ESPERO ALGUÉM

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Espero alguém.

É preciso muita humildade e coragem, em tempos quando todos e todas são tão autossuficientes e cínicos, pra dizer que espero alguém porque eu quero esperar.

Espero alguém doce e marcante no encontro. Alguém que saiba chegar, não importa se for espalhafatoso, forte, barulhento, ou sutil, suave, luminoso. Mas alguém que deixe bem claro que chegou. Espero alguém que saiba que eu o estou esperando, e que esteja me esperando também. Alguém que redima o passado e faça valer a pena sonhar o futuro. Espero alguém que sinta o cheiro da minha comida e do meu pescoço, e goste de ambos. Espero alguém que me acenda, me ligue novamente, me puxe pela mão e me tire da escuridão.

Espero alguém que até tente, mas não consiga ir embora. E conseguindo, não demore a voltar. Espero alguém que seja gentil, ajude a carregar as sacolas e tirar o lixo. Espero alguém que sinta a minha falta e fique incomodado em não estar presente. Espero alguém que me receba, me faça sentir à vontade em tirar os sapatos e colocar os pés no sofá, em beber no gargalo da garrafa e dormir no meio da conversa. Espero alguém que fique à vontade, e me faça à vontade. Espero alguém nos braços de quem eu consiga adormecer e descansar, dormir profundamente, e acordar revigorada de um cansaço milenar.

Espero alguém que entenda a minha poesia. Alguém que até ache graça dos meus dramas, mas respeite profundamente a minha dor. Espero alguém que leia – olhares, letras, imagens, sinais, sons – e entenda o que lê, e quando não entenda, se esforce em procurar saber. Espero alguém que mergulhe em mim com sede, muita sede, e se sinta extremamente saciado. Alguém que me ajude a nadar no imenso oceano de emoção que eu sou.

Espero alguém que não use as fragilidades que captou de mim nos momentos de confiança e carinho para me destruir nos momentos de dúvida ou raiva. Espero alguém que ligue de repente, que beije de repente, que fale de repente, que surpreenda. Espero alguém que saiba me dar bronca, que coloque bem os limites, e traga em si a autoridade do amor. Espero alguém que partilhe ideias interessantes, que aprenda comigo, e me ensine muitas coisas, e fique feliz por isso. Espero alguém que sorria gostoso, que gargalhe, e que ache graça das minhas piadas e sacadas. Espero alguém que ache delicioso perder tempo com besteiras. Espero alguém que se sinta orgulhoso, e não intimidado, quando enxergar minhas capacidades. Espero alguém que transite entre a alegria dos dias especiais e a grandeza do cotidiano.

Espero alguém que entenda os pequenos e grandes prazeres da vida. Espero alguém que se deixe seduzir, mas também vá direto ao ponto. Espero alguém que me procure pra amar, que me toque naquele lugar especial entre o desejo despudorado e guloso e o carinho. Espero alguém que tenha coragem, de mudar de vida a dizer a verdade, de superar-se a dizer o que pensa. Alguém disposto, que não se acomode, que não esconda suas incapacidades, alguém que peça e ofereça ajuda, e assuma suas humanidades. Alguém que saiba quem é, mas nem por isso se envaideça. Alguém que cumpra a palavra. Alguém que só fale que ama quando for verdade; espero alguém que faça ser verdade. Espero alguém que não minta e não abandone por pura preguiça. Espero alguém que seja homem o suficiente pra respeitar a mulher que eu sou.

Espero alguém que use as palavras de um jeito especial. Espero alguém que entenda que projetos são apenas projetos. Alguém que seja mais leal do que fiel. Alguém que deseje profundamente continuar vivendo. Espero alguém que resolva a melancolia com carinho e generosidade. Alguém que não se ache mais do que é, e que me ache mais do que eu sou. Espero alguém que não sucumba ao ridículo medo de amar, que, como dizia o poeta, é o medo de ser livre.

Espero alguém que discuta com honra, que se refaça diariamente com dignidade, que peça perdão e aceite quando for eu que tiver que pedir. Espero alguém que experimente novos sabores, novos pontos de vista, novos olhares, e se sinta vivo, e me ajude a me sentir viva também. Espero alguém que esteja vindo e fique feliz quando tiver chegado.

Em troca, me ofereço. Toda, inteira. Espero alguém que saiba que essa troca vale a pena.

Por favor, venha logo.

( Foi o Carpinejar, mais uma vez, quem me deu o mote. O texto dele me inspirou a fazer o meu. )

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TODA AMOR

Já amei com o estômago. Todas aquelas borboletas voando lá dentro, aquele frio na barriga, aquela expectativa, aquela paixão, aquele arrebatamento. Quase ganhei uma úlcera, mas foi tão gostoso.

Já amei com o cérebro. Planejamentos, decisões racionais, conversas de avaliação, calma, passo a passo,  sem sustos, a melhor decisão possível, tudo sob controle. Foi tranquilo, mas foi tão frio e previsível.

Já amei com todos os ossos e músculos. Eu tinha energia pra ir, pra fazer, pra atravessar enormes distâncias, pra passar noites em claro, pra atender a qualquer chamado, pra correr, pra dançar, pra me colocar ali, todinha à disposição. Até emagreci. E foi tão cansativo.

Já amei com o coração. Na mão. Todo ali, de presente, pra outra pessoa. Meu sentimento todo mobilizado, aquela emoção, choro, risadas, aceleramentos inesperados, taquicardia, disritmia, confusão, ai, minha cabeça, meu peito, quanta dor, quanta felicidade, quanto tudo. Foi bom, até que entendi que precisava do coração pro resto da vida, e ainda assim ele explodiu em mil pedaços.

Já amei com o fígado. Aquela sensação de que era demais pra mim, e toda aquela necessidade de metabolizar tudo que vinha, toda aquela sensação de que estava caindo mal, todo aquele mal estar, aquela azia, toda aquela vontade de vomitar de repente. Não deu, lógico.

Já amei com a pele. Ai, aquele arrepio, aquela sensação de completude, aquela vontade de colar e não soltar nunca mais, aquela vontade de tatuar, de marcar, de lanhar, de apertar, de lamber, cheirar, tocar, consumir tudo de uma vez. Foi maravilhoso. Mas era muito superficial.

Já amei com os nervos. Aquela angústia, aquela espera, aquele medo, aquela tremedeira, aquela indecisão, aquela coisa de saber que não é pra ser mas querer forçar a barra, aquela violência comigo mesma, aquele estresse. Não aguentei, pifei.

Já amei com os joelhos. No chão. Por outra pessoa. Pedindo que um milagre acontecesse, que mudasse, e colocasse tudo no lugar. Nada aconteceu. Tem coisas que não podem acontecer nem por milagre. Deus é muito mais sábio que eu.

Já amei com os olhos. À distância. Querendo sem poder ter. Admirando sem poder tocar. Esperando um sinal, imaginando, devaneando, precisando de um tequinho de coragem pra dar aquele passo e acontecer. Numa piscada… Acabou.

Já amei com a boca. Falando, e conversando, e contando, e dividindo experiências, e sorrindo, e beijando, e comendo junto, e saindo, e gastando o batom no banco do carro, e aquela coisa deliciosa de amizade que parece que sempre esteve ali e sempre vai estar, aquele companheirismo todo. Mas nada vai ser pra sempre, a não ser o próprio tempo.

Já amei com o ouvido, e com o ombro. Dei carinho, ouvi todos os lamentos, suportei todas as reclamações, ajudei a levantar a moral, tive todo o cuidado, recolhi todas as lágrimas, entendi, compreendi, esperei, suportei, tive compaixão. Mas de repente senti meus pulmões fechando, e não conseguia mais respirar.

Já amei com a alma. Fui inteira, me joguei, mostrei o melhor de mim, fui vista, vi, me coloquei ali e fui em frente. A vida tem inveja de quem ama com a alma e logo me roubou esse amor.

Já amei com os hormônios e o ritmo frenético dos 15…

Já amei com todos os sonhos, planejamentos, certezas e esperanças dos 20 e poucos…

Já amei com a segurança, beleza, tranquilidade e intensidade dos 30 e poucos…

E até posso dizer que já amei com a maturidade, a nostalgia e as dúvidas dos 40.

Já amei por decisão… Por conveniência… Por medo… Por indiferença… Por desejo… Por desespero… Por empurrão… Por distração… Por hábito… Por motivação… Por sentimento… Porque sim e porque não.

Hoje cedo, pensando no post do dia dos namorados que há anos coloco aqui, estava pensando, e pensando tanto, será que acabou? Será que ainda tenho algo a dizer, a viver? Quem já amou de tantos jeitos, que parecem certos como trajetória, mas errados, como lembrança… Será que sobrou alguma coisa? Será que ainda quero mesmo essa coisa toda difícil e predatória que é o amor? Com o que mais de mim ainda tenho que amar, o que mais falta dar, o que mais falta viver?

Passei o dia meio de mau humor, pensando que ainda bem que não tenho um amor hoje bom o suficiente pra me fazer sair de casa no friozinho, encarar as filas nos restaurantes e me fazer pensar em presentinhos e cartõezinhos que vão ficar na poeira do tempo, como tantos outros que já fiz, ou ganhei, ou dei.

Mas “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”.

Não acabou não. Ainda falta.

Falta alguém que me olhe e me queira assim… Inteira. Que aceite o pacote todo. Que leve os pés cansados, as mãos calejadas, o cérebro pilhado, o coração tantas vezes  arrebentado e remendado, a alma pisoteada, os olhos vermelhos, a pele sem aquele frescor e firmeza, a boca mais quieta, os ouvidos já meio tampados… Alguém que olhe tudo e me deixe amar inteira, com tudo que eu tenho, com tudo que sou, e goste disso.

Existe? Vou encontrar? Vai rolar? Vou conseguir me entregar de novo? Não sei.

Mas se rolar… Ah, vai ser tão bom. E não vai terminar. O que não posso é deixar de esperar… De tentar.

“…E é tão bonito ter os pés no chão e ver que o melhor da vida vai começar…”

Feliz dia dos namorados, pra quem tem a coragem, a decência e o prazer de amar com tudo e mais um pouco. 🙂