NOVA SÉRIE – ANTIGOS TRABALHOS DE ESCOLA

NOVA SÉRIE – ANTIGOS TRABALHOS DE ESCOLA

Faxina no pc dá nisso. Esse foi escrito aos tenros 18 aninhos, no começo da faculdade de Psicologia, pra uma professora que era uma graça de pessoa. Ela propôs uma reflexão a partir deste texto.

Engraçado como certas coisas não mudam. E outras mudam bastante. Mesmo.

A gente não devia mesmo aceitar um monte de coisas que ficam nos empurrando dia-a-dia para o pior da gente. Porque aos poucos a gente acredita que o pior é só o que tem, e só o que a gente merece, e é tão fácil acreditar no pior…

Não devia mesmo aceitar ser desrespeitado, maltratado, humilhado, diminuído. Não devia mesmo aceitar que nos ensinassem como viver, já que viver é uma coisa que todo mundo nasce sabendo. Não devia deixar que roubassem o brilho da gente, o sorriso, a vontade, o desejo, e até o que temos de ruim. O que a gente tem devia ser só da gente, pra gente dar pra quem, como, onde e do jeito que quisesse. E devia ser assim sempre. A vida da gente só da gente.

A mesma vida que nos provoca a vontade de lutar, crescer, respirar, querer, pode ser diminuída em beleza e importância pela falta de vontade de mudar. Mudar, essa coisa que todo mundo devia fazer a todo momento, mas que, sabe-se lá por que, a gente esquece o caminho, e passa a temer mais que tudo no mundo.

A cada ônibus lotado, a cada mês em que a gente perde noites sem dormir achando que não vai ter dinheiro pra fazer o mínimo, a cada noite mal dormida, a cada garfada engolida no horário apertado de almoço, a cada vez que a gente deixa de abraçar alguém querido porque está de mau humor ou estressado demais para notar a presença de um outro alguém, essa vontade de mudar e de viver vai morrendo um pouquinho. Morrendo de tanto se acostumar.

Acaba sobrando muito pouco pra gente se lembrar que é gente, que tem direitos, que precisa viver e que merece viver muito bem. A gente vai começando a achar que está nesse mundo só pra fazer o que os outros querem, e aos pouquinhos a gente vai esquecendo do querer que está lá dentro, esse querer que é o retrato do que a gente é. E sem saber quem é, e o que quer, a gente vira nada. É como se uma jóia rara e linda fosse sendo encoberta por um monte de pás de lixo, até se perder e ninguém saber que uma coisa tão preciosa está perdida, ali, à-toa…

Aos pouquinhos, a gente vai esquecendo de se chocar quando vê na televisão crianças morrendo de fome. A gente vai esquecendo de reclamar quando chove e milhares de pessoas perdem tudo o que tem porque ninguém joga papel no lixo. A gente vai achando normal o desemprego, a fome, a doença, o medo, a desgraça.

Aos pouquinhos, a gente vai esquecendo de olhar as coisas bonitas do mundo. Vai esquecendo de curtir o carinho das pessoas legais. Vai perdendo tempo com coisas que não levam a lugar nenhum, e vai deixando de ter tempo pro que interessa.

Aos pouquinhos a gente vai se interessando em inventos novos, viagens a planetas distantes, guerras sem sentido, pessoas mesquinhas… E vai deixando de olhar para dentro de nós, da nossa casa, da nossa roda de amigos, da nossa alma. Aos pouquinhos, a gente vai inventando aparelhos e rotinas que prometem facilitar tudo, mas que só nos roubam o resto de tempo que havia.

Resta saber onde está aquela jóia coberta de lixo. Tirar pá por pá, olhando com cuidado, até reencontrá-la. Resta lembrar em qual parte do caminho a gente deixou a nossa vontade de amar, de crescer, de evoluir e de mudar. Resta saber em qual lata do lixo, em qual ônibus lotado, em qual apartamento minúsculo a gente trancou o que tinha de melhor. E ir lutar pra reconquistar o que a gente perdeu. Trabalhando, brigando, assistindo televisão, sim. Mas tendo um tempinho pra cultivar o que faz a gente viver de bem com o mundo. Isso a gente não sabe mais. Mas devia saber. Ah, se devia.

15 comentários sobre “NOVA SÉRIE – ANTIGOS TRABALHOS DE ESCOLA

  1. Oi…Pra não perder o hábito, depois de verificar meus emails, passei por aqui…Amei o que encontrei…Aliás, me encontrei… tanto em partes do texto da Marina como no seu …
    Sabe, Ká, acho que esta publicação sua foi mesmo oportuna,para que todas as pessoas que porventura venham a ler, parem pra refletir sobre si…sobre seus desejos…E provavelmente pra muita gente o texto será como a primeira pá de pó e poeira tirada de cima de si…Dando fôlego para respirar, criar forças e lutar pra mudar as coisas que fazemos “por costume”, sem pensar muito no que significam pra gente, aliás…muitas vezes não tem significado algum…
    Beijinhos pra você…E parabéns! Aos 18 aninhos você já sabia brincar bastante com as palavras…Belo texto, ótimas reflexões!

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  2. Amor, além do lindíssimo texto, um fato eu levo comigo por causa dessa visita de hj: talento é uma coisa que ou a gente tem, ou não tem… Com 18 anos eu era apenas um moleque besta, e olha o que vc já fazia…

    Bjo com gosto de beijinho de coco. 🙂

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  3. oi Mafalda.O texto da Marina é bárbaro é o seutambém. A gente não devia mesmo se acostumar a tanta podridão que existe no mundo,tanta fome, tanta desigualdade.

    Cabe a nós procurar no lixo onde está a nossa vontade de viver num mundo melhor e mais humano.

    beijos

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  4. Essas descobertas são mesmo uma delícia… Bom perdermos certas produções e resgatá-las depois de um tempo. Dá pra fazer uma análise linda de nós mesmos, né? Ainda mais quando se produziu algo regado á Marina Colasanti… Adoro-a e adoro este texto dela! E mais ainda “quarto de pensão”, conhece? Coloquei num post meu… Beijocas! Estava com saudades daqui!

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  5. Você sabe querida!
    Vou deixar aqui um comentário que recbi de um amigo cubano:
    “Si dicen que del joyero tome la joya mejor tomo um amigo sincero y dejo a un lado el amor.” José Martí

    Beijosss pra vc, garota!

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