que elas sejam um presente que eu recebi e uso a favor dos outros, nunca uma arma. Que eu não queira tudo pra mim, que não seja egoísta e nem covarde. Que eu não iluda a mim mesma, como vejo tanta gente fazer, achando que sou tão boa, quando na verdade sou tão ruim. Que eu não tenha motivos e justificativas pra tudo que faço, como se só eu merecesse compreensão e perdão nessa terra, sendo implacável no julgamento alheio. Que eu não me deixe levar por falsos elogios, que eu valorize quem me diz a verdade e repudie a mentira e o auto-engano. Que eu mantenha-me pequena e humilde como deve ser. Porque tantas vezes cresço mais do que deveria e me acho gigante, quando na verdade continuo sendo poeira como todo mundo é.

Deus me livre de tanta compulsão. Que eu possa manter as vontades do corpo sob controle da mente. Que meus desejos não me dominem. Que eu não desague o que foi contido no mar do hedonismo, comendo, bebendo, trocando carinhos sem sentido. Que eu traga os desejos na coleira, e que mesmo depois de saciá-los, eu respeite o meu corpo e minha alma sabendo a hora de parar. Que eu não use nem manipule ninguém pra conseguir prazer, satisfação. Que eu respeite os meus limites e coloque os freios necessários para não consumir todo meu corpo e minha alma de uma vez. Que o mar do desejo não me carregue, que eu saiba tomar muito cuidado com ele. Porque tantas e tantas vezes não consigo me segurar, e ainda acho justo que não consiga.

Deus me livre de tanta ansiedade. Que eu possa dominar os pensamentos catastróficos que me dão tanto medo, e que esse medo não me paralise e nem me impeça de viver as coisas boas. Que eu não adiante as coisas, por mais que esteja vendo como serão logo ali. Que eu não tenha pressa de viver o que é bom, e nem desespero pra que o que é ruim passe logo. Que eu mantenha a mente quieta e respeite o tempo, meu e dos outros. Que eu saiba controlar a ânsia de mudar as coisas à força, porque não se abre uma flor e nem se tira um inseto do casulo antes da hora certa. Que eu não estrague tudo com artimanhas, mentiras e palavras duras, só porque não posso esperar um pouco mais. Que eu segure a vontade de sobrepujar a vida, porque tantas vezes já quis ser maior que ela e me machuquei toda.

Deus me livre de tanta manipulação. A tentação é grande para quem percebe tão bem os sentimentos, emoções e sinais das pessoas. Que eu não use o que aprendo dos outros a meu favor e contra elas, que eu não queira ser mais esperta, nem enganar, nem ficar por cima de ninguém, só porque pra mim é mais fácil. Que eu não diga frases duras em tom doce, que não tente passar ninguém pra trás, que não minimize a vontade de ninguém e nem menospreze a capacidade das pessoas de me entender, como eu as entendo. Que eu não use ninguém ao meu serviço, porque tantas vezes já fui usada, e doeu tanto… Porque tantas vezes igualmente uso os desavisados para o que preciso e quero.

Deus me livre de tanta preguiça. Não a preguiça mais simples, aquela, que vem do cansaço. Mas a preguiça da desistência, da conformidade, do “deixa pra lá”, do “não vou colaborar”. Que eu não me canse da vida, que eu não ache que tenho o direito de estar mais cansada ou mais alheia do que ninguém. Que eu não nutra desinteresse pelo que é importante, porque tantas vezes tenho vontade de me fechar e esquecer de tudo.

Deus me livre de tanta carência. Que as minhas faltas não me façam a vítima de quem pode me dar um pouco do que quero. Que eu entenda a falta como parte de mim, como vazio cheio, como parte de motivação pra ir mais adiante, e não como mutilação, como ofensa. Que eu não seja fraca diante do que me atrai, que eu saiba guardar a dignidade e a preservação acima da vontade. Que eu saiba suportar a falta. Porque tantas vezes já me destruí querendo acabar com essa sensação de vazio.

Deus me livre daquilo que guardo em mim mesma, essas sombras que me roubam a plenitude. O diabo está em mim. Que eu saiba olhá-lo, encará-lo de frente, e ter com ele as conversas necessárias para não errar tanto, nem comigo mesma nem com os outros. Que eu jogue luz em tanta sombra e que faça as escolhas certas, ainda que não sejam as mais fáceis. Que eu encare a minha natureza humana, fraca, pífia, covarde e vá buscar a nobreza ladeira acima, tropeçando nas pedras, fazendo o esforço de ser alguém melhor porque é isso que eu quero, ainda que pareça que não.

Deus me livre de mim mesma.

“Hoje não dá, hoje não dá…
Está um dia tão bonito lá fora e eu quero brincar.
Mas hoje não dá, hoje não dá…
Vou consertar a minha asa quebrada e descansar.”

TEM-QUE

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Já faz um tempo que um amigo me sugeriu que postasse aqui os textos maiores que escrevo no Facebook, aquele site onde tudo se perde e você perde o fio do tempo e da sua história. Achei legal a sugestão… E estou começando hoje. Link original AQUI

“Você tem que viajar.” “Você tem que sair mais de casa pra aproveitar suas férias.” “Você tem que gostar de calor.” “Você tem que escutar aquela música.” “Você tem que terminar de ler aquele livro.” “Você tem que rever esse posicionamento.” “Você tem que dizer não.” “Você tem que se expor menos.” “Você tem que arrumar isso aí.” “Você tem que ver a série que eu adorei.” “Você tem que colocar menos pimenta.” “Você tem que dormir mais cedo.” “Você tem que ser menos trouxa.” “Você tem que fazer as unhas na manicure.” “Você tem que tomar mais cuidado.” “Você tem que superar isso.” “Você tem que trocar de carro.” “Você tem que dar uma chance pro cara.” “Você tem que usar agenda.” “Você tem que esquecer esse fulano.” “Você tem que dar um pé na bunda dele.” “Você tem que bloquear essa daí.””Você tem que trabalhar menos.” “Você tem que definir logo.””Você tem que comprar roupas mais modernas.” “Você tem que deixar o seu cabelo crespo.” “Você tem que escrever profissionalmente.” “Você tem que ter um plano.”.

Colecionei essas só neste ano de 2017. Ok, algumas (poucas) foram ditas com muito amor, por gente que se preocupa comigo. Mas ressalto que NENHUMA foi dita por pessoas diretamente envolvidas nas questões apresentadas.

Algumas coisas eu adoraria mudar, mas não consigo. Outras, são simplesmente jeitos diferentes de ver a vida. Outras são apenas da minha conta, e não me interessa fazer ou deixar de fazer. E outras não fazem o menor sentido pra mim.

Às vezes, a gente conversa só pra desabafar um pouco. Não quer ouvir o que “tem que” fazer. Só quer falar um pouco da vida, trocar umas ideias, dividir perplexidade, tomar uns gorós, dar umas risadas pra se distrair, ou apenas dizer, “putz, que merda”, e esperar o tempo passar. Claro, é ótimo ouvir outras opiniões, especialmente quando são perguntadas. Mas é complicado quando o acolhimento vira julgamento, imposição, porque a maioria de nós é limitada pacas e não sabe nem de si mesmo, quanto mais dos outros.

Eu não “tenho que” nada, gente. Eu vejo tanta gente fazendo cagada todo o tempo, mas evito ficar achando que sei a resposta definitiva pra vida dos outros, até porque a minha vida não é lá essas coisas.

Estamos todos tentando fazer o melhor. Vamos ser mais generosos uns com os outros. A caminhada não é fácil, mas estou indo bem. Pode acreditar que por muito menos muita gente tinha entregado os pontos. Eu tô fazendo o que posso. E, quase sempre, na hora do “vamovê”, apesar de todas as falas, eu estou completamente SOZINHA pra dar conta de tudo. Era de se esperar que muita coisa desse errada. Mas muita coisa tá dando certo também. Ou não tá?

Na Psicologia a gente aprende que, mesmo que enxergue claramente todos os problemas e respostas de um paciente, precisa deixar a própria pessoa entender o que é, e o que precisa fazer. Podemos ser bússola, indicar direções, orientar. Mas o leme da própria vida, só quem comanda é o capitão. No tempo e no jeito dele. E se não chegar no destino, ou afundar… Paciência. Importante é caminhar, não chegar.

Espero que as pessoas peguem leve aí em julgar o que eu sou, gosto e faço. Eu tô mais velha e o pavio tá mais curto. Só Deus pra frear minha língua pra eu não responder certas coisas jogando de volta tudo que eu vejo e penso da pessoa sabichona. E olha que eu vejo e penso coisas que as pessoas nem imaginam. Mas procuro calar. Quase sempre. Me ouça, me aconselhe, me pegue no colo, se divirta comigo, até me dê bronca. Mas para de me regrar. Talvez eu tenha escolhido viver de um jeito diferente do seu. E a liberdade da esquisitice é uma delícia, é uma benção, é o que mantém minha sanidade. Experimente.

Peace and Love. Please.

“Esse caminho que eu mesmo escolhi… É tão fácil seguir… Por não ter onde ir.”

2017

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Ler um pouco todos os dias. Caminhar um pouco todas as semanas. Visitar um amigo ou amiga querida todos os meses. Regar os vasos de planta todas as manhãs. Lembrar de agradecer todas as noites. Não esquecer do desafio de aproximar o que penso, quero e sonho daquilo que digo, faço e realizo, o quanto eu puder, todos os momentos.

Colocar as cordas no violão e tocar algo novo. Escrever um poema, ler tantos outros, decorar os mais lindos pra guardar na memória aquilo que me der esperança. Pintar outros quadros. Inventar uma nova receita. Fazer um bolo de aniversário bem bonito. Aprender algo diferente. Aproveitar uma oportunidade inesperada. Beijar uma nova paixão. Levar alguém pra passear, fora de ocasião. Sonhar um sonho novinho em folha. Podar as plantas. Apostar em uma furada só porque eu quero. Ganhar algo que ninguém poderia esperar. Conhecer uma nova cidade.

Perdoar a mim mesma. Me declarar. Resolver os pequenos problemas antes que fiquem grandes. Fazer questão de algumas coisas. Experimentar um novo sabor de sorvete. Comprar as brigas que importam. Preparar-me para a luta, mas esperar a festa. Orar por alguém. Dizer que amo, sem medo. Parar de me magoar por medo de decepcionar. Apontar os lápis de cor. Convidar pra jantar. Ter uma ideia brilhante. Organizar as coisas. Fazer as contas. Ir ao médico. Fazer um curso. Ganhar novos amigos, amigas. Brigar por velhas causas. Cheirar um bebê. Deixar o que ficou pra trás lá atrás.

Continuar a terapia. Bater papo com as meninas. Enfeitar a casa. Enfeitar o rosto. Cortar o cabelo. Colocar uma outra cor nos olhos e nas unhas. Aprender a cantar melhor minhas canções prediletas. Ter paciência com a vizinha chata. Agradecer mais a vizinha legal. Dirigir à noite. Operar os pulsos, deixar de sentir tanta dor. Me deixar ser cuidada. Pedir ajuda. Oferecer o colo. Ir ver um jogo de futebol. Visitar um museu. Assistir um show. Frequentar o cinema. Andar de mãos dadas. Honrar os compromissos. Fugir daquela obrigação opressiva.

Cultivar a paciência, a ternura, o olhar generoso. Pedir desculpas. Deixar tocar mais música dentro de casa. Desligar a TV. Deixar pra lá. Ler mais filosofia. Criar. Querer. Sonhar. Fazer das pequenas, grandes coisas.

Viver. Amar. Cantar bem alto a música do Gonzaguinha, com a alma, com o estômago, com o coração.

De você, 2017, não quero nada além de 365 dias. Um de cada vez. Cheios de pequenos prazeres, de coisas para aprender, de percepções inesperadas. Apenas 365 dias, o resto é comigo. Que você seja o tempo presente, até que seja passado. E que, daqui um ano, só me reste dizer… “Viver… Amar… Valeu.”

“Quando a atitude de viver é uma extensão do coração
É muito mais que um prazer, é toda carga da emoção
Que era o encontro com o sonho, que só pintava no horizonte
E, de repente, diz,  presente!
Sorri e beija a nossa fronte e abraça e arrebenta a gente
É bom dizer: viver, valeu!
Ah! Já não é nem mais alegria, já não é nem felicidade
É tudo aquilo num sol riso, é tudo aquilo que é preciso
É tudo aquilo paraíso, não há palavra que explique
É só dizer: viver, valeu!
Ah! Eu me ofereço esse momento que não tem paga e nem tem preço,
Essa magia eu reconheço, aqui está a minha sorte:
Me descobrir tão fraco e forte,
Me descobrir tão sal e doce,
E o que era amargo acabou-se…
É bom dizer: viver, valeu!
É bom dizer: amar, valeu!
Amar, valeu.”

2016

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Convidei o Carpinejar e o Tom Jobim pra me fazer companhia neste post.

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Ah, 2016. Ano de colapso, de quebra. O mundo caindo a minha volta. Golpes, guerras, refugiados, fascismo, ódio, intolerância, morte, retrocessos, catástrofes, absurdos como há muito tempo eu não via; aliás, acho que nunca tinha visto, só ouvido falar. Indignação, medo, perplexidade que paralisa. Ano de revelação. As pessoas mostrando quem realmente são. Eu me mostrando como realmente sou.

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E eu aqui… Tão dentro e ao mesmo tempo tão alheia a tudo isso.

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No começo do ano eu tinha dito que 2016 seria um ano de cura pra mim. E foi. Quanta coisa aconteceu! Coisas ótimas, coisas péssimas. E no entanto, eu me mantive lá, firme no propósito de colar meus caquinhos. Hoje olho pra dentro do meu espelho e vejo as marcas, as cicatrizes, o aspecto remendado. Não tem jeito, “nada vai trazer de volta a beleza cristalina do começo”.  E sim, “os remendos pegam mal”. Mas não estou mais despedaçada. Estou inteira outra vez. Me sinto EU MESMA de novo, esse “I” em maiúsculo do inglês, esse “self” tão interessante do Jung, essa totalidade. Mas é uma outra “eu”. Outra Karina. E eu ainda não sei direito quem ela é. Mas eu gosto dela.

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2016 não foi um ano bom, se eu contar que sou humana, e a humanidade está derretendo. Mas também não foi um ano ruim pra mim… Aqui dentro.

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Eu fiz 40 anos. Não há mais dúvidas, sou uma mulher numericamente vivida. E eu comemorei isso de várias formas. Eu terminei um relacionamento abusivo. Eu tentei recomeçar, me diverti e aprendi bastante nas tentativas. Eu beijei bastante os moços e gostei de me ver como uma mulher que tem seus encantos nos olhos deles. Eu me apaixonei de novo, e lembrei da sensação maravilhosa e desesperadora que é apaixonar-se. Eu ganhei um prêmio profissional, e percebi a grandeza do trabalho lindo que fazemos lá na escola ao ir compartilhar sobre isso com tanta gente pela cidade. Eu falei da minha dor no grupo de ajuda mútua sobre luto. Eu chorei esse luto todo de novo, eu aprendi a chorar, eu não sabia. Eu conheci a Louremi, minha terapeuta, e me afundei com ela nessa dor e delícia de ser quem eu sou e ter a história que eu tenho. Eu topei essa parada e mergulhei nessa lama, que foi virando uma água mais limpa, e saí mais forte do mergulho. Eu senti muita, muita dor no corpo. Eu trabalhei demais, até à exaustão. Eu conheci um monte de gente bacana. Eu deixei de falar com um monte de gente chata. Eu vi o mar, eu vi o topo da montanha. Eu me permiti dizer um monte de nãos. Eu me despedi. Eu me recolhi. Eu me mostrei. Eu falei o que estava engasgado, entendendo que nem sempre preciso ser cordata pra ser meiga. Eu discuti. Eu defendi pessoas indefensáveis. Eu aprendi a me virar sozinha – eu paguei as contas, eu pintei as paredes, eu carreguei o lixo, eu comprei uma furadeira, e usei. Eu pintei um quadro. Eu assumi a minha casa e fiz ela parecer comigo. Eu cozinhei e inventei um monte de receitas novas. Eu voltei a escrever. Eu cuidei das plantas. Eu criei. Eu falei muito, muito mesmo, com os amigos, e especialmente com as amigas – e eu não agradeci o suficiente por ter tanta gente que me ama cuidando incansavelmente de mim por perto, do jeito que pode, na medida em que eu deixo me cuidarem. Eu me senti profundamente amada. Eu virei amiga da minha mãe. Eu vi meus sobrinhos crescerem um pouco mais. Eu vi a Débora adolescer. Eu tive vontade de ser mãe, e quase tomei essa decisão. Eu lutei, me indignei, bronqueei. Eu orei, muito, mas de um jeito diferente. Eu ajudei quem eu pude. Eu deixei pra trás as coisas que me atrapalhavam sem dó. Eu dormi melhor. E eu me formei pedagoga! Cara, 4 longos anos depois, que na verdade, significam mais de 20, eu me formei.

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E é por causa de tudo isso que eu estou feliz hoje. Falta pouquinho pra 2016 acabar. E me sinto assim, com essa sensação gostosa de missão cumprida. Não tenho mais a ilusão de que de novo voltarei a ver a garota feliz e ingênua que fui um dia. Não… Ela morreu conforme eu fui vivendo de verdade. Eu tenho marcas, não saí ilesa da vida, e nunca sairei. Eu sou a mulher que carrega em si muitas cruzes. Mas a diferença é que agora eu as aceito como parte da minha história. A dor não me caracteriza mais. Eu não sou a viúva, a orfã de pai, a agredida, a lascada, a vitimada, a abusada, a tristonha. Não… Eu sou a mulher que sobreviveu a tudo isso, e de tudo conseguiu fazer alguma coisa boa. E na minha alegria, o Carpinejar tem razão… Sempre vai ter um pouco da minha dor. E eu tenho orgulho de ser essa pessoa que tem muita história pra contar, porque viveu; não teve medo de viver e nem terá.

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Obrigada Deus, obrigada Tempo, obrigada pessoas que me cercam, obrigada VIDA. Eu não quero mais morrer, mas não ligo se acontecer. Porque o tempo nada mais é do que isso: vida que vai, vida que vem, e em tudo isso, eu, virando eu, “I”, “self”, cada vez mais eu, em um processo infinito de tornar-se pessoa. Não nego nada do que já foi, e aceito com coragem e alegria o que virá.

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Esperei muito, muito tempo para cantar essa canção com o coração, como estou fazendo hoje. Hoje, essa também é minha meditação.

“Quem acreditou no amor, no sorriso, na flor,

E então, sonhou, sonhou…

E perdeu a paz:

O amor, o sorriso e a flor se transformam depressa demais.

Quem no coração abrigou a tristeza de ver tudo isso se perder…

E, na solidão,

Procurou um caminho e seguiu… Já descrente de um dia feliz.

Quem chorou, chorou…

E tanto que o seu pranto já secou.

Quem depois voltou ao amor, ao sorriso e à flor,

E então, tudo encontrou.

Pois a própria dor revelou o caminho do amor,

E a tristeza acabou.”

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O tempo não para…

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E arrasta tudo com ele.

Quem sabe tenha arrastado 13 anos de escritas, delírios, conversas, ensaios que guardei aqui. É possível que não, é possível que sim.

Internet tem dessas coisas.

Mas se tem algo que eu aprendi nesta vida… É recomeçar.

E porque eu tanto gosto quanto preciso escrever…

E porque não há como fugir da alegria do encontro literário com tanta gente boa que me achou, me acha e me achará pelas palavras que  eu registro…

E porque eu continuo com essa mania esquisita de tentar explicar a vida…

E porque é assim que é porque é mesmo…

Recomeço aqui. E você que me lê, sabe que, na verdade, recomeçamos… Escrita só faz sentido se for lida. Recomeçamos, eu e você.

O nome Mafalda Crescida muda – por enquanto, e se não vier ideia melhor, ele vai se chamar “Entrelinhas”. A ideia já não faz mais sentido, embora o amor pela personagem ainda seja grande. Mas o endereço permanece com o nome do blog antigo.

A série dos 40 anos continua.

A vontade de escrever e partilhar a escrita permanece.

O desejo de um dia terminar tudo isso foi embora.

O entendimento sobre o que é a vida vai e volta.

E eu continuo aqui.

Bem vindos, bem vindas ao meu novo espaço!

“Quando eu canto que se cuide quem não for meu irmão,
O meu canto, punhalada, não conhece o perdão, quando eu rio.
Quando rio, rio seco como é seco o sertão,
O meu riso é uma fenda escavada no chão, quando eu choro.
Quando  choro, é uma enchente surpreendendo o verão
É o inverno, de repente, inundando o sertão, quando eu amo.
Quando amo, eu devoro todo o meu coração,
Eu odeio, eu adoro, numa mesma oração.”