O PATINHO LINDO

Era uma vez uma mamãe pata. Como todas as mães, ela ficou muito feliz quando colocou seus ovinhos e começou a chocá-los. O tempo de choca é importante para que as mamães possam ter sonhos sobre seus patinhos… Imaginá-los, esperá-los, ter medo por eles, sentir amor por eles, antes mesmo que eles existam. Foi uma maneira que a natureza criou para plantar amor no coração das mamães patas (porque amor não é fácil de criar). Enquanto chocava seus ovinhos, mamãe pata também chocava suas expectativas.

Os ovinhos começaram a se abrir. Finalmente tinha chegado a hora! Todos os ovinhos foram estourando a casca, e de lá saíram patinhos, patinhos como todos os outros patinhos da Terra, frágeis, dependentes, fofinhos. Em cada patinho, mamãe pata colou os sonhos que vinha sonhando. Mas um ovo demorou mais para se abrir. E mamãe pata voltou a chocá-lo, preocupada, mas amorosa ainda. Com o passar dos dias, aconteceu algo diferente: os sonhos sonhados por mamãe pata começaram a retroceder… E ela não sabia o que esperar. Um patinho que demorava tanto pra nascer, só podia ser especial, além ou aquém de tudo que ela pudesse esperar. Mamãe pata teve medo de fazer um sonho pra ele. Mesmo assim, continuou chocando.

Tempos depois, nasceu um patinho. Não haviam mais sonhos para serem colados. Até porque era verdade, ele não era como os outros. Desde que abriu os olhos, ao invés de olhar a mamãe, ou o que estava mais próximo, ele olhou para o sol, para as nuvens… Para longe. Mamãe pata ficou um pouco preocupada. Seria o seu patinho especial, diferente? Ela já conhecia o mundo… Já sabia que os patinhos diferentes não eram tolerados com tranquilidade… Sabia que um patinho diferente sofreria um pouco mais.

Ele era maior que os outros. Um pouco mais lento, mas extremamente profundo. Aprendia as coisas com muita facilidade, era inteligentíssimo. Mas acima de tudo… Era um patinho sonhador.

Sonhava, sonhava, sonhava. Sonhava sonhos pra ele, sonhos para os mais próximos, sonhos para o mundo todo. E tinha nele uma serenidade e um amor que não cabiam nele. E era um amor tão grande que o fazia olhar para as pessoas e saber tudo delas, amá-las quase que instantaneamente. Mas justamente por isso, por evidenciar essa falta de amor que havia entre as criaturas com o seu super amor… Ele não era compreendido. E muito menos bem quisto.

Os da mesma idade, por inveja ou por medo, costumavam isolá-lo. Os mais velhos achavam que era um patinho atrasado, que gostava de vadiar. Não entendiam essa postura contemplativa. O patinho tinha coração de poeta. E os poetas estão sempre sós neste mundo. Em sua solidão, tão profunda, eles vêem o tamanho da paisagem – do mundo e das pessoas. Os patinhos com coração de poeta vêem tudo nas criaturas. Vêem a guerra, a maldade, as diversas fomes, as carências que há dentro de cada um. Vêem a alegria, a satisfação, a disposição. Vêem a melancolia, o medo, a raiva, o desprezo. E sentem tudo muito profundamente. Pobre patinho… Não sabia o que fazer com tudo isso. Por isso, tornava-se cada vez mais diferente, cada vez mais só.

Mas ele não gostava de ser só. Por isso, tentou mudar a si mesmo. Não conseguiu. Depois, tentou mudar o mundo. Também não deu certo. Depois ele achou que o problema era o mundo a sua volta. Então, sentiu vontade de fugir. Fugir para bem longe, para algum lugar onde ele não fosse tão diferente, onde ele pudesse ser quem é, junto a pessoas iguais como ele. Mas em todos os lugares do mundo onde ele foi, não encontrou ambientes diferentes. As criaturas do mundo se repetem, se repetem, se repetem… Incansavelmente.

Cansado de tudo, o patinho resolveu parar. Parar de procurar, de mudar, de tentar mudar o mundo, parar de querer companhia. E então, o patinho descobriu o remédio para a sua intensidade: o tempo.

Sim, o tempo… O tempo tinha muito para ensinar ao patinho. Ensinar a ter mais paciência com o insistente atraso do mundo… Ensinar a sempre achar um jeito de se comunicar com as pessoas… Ensinar a achar as companhias certas, nas horas certas, do jeito certo. E o patinho foi aprendendo… Aprendendo.

O patinho foi feliz. Trabalhou, estudou, arrumou amigos, se divertiu… Se apaixonou e fez uma nova família, com outros patinhos… E foi o melhor pai patinho de todos.

E, ainda velhinho, o patinho olhava para o horizonte da mesma maneira que olhou quando nasceu: querendo catar estrelas, querendo assoprar as nuvens, querendo amainar o calor do sol e tocar no brilho da lua. E as criaturas gostavam de ouvir as histórias do patinho. E, por causa dele, elas também aprendiam a olhar para o universo de um jeito diferente… O de fora e o de dentro. O patinho enfeitou o mundo o quanto pode.

E então o mundo percebeu a verdade. Ele não era um patinho feio, estranho ou diferente. Era um patinho lindo… Lindo, lindo, lindo. E na feiura do mundo… Ele brilhava. E fazia brilhar.

PARA QUEM BEM VIVEU O AMOR

20/11/2013

Oi, meu bem.

Já tem um tempo que não escrevo… É o que acontece quando tenho muito a dizer – nada consegue ser dito. Talvez não faça diferença mesmo, mas hoje eu preciso deixar vazar um pouco de mim pra ver se o sono vem. O sono tranquilo que há dois meses não tenho mais… E que me faz tanta falta.

E eu sinto falta, sim… Falta de dormir, falta de abraço, de beijo, de ajuda, de sorriso, de papo, de sexo, de ressonância, de parceria, de companhia, de música, falta de tudo. Tudo que vinha de você. Não se trata apenas de sentimento romântico… É falta física, concreta, que aos poucos vai se materializando e me deixando com essa sensação estranha de que, por mais que eu tente esconder, algo está muito errado… Algo deu muito errado.

Eu continuo levando a vida, e o tempo continua passando. Sabe que muita gente achou que eu estivesse grávida? Sonharam com isso, pensaram isso, tiveram premonições diversas com isso, e eu, de repente, até pensei que podia ser verdade algo assim acontecer. Lembrei de todas as vezes em que você me pediu isso, esse filho que você tanto falava, com quem você tanto sonhava – e  eu te perguntei por que a pressa. Acho que as pessoas queridas queriam muito isso porque, como eu, queriam que a vida desse algum troco, que não fosse possível que não ficasse nada assim, grandioso, de nós dois pra mim, pra elas. Mas não aconteceu. É isso mesmo… Você morreu e eu fiquei sozinha.

As pessoas são ótimas, muitas delas são. Mas tem também outras que são insuportáveis, e que eu já não suporto. Aprendi a me defender, sabe. Você ia gostar de ver esse meu jeito, meio revoltado, como você diria. Você puxava a minha orelha dizendo que eu não queria nunca desagradar ninguém, e que isso me consumia. Mas não ando fazendo questão, não. E confesso, essa é a parte mais difícil. Se eu tivesse dinheiro, certamente viajaria pra muito longe, onde ninguém me conhecesse, onde eu pudesse estar realmente só. Eu fugiria.

Penso nisso todo santo dia, em como eu poderia fugir. Não tenho vontade de trabalhar, mas me obrigo a ir. Não tenho vontade de atender o telefone, nem de ir arrumar o óculos, nem de resolver o monte de coisas sobre você que tenho pra resolver, nem de comparecer a festas de nenhum tipo, nem de comprar uma roupa nova, ou de sair de casa. Vontade nenhuma mesmo de nada. Mas me obrigo. Eu sou assim, dessas que fazem o que precisa ser feito. Foi nessas que um dia desses fui cortar o cabelo, que estava tão horrível, e pedi pra Ana virar a cadeira, pois não queria me ver no espelho.  Não tenho vontade disso também. Essa falta de vontade é mesmo depressiva, mas estou no meu direito. E quero ver quem prove que não. Eu não vou me matar, claro que não. Mas não ligaria muito se eu fosse logo, porque a vida é meio esse saco mesmo, essa coisa que a gente nunca tem sossego, e esse mundo é tão errado…  Isso só ameniza quando me distraio… Quando a minha fuga acontece, embora de maneira simbólica, quando finjo que nada aconteceu.

Nos últimos dias tenho pensado… Não posso mais fazer o que estou fazendo. Eu fico aqui nessa casa, nossa casa, fazendo as coisas, lavando, cozinhando, saindo para o trabalho, voltando, recebendo pessoas, pagando as contas, assistindo TV, lendo, estudando, colocando o carro na garagem ( e já estou fazendo isso muito bem ), escrevendo pra você… E é como se a qualquer momento você fosse voltar. Eu sei que parece insanidade, mas duvido que alguém passe por um luto difícil e inesperado sem enlouquecer um pouco. Mas chega uma hora em que é preciso olhar pra realidade: você não vai voltar. Não mesmo. Eu não sou mais casada, sou viúva. Não é mera questão de estado civil… É real. Tenho que tirar a aliança, colocar nossas lembranças em uma caixa e olhar pros espaços vazios assim, como eles são… Vazios.

Quando alguém me lembra do que aconteceu, eu fico com raiva, porque não queria lembrar, mesmo que não consiga esquecer, entende? As pessoas dizem tantas coisas de tantos jeitos, e quase nada me acrescenta algo, e são poucas as pessoas que querem realmente me ouvir, e não falar delas mesmas. Outras são fracas e ficam inconformadas por eu não reagir como elas, outras querem mandar no meu tempo interno, outras estranham quando eu dou risada de algo e, incrível – dessa vez, não foi como das outras vezes. Acho que nosso caso é tão chocante que ninguém quer falar dele de verdade comigo. Ficam cheio de dedos, falando baixinho às minhas costas, comentando sobre mim por aí, mas poucos tem coragem de olhar pra mim, perguntar o que tenho sentido e aguentar o tranco da resposta depois. Nem mesmo Deus parece querer se pronunciar, nem meu inconsciente me deixa lembrar dos meus sonhos. Por isso eu não me importo mais com tudo isso. Meu rosto e meu coração estão cheios de marcas, e quem quiser estar perto de mim vai ter que olhar pra minha dor… Infelizmente.

O que sobra é cada vez menos de você, porque é isso que o tempo faz, para o bem e para o mal – apaga rastros. Eu fico com medo disso, sabe. Medo de perder você de vez. De esquecer seu cheiro, de esquecer o som da sua voz bonita, de não lembrar de você sorrindo – só lembrar de você morrendo na minha frente. Aliás, eu acho tão triste que essa seja a imagem de você que venha à minha cabeça, aquilo que só eu vi… Seus olhos perdendo o brilho. Por isso ainda gosto de ver nosso álbum de casamento… Lá você está feliz.

Devo começar a pensar minha mudança desta casa. Não queria ir embora, mas preciso, porque pagar e viver nessa casa não era tarefa pra um… Era pra dois. Isso é o que mais me dói. Desfazer o cantinho da beleza que você montou pra mim, tirar o que colocamos na parede, embalar cada item da nossa cozinha maravilhosa, sair daqui, dessa casa linda que eu gosto tanto… Esse gosto de fracasso horrível que vai ser tudo isso. Fracasso, já dizia o Cazuza, essa palavra triste que tem nome de perfume barato. Vou ter que dar alguns passos pra trás, e isso me deixa tão triste… Tão triste, amor.

Dia desses vieram me dizer que alguém que viu você no outro mundo tinha baixado em algum lugar por aí e tinha me deixado uma mensagem, dizendo que você tinha dito que estava bem com sua mãezinha e com saudades, que eu não estava sozinha, e que você estaria comigo, e que eu ia continuar meu caminho de luz, e blá blá blá. Você sabe que não acredito nessas coisas, e tenho certeza que, se você me mandasse uma mensagem, começaria dizendo, você tem razão, Karina… Aqui tem coisas muito melhores pra se fazer do que ficar rondando o mundo dos vivos, pt, saudações e toca o barco… Era o que você diria. E assim me faria sorrir mais uma vez. Já que você foi, não quero mensagens suas… E talvez faça parte eu não escrever mais pra você também. Creio, de verdade, que o que vivemos foi tão fundo que já dissemos tudo. Aliás, veja você… Ao tentar me consolar da perda de alguém que eu amei e pra tentar me convencer que não era bom que eu ficasse estagnada no meu sofrimento, você me disse coisas que hoje me consolam por ter perdido você. Isso eu não tenho medo que a memória apague.

Não gostaria que a saudade me deixasse amarga e rabugenta como aquele velhinho do filme. E então, eu me lembrei do Gonzaguinha. Estranho gente que faz uma música que fala de saudade chamando-a de “feliz”. Mas é assim que é… Pelo menos “para quem bem viveu o amor”. E eu vivi… Nós vivemos. E só por isso eu sei que tudo isso vai passar… E eu vou chegar lá.

Amo você… Mas vou te deixar. Aos poucos, mas vou. Não me queira mal por isso… Que eu não vou querer mal você por ter desfeito o nosso trato de felizes para sempre.

“Para quem bem viveu o amor

Duas vidas que abrem não acabam com a luz
São pequenas estrelas que correm no céu
Trajetórias opostas sem jamais deixar de se olhar

É um carinho guardado no cofre de um coração que voou
É um afeto deixado nas veias de um coração que ficou
É a certeza da eterna presença da vida que foi na vida que vai
É a saudade da boa feliz, cantar

Que foi, foi, foi… Foi bom e pra sempre será
Mais, mais, mais maravilhosamente amar…”

UM PEDAÇO DE BOLO

Hoje eu passaria na Sodiê e compraria um pedaço de bolo pra gente comemorar. Mês passado você me disse que compraria um bolo bem casado, cheio de doce de leite, porque o nosso casamento era muito doce, e a gente tinha casado bem, mesmo. Eu concordei com você. E a gente passaria a tarde toda namorando, falando bobagem, dando risada e cochilando, na maior preguiça. E eu diria pra você, puxa, o nosso casamento é tão novinho, mas parece que faz tanto tempo… 3 meses que valeram 3 décadas. Tenho certeza que você concordaria comigo.

Ou talvez hoje você teria estado comigo e com a minha família, ou teríamos estado com a sua, ou quem sabe a gente faria um almoço bacana aqui em casa chamando as duas famílias e alguns amigos, pra esse povo partilhar da nossa felicidade. E eu ficaria cansada e você feliz e radiante como andava ultimamente, e a gente se sentiria daquele jeito realizado, e você daria risada com as minhas atrapalhações, e com o meu bico pra esse horário de verão que eu odeio.

Hoje você deixaria um bilhete na porta da geladeira, aqueles bilhetes com aqueles apelidos carinhosos que você vivia deixando espalhados pra mim por aí, seus bilhetes legais e apaixonados. E eu pegaria o bilhete e pensaria, puxa, não acredito que isso está acontecendo… É bom demais pra ser verdade. Acho que era mesmo.

Hoje a gente sonharia um pouco mais, como andávamos fazendo, com o nosso filho ou nossa filha, com a nossa casa, e talvez a gente tivesse se inscrito em um cursinho bacana de iniciação literária, ou você já tivesse começado a faculdade… Aquela que nem deu tempo de você saber que passou. A gente gostava de sonhar. E eu gostava do seu jeito, tão confiante, dizendo que ia dar certo, e ia sim, e pronto, já tinha dado certo. Eu gostava de você resolvendo todas as minhas angústias com um beijo, um agarrão,  e uma apertada no nariz.

Talvez a gente já tivesse brigado alguma vez, talvez outra coisa ruim tivesse acontecido, talvez uma coisa muito legal tivesse acontecido, mas de um jeito ou de outro, a gente estaria junto.

Eu levo a vida, sim, você sabe que eu levo… Se tem uma coisa que eu sou é uma pessoa que dá conta do recado, o que de maneira nenhuma é uma vantagem, mas é assim que é. E se a vida decidiu que eu tinha que continuar aqui, viva e sozinha, então é assim que vai ser. Aprendi que “não discuto com o destino, o que pintar, eu assino”, e acabou. Eu vou continuar trabalhando, estudando, cuidando das pessoas, convivendo, sorrindo o dia, chorando a noite… E o resto vai passar. “Tristeza não tem fim, felicidade sim.” Eu deveria ter ouvido o poeta.

Eu teria muito pra falar, mas ultimamente tudo que eu quero é solidão e silêncio. Só. Não me interessam o telefone, nem os lugares para passear, nem as notícias cada vez mais absurdas, nem as providências, nem os planos, nem as lembranças. Por gratidão, tento corresponder ao carinho das pessoas que se importam… E espero. Espero a vida dar sua volta mais uma vez.

Hoje, na verdade, eu não comprei um pedaço de bolo. Porque, meu bem, a vida não tem mais aquele gostinho doce que você deixava em mim. Não era o bolo que era tão bom… Mas era comê-lo com você que fazia sentido.

Sim, estou apática, raivosa, desesperançosa e descrente. Mas mesmo isso acaba. É só esperar.

“O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou
O que foi feito da vida, o que foi feito do amor?
Quisera encontrar aquele verso menino que escrevi há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade, falo assim por saber
Se muito vale o já feito, mais vale o que será
E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir
Falo assim sem tristeza, falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer
Outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz…”

MAIS NOTÍCIAS DE MIM

São Paulo, 06 de outubro de 2013

Olá, meu bem.

Continuo com saudades. Continuo morrendo de vontade de falar com você… De deixar você saber de mim.

O tempo me parece mais estranho que nunca. Tem horas que parece que um século se passou, desde que você morreu. Tem horas que tudo parece tão absurdo como se fosse ontem, e dói absurdamente. O tempo cronos passa sem parar, do mesmo jeito, e isso vai ajudar. Isso eu eu sei. Mas o tempo de dentro está em espiral, dando voltas e mais voltas, me deixando perdida… Isso eu sinto. E o pior, você não está aqui pra me explicar as coisas, do jeito que sempre fez.

Foi uma semana longa, mas passou. Segunda, peguei sua certidão de óbito e fiquei pensando no que aquele papel se parece com você, com quem você era. Quem me atendeu foi o mesmo moço que pegou os papéis do nosso casamento, tão pouco tempo antes. Ele se lembrou de nós, disse que reparou em como estávamos felizes naquele dia, que chamou a atenção dele o nosso jeito. Também ficou triste por nós, ficou com pena de mim. E quando as pessoas me olham do jeito como ele me olhou, eu fico pensando que não estaria louca se subisse agora para a nossa cama e não quisesse levantar de lá nunca mais. Fui também ao seu trabalho, avisar sobre tudo, e são tantos papéis… Papéis que de modo algum preenchem o que você foi. Coisa estranha, ser sua viúva. Viúva, na raiz latina da palavra – alguém que está vazia.

A casa está vazia, cada vez mais. Sinto que ela, que era do nosso jeito, nosso tamanho, a cada dia fica grande demais pra mim. Não sei o que fazer. Algumas pessoas esperavam que eu estivesse prostrada, chorando, acabada. Outras esperavam que eu já tivesse tomado algumas decisões importantes. Não sei quem tem razão, mas nem ligo. Só eu sei o que vai dentro de mim… E no mais, espero o tempo passar pra resolver o que não tem jeito.

Terça, voltei ao trabalho. Foi um esforço sobre-humano, mas eu fui. Lá recebi muito carinho, como tenho recebido de tanta gente, durante toda a semana. As crianças me encheram de abraços, beijos e perguntas; as amigas, que casaram comigo, também se mostram enlutadas, se esforçando pra sorrir e me animar. Foi bom ter voltado, você sabe o quanto amo estar ali e o quanto amo o que faço… Mas faltou você, no final do dia, me esperando pra falarmos… Pra você rir dos meus comentários, e pra dormir comigo. Talvez, pela sua falta, eu quase não tenha dormido esses dias… Mas tem uma hora que o cansaço do corpo vence o protesto do coração, e eu desmaio… Pra acordar assustada, pensando se tudo isso está sendo um sonho, e se vou acordar uma hora dessas e perceber que você está ali.

Voltei também pras coisas da faculdade, mesmo tendo enorme dificuldade de me concentrar. Não queria falar de sociologia da infância, de ensino tradicional, de ferramentas de observação… Só tem duas coisas que eu quero – ficar em silêncio, ou falar de você. As pessoas não me entendem, nenhuma delas, mas não as culpo… Ninguém que eu conheço passou por algo assim. Por isso fiquei tão feliz quando chegou o livro do C. S. Lewis sobre o luto. Estou lendo, e isso me dá um enorme alento. É importante a gente saber que tem alguém, no mundo, que entende o que você está passando, mas nem tem coragem de confessar.

O chuveiro continua pingando, e parece que agora a torneira está pingando também. O Felipe fez aniversário. A Deby e o Guilherme só tiraram 10 na escola. Falo com sua tia quase todos os dias. Paguei o aluguel.  Limpei a máquina de lavar, e o Rodrigo consertou a porta do armário da cozinha. Meu cabelo está caindo assustadoramente. O Levy vai mesmo fazer negócio, e a minha mãe está sendo a melhor mãe do mundo. Fiz a feirinha da semana no japonês. Ontem saí e fiquei um pouco com as meninas, que cuidam de mim como irmãs, como madrinhas que são.  As crianças vieram aqui hoje, encheram a casa de barulho e alegria, foi legal… E eu coloquei seu prato na mesa sem querer. A Letícia me pergunta toda hora se estou sentindo saudade – acho que ela faz o que os outros não tem coragem, olha pra mim e vê a sua falta no meu rosto. A geladeira ficou vazia, só com água, tomate e manteiga.

Falar em esvaziar, ontem tive coragem e comecei a mexer nas suas coisas. Foi tanta dor que não posso explicar. Chamei a Marisa Monte pra me fazer companhia, com seu cor de rosa e carvão. A sua imagem está aos poucos ficando embaçada na minha mente. O seu cheiro está sumindo dos cantos da casa. As suas comidas estragaram, suas últimas roupas já foram lavadas, o seu travesseiro já desamassou. Como a existência humana é mesmo efêmera, e se eu não tivesse um pouco de fé de que há sentido em tudo isso, eu não me importaria em morrer agora mesmo. As suas coisas estão indo embora. Fiquei com algumas. A camisa roxa, a gravata do casamento, o perfume que você tanto gostava, os seus livros do Guimarães, o seu cd do Bob Marley. Vai ser difícil arrancar você da minha vida, não por causa dos objetos, das roupas, das coisas. Mas por causa das lembranças, por causa de tudo que você mudou em mim.. Espero ter sabedoria para fazer o melhor com tudo aquilo. Espero ter paciência para lidar melhor com tudo isso.

As pessoas se espantam com a minha força, com esse meu jeito de continuar, e continuar, e continuar, e tampar o nariz, e ir em frente, e segurar as pontas dos outros ( e quanto mais preciso de cuidado, mais aparece gente pra eu cuidar ), e dormir sozinha aqui, e ser assim. Eu não gosto de ser assim, eu queria ser um pouco mais frágil e me permitir desmontar. Faço isso aos poucos, em escapes. Mas talvez -e só talvez – isso seja uma dádiva. Eu não aguentaria sentir todo o impacto da destruição dos nossos sonhos de uma vez. A dor é de quem tem.

Torça por mim… Continuo amando você. Muito.

“É meu troféu, é o que restou,
É o que me aquece sem me dar calor
Se eu não tenho o meu amor,
Eu tenho a minha dor.

A sala, o quarto, a casa está vazia,
A cozinha, o corredor
Se nos meus braços ela não se aninha,
A dor é minha, a dor…”

 

 

NOTÍCIAS DE MIM

São Paulo, 30 de setembro de 2013

Bom dia, M. …

Acordei nessa cama enorme com dor de cabeça, ouvindo o barulho da chuva. Foi uma noite longa. O sono veio no fim da madrugada. E quase no fim da manhã acordei, ouvindo o dia chuvoso, um dia perfeito pra começar algo que vá para dentro, e não para fora. Chegou a hora de começarmos uma conversa que vai ser longa… Na verdade, a saudade de você vai ser uma estrada longa. Achei que você gostaria de saber notícias de mim.

Sei que você não pode ouvir, ver, sentir nada agora. De acordo com o que acredito ( e sei que minha verdade não é a única ), você está dormindo, repousando nos braços do Pai, curado, tranquilo. Mesmo assim, escrevo agora a você, esse você abstrato. E não me angustio por esta carta ser uma carta sem resposta, porque a resposta virá. Pra você, as perguntas não fazem mais sentido. E pra mim… A mim só resta aguardar o tempo fazer seu implacável trabalho.

O Mafalda Crescida é o meu inventário emocional, um incrível filme do meu desenvolvimento como pessoa. Há 10 anos registro aqui parte das coisas que sinto sobre a vida, sobre as pessoas, sobre mim, devaneios e fatos. Estava registrando, inclusive, partes da imensidão de sentimentos que foi ter me casado com você e começarmos uma vida juntos. Acordei me lembrando de você, sentindo uma enorme necessidade de te contar coisas… E depois me lembrei do blog.

Você morreu, eu fiquei. Quantas vezes conversamos sobre escrever, você, que também era bom com as letras. Você dizia, escrever comunica ideias. Eu dizia, escrever dá descanso aos sentimentos. Pra você, era de dentro pra fora. Pra mim, era de dentro, pra fora, e depois pra dentro de novo. Senti necessidade de escrever pra você. Escrever por você. Escrever você. É um jeito de manter você, esse você que até poucos dias atrás era tão presente e concreto, vivo e perto de mim.

Muita gente tem pena de mim. Pobre moça, casou-se apenas dois meses atrás, e já ficou viúva. Justo ela, que já tinha também perdido um noivo de repente, e ficou viúva antes de casar. Pobre mulher, teve que ver seu marido morrer em seus braços, sem nada poder fazer, e agora, como vai ser? Pobre ser humano, não tem sorte no amor, ama, se entrega, e depois perde, fica sozinha. É verdade, é de dar pena. Parece injusto. Parece triste demais. E é.

E nesses dias, eu senti de tudo. Em alguns momentos, eu também tive dó de mim. Tive raiva de você, raiva de Deus. Tive medo do que vai vir.  Senti uma pedra no meu peito. Senti desespero. Senti uma tristeza milenar dentro de mim, uma tristeza de todas as pessoas que sentiram essa perda um dia. Tive dúvidas racionais e sentimentos irracionais. Mas tudo isso passa quando me lembro de você.

Você… Ai, você. As pessoas falam sobre você. Calado, meio marrudo, um irmão amigo, um sobrinho cuidadoso e querido, um filho amado, um amigo brincalhão, um cara inteligente, um companheiro ponta firme, um coração frágil, uma pessoa interessante, um moço sofrido, uma incógnita.

Cada um sente sua falta de um jeito, mas eu sinto falta de você todo. Sinto falta do meu amigo, aquele que prestava atenção em tudo que eu dizia e me fazia enxergar as coisas do cotidiano de um outro jeito, via televisão junto, saia comigo pra passear de carro, que se divertia comigo, que comia junto. Sinto falta da sua tagarelice noturna, quando eu queria ficar quieta e você queria conversar sem parar. Sinto falta dos seus melindres de bebê grandão. Sinto falta de você me fazendo rir quase que todo o tempo, imitando meus bicos, imitando meu mimimi. Sinto falta do meu parente, que estava comigo no seio da minha família, observando as crianças crescerem, que deu pra mim também novos irmãos, uma sobrinha linda, uma tia. Sinto falta do meu marido, me olhando dormir de noite, me achando linda o tempo inteiro, me elogiando sem parar, convivendo comigo numa leveza que quase me tirava do chão de tão perfeita e harmoniosa, penteando meu cabelo, me ajudando a escolher a roupa, cuidando de mim. Sinto falta do meu homem me fazendo sentir a mulher mais satisfeita do mundo, e nisso éramos tão bons juntos. Sinto falta do meu companheiro, resolvendo os pepinos da casa, combinando o cardápio da janta, me ajudando a pagar as contas, carregando as sacolas do mercado, lavando a roupa, me ajudando a colocar o carro na garagem. Sinto falta do meu irmão, com quem eu queria fazer todos os projetos, que olhava pra vida com a mesma sede, a mesma revolta, o mesmo jeito de ver o mundo, que orava comigo, que dividia comigo uma visão de vida e de mundo, que acreditava nas mesmas causas e tinha orgulho de mim. Você, e toda sua gentileza, sua delicadeza, sua força, seu bom humor, sua fé, sua inteligência… “Sua vida, meu caminho, nosso amor.”

Foi uma semana bem longa, desde que enterramos você no cemitério em que estavam os corpos do seu pai, que morreu com a mesma idade que você… Da sua mãe adorada, de quem você sentia tanta falta e sempre lembrava. Uma semana intensa, confusa, doloridíssima. Gostaria de fazer como C.S.Lewis, que descreveu com precisão cirúrgica as emoções do luto, mas não tenho essa habilidade. Posso dizer que foi uma semana suspensa… Como se o tempo tivesse parado, em choque. Um minuto de silêncio que durou uma semana. E agora eu tenho que recomeçar. Porque a vida aqui não pára e nem dá o tempo pra gente ir fundo nos sentimentos. Talvez seja melhor assim.

Não quis sair muito da nossa casa. Aqui tem ainda o seu cheiro, aqui me lembro perfeitamente do som da sua voz, aqui na nossa cama ainda sinto seu abraço… Aqui estão suas coisas, nossas coisas, esse sonho que foi o nosso lar construído com amor e alegria em cada pedacinho, em cada prateleira, em cada roupa no varal e no guarda-roupa, em cada coisa misturada, em cada receita anotada no caderninho, em cada detalhe. Outro dia fiz o bolo de banana que você adorava, só pra espalhar aquele cheiro pela casa e lembrar de você assim, fisicamente, sensorialmente… Sinto tanto sua falta, amor. As pessoas se preocupam por eu estar sozinha aqui, mas na verdade, não estou sozinha. Estou acompanhada da nossa história, essa história tão linda que nós fizemos, e que agora está me sustentando. Essa história que permite que eu fique profundamente triste sem me desesperar, que me traz essa paz enorme. Só eu e você podemos saber o tamanho e o significado da nossa história.

Tenho me surpreendido com essa força que eu tenho em mim. Não sei de onde vem essa força, amor. De mim não pode ser. Vem de Deus, vem das pessoas, vem da experiência de uma vida sofrida, vem de tudo que eu aprendi, vem das perdas superadas de antes, vem da fé, vem de tudo isso junto. Você diria que vem de mim, como disse tantas vezes, você tantas vezes me dizia que eu não era uma pessoa como as outras, e que eu era forte, que eu era capaz, que eu via as coisas de um jeito diferente, e você me via diferente. E como eu disse pra você naquela manhã daquele domingo de primavera, aquele em que você se foi, e a gente ainda nem imaginava o que ia acontecer dali a poucas horas… Quando você me perguntou, brincando, se no seu velório eu me jogaria no caixão com você e pediria pra ir junto, eu te disse, bem firme, não, eu não vou morrer, eu vou continuar. Você, brincando com a morte, sorrindo, me fez prometer que eu ia continuar, que ia acabar a faculdade, que ia escrever sobre meu trabalho, que ia cuidar da nossa casa, que ia fazer uma coisa que ninguém imaginava que eu faria, que ia seguir. E eu estou seguindo. Sozinha, sim, que essa solidão é tão funda, é de ser humano, e toda companhia é apenas uma ilusão que a gente inventa pra domar essa dor de ser só… E com você, foi quando essa dor ficou tão pequena que quase sumiu.

Sigo também na presença de quem gosta de mim. Falando em pessoas, elas estão aqui perto. Minha família, sua família, meus amigos, nossos amigos. Todos preocupados comigo, sofrendo comigo, dividindo comigo essa dor, de joelhos dobrados por mim. Foram tantas lágrimas repartidas, eu me surpreendi com tanto carinho das pessoas. Ninguém substitui você. Mas estou bem guardada. E está ajudando, sabe. Eu sinto um conforto que só pode vir do céu, do amor dos outros… Não poderia vir de mim. Ontem estive na casa da sua irmã, da sua tia. Foi um momento tão lindo, nós ali, de mãos dadas, cuidando um do outro, chorando juntos, nos abraçando, nos dando força. Tudo isso por causa de você, meu bem. Ontem estive também na igreja. Senti tanto sua falta lá, comigo. Fui deixar meu coração partido aos pés da cruz, pedir pra Jesus cuidar dele, pedir pra Emanuel vir comigo nesta semana, que vou voltar ao trabalho, estabelecer uma nova rotina, resolver coisas. Creio muito que Ele veio… Que na verdade, Ele nunca saiu. 

Olhando as fotos do nosso casamento, eu vejo tanta felicidade, tanta alegria. Eu vejo em mim e em você duas pessoas curadas das amarguras da vida. Vejo um casal apaixonado, esperançoso, abençoado. Vejo uma família se formando, vejo um monte de gente feliz – adultos, jovens, idosos, crianças, casais… Vejo flores, comida boa, música suave, amigos, um dia lindo de sol, uma promessa sendo cumprida. Por isso gosto de olhar, não me causa sofrimento, ao contrário, revive em mim toda a grandeza daquele dia, renova em mim a certeza de que, embora o tempo do relógio pareça pouco, nós fomos felizes eternamente… Renova em mim a certeza de que fizemos tudo certinho, como tinha que ser.

Você me libertou. Me libertou do medo de crescer. Me libertou das dores de amores passados. Me libertou das esquisitices de mim mesma. Me arrependo de coisas, claro que sim. Talvez eu devesse ter parado de tomar o remédio e tentar engravidar desde o primeiro dia, como você queria. Talvez eu não devesse ter enrolado tanto pra casar. Talvez a gente pudesse ter feito diferente. Mas isso é pequeno perto da certeza de que foi como tinha que ser.

O que vem pela frente, eu já sei como é. A saudade… Primeiro, dolorida. Depois, suave. Tentarei ter paciência. Tentarei continuar sendo quem eu sou. Tentarei cuidar de mim e aceitar o cuidado dos outros… Mas tem uma coisa que eu não preciso me esforçar pra fazer… Não pretendo me esquecer de você.

Boa noite, M…

Amo você.

 

ESCRITOS DE CASAMENTO V – PRESENTES

Quando você casa, te dão muitos presentes. Muitos mesmo. Muito mais do que a gente ganharia em muitos aniversários. Eu fiquei impressionada. E muito feliz.

Não é fácil começar uma vida. O custo de se montar uma casa e fazer uma pequena e simplória festa é alto, e as pessoas ajudam porque comemoram com você essa nova etapa. Eu já dei muitos presentes de casamento. Muitos dei com sacrifício, outros nem tanto, mas sempre dei com prazer. Porém, só percebi a importância deles quando fui eu a casar. São muitos mimos vindos dos familiares e amigos – amigos de todo canto, de toda época da vida, de todo jeito e intensidade. Alguns presentes são úteis, outros são bonitos, outros são interessantes. Uns são exclusivíssimos, outros formais, outros elegantes. Mas todos fazem a gente se animar a começar a vida, e marcam a presença das pessoas em cada cantinho da casa, da vida.

Cafeteira, amassador de alho, escova de banheiro, televisão, ventilador, lençol de cama, conjunto de ferramentas, pano de prato,  batedeira, micro-ondas, cesto de roupa, talheres, pratos, copos, fogão, geladeira, tapete, mangueira, máquinas e eletrodomésticos maravilhosos, jogo disso, jogo daquilo, porta-isso, porta-aquilo, aquela quantia em dinheiro que vem na hora em que você mais precisa… Todas essas coisas têm preço, embora o valor delas a gente só consiga perceber mesmo no dia-a-dia.

Coisas têm, sim, preço. Mas as coisas, com o tempo, somem. Infelizmente é verdade. As coisas são assim. Elas se desgastam, quebram, pifam, rasgam, ficam manchadas, queimam, encardem, ficam obsoletas. E em algum tempo, precisam ser trocadas. Com as coisas que nos foram dadas, creio que não será diferente.

Porém tem algo que vem junto com as coisas, que ganhamos de monte por essa ocasião do casamento. Algo belíssimo, que o tempo não é capaz de apagar, que ninguém é capaz de botar preço, que encheu nosso coração de alegria e fez a gente entender bem o significado profundo da palavra benção. Junto com as coisas, nós ganhamos muitos gestos… Gestos de amor, de carinho, de amizade, de simpatia, de nobreza de espírito, de alegria, de atitude, de benção. E esses foram os verdadeiros presentes.

Todas as coisas são legais, mas nunca vamos esquecer de todo o tempo que nos dedicaram os familiares que viveram em função desse casamento junto com a gente nesses meses. Não dá pra esquecer os irmãos que furaram parede, foram com a gente alugar casa, fiaram, fizeram bolo e docinhos, carregaram coisas pra lá e pra cá, conversaram, deram força, embrulharam lembrancinhas e convites, cuidaram pra que tudo saísse perfeito. Não dá pra esquecer as cunhadas que foram pra cozinha, organizaram materiais, dedicaram tempo de descanso, foram na 25 e março, grampearam e separaram papéis, emprestaram seus filhos pra serem pajens e daminhas, gastaram dinheiro com cabeleireiro e aluguel de vestido, arrumaram bibliotecas e armários de cozinha, e ainda por cima, deram toda força o tempo todo pra que a gente visse o lado lindo de tudo. Gestos pequenos ou grandes que nunca vamos esquecer.

Assim como também não esqueceremos da amiga fotógrafa que saiu lá de Ilhéus só para acompanhar a noiva, acalmá-la, e registrar em fotos belíssimas e cheias de emoção esse dia tão importante. Nem dá pra esquecer nenhuma das madrinhas que toparam o desafio de entrarem sozinhas na cerimônia só porque era importante pra nós. As mesmas madrinhas que agiram como irmãs ao aconselhar, dar força, cuidar do bolo, da cerimônia, ajudar a planejar os detalhes. Nós vimos todos esses gestos. Vimos também quem viajou de Brasília, do Rio de Janeiro, de Minas, da Bahia, e de outras cidades do estado e veio sem piscar só pra nos dar um abraço. Vimos também quem não pode vir, mas mandou tanto carinho em correspondências, toalhas bordadas em cores especiais que chegaram pelo correio e que encheram meus olhos de água e nosso banheiro de beleza. Vimos também quem não pode vir, mas queria tanto ter vindo, tanto que o carinho chegou aqui. E sentimos quem esteve de joelho no chão, orando por nós, pedindo todas essas bençãos que vieram.

Também nos tocou a listinha do bolo de noivos em que todo mundo no trabalho colaborou. A gráfica, que fez os convites e lembrancinhas mais lindos que já existiram – esses que foram bolados junto com outra amiga, tão querida, que fez também o livro de assinaturas onde escreveram coisas maravilhosas. E falando em tocar, que maravilha foi a música do nosso casamento, perfeita. Vimos todas as noites em que aqueles amigos saíram para ensaiar depois de um dia de trabalho e largaram em casa os filhos pequenos, com a compreensão dos companheiros e companheiras, tudo pra que o som tocasse em nosso coração para sempre. Ouvimos também um som alto e nítido, só por causa do amigo que veio ajudar a montar a aparelhagem. Assim como ouvimos, e muito, os gestos que foram ditos – as palavras da amiga que me fez sentir a mulher mais especial do mundo no chá de panela; o sermão do pastor, tão inteligente e emocionante; cada sussurro em cada abraço; cada conselho em cada roda de amigos; cada dica animada de quem gosta de criar e fazer festa; cada explosão de felicidade. Deu pra registrar também as conversas de quem segurou as pontas afetivamente, conversando, telefonando, visitando, mandando email, conversando pelo msn, avisando que tudo ia dar certo e ajudando a seguir em frente.

Teve também os gestos pesados. Aqueles, que alguém precisa fazer,e fez. Quem carregou peso, limpou casa, lavou louça, limpou chão, montou decoração com flores, montou mesa, fez sopa, fez torta, mexeu tacho de doce, descascou mandioca, ficou com calo na mão de tanto cortar e enrolar e lavar, empurrou mesa e cadeira, empilhou, entortou,  levou, dirigiu, mexeu, trocou. Cada gesto desse nos poupou e fez nossa vida melhor.

Vimos também os gestos de beleza. As flores, os enfeites, os arranjos de cabelo, as mesas bem montadas, a louça bem lavadinha, o cheiro bom que tinha no ar. Os bordados especiais.

Teve tanto carinho em cada serviço… Vi sorrisos amigos na cozinha, na padaria, na lojinha de xerox, na gráfica, na costureira, no alfaiate, no salão. Em todo lugar tinha gente torcendo por nós.

Tem também os gestos chatos e complicados, mas imprescindíveis. Vimos a prima que resolveu pepinos no dia do casório, a amiga que organizou a cerimônia, quem esperou entrega que não veio, quem saiu correndo pra buscar gelo porque tinha acabado, quem desembolsou grana de última hora e não quis receber de volta, a tia e o tio que ficaram disponíveis pra chata tarefa de esperar entregas, e também foram ao cartório conosco, e também as muitas cabeleireiras que tiveram que trabalhar bem mais cedo naquele sábado, assim como quem saiu lá de São Roque bem cedo pra chegar na hora, e também veio pro chá de panela com tanta alegria e simpatia. E o que dizer de quem perdeu aniversário de neta, jogo de filho, o próprio aniversário, outros casamentos e batizados, só pra estar conosco?

Vimos os gestos de sacrifício. De quem gastou até o que não tinha. De quem veio mesmo sem poder vir. De quem ajudou mesmo sem concordar. De quem brigou pela gente. De quem estava com o coração apertado pelas despedidas, mas sorriu e apoiou. De quem passou por cima de convicções religiosas e pessoais pra nos prestigiar. De quem, mesmo esgotado de cansaço, se doou mais um pouco. De quem veio doente, grávida de barrigão, de gesso, de bengala, de quem dispôs  a si mesmo, sem ter tempo ou dinheiro pra dispor.

Vimos os gestos amorosos da mãe e da tia, que se doaram inteiramente pra nós e conseguiram passar no difícil teste de entender toda essa situação como um ganho… E não uma perda.

Vimos também o enorme presente que foi o dia lindo, o sol, o vento suave, as flores abertas, cada folha cuidadosamente derrubada para formar aquela paisagem belíssima que serviu de fundo pro nosso dia. E antes disso, vimos os pequenos e grandes arranjos que o nosso Pai maior, o Pai do Céu, aquele que tudo pode, fez para garantir que, de fato, nada nos faltasse, e que deitássemos em verdes pastos, bebêssemos de águas tranquilas e tivéssemos a alma refrigerada. A Ele, também teremos sempre que agradecer.

Claro, tem gestos que a gente pode não ter percebido, mas que de alguma forma chegaram a nós. Assim como outros tantos que não dá pra descrever a importância. O fato é que todos esses gestos foram presentes caríssimos que nunca esqueceremos. E que, certamente, nos ajudaram e ajudarão por muito tempo a sermos presente na vida um do outro.

Com o coração grato, só nos resta retribuir no limite das nossas forças… E na infinitude do nosso amor. 🙂

MEDO

Ai, medo medo medo.

O maior sucesso do medo é seu efeito paralisante. Não fosse ele, seríamos pessoas de existência curta, mas intensa e incessantemente em movimento. Qualquer movimento. Puro desejo, puro fluir. Mas o medo nos para, nos dá um respiro pra pensar, pra conter, pra ponderar… Pra decidir.

Claro, há vantagens. Medo protege, conserva, educa, salva, preserva, torna possível a convivência. Mas muitas vezes também nos rouba a inocência, a liberdade, a vontade de fazer coisas interessantes na vida. O medo isola, nos deixa encalacrados em uma prisão pessoal, da qual só nossa decisão de não ter mais medo pode nos tirar. Uma prisão muito triste.

Fiquei pensando nisso depois que sofri, dias atrás, um roubo violento. Eu e meu namorado, colocados pra fora do carro sob a mira de revólveres de desconhecidos, dois homens alucinados berrando conosco, ameaçando, expondo nossa fragilidade, quebrando nossa sensação de eterna segurança. Naquele curto momento, muita coisa passou pela minha cabeça. A minha vida, a vida dele, as coisas que tínhamos, a agressão daquele ato. Quase tudo resolvido ( e devolvido ) depois, percebi que o pior não foi a possibilidade nem o que de fato levaram de nós, e sim o que eles deixaram conosco. O medo. Um medo chato, que incomoda, que nos tirou o prazer de nos despedirmos com calma, do carinho do último beijo, do último olhar do dia, da conversa jogada fora ( e que, só agora percebo, era jogada dentro ). Agora o olhar é desconfiado, apressado… Cauteloso. Perdeu-se parte do encanto. Roubaram parte da alegria de estarmos juntos ali.

E foi então que dei pra pensar em quantas coisas me amedrontam hoje em dia. Eu era mais jovem antes. E de primeiro impulso, achei que era mais corajosa também. Mas não, não é isso não. Olhando bem, mas bem mesmo, percebi que medos sempre me acompanharam. A maturidade anulou alguns, especialmente aqueles medos que eu tinha em relação aos outros – medo de não ser aceita, de parecer ridícula, de dar tudo errado, de não corresponder ao que esperavam de mim, e um fortíssimo medo de dizer não. Medos que passaram com tudo que aprendi e conquistei, a duras penas, na vida ( embora, admito, resquícios deles ainda apareçam ). Mas estar mais velha e mais madura me trouxe novos medos. Medos sérios, graves, que tem a ver com a minha existência, com a perda das pessoas que amo, com a finitude de tudo, com os projetos que precisam ser abortados antes de virarem realidade. Sob o pretexto da prudência, escondo minha preguiça e incapacidade de enfrentamento. O medo ainda continua ganhando várias batalhas.

Olhando por aí, vejo quanto medo paira no ar. Não sou a única a ser roubada por ele. As pessoas ficaram mais inconsequentes no que não deviam… E mais medrosas no que deviam. Uma pena. Mas é muito medo.

E é o medo de algo dar errado que faz a mesmice, o tédio. É o medo da mudança que faz as pessoas cultivarem infelicidades enormes como se fossem a maior joia que possuem. É o medo do contato que faz a solidão tão poderosa. É o medo de olhar que torna as pessoas tão cegas. É o medo de dar um passo na direção errada que faz trilhar o mesmo difícil e pedregoso caminho de sempre. É o medo do ataque que faz os esconderijos serem tão blindados. É o medo de amar livremente que faz a superficialidade dos relacionamentos. É o medo de perder a integridade que faz com que nos comportemos como zumbis, mortos em vida. É o medo do julgamento que nos faz viver uma vida que não é  nossa, e sim a que quiseram pra nós. É o medo de enxergar a realidade que nos coloca em um mundo de devaneios inúteis, alimentado pela ilusão de que temos o controle mesquinho de tudo que acontece e vai acontecer. O medo engana. Não controlamos nada. E em nossa fragilidade e impotência, não nos resta mais nada a não ser esperar que nada de tão ruim vai acontecer enquanto vivemos… E viver.

Não vou deixar de abrir o vidro do carro e sentir o prazer do vento batendo no rosto por medo do que está lá fora, e nem vou deixar de abrir as portas e janelas da casa quando estiver sozinha pra que a luz e a brisa entrem… Não vou mofar. Não vou deixar de dizer o que eu penso com medo de desagradar a quem não faz questão de agradar ninguém. Não vou deixar de ser gentil e receptiva com quem não conheço por medo de não ser correspondida. Não vou deixar de tomar sorvete, e nem de dançar, e nem de sonhar, e nem de ter fé, e nem de beijar demoradamente na despedida. Não vou ter medo de perder o que não quero mais e com isso não mudar pra ganhar o que quero. Não vou  dizer que não consigo e sim que ainda não sei, e com isso vou seguir aprendendo. Não vou deixar meus erros, meus azares e minhas tristezas me acusarem eternamente e me impedirem de ser feliz nas pequenas e grandes coisas. Deixarei pra ter medo dos números e coisas práticas do cotidiano – essas sim, assustadoras por sua capacidade de nos roubarem do que é essencial. O que de bom a vida me trouxer, tentarei receber… Sem medo.

EXPEDIENTE:

* Em 2013 o Mafalda Crescida faz 10 anos. E nessa quase década, conheci através dele muitas pessoas interessantes. Alguns leitores itinerantes, outros bem fiéis ( mais do que eu mesma me mostro ao deixar o blog sem posts por períodos tão longos… ). Por meio desta página, algumas pessoas que convivem comigo conseguiram me conhecer melhor, e isso ressignificou algumas relações. Alguns homens conheceram e se apaixonaram por essas palavras, e outros me amaram mais ainda pelo que eu expressei aqui. Amigos e amores puderam me entender melhor naquilo que só consigo dizer quando paro pra escrever as tais “entrelinhas do cotidiano”. Alguns amigos chegaram, e de repente estava abraçando ao vivo e a cores pessoas com quem talvez nunca tivesse cruzado se não fosse terem me lido e se entendido comigo antes por aqui. São dias, noites, tardes agradáveis, telefonemas, cartas, presentes, cartões, encontros cheios de amor, carinho e identificação, com muitos sotaques diferentes. E pra mim, isso sempre foi o maior ganho do Mafalda na minha vida.

Na última semana, uma de minhas leitoras mais queridas, que se tornou amiga amada, faleceu depois de uma longa e dolorosa luta contra um câncer inexplicável. Isabela Teixeira era jovem, linda, sábia, corajosa, de um sorriso enorme e um grande talento com as palavras. Muitas vezes ela me disse que se entendeu melhor por conta das explicações que faço sobre mim mesma aqui, e isso nos tornava muito mais próximas do que eu mesma imaginava. A partida dela me deixou triste, aquela tristeza a longo prazo, que a gente vai sentindo aos poucos e nos cantinhos do dia-a-dia, e quando me lembro dela, e tenho lembrado muito… Me vem esse susto de pensar que, de fato, como dizia um de nossos poetas preferidos, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Gostaria de escrever algo para ela que honrasse tudo que ela deixou comigo. Quem sabe um dia… Por hora, só meu respeitoso silêncio, envolto na fé de que ainda nos encontraremos de alguma forma… E escreveremos lindas coisas juntas.

ACEITAR… APRENDER

Essa história de amor é, antes de tudo, aceitar. Aceitar, do latim acceptare – “receber de boa vontade”. É bom quando você é assim, recebida com alegria, com vontade, com coração aberto, como se estivesse sendo muito esperada. Não como um acaso, uma surpresa, algo inesperado. Não como um estorvo, algo que de repente aconteceu, e trouxe problemas, e tem que ser contornado. Não como algo que tem que ser encaixado entre um compromisso e outro, algo que tem que ser espremido para caber onde não tem espaço. Não como quem precisa se adequar e se vestir de um outro jeito para merecer ser convidada.  Não como quem está quebrando um galho porque o outro não achou nada melhor pra fazer, ou ninguém melhor pra conhecer. Não com distração, de qualquer jeito… Mas ser aceita… Realmente recebida, como um presente, como algo suave e agradável… Aceita como você é. Ser aceita sem medo de ser acusada por seus defeitos. Sem receio de mostrar-se em todas os seus sucessos. Com seus tormentos do passado… Com todas as suas possibilidades de futuro. Ser aceita, ser curtida, admirada, observada com atenção… Ser degustada aos pedaços, com alegria, com festa, com respeito, com elevação… Com graça. E por isso, também aceitar. Aceitar, apesar de, por causa de, por ocasião de… Aceitar como quem é presenteada ao se doar. Aceitar conhecendo a si mesma, e também querendo investigar o outro por dentro, naquilo que realmente importa. E, nessa de ser aceita, entender-se como pessoa que merece ter amigos que te aceitem, família que te aceite… Um companheiro que te aceite, nas suas grandezas e pequenezas.

Essa história de amor é, depois de tudo, aprendizado. Aprender, em sua origem, apprehendere – “agarrar, tomar posse de”. A gente não agarra se não sabe abrir as mãos na hora certa… A gente não agarra se não sabe fechar as mãos na hora certa. A gente não aprende a amar se não se desprende de si mesma para abraçar o outro… A gente não aprende a amar se não deixa as mãos vazias do passado para enchê-las de futuro. Aprender, um esforço diário. Aprender, uma superação da antiga ignorância pela luz do novo conhecimento. Aprender, sempre e aos poucos, como quem devora o que está aprendendo, mas pelas beiradas. Aprender, desafio depois de desafio. Aprender, sendo fácil ou difícil. A gente não toma posse daquilo que não entende como seu… Mesmo que não seja. A gente não aprende se não se doa para ser de alguém. Aprender, todos os dias, e em todos os movimentos… Aprender, aquilo que traz a mudança… O crescimento. Aprender junto… Aprender sempre.

Na última semana, passei por um teste muito duro. Ao ver meu companheiro em uma cama de hospital, eu tive medo de reviver a dor de ser abandonada mais uma vez. Medo, essa emoção tão verdadeira, genuína… Forte. Medo, mau conselheiro, péssimo delineador de ideias e de fatos. Medo… Esse ladrão da esperança que eu tão lenta e duramente reconstruí. Mas foi aceitando, e aprendendo, que passei na prova. E hoje, posso dizer que amo realmente… Amo de novo.

Eu talvez já tenha sido amada antes. Mas talvez nunca tenha sido aceita de verdade. Talvez já tenha sido engolida, mas nunca aceita. E é maravilhoso merecer ganhar esse presente da vida.

E sei que estarei sempre, sempre aprendendo a amar. Mesmo que doa, mesmo que não seja fácil, estarei sempre aprendendo. Porque só ama quem não desiste… Nem de si mesmo, nem do outro.

Sou grata pelo teste. Grata aos que me ajudaram a passar por ele. E principalmente grata por saber que essa chama que eu carrego dentro de mim não se apagou… Nem se apagará.

A FALTA QUE FAZ UM PAI

Meu pai morreu quando eu tinha 18 anos. Antes disso, ele já tinha morrido um pouco pra mim quando saiu da minha casa e sumiu quase que completamente, antes que eu fizesse 15 anos. E antes disso, nós íamos vendo ele se matar aos poucos, e morrer um pouco pra nós todos os dias, por causa de um alcoolismo grave e pesado, desde que eu era pequena; uma doença crônica e que, hoje vejo, não era só dele, mas era nossa também. A morte do meu pai foi lentíssima e muito, muito dolorida. Para ele e para nós, filhos e esposa. E essa dor não tem como ser relatada ou explicada, nem justificada. Quem cresce no centro de uma família doente, entende justamente o que é isso, o que é essa luta pela sobrevivência emocional; quem não, não entenderia nunca, nem com todas as palavras do mundo ( e me arrisco a dizer que, por isso, essas pessoas deveriam agradecer todos os dias ).

Por muito tempo eu tive que trabalhar duro pra lidar com essa morte de pai, porque essas duas coisas, morte e pai, eram as mais difíceis de entender pra mim; conceitos complexos que me faziam uma pessoa complexa e defendida. Foram alguns anos de terapia, muitas leituras, conversas com pessoas, conversas com Deus, observação do comportamento humano, um curso de Psicologia, reuniões sofridas de Al-Anon, reestruturação da minha família e muita, muita conversa comigo mesma e com ele. Aos poucos, aprendi a compreender essa história de que as pessoas não são perfeitas. Aprendi também a dar a cada um o seu pedaço de culpa e de sucesso dentro de uma história de amor entre pessoas, sejam elas pais e filhos, irmãos, amigos ou amantes. Aprendi a recuperar minha auto-estima, tão esmagada, colei-a de novo, pedaço por pedaço. Aprendi também a buscar essa figura paterna aos pedaços, nos meus tios, no meu avô, nos meus irmãos, e até no meu próprio pai, lembrando dos nossos bons momentos – e eles existiram, e foram muitos. Fui criada por mulheres fortes que não pareciam precisar de homens para nada, e foi difícil, está sendo ainda, me achar como mulher em relacionamento com homens sem ser como elas. Foi difícil lutar contra o impulso egoísta de achar que eu poderia ter um filho sem dar a ele um pai, sem dar a ele uma família, como se eu fosse auto-suficiente. Foi difícil aprender a dizer a palavra PAI, perdoá-lo, e hoje, tantos anos depois, estar aqui, nesta data, sentindo falta de ter um pai… Sentindo falta do MEU pai. Difícil, mas eu nunca desisti, e não desistirei. Por mim, e por ele. Ele, que foi quem mais me ensinou a fazer flores crescerem no meio das pedras nesta vida.

Trabalhando com crianças, já encontrei muitas delas sem pai. Muitas mesmo – desde aquelas que só têm o nome da mãe na certidão de nascimento, passando por aquelas que odeiam seus pais e preferiam ignorá-los, até aquelas que já tiveram muitos pais na vida, sem que nenhum deles chegasse a ser pai de verdade ( e até hoje me emociona ver um pai na reunião da escola, ou indo buscar o filho e carregando ele nos braços, ou brincando com eles no jardim da EMEI enquanto o portão no abre ). Muitos dos meus amigos também não têm pai. Curiosamente ( ou não ), também nunca tive um sogro. Todos os namorados mais constantes não tinham mais pai, ou não sabiam onde eles estavam, ou não me deram a oportunidade de conhecer seus pais. Esse buraco de pai sempre perto de mim, talvez me lembrando do meu próprio buraco… Me lembrando da falta que faz ter um pai.

Isso porque um pai faz muita falta, especialmente para uma filha. Faz falta ter alguém pra ninar você, pra te dar banho, pra dar bronca, pra cuidar das suas coisas, consertar os brinquedos e as coisas que quebram em casa, pra dar presentes, pra sair por aí com você nos ombros, pra dizer pra todo mundo que você é filha dele, pra te defender, pra te elogiar, pra te dizer como você tá linda quando estiver adolescente, pra ficar bravo com o tamanho da sua roupa ou com a quantidade da sua maquiagem, pra te ensinar a dirigir, pra ir te buscar à noite quando você está estudando ou saiu pra badalar, pra te levar ao hospital quando você está doente, pra te emprestar dinheiro, pra dar dura em paquera safado e implicar com seus namorados, pra te ensinar o que você não sabe, pra te levar pelo braço no dia do casamento, pra segurar os seus filhos no colo e levá-los pra passear. Faz falta sim, eu sinto essa falta todos os dias, mesmo tendo aprendido a fazer tudo isso sozinha. Faz falta e sempre fará. Falta sem compensação possível.

Talvez um dia eu também tenha uma família, e espero que nela tenha uma mãe feliz e um pai amoroso e presente. Hoje eu vou estar com meu irmão, que é pai dos meus dois sobrinhos lindos. Ontem, quando o via brincar com os filhos, ele, que cresceu na mesma família que eu, e estava ali, tão presente, firme e carinhoso, eu percebi que meu pai, se o visse, se nos visse, estaria orgulhoso de nós, de quem nos tornamos, de quem ainda podemos nos tornar. Então eu percebi que, pela sua falta ou sua presença, o maior presente que o meu pai me deixou foi ter esperança de sempre fazer um pouco melhor tudo que a vida me der. Não faço a menor ideia de onde ele está, mas pela fé, espero que ele saiba que, acima de todas as dores, eu também tenho orgulho de ser filha dele. E que tudo que eu mais queria hoje era tê-lo por perto pra presenteá-lo, abraçá-lo, cozinhar pra ele e dizer feliz dia dos pais.

Das Pedras

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.

Cora Coralina


( Obrigada a Rô Adorável, que me lembrou dessa pérola linda em forma de canção… )

VOCÊ MERECE UM AMIGO

Você merece um amigo que more bem distante, mas saiba se fazer presente, e outro que te faça perguntar onde anda a cabeça dele, mesmo que ele esteja ao seu lado. Você merece um amigo de antigamente que apareça agora, e um que apareça de vez em quando, e um outro que só aparece nas horas certas, e um outro que insiste em aparecer nas horas erradas ( e só depois você entende como as horas erradas podem ser justamente as certas ). Merece um amigo que apareça com força, e depois suma completamente na poeira do tempo. E merece também um amigo que seja constante e tranquilo.

Você merece um amigo que magoe, que machuque, que arranhe seu sentimento por ação ou inação. E merece um outro que te cure, que assopre, que te encante. Você merece um amigo que te faça esquecer, e outro que não deixe de te lembrar. Merece um amigo casual, e outro bem firme. Merece um amigo que compartilhe tudo, e um outro egoísta, que não te oferece nada ainda por cima leve suas coisas sem devolver.  Você merece um amigo que goste das mesmas coisas que você, e um outro que odeia tudo que você gosta. Merece um amigo que seja indiferente, e outro que preste atenção em tudo. Você merece um amigo que te irrite, e também um que te acalme. Merece um amigo ponta firme, e outro folgado.

Você merece um amigo funcional, que te ajude a fazer coisas que você não é capaz, e merece um outro que não serve pra absolutamente nada. Merece um que te atrapalhe bastante, que te envergonhe e te deixe em maus lençóis, e um outro que te ajude, te salve e te tire do sufoco. Merece um amigo correto, que lembre de todas as datas, e um outro desligado, que não aparece nem quando você convida. Merece um amigo que te cobre, te puna, te faça sentir oprimido. E um outro que te liberte, te apoie da maneira mais irresponsável, te faça voar. Você merece um amigo que te perdoe sempre, e um outro que precisa sempre ser perdoado. Você merece um amigo que te sufoque, e um outro que apenas te proteja.

Você merece um amigo de sempre, com quem o assunto nunca acaba, que vai mudando ao longo da vida com você e te acompanha em cada passo. Você merece também um outro amigo de vez em quando, que de repente não vai mais fazer sentido. Merece um amigo de época, com prazo de validade, amigo só de infância, só de adolescência, só de juventude, só de maturidade, e um outro que seja da vida toda. E também um outro amigo flutuante, que é só puxar e ele vem.

Você merece um amigo que comemore coisas com você, que adore festa e oba-oba. E um outro que não saiba suportar a sua dor, que fuja das suas lágrimas. Você merece um amigo que não perceba o óbvio, e também um outro que perceba o movimento mais sutil. Merece um amigo falso que te ajude a valorizar um amigo verdadeiro. Você merece um amigo que só ouça, e merece um outro que só fale. Merece um amigo que te decepcione, e um outro que seja uma boa surpresa. Você merece um amigo que te abandone na hora H, e um outro que apareça nessa mesma hora. Um que sempre diz as coisas certas, e um outro que só fale besteiras. Merece um que entenda seus sonhos, e um outro que te mostre a realidade.

Você merece um amigo que te ame, e um outro que te suporte. Merece um amigo que te defenda, e um outro que te traia. Merece um amigo que curta a sua presença, e um outro que te rejeite. Você merece um amigo pra ficar sem ver a hora passar, e um outro que você conte os minutos pra ir embora. Merece um amigo que te admire, e um outro que te inveje. Merece um amigo que te infle, e um outro que te murche. Você merece um amigo que precise de você desesperadamente. E um outro de quem você precisa… Desesperadamente.

Você merece um amigo só virtual, outro só de telefone, outro só de encontros, outro só de trabalho, outro só de ônibus, outro só uma vez por semana, outro só de igreja, outro só de sala de espera, outro só de supermercado, outro só de banco, outro só de mesa de bar, outro só de porta de algum lugar, outro só de carta, e um que seja tudo isso. Merece um amigo pra beber, pra compartilhar segredos indizíveis, com quem você pode reclamar da vida e falar mal de todo mundo. Merece um amigo que não te julgue, e te entenda. E um outro que te acuse antes de tentar compreender. Merece um amigo pra falar bem de você em qualquer circusntância, e outro pra te pichar por aí. Um que dispute coisas com você, e outro que te dê tudo de graça. Você merece um amigo atrapalhado, e outro cartesiano. Você merece um amigo que você queira imitar… E outro que você prefere não ver como é. Você merece um amigo completo. E outro em que falta o principal.

Você merece um amigo que se lembre de quem você realmente é. E um outro que finja que não viu quem você realmente é.

Você merece amigos que te mostrem todas as facetas da vida, e que façam  você  ver todas essas facetas em você mesmo.

Você merece um amigo… E merece ser um amigo também.

Feliz dia do amigo a todos que conhecem a alegria e a dor da amizade… Pois ela é como a própria vida: imprevisível, inconstante, eterna e necessária. 🙂